III Domingo de Mateus: «Buscai primeiro o Reino de Deus» (Mt 6,33)

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Amados irmãos e irmãs,

O Evangelho que acabamos de ouvir parece ter sido escrito para os nossos dias. Talvez poucas gerações tenham vivido com tantas facilidades materiais como a nossa. Temos acesso instantâneo à informação, à comunicação, ao entretenimento, à tecnologia e a recursos que nossos avós sequer poderiam imaginar. E, no entanto, raramente se viu tanta ansiedade, tanta inquietação e tanta dificuldade em encontrar paz interior.

Vivemos numa época curiosa: temos mais meios para viver, mas frequentemente menos razões para viver; mais conexões, mas menos comunhão; mais conforto, mas nem sempre mais felicidade.

É justamente a esse coração inquieto que Cristo dirige hoje Sua palavra:

«Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.»

Percebam que o Senhor não está falando apenas sobre dinheiro ou preocupações materiais. Ele está falando sobre prioridades. Sobre aquilo que ocupa o centro da nossa vida.

E para nos ajudar a compreender isso, Ele começa com uma imagem muito interessante:

«A lâmpada do corpo é o olho.»

O que significa isso?

Significa que a maneira como enxergamos a vida determina a maneira como vivemos. Duas pessoas podem passar pela mesma situação e reagir de formas completamente diferentes. Uma vê apenas problemas; outra vê oportunidades de crescimento. Uma vê somente perdas; outra percebe também a presença de Deus.

Por isso os Santos Padres dizem que esse “olho” é o olhar da alma.

Se o olhar da alma estiver voltado para Deus, toda a vida se ilumina. Não porque os problemas desapareçam, mas porque passamos a enxergá-los de maneira diferente.

Pensemos em São Paulo. Ele sofreu perseguições, prisões, humilhações e, finalmente, o martírio. E mesmo assim escreve na Epístola de hoje palavras impressionantes sobre esperança, perseverança e paz.

Por quê?

Porque seu olhar não estava fixado apenas nas circunstâncias terrenas. Seu olhar estava fixado em Cristo.

E aqui chegamos a uma questão muito importante, especialmente para os jovens.

Todos nós buscamos alguma coisa. Alguns buscam sucesso profissional. Outros estabilidade financeira. Outros reconhecimento. Outros relacionamentos. Outros ainda procuram experiências, viagens, conquistas ou realizações pessoais.

Nenhuma dessas coisas é má em si mesma.

O problema surge quando transformamos coisas boas em absolutos.

Quando esperamos que uma carreira dê sentido à vida.

Quando esperamos que um relacionamento cure toda solidão.

Quando esperamos que o dinheiro elimine toda insegurança.

Quando esperamos que o sucesso preencha o vazio da alma.

A experiência humana mostra que isso nunca funciona.

Por isso vemos tantas pessoas aparentemente bem-sucedidas, mas profundamente inquietas. Pessoas que possuem quase tudo aquilo que sonharam possuir e, mesmo assim, continuam insatisfeitas.

Santo Agostinho explicou isso de forma admirável quando escreveu:

«Nosso coração permanece inquieto enquanto não repousa em Deus.»

O coração humano foi criado para o infinito. Nenhuma realidade limitada consegue preenchê-lo completamente.

É por isso que Cristo afirma:

«Ninguém pode servir a dois senhores.»

Em outras palavras: sempre haverá algo ocupando o centro do nosso coração.

A questão não é se serviremos a alguma coisa. A questão é: a quem serviremos?

Ao Reino de Deus ou aos inúmeros ídolos modernos?

Porque os ídolos continuam existindo. Talvez não sejam mais estátuas de pedra ou de ouro. Hoje podem assumir formas mais sofisticadas: a obsessão pelo desempenho, a busca constante por aprovação, a necessidade de parecer bem-sucedido, o consumismo, a vaidade, o culto à própria imagem.

E todos esses senhores têm uma característica comum: exigem cada vez mais e oferecem cada vez menos.

Cristo, ao contrário, não escraviza. Ele liberta.

E então o Senhor pronuncia uma das palavras mais difíceis do Evangelho:

«Não vos preocupeis com o dia de amanhã.»

À primeira vista isso parece impossível. Como não se preocupar?

Mas Cristo não está condenando a responsabilidade. Ele não está dizendo para abandonarmos nossos deveres, estudos, trabalho ou planejamento.

O que Ele condena é a ansiedade que nasce da falta de confiança.

Aquela inquietação constante que nos faz acreditar que tudo depende exclusivamente de nós.

Aquela sensação de que precisamos controlar absolutamente tudo.

A verdade é que há muitas coisas sobre as quais não temos controle. Nunca tivemos.

A saúde, os acontecimentos da vida, as decisões dos outros, o futuro — tudo isso escapa ao nosso domínio.

Mas existe algo que podemos fazer: colocar nossa confiança naquele que governa todas as coisas.

Quando Cristo nos convida a olhar para as aves do céu e para os lírios do campo, Ele não está ensinando passividade. Está ensinando confiança.

Deus cuida da criação.

E se cuida das aves e dos lírios, quanto mais cuidará daqueles que foram criados à Sua imagem e semelhança.

Talvez aqui esteja uma das maiores dificuldades da vida espiritual moderna: acreditamos em Deus, mas muitas vezes vivemos como se tudo dependesse apenas de nós.

Rezamos, mas continuamos carregando sozinhos pesos que deveríamos entregar ao Senhor.

Frequentamos a igreja, mas permanecemos consumidos pelas mesmas preocupações que dominam quem não conhece Cristo.

Por isso o Evangelho de hoje nos convida a uma verdadeira conversão do olhar.

A pergunta não é apenas:

“Eu acredito em Deus?”

Mas:

“Eu realmente confio n’Ele?”

“Meu coração está centrado no Reino?”

“Minhas decisões refletem essa prioridade?”

Porque Cristo não diz:

“Buscai também o Reino.”

Ele diz:

«Buscai primeiro o Reino de Deus.»

Primeiro.

Antes das ambições.

Antes dos medos.

Antes das preocupações.

Antes de tudo.

E aqui está a grande promessa do Evangelho: quando Deus ocupa o lugar central, todas as demais coisas encontram sua justa medida.

Os problemas continuam existindo.

Os desafios continuam presentes.

Mas o coração já não vive escravizado por eles.

Passamos a viver com a serenidade daqueles que sabem que sua vida está nas mãos do Pai.

Queridos irmãos e irmãs,

Muitos de nós chegamos à Igreja Ortodoxa depois de longos caminhos de busca. Alguns vieram de outras tradições cristãs. Outros passaram por dúvidas, questionamentos e inquietações espirituais. Talvez alguns tenham procurado em muitos lugares aquilo que hoje encontraram na vida da Igreja.

Mas a busca não termina quando encontramos a Igreja.

Ela apenas começa.

Talvez por isso seja providencial recordar que, neste ano, nosso Estado se prepara para celebrar os quinhentos anos do nome Santa Catarina, ligado à memória da grande mártir Santa Catarina de Alexandria, cuja festa celebraremos em novembro.

E é também providencial que, neste domingo, uma equipe de comunicação esteja entre nós produzindo um documentário sobre sua vida, depois de ter percorrido os lugares ligados à sua memória no Egito e no Santo Mosteiro do Sinai. Em nossa própria igreja conservamos com veneração uma relíquia desta santa, recebida daquele venerável mosteiro aos pés da montanha onde Deus falou a Moisés.

Mas a verdadeira homenagem a Santa Catarina não consiste apenas em recordar sua história. Consiste em viver aquilo que ela viveu.

Catarina possuía inteligência, cultura, prestígio e tudo aquilo que o mundo costuma admirar. Contudo, quando precisou escolher entre os favores deste mundo e a fidelidade a Cristo, escolheu Cristo. Em linguagem do Evangelho de hoje, ela buscou primeiro o Reino de Deus.

Os poderosos que a julgaram desapareceram. Os impérios que a perseguiram passaram. Mas o testemunho de uma jovem que colocou Cristo acima de tudo continua vivo dezessete séculos depois, iluminando povos, cidades, igrejas e até mesmo a identidade do Estado onde vivemos.

Todos os dias somos chamados a renovar nossa decisão fundamental:

Buscar primeiro o Reino de Deus.

E quando fazemos isso, descobrimos que a maior riqueza não é aquilo que possuímos, mas Aquele a quem pertencemos.

Que o Senhor ilumine os olhos da nossa alma, fortaleça nossa confiança em Sua Providência e nos conceda buscar, acima de todas as coisas, Seu Reino e Sua justiça.

Amém.

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