«Protréptico», cap. 10
Arrependamo-nos; convertamo-nos da ignorância ao verdadeiro conhecimento, da loucura à sabedoria, da injustiça à justiça, da impiedade a Deus. São numerosos os bens que daí derivam, como diz o próprio Deus em Isaías: «Esta é a herança dos servos do Senhor» (54,17), que não é ouro nem prata, nem o que os vermes corroem, nem o que roubam os ladrões (cf Mt 6,19), mas o inestimável tesouro da salvação.
[…] É esta herança que nos põe nas mãos o testamento eterno pelo qual Deus nos assegura os seus dons. Este Pai que nos ama com tanta ternura exorta-nos, educa-nos, ama-nos e salva-nos incessantemente: «Sede justos», diz o Senhor. «Todos vós que tendes sede, vinde à nascente das águas. Vós que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei. Vinde e comprai, sem dinheiro e sem despesa, vinho e leite» (Is 55,1). Ele convida-nos ao banho que purifica, à salvação, à iluminação […]. Os santos do Senhor herdarão a glória de Deus e o seu poder, que «nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram, nem jamais passou pelo pensamento do homem» (1Cor 2,9) […].
Tendes esta promessa divina da graça, e por outro lado ouvistes as ameaças do castigo: são as duas vias pelas quais o Senhor salva […]. Porque tardamos? Porque não acolhemos o seu dom, escolhendo o melhor? […] «Repara que coloco hoje diante de ti a vida e o bem, a morte e o mal» (Dt 30, 15). O Senhor tenta fazer-te escolher a vida; aconselha-te como um pai […].
De quem dirá o Senhor: «deles é o Reino do Céus» (Mt 5,3)? É vosso, se o desejardes, quando tiverdes escolhido a Deus. É vosso, se quiserdes acreditar e seguir o essencial da mensagem, como os ninivitas, que escutaram a mensagem do profeta e obtiveram, graças ao seu arrependimento sincero, a salvação, em vez da ruína que os ameaçava.


