Comentário à primeira epístola de São João, tratado 5, 12
Irmãos e irmãs, vós conheceis a perfeição da caridade. O próprio Senhor nos revela no Evangelho o seu grau máximo e a maneira de a praticar: «Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos» (Jo 15,13); e, na sua epístola, São João convida-nos a alcançar essa perfeição. Mas podeis perguntar-vos: quando seremos capazes de tal caridade? Não desespereis: a caridade pode já estar dentro de vós, ainda que imperfeita; cultivai-a, para que ela não seja sufocada. E como saberemos, podereis perguntar?
Diz-nos São João: «Se alguém possui bens deste mundo e, ao ver o seu irmão passar necessidade, lhe fecha o coração, como pode estar nele o amor de Deus?» (1Jo 3,17): é aqui que começa a caridade. Se ainda não fordes capaz de morrer pelos irmãos, sede ao menos capazes de lhes dar alguns dos vossos bens. E que seja a caridade a mover o vosso coração, para que não ajais por ostentação, mas por uma superabundância de misericórdia que brota de dentro de vós; que ela vos torne atentos à miséria dos vossos irmãos! Pois se não fordes capazes de dar ao vossos irmãos daquilo que vos sobra, como seríeis capazes dar a vossa vida por eles? […]
Se o amor do Pai não habitar em vós, não nascestes de Deus. Como podereis então vangloriar-vos de ser cristãos? Tereis o nome, mas não as obras. Mas, se as vossas obras forem conformes com o nome, mesmo que vos chamem pagãos, demonstrareis pelas vossas ações que sois cristãos. Pelo contrário, se não demonstrardes que sois cristãos pelas vossas ações, mesmo que todos vos tratem por cristãos, de que serve o nome onde não há a realidade? […] «Meus filhos, não amemos com palavras e com a língua, mas com obras e em verdade» (1Jo 3,18).


