«Coragem! Sou Eu. Não tenhais medo!»
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Meus queridos irmãos e irmãs,
o Evangelho deste domingo começa exatamente onde terminou o Evangelho que ouvimos na semana passada. Depois de alimentar a multidão no deserto, Cristo ordena aos discípulos que entrem na barca e atravessem para a outra margem. Passamos, assim, da abundância do pão à violência do vento; da multidão saciada à pequena barca açoitada pelas ondas; das mãos que distribuíam o alimento à mão de Cristo que salvará Pedro.
Essa continuidade nos ensina algo importante sobre a vida espiritual. Depois da consolação, pode vir a provação. Depois de um momento de grande alegria, pode chegar uma noite difícil. Depois de experimentarmos claramente a graça de Deus, podemos entrar numa travessia na qual parece que Ele está distante.
Os discípulos, entretanto, estão naquela barca porque o próprio Jesus os mandou entrar. A tempestade não surgiu porque haviam desobedecido. Encontrou-os enquanto cumpriam a palavra do Senhor. Nem toda dificuldade, portanto, significa que estamos no caminho errado. Há tempestades que aparecem justamente quando tentamos permanecer fiéis. A fé não nos garante uma vida sem ventos contrários; ensina-nos a atravessá-los sem perder a confiança em Deus.
Enquanto os discípulos lutam contra as ondas, Jesus está sozinho no monte, em oração. Eles não O veem, mas Cristo não os esqueceu. Também nós, muitas vezes, confundimos o silêncio de Deus com sua ausência. Rezamos, esperamos, enfrentamos uma situação durante muito tempo e perguntamos: «Onde está o Senhor? Por que ainda não veio?» O Evangelho nos assegura que, mesmo quando não O vemos, Ele nos vê; mesmo quando parece distante, conhece nossa luta; mesmo quando a noite se prolonga, já está vindo ao nosso encontro.
Na quarta vigília, quando a noite estava mais escura e os discípulos já estavam cansados, Cristo aproximou-Se caminhando sobre as águas. Ele não acalmou primeiro o mar para depois ir até eles. Veio em meio à tempestade e fez das próprias ondas o caminho de sua aproximação. Aquilo que para os discípulos era uma ameaça, debaixo dos pés de Cristo transformou-se em estrada.
O medo, porém, impediu que O reconhecessem. Pensando tratar-se de um fantasma, começaram a gritar. O medo deforma nosso olhar. Faz-nos imaginar novas ameaças exatamente quando Deus já está vindo ao nosso encontro. Por isso, antes de acalmar o vento, Jesus dirigiu-Se ao coração dos discípulos: «Coragem! Sou Eu. Não tenhais medo!»
Cristo não lhes disse que o vento era imaginário ou que as ondas eram pequenas. Disse simplesmente: «Sou Eu.» A razão da coragem cristã não é a ausência de dificuldades, mas a presença do Senhor em meio a elas.
Pedro respondeu: «Senhor, se és Tu, manda-me ir ao teu encontro caminhando sobre as águas». E Jesus disse: «Vem!» Pedro deixou a barca e começou realmente a caminhar. Não era a água que o sustentava, mas a palavra de Cristo. Enquanto seus olhos permaneciam voltados para o Senhor, realizou o que humanamente seria impossível. Mas, quando começou a olhar somente para a força do vento, sentiu medo e começou a afundar.
O vento já existia quando Pedro deixou a barca. O que mudou não foi a tempestade, mas o seu olhar. Também nós começamos muitas coisas confiando em Deus e damos passos que julgávamos impossíveis. Depois, porém, passamos a olhar somente para os problemas, as críticas, nossas limitações e tudo aquilo que pode dar errado. Então começamos a afundar.
Pedro não era um homem sem fé. Se não tivesse fé, jamais teria deixado a barca. Sua fé era verdadeira, mas ainda pequena; corajosa, mas dividida. Nele reconhecemos nossa própria vida: cremos e tememos, confiamos e hesitamos, avançamos e, de repente, sentimos que as águas estão subindo.
É nesse momento que Pedro nos ensina uma das orações mais breves e completas da vida cristã: «Senhor, salva-me!» Ele não explica a situação, não tenta justificar-se e não finge que conseguirá sair sozinho. Apenas reconhece sua fraqueza e clama pela misericórdia do Senhor.
O Evangelho diz que Jesus imediatamente estendeu a mão e o segurou. Cristo não esperou que Pedro afundasse completamente, nem exigiu que primeiro demonstrasse uma fé perfeita. Segurou-o quando ele reconheceu sua impotência e pediu socorro. Depois lhe perguntou: «Homem de pouca fé, por que duvidaste?» Mas fez essa pergunta quando Pedro já estava seguro em sua mão. Cristo primeiro salva e depois corrige; primeiro levanta e depois ensina. Sua correção não humilha, mas fortalece a fé.
Quando Jesus e Pedro entraram na barca, o vento cessou. Os discípulos prostraram-se diante d’Ele e confessaram: «Verdadeiramente, Tu és o Filho de Deus!»
A barca é uma imagem da Igreja. Isso não significa que dentro dela nunca haverá tempestades, fraquezas ou medos. O próprio Evangelho nos mostra uma barca sacudida e discípulos assustados. A Igreja é o lugar onde aprendemos juntos a reconhecer a voz de Cristo, a clamar «Senhor, salva-me!» e a receber a mão que nos reconduz à comunhão.
Essa imagem une o Evangelho à epístola deste domingo. São Paulo afirma: «Vós sois construção de Deus» e «ninguém pode colocar outro fundamento além daquele que já está posto: Jesus Cristo». Nossa comunidade não é apenas um prédio, uma associação ou um lugar no qual buscamos serviços religiosos. Somos, juntos, templo de Deus. Somos cooperadores de Deus e pedras vivas de uma construção cujo único fundamento é Cristo.
Celebramos hoje também a Trasladação das Relíquias do Santo Protomártir e Arquidiácono Estêvão. No momento de seu martírio, Estêvão estava cercado pela violência. As pedras caíam sobre ele, mas seus olhos permaneciam fixos no céu, onde contemplava a glória de Deus. A tempestade exterior não foi interrompida; contudo, ela não conseguiu destruir sua paz, sua fé nem sua capacidade de amar. Enquanto era apedrejado, Estêvão rezava pelos próprios perseguidores.
Pedro caminhou sobre as águas enquanto olhava para Cristo. Estêvão atravessou o martírio porque manteve os olhos voltados para o céu. Também nós somente atravessaremos nossas tempestades se conservarmos os olhos da alma fixos no Senhor.
Talvez alguém esteja enfrentando hoje um vento contrário: uma enfermidade, uma preocupação familiar, uma ferida antiga, uma decisão difícil, uma angústia que ninguém conhece ou uma tempestade de pensamentos dentro do coração. O Evangelho não nos pede que finjamos que o vento não existe. Pede apenas que não lhe concedamos um poder maior que o poder de Cristo.
Guardemos, portanto, duas pequenas orações. Quando o medo vier, escutemos o Senhor dizer: «Coragem! Sou Eu. Não tenhais medo!» Quando sentirmos que estamos afundando, clamemos com Pedro: «Senhor, salva-me!»
A mão que multiplicou o pão no domingo passado é a mesma mão que hoje se estende sobre as águas. Essa mão continua estendida para nós. Sustentados por ela, poderemos chegar à outra margem e confessar com toda a Igreja: «Verdadeiramente, Tu és o Filho de Deus!»
Amém.



