«A água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma nascente que jorra para a vida eterna»

«O poço de água viva»

Quando a Sagrada Escritura nos instrui sobre a realidade vivificante, quando nos fala através de profecias que emanam de Deus: «Eles abandonaram-Me, a Mim, fonte de água viva» (Jer 2,13), ou das palavras do Senhor à samaritana: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: “Dá-Me de beber”, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva», ou ainda: «Se alguém tem sede, venha a Mim e beba», porque: «”Daquele que crê brotarão rios de água viva”. Dizia isto do Espírito que haveriam de receber os que nele cressem» (Jo 7,37.39) — a natureza divina é sempre designada como água viva.

O testemunho verdadeiro do Verbo atesta que a Esposa do Cântico dos Cânticos (cf Cant 4,15) é um poço de água viva, cuja corrente desce do Líbano. Haverá coisa mais paradoxal? Com efeito, todos os poços contêm uma água dormente; só a Esposa contém uma água que corre, tendo por isso, ao mesmo tempo, a profundidade do poço e a mobilidade do rio. Quem poderá exprimir convenientemente as maravilhas contidas nesta comparação! Não é possível elevá-la mais alto, porque ela se assemelha em tudo à beleza arquetípica, imitando na perfeição o brilho pelo seu brilho, a vida pela sua vida, a água pela sua água.

O Verbo de Deus é vivo, e viva é também a alma que recebeu o Verbo. Esta água decorre de Deus, como diz a Fonte: «Saí de Deus e dele venho». E contém aquilo que flui no poço da alma, sendo por isso o reservatório desta água viva que corre, ou melhor, que brota do Líbano (cf Cant 4,15).

«A água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma nascente que jorra para a vida eterna»

«Vem do Líbano, esposa, vem do Líbano, aproxima-te. Desce do cimo de Amaná, do cume de Senir e do Hermon, dos esconderijos dos leões, das tocas dos leopardos» (Cant 4,8). O que significa isto? A fonte da graça atrai a si aqueles que têm sede, como diz a própria fonte no Evangelho: «Se alguém tem sede, venha a Mim e beba» (Jo 7,37). Ele não impõe limites à sede, nem ao anseio por Ele, nem à saciedade, e a duração do seu mandamento é um convite permanente a ter sede e a beber dele.

Para aqueles que já beberam dele e aprenderam, através dessa experiência, que o Senhor é bom (cf 1Pe 2,3), o facto de beberem torna-se um apelo a uma participação ainda maior. Assim, aquele que sobe ao monte ouve um chamamento incessante que o impele a ir cada vez mais longe. Recordemos como o Verbo estimula a Esposa […]: «Levanta-te, minha amada, formosa minha, e vem, minha pomba, escondida nas fendas dos rochedos» (Cant 2,13-14).

«Desce do cimo de Amaná, do cume de Senir e do Hermon»: o texto evoca o sacramento do nascimento do alto, de onde brotam as fontes do Jordão; acima delas ergue-se a montanha, dividida em dois picos, o Sanir e o Hermon. O rio que brota destas fontes é o início da nossa transformação em Deus. Por isso, a alma ouve aquele que a chama, dizendo-lhe: «Vem do incenso, do princípio da fé», do cimo destes montes de onde jorraram para ti as fontes do sacramento.

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