Homilia para o VI Domingo de Mateus

Rm 12,6-14 | Mt 9,1-8

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.

Amados irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo apresenta um dos episódios mais comoventes do ministério público de nosso Senhor. Um homem paralítico é levado até Jesus por pessoas que acreditavam firmemente que somente Ele poderia devolver-lhe a saúde. Incapaz de caminhar, dependia inteiramente daqueles que o carregavam. Talvez já nem tivesse forças para pedir ajuda. No entanto, a fé dos seus amigos o conduziu até Cristo.

O Evangelista faz questão de registrar um detalhe precioso: «Jesus, vendo a fé deles…». Não diz apenas a fé do paralítico, mas a fé daqueles que o acompanhavam. Desde os primeiros séculos, a Igreja contemplou nessa passagem uma imagem da própria vida cristã. Ninguém caminha sozinho até Deus. Somos sustentados pela oração da Igreja, pela fé da comunidade e pelo amor daqueles que nos ajudam a permanecer de pé quando nossas próprias forças já não bastam.

Quantas vezes isso acontece também conosco! Há momentos em que a doença, o sofrimento, o desânimo ou as preocupações da vida parecem enfraquecer até mesmo nossa oração. Nessas horas, a Igreja reza por nós. É por isso que apresentamos nomes na Proskomídia, celebramos memoriais pelos falecidos, pedimos orações uns aos outros e elevamos continuamente nossas súplicas na Divina Liturgia. Assim como aqueles homens conduziram o paralítico até Cristo, também nós somos chamados a carregar nossos irmãos por meio da oração, da caridade e da esperança.

Mas o que acontece em seguida surpreende a todos. O paralítico certamente esperava recuperar os movimentos do corpo. Os presentes aguardavam uma palavra de cura. Cristo, porém, vai muito além daquilo que todos imaginavam e dirige ao enfermo estas palavras: «Tem bom ânimo, filho; teus pecados estão perdoados.»

À primeira vista, parece uma resposta inesperada. Afinal, ninguém havia mencionado os pecados daquele homem. Todos enxergavam apenas sua enfermidade física. Cristo, porém, vê mais profundamente. Ele contempla o homem inteiro. Enquanto nossos olhos costumam fixar-se naquilo que é visível, o Senhor conhece também as feridas escondidas da alma.

Isso não significa que toda doença seja consequência de um pecado pessoal. A própria Sagrada Escritura rejeita essa interpretação simplista. Existem justos que sofrem enfermidades, crianças inocentes que adoecem e santos que atravessaram longos períodos de sofrimento físico. Contudo, Cristo revela que existe uma enfermidade comum a toda a humanidade: a ruptura da comunhão com Deus provocada pelo pecado. Essa é a raiz mais profunda de toda a fragilidade humana. Por isso, antes de restaurar o corpo, Ele oferece aquilo que nenhum médico pode conceder: o perdão, a reconciliação e a vida nova.

É justamente aqui que o Evangelho revela toda a beleza da compreensão ortodoxa da salvação. Cristo não veio apenas aliviar sofrimentos passageiros nem simplesmente declarar o homem inocente diante de Deus. Veio restaurar nossa própria natureza, devolver-nos a comunhão perdida e fazer-nos participantes de Sua vida. A salvação é cura, é restauração, é transformação do homem inteiro.

Os escribas, porém, não conseguem compreender isso. Em vez de alegrarem-se com a misericórdia de Deus, escandalizam-se. Julgam que Jesus blasfema, porque sabem que somente Deus pode perdoar pecados. Sem responder às suas acusações, Cristo revela-lhes os pensamentos ocultos do coração e realiza diante de todos o milagre visível, para confirmar aquilo que já havia realizado invisivelmente.

Então dirige-se novamente ao paralítico e diz: «Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa.»

Essas palavras possuem um significado muito mais profundo do que parece à primeira vista. O homem que antes era carregado passa agora a carregar aquilo que simbolizava sua enfermidade. O leito que testemunhava sua impotência transforma-se em sinal de sua libertação. Aquilo que antes o dominava já não tem poder sobre ele.

Também em nossa vida existem muitas formas de paralisia. Nem sempre são enfermidades do corpo. Muitas vezes são mágoas antigas, ressentimentos que nunca conseguimos abandonar, pecados repetidos, medos, orgulho, falta de perdão ou desânimo espiritual. Aos poucos, essas realidades vão limitando nossa liberdade interior e nos impedem de caminhar com alegria no seguimento de Cristo.

O Senhor continua dirigindo a cada um de nós o mesmo convite dirigido ao paralítico: «Levanta-te.» Levanta-te da indiferença. Levanta-te do pecado. Levanta-te da desesperança. Levanta-te da acomodação. Levanta-te e volta para casa, isto é, volta à comunhão com Deus, para a qual foste criado desde o princípio.

No final da narrativa, o Evangelho afirma que as multidões glorificavam a Deus porque havia concedido tal autoridade aos homens. Elas compreenderam que Deus havia visitado Seu povo. E essa visita continua acontecendo hoje. Cada Divina Liturgia é um novo encontro com Cristo. Ele continua pronunciando palavras de vida, continua oferecendo Seu perdão, continua fortalecendo os que se aproximam d’Ele com fé e continua derramando Sua graça sobre aqueles que O buscam de coração sincero.

Dentro de alguns instantes, aproximar-nos-emos do Santo Cálice. Nenhum de nós vem porque já esteja plenamente curado ou porque seja perfeito. Todos trazemos nossas fraquezas, nossas lutas e nossas necessidades. Aproximemo-nos, portanto, com a mesma confiança daquele paralítico. Ele nada exigiu; apenas se deixou conduzir até Cristo. E encontrou n’Ele muito mais do que imaginava encontrar.

Que também nós, fortalecidos pela Palavra que ouvimos e pelos santos Mistérios que iremos receber, experimentemos a mesma graça. Que o Senhor cure as enfermidades de nossa alma, fortaleça-nos nas fraquezas do corpo e nos conceda caminhar com fidelidade pelo caminho do Reino, para que, renovados pela Sua misericórdia, glorifiquemos a Deus com toda a nossa vida.

Amém.

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