Se Deus é bem-aventurado, como afirma o apóstolo Paulo (cf 1Tim 1,11. 6,15), e se os homens participam dessa bem-aventurança pela sua semelhança com Ele, mas lhes é impossível imitarem-no, a bem-aventurança é irrealizável para a condição humana. Mas o homem pode imitar a Deus de certa maneira. Como? A meu ver, a pobreza em espírito designa a humildade. O apóstolo Paulo dá-nos como exemplo a pobreza de Deus, que, «sendo rico, Se fez pobre por nós, para nos fazer participantes da sua riqueza» (2Cor 8,9). Tudo aquilo que podemos entrever acerca da natureza divina ultrapassa os limites da nossa condição, tudo menos a humildade, que partilhamos com os que vivem neste mundo, que foram moldados do barro ao qual regressam (cf Gn 2,7.3,19). Assim, pois, se imitares a Deus naquilo que é conforme à tua natureza e não ultrapassa as tuas capacidades, revestes-te da forma bem-aventurada de Deus como de uma veste.
Ninguém pense que é fácil adquirir a humildade. Pelo contrário, é mais difícil que adquirir qualquer outra virtude. Por quê? Porque, quando o homem que tinha semeado trigo estava a descansar, o inimigo semeou a parte mais considerável da sementeira, o joio do orgulho, que deitou raízes em nós (cf Mt 13,25). […]
Como quase todos os homens têm uma inclinação natural para o orgulho, o Senhor dá início às bem-aventuranças afastando esse mal e aconselhando-nos a imitarmos o verdadeiro pobre voluntário, que é verdadeiramente bem-aventurado, a fim de nos parecermos com Ele, segundo as nossas capacidades, por uma pobreza voluntária que nos permite participar da sua bem-aventurança. «Tende em vós os mesmos sentimentos que Cristo Jesus», recomenda São Paulo. «Ele, que era de condição divina, não prevaleceu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio, assumindo a condição de escravo» (Fil 2,5-7).
São Gregório de Nissa (c. 335-395)
Homilias sobre as Bem-aventuranças, n.º 1
Fonte: Evangelho Cotidiano


