«O Filho do homem veio […] para dar a vida»

«Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice» (Mt 26,39). […] Ele bem sabia aquilo que dizia ao Pai – que era possível o Pai afastar o cálice –, mas viera bebê-lo por todos, a fim de pagar com esse cálice a dívida que a morte dos profetas e dos mártires não pudera pagar. […]

Aquele que havia descrito a sua condenação à morte nos profetas e que havia prefigurado o mistério da sua morte pelos justos, quando chegou a altura de consumar essa morte, não Se recusou a beber o cálice. Se não tivesse querido bebê-lo, mas antes afastá-lo, não teria comparado o seu corpo com o Templo nesta frase: «Destruí este Templo e em três dias o levantarei» (Jo 2,19); nem teria dito aos filhos de Zebedeu: «Podeis beber o cálice que Eu vou beber?»; e ainda: «Tenho de receber um batismo» (Lc 12,50). […]

«Se é possível, passe de Mim este cálice»: Ele diz isto por causa da fraqueza que adotara, que não era fingida, mas real. Uma vez que Se fizera pequeno e que tinha de facto adotado a nossa fraqueza, temia e sentia-Se abalado na sua fraqueza. Tendo revestido a forma humana, tendo adotado a fraqueza humana, comendo quando tinha fome, cansando-Se com o trabalho, deixando-Se vencer pelo sono, tudo o que estava relacionado com a carne tinha de ser cumprido quando chegou a altura da sua morte. […]

A fim de trazer conforto aos seus discípulos pela sua Paixão, Jesus sentiu o que eles sentem: tomou sobre Si o medo deles, para lhes mostrar, pela semelhança da sua alma, que não devem vangloriar-se a propósito da morte antes de terem passado por ela. Com efeito, se Aquele que nada teme sentiu medo e pediu para ser salvo quando sabia que tal era impossível, quanto mais devem os outros perseverar na oração perante a tentação, a fim de serem dela libertados quando se apresentar. […] Para dar coragem aos que temem a morte, Ele não escondeu o seu próprio receio, para que eles saibam que este medo não os leva ao pecado, desde que não permaneçam nele. «Todavia, não se faça como Eu quero, mas como Tu queres» (Mt 26,39): que Eu morra para dar a vida à multidão.

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