Homilia para o IV Domingo de Mateus (Rm 6,18-23 | Mt 8,5-13)

«Dize apenas uma palavra…»

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.

O Evangelho deste IV Domingo de Mateus apresenta um dos episódios mais surpreendentes do ministério público de nosso Senhor Jesus Cristo. São Mateus afirma que Jesus admirou-Se. Habitualmente somos nós que nos admiramos diante de Cristo: de sua misericórdia, de seus milagres, de sua sabedoria e de sua autoridade. Hoje, porém, acontece o contrário: é Cristo quem Se admira de um homem. E esse homem não é um Apóstolo, nem um escriba, nem um sacerdote do Templo. É um centurião romano, oficial do exército que ocupava a Terra Santa. Humanamente falando, seria improvável que justamente ele se tornasse exemplo de fé. Contudo, é dele que o Senhor declara: «Em verdade vos digo: nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé».

Entretanto, o Evangelho não deseja apenas mostrar-nos a grandeza da fé do centurião. Acima de tudo, quer revelar-nos a grandeza d’Aquele em quem ele acreditou. O oficial romano percebe algo que muitos ainda não haviam compreendido: diante dele não está apenas um mestre admirável ou um profeta poderoso, mas Aquele cuja Palavra possui a autoridade do próprio Deus. Por isso ele diz: «Senhor, dize apenas uma palavra, e o meu servo será curado».

Essas palavras revelam uma fé extraordinária. Habituado à disciplina militar, o centurião compreendia muito bem o significado da autoridade. No entanto, chama a atenção a maneira como ele próprio se apresenta. Antes de dizer que possui soldados sob suas ordens, afirma: «Também eu sou homem sujeito à autoridade». Antes de comandar, aprendeu a obedecer. Talvez seja precisamente essa experiência da obediência que lhe permita reconhecer, com tanta clareza, a autoridade de Cristo.

Também a Epístola de hoje nos fala da verdadeira obediência. São Paulo recorda que fomos libertados da escravidão do pecado para nos tornarmos servos da justiça. À primeira vista, essa afirmação parece paradoxal. Como pode alguém tornar-se servo e, ao mesmo tempo, ser verdadeiramente livre? O Apóstolo responde mostrando que ninguém vive sem servir a algum senhor. Ou permanecemos escravos do pecado, que promete liberdade mas conduz à morte, ou nos entregamos livremente a Deus, cuja vontade nos conduz à santificação e à vida eterna. A verdadeira liberdade não consiste em fazer tudo o que desejamos, mas em orientar toda a nossa existência para Aquele que é a fonte da vida.

O centurião compreende ainda outro mistério. Ele não pede que Jesus vá até sua casa, nem exige um gesto extraordinário ou um sinal visível. Basta-lhe uma palavra. A tradição da Igreja sempre contemplou, com profunda admiração, essa profissão de fé. A Palavra de Cristo não é simples expressão verbal. É a Palavra do Logos eterno, por meio da qual todas as coisas foram criadas e continuam sendo sustentadas. Por ela manifesta-se a energia incriada de Deus, que ilumina, cura, fortalece, santifica e comunica a vida. Quando Cristo fala, sua Palavra realiza aquilo que anuncia. O centurião talvez ainda não pudesse formular essa verdade com a linguagem teológica da Igreja, mas já intuía que diante dele estava uma autoridade infinitamente superior a toda autoridade humana.

Há ainda um aspecto profundamente comovente nesse encontro. O centurião não procura Jesus para si mesmo. Intercede por seu servo. Seu coração não está ocupado com os próprios interesses, mas com o sofrimento de outro. Antes mesmo de pedir, ele ama. A verdadeira fé manifesta-se precisamente assim: transforma-se em caridade e faz da dor do próximo uma preocupação pessoal. Também a Igreja vive dessa mesma experiência de intercessão. Em cada Divina Liturgia elevamos nossas súplicas pelos enfermos, pelos viajantes, pelos que sofrem, pelos governantes, pelos vivos e pelos adormecidos. A fé jamais permanece encerrada em si mesma; ela sempre se abre ao amor e ao cuidado pelos irmãos.

Talvez o maior milagre desse Evangelho não seja apenas a cura do servo. O maior milagre acontece no coração do próprio centurião. Um homem acostumado ao poder descobre a humildade. Um comandante reconhece uma autoridade infinitamente superior à sua. Um pagão abre o coração para Cristo antes mesmo de muitos que conheciam as Escrituras. É por isso que Jesus anuncia que muitos virão do Oriente e do Ocidente para tomar lugar à mesa do Reino juntamente com Abraão, Isaac e Jacó. O Reino de Deus não conhece fronteiras de povo, cultura ou nação. Nele entram todos aqueles que acolhem Cristo com fé humilde e coração sincero.

Também nós somos convidados a esse mesmo caminho. Em cada Divina Liturgia ouvimos o Senhor falar por meio das Santas Escrituras. Não escutamos apenas um relato do passado, mas a Palavra viva do Cristo ressuscitado, que continua agindo em sua Igreja. Essa Palavra permanece eficaz; continua restaurando o homem ferido pelo pecado, fortalecendo os desanimados, iluminando os que buscam a verdade e conduzindo todos os que a acolhem ao caminho da santificação.

Dentro de alguns instantes nos aproximaremos do Santo Cálice. Não o faremos confiando em nossos méritos, mas na misericórdia d’Aquele cuja Palavra permanece viva entre nós. Aproximamo-nos conscientes de nossa pobreza espiritual, mas certos de que basta uma única palavra do Senhor para restaurar aquilo que o pecado desfigurou em nossa alma.

O servo do centurião foi curado à distância. Nós, porém, recebemos um dom ainda maior. Não apenas ouvimos a Palavra de Cristo; recebemos o próprio Cristo, que Se entrega a nós como alimento de vida eterna. Que nos aproximemos d’Ele com a humildade, a confiança e a fé daquele centurião, para que sua graça transforme também a nossa vida, nos fortaleça no serviço da justiça e nos conduza, desde agora, à alegria do Reino que não terá fim.

Amém.

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