Homilia para o Domingo do Paralítico

Amados irmãos e irmãs, Cristo Ressuscitou!

Neste quarto domingo da Páscoa, a Igreja coloca diante de nós a figura de um homem paralisado havia trinta e oito anos. Trinta e oito anos esperando. Trinta e oito anos vendo os dias passarem. Trinta e oito anos talvez acreditando que nada mais mudaria em sua vida.

É uma imagem forte, porque o Evangelho de hoje não fala apenas de um homem do passado. Ele fala também de muitos homens e mulheres de hoje. Fala de pessoas que, por fora, caminham normalmente, trabalham, estudam, sorriem, convivem… mas por dentro estão paralisadas.

Há paralisias que não aparecem no corpo. A paralisia da esperança. A paralisia da fé. A paralisia causada pelo medo. A paralisia de quem sonha, mas não começa. A paralisia de quem caiu tantas vezes, que desistiu de tentar levantar. A paralisia de quem se acostumou com uma vida espiritual morna, sem entusiasmo, sem alegria, sem combate.

Talvez por isso esse Evangelho toque tanto especialmente os jovens. Porque vivemos numa época de movimento exterior e, ao mesmo tempo, de imobilidade interior. Tudo corre rápido: mensagens, vídeos, notícias, tendências. O mundo inteiro cabe na palma da mão. Mas, muitas vezes, a alma permanece parada. Há conexão por todos os lados, mas solidão dentro do coração. Há distração em excesso, mas sentido de vida em falta.

E então Cristo aparece.

O Senhor se aproxima daquele homem e faz uma pergunta surpreendente: “Queres ficar curado?”

Parece uma pergunta óbvia. Claro que ele quer ser curado. Mas Jesus não faz perguntas inúteis. Ele pergunta porque deseja despertar algo dentro daquele homem. Quer tocar sua vontade. Quer arrancá-lo da resignação. Quer saber se ainda existe desejo de vida nova.

E hoje Cristo faz a mesma pergunta a cada um de nós.

Tu queres realmente mudar?
Tu queres sair do pecado que já virou costume?
Tu queres vencer a preguiça espiritual?
Tu queres curar feridas antigas?
Tu queres reconciliar-te?
Tu queres viver uma fé verdadeira, e não apenas uma fé de aparência?

Porque às vezes dizemos que queremos mudança, mas continuamos abraçados ao que nos paralisa.

O homem responde dizendo: “Senhor, não tenho ninguém que me coloque na piscina.”

É uma frase profundamente humana. Ele fala de abandono, de solidão, de frustração. Quantas pessoas também dizem hoje: “Não tenho ninguém.” Não tenho apoio. Não tenho amigos verdadeiros. Não tenho quem me compreenda. Não tenho forças.

Mas o Evangelho nos mostra algo decisivo: quando o homem diz que não tem ninguém… ele descobre que diante dele está Aquele que vale mais do que todos.

Quando pensamos estar sozinhos, Cristo já está perto.

Quando achamos que ninguém nos vê, Cristo nos vê.

Quando todos passam adiante, Cristo permanece.

Quando a alma diz “acabou”, Cristo responde “levanta-te”.

E então vem a palavra poderosa do Senhor:

“Levanta-te, toma o teu leito e anda.”

Cristo não oferece pena. Oferece vida nova. Não oferece discurso motivacional. Oferece poder divino. Não diz “continue como está”. Ele manda levantar.

Irmãos, essa palavra é para nós hoje.

Levanta-te da tristeza prolongada.
Levanta-te da tibieza espiritual.
Levanta-te da vida superficial.
Levanta-te da dependência do julgamento alheio.
Levanta-te do pecado repetido.
Levanta-te da ideia de que já é tarde demais.

Enquanto respiramos, nunca é tarde para Deus.

E há um detalhe belíssimo: Jesus manda que ele carregue o leito. Antes o leito carregava o homem. Agora o homem carrega o leito.

Aquilo que era símbolo de derrota torna-se sinal de vitória.

Também em nossa vida acontece assim. A ferida que parecia destruir-nos pode tornar-se fonte de compaixão. A luta vencida pode tornar-se testemunho. A queda arrependida pode gerar humildade. O passado não precisa desaparecer para que Deus faça algo novo. Ele pode transformar a memória da dor em sinal de graça.

Queridos jovens, permitam-me falar especialmente a vocês: não entreguem a juventude à paralisia interior. O mundo tentará convencê-los de que basta consumir, aparecer, experimentar tudo, viver sem raízes, sem compromisso, sem verdade. Mas uma vida sem Deus pode ser agitada por fora e vazia por dentro.

Cristo chama vocês para muito mais.

Chama para uma vida limpa.
Chama para coragem moral.
Chama para amizades verdadeiras.
Chama para oração sincera.
Chama para servir.
Chama para construir algo belo.
Chama para santidade.

A santidade não é coisa antiga. É o futuro mais luminoso que alguém pode escolher.

E à nossa comunidade de São Nicolau, o Evangelho também fala. Uma paróquia jamais pode tornar-se lugar de almas deitadas esperando. A Igreja é lugar de ressurreição. Aqui pessoas devem reencontrar esperança. Aqui jovens devem encontrar sentido. Aqui famílias devem encontrar cura. Aqui pecadores devem reencontrar misericórdia. Aqui os cansados devem ouvir: “Levanta-te.”

Se alguém entra triste, que encontre acolhida.
Se alguém entra confuso, que encontre verdade.
Se alguém entra ferido, que encontre amor.
Se alguém entra longe de Deus, que encontre Cristo.

No final, Jesus reencontra o homem no templo. Isso também é importante. Ele não apenas voltou a andar; voltou a adorar. Porque a cura plena não é somente física ou emocional. A cura plena reconduz o ser humano à comunhão com Deus.

Por isso, irmãos e irmãs, neste domingo façamos silêncio interior e escutemos a pergunta de Cristo:

Queres ficar curado?

Se a resposta for sincera, então também ouviremos sua voz:

Levanta-te.

Cristo Ressuscitou. E porque Cristo Ressuscitou, nenhuma paralisia precisa ser definitiva.

A Ele seja a glória, com o Pai e o Espírito Santo, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém.

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