«Não fostes vós que me escolhestes, mas fui Eu que vos escolhi» (Jo 15,16)
D. Irineo​
Bispo de Tropaion

SUBSÍDIOS HOMILÉTICOS​

«Jesus chama seus primeiros Discípulos»

Após vivenciarmos a plenitude da Festa de Pentecostes, e celebrarmos no domingo seguinte a memória de Todos os Santos — o fruto visível da ação do Espírito Santo na Igreja — retomamos, neste 2º Domingo de Mateus, a leitura contínua do Evangelho segundo São Mateus, começando com a narrativa do chamado dos primeiros discípulos (cf. Mt 4,18-22). Este episódio fundamental, também registrado nos Evangelhos de Marcos (1,16-20) e Lucas (5,1-11), inaugura a formação do Colégio Apostólico e a missão da Igreja.

1. Chamado Divino e Revelação

A missão cristã nasce sempre de um encontro pessoal com Deus, e este encontro é fruto da iniciativa divina. Antes de ser uma resposta, o chamado é dom:

“Não fostes vós que me escolhestes, mas fui Eu que vos escolhi” (Jo 15,16).

Como afirma São João, é Deus quem toma a dianteira: Ele se revela em seu Filho, e é por meio d’Ele que nos chama. A evangelização pressupõe, portanto, não apenas zelo e competência, mas uma profunda experiência de Cristo vivo, pois somente pode anunciá-Lo quem O conhece — e somente O conhece quem O encontrou.

2. Cafarnaúm: início de um novo caminho

É na Galileia dos gentios, em Cafarnaúm — cidade situada às margens do Lago de Genesaré — que Jesus encontra os primeiros colaboradores de sua missão: Simão Pedro e André, Tiago e João, dois pares de irmãos. O fato de serem chamados em dupla evoca a dimensão eclesial e fraterna do chamado: o Reino se edifica na comunhão.

São homens do labor simples, pescadores habituados ao silêncio das madrugadas, à esperança paciente e à perseverança diante das noites infrutíferas. Justamente essas virtudes — silêncio, esperança e perseverança — serão fundamentais na nova “pesca” a que Jesus os chama:

“Doravante serás pescador de homens” (cf. Lc 5,10).

3. Chamados para pescar de outro modo

O convite de Jesus é claro e direto: “Segui-me”. Não há grandes discursos, mas uma presença que interpela e transforma. Aqueles que estavam habituados a lançar redes no mar, agora são chamados a lançar a Palavra nas almas. Como observa São Gregório Magno:

“Poderíamos pensar: ‘Terão abandonado assim tanta coisa para seguirem o Senhor, estes dois pescadores que não tinham quase nada?’ A verdade é que abandonaram muito, visto que renunciaram a tudo — por muito pouco que esse tudo fosse.”

(Homilias sobre os Evangelhos, V, 1)

Não é o tamanho do que se deixa, mas o desprendimento interior que conta. O Senhor não considera tanto o valor das coisas, mas o amor com que se renuncia a elas.

4. A sabedoria de Deus manifesta-se na fraqueza

Santo Efrém, o Sírio, contempla com admiração esse início humilde da missão cristã. O Senhor não chamou sábios, poderosos ou ricos, para que a eficácia da missão não fosse atribuída a persuasão humana, força ou riqueza:

“Eles partiram, estes pescadores de peixes, e alcançaram a vitória sobre os fortes, os ricos e os sábios. Grande milagre! Fracos como eram, atraíram, sem violência, os fortes à sua doutrina; pobres, ensinaram os ricos; ignorantes, fizeram os seus discípulos sábios e prudentes.”

(Comentário do Diatessaron, n. 1)

Deus manifesta sua força na fraqueza dos instrumentos escolhidos. Pedro, por exemplo, era pobre, inculto e temeroso, mas torna-se pedra da Igreja. O sucesso da missão apostólica é um sinal eloquente da graça que age na fragilidade.

5. A cooperação com a Graça

A eleição divina não dispensa a colaboração humana. Deus respeita a liberdade de quem chama e quer encontrar corações disponíveis. São João Crisóstomo adverte:

“Quando falta nossa cooperação, também a ajuda de Deus perde sua força.”

(Comentário ao Evangelho de São Mateus, Homilia 50)

A vida espiritual exige oração, ascese e entrega perseverante. É preciso cultivar o silêncio interior para discernir a voz do Senhor e permanecer firmes mesmo quando a pesca parece infrutífera.

6. Configurados a Cristo: Sacerdote, Profeta e Rei

Aqueles que são chamados — seja no sacerdócio, seja na vida cristã em geral — devem deixar-se configurar Àquele que chama. Como ensina a Epístola aos Hebreus:

“Todo sumo sacerdote é tomado dentre os homens e posto a favor dos homens no que se refere a Deus”

(Hb 5,1).

O discípulo deve assumir a fisionomia espiritual do Cristo Sacerdote, Profeta e Rei, tornando-se sacramento vivo de sua presença. Como pastores — ordenados ou leigos — temos o dever de manifestar, com nossa vida, que pertencemos Àquele que nos chamou.

7. Galileia: lugar de encontro e início

A Galileia é, no Evangelho, terra de encontros. Jesus olha, compreende, chama. Ele não quebra os vínculos naturais, mas os assume e os transforma. Os primeiros discípulos não são chamados isoladamente, mas dois a dois — numa lógica de comunhão.

Renunciar às redes, à barca e ao próprio pai (cf. Mt 4,22) é um gesto radical, que só pode ser compreendido à luz da absoluta prioridade do Reino. Trata-se de deixar tudo, mas para encontrar tudo n’Ele. Como escreve São Gregório Magno:

“O Reino de Deus não tem preço e, por conseguinte, não te custa nem mais nem menos do que aquilo que possuis.”

8. O chamado continua

O chamado feito a Pedro, André, Tiago e João continua ecoando nos corações de todos os que querem seguir o Senhor. Também nós somos convidados a deixar as nossas “redes” — os apegos, medos, desejos desordenados — para aderirmos ao Cristo com generosidade e liberdade.

O Senhor continua a chamar. Cabe a nós escutá-Lo com o silêncio do coração, acolhê-Lo com a esperança de quem espera pelo amanhecer e segui-Lo com perseverança, mesmo quando a noite for longa e a pesca, incerta.

“Seguir Jesus é o mais importante: Ele não engana, e quem O segue jamais será confundido.”

Referências:
  • Bíblia Sagrada, ed. Ortodoxa (cf. Mt 4,18-22; Jo 15,16; Hb 5,1; Lc 5,10).

  • São João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de Mateus, Homilia 50.

  • Santo Efrém, o Sírio, Comentário ao Diatessaron, citado in: SC 121, Paris, Cerf.

  • São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos, V, 1 (PL 76).

  • Cf. também: Catecismo da Igreja Ortodoxa, seção sobre vocação e discipulado.

Suplemento Litúrgico

Του λίθου σφραγισθέντος υπό των Ιουδαίων, και στρατιωτών φυλασσόντων το άχραντον σου σώμα, ανέστης τριήμερος Σωτήρ, δωρούμενος τω κοσμώ την ζωήν. Δια τούτο αι δυνάμεις των ουρανών εβόων σοι ζωοδότα. Δόξα τη αναστάσει σου Χριστέ, δόξα τη βασιλεία σου, δόξα τη οικονομία σου, μόνε φιλάνθρωπε.

Embora a pedra fosse selada pelos judeus, e os soldados guardassem teu imaculado Corpo, ressuscitaste ao terceiro dia, ó Salvador, concedendo vida ao mundo. Por isso, os poderes celestes clamavam a Ti, ó Autor da Vida: Glória à tua ressurreição, ó Cristo, glória ao teu Reino, glória à tua economia, ó único Filantropo!