Homilia para o X Domingo de São Mateus
Há uma continuidade muito bela entre a Festa da Transfiguração, que acabamos de celebrar, e o Evangelho deste X Domingo de São Mateus. Há poucos dias, contemplávamos Pedro, Tiago e João sobre o monte, diante de Cristo transfigurado. Seu rosto resplandecia como o sol, Suas vestes tornavam-se brancas como a luz, Moisés e Elias apareciam ao Seu lado e a voz do Pai proclamava: «Este é o meu Filho amado; escutai-O».
Hoje, porém, é preciso descer da montanha.
E, quando Jesus e os discípulos retornam ao encontro das pessoas, encontram uma realidade muito diferente daquela contemplada no Tabor. Já não há luz nem êxtase, mas sofrimento. Um pai desesperado aproxima-se de Cristo, ajoelha-se diante d’Ele e suplica:
«Senhor, tem compaixão de meu filho.»
Seu filho sofre terrivelmente. E aquele pai já havia procurado os discípulos. Eles tentaram ajudá-lo, mas não conseguiram.
Esse contraste é profundamente significativo. Os discípulos haviam estado próximos de Cristo, tinham ouvido Sua palavra, visto Seus milagres e recebido autoridade para anunciar o Reino. Alguns deles acabavam de contemplar Sua glória sobre o Tabor. Contudo, diante daquela situação concreta, descobriram sua própria impotência.
Talvez aqui comece a mensagem que o Evangelho dirige também a nós.
É possível estar próximo das coisas de Deus e ainda assim possuir uma fé frágil. Podemos frequentar a igreja, conhecer as orações, venerar os santos ícones, participar dos ofícios e receber os santos mistérios e, apesar disso, descobrir que nossa fé ainda não alcançou profundamente determinadas regiões de nossa vida.
Toda Divina Liturgia é, de alguma maneira, uma subida ao monte. Entramos no templo carregando as preocupações da semana e somos envolvidos pela oração da Igreja. Escutamos o Evangelho, contemplamos Cristo nos santos ícones e, no ápice da celebração, aproximamo-nos do Santo Cálice para receber o próprio Senhor.
Mas a Liturgia termina.
As portas da igreja se abrem.
E precisamos descer novamente da montanha.
Voltamos para casa, para o trabalho, para nossos relacionamentos, para as preocupações, para as enfermidades, para as dificuldades que não desapareceram enquanto estávamos no templo. E é justamente aí que se revela até onde aquilo que celebramos começou realmente a transformar nossa vida.
Diante do fracasso dos discípulos, Cristo pronuncia palavras severas:
«Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei convosco?»
Mais tarde, quando estão sozinhos com o Mestre, eles perguntam: «Por que nós não conseguimos expulsá-lo?»
E Jesus responde:
«Por causa de vossa pouca fé. Pois, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta montanha: “Passa daqui para lá”, e ela passará.»
É uma das imagens mais conhecidas de todo o Evangelho, mas talvez também uma das mais facilmente mal compreendidas.
Cristo não está ensinando que, se acreditarmos com força suficiente, Deus fará tudo aquilo que desejarmos. A fé cristã não é uma técnica para realizar o impossível, nem uma espécie de força psicológica capaz de obrigar a realidade a obedecer à nossa vontade.
A força da fé não está na pessoa que acredita.
Está em Deus, em quem ela deposita sua confiança.
Por isso Jesus escolhe justamente uma semente minúscula. O grão de mostarda quase desaparece entre os dedos, mas possui vida em seu interior. É pequeno, porém está vivo.
Assim também pode acontecer conosco. Talvez nossa fé seja pequena. Talvez carreguemos dúvidas, medos e inseguranças. Talvez existam momentos em que nossa oração seja pobre e nossas forças pareçam insuficientes. O Senhor não exige que apresentemos diante d’Ele uma fé grandiosa e perfeita. Pede uma fé viva, ainda que pequena; uma fé suficientemente humilde para reconhecer de onde vem sua força.
A narrativa paralela de São Marcos conserva uma das mais belas orações de toda a Escritura. Diante de Cristo, aquele pai não procura aparentar uma segurança que não possui. Ele simplesmente clama:
«Creio, Senhor! Ajuda minha incredulidade!»
Que oração extraordinariamente humana!
O homem acredita e, ao mesmo tempo, reconhece que sua fé é insuficiente. Não esconde sua fraqueza. Não tenta apresentar diante de Deus uma versão melhor de si mesmo. Leva a Cristo aquilo que realmente possui: amor pelo filho, sofrimento, esperança e uma fé ainda ferida pela dúvida.
E Cristo acolhe essa oração.
Talvez também nós precisemos aprender a rezar assim. Há situações em que não sabemos mais o que fazer. Pessoas que amamos sofrem e não conseguimos ajudá-las. Filhos fazem escolhas que os pais não podem controlar. Uma enfermidade chega sem que possamos afastá-la. Um relacionamento se rompe. Uma preocupação permanece durante meses ou anos. Há momentos em que descobrimos dolorosamente que não podemos salvar aqueles que amamos.
Podemos, porém, levá-los a Cristo.
Foi exatamente isso que aquele pai fez.
Talvez esta seja uma das formas mais profundas da oração: colocar diante do Senhor aquilo que não conseguimos resolver.
Jesus ensina ainda que certos males somente podem ser enfrentados pela oração e pelo jejum. Também aqui não existe nenhuma fórmula mágica. A oração e o jejum não servem para dar ao homem poderes extraordinários. Servem para libertá-lo da ilusão de que possui poder por si mesmo.
A oração reúne novamente nosso coração em Deus. O jejum ensina que não precisamos obedecer a todos os nossos desejos. Ambos nos tornam mais livres, mais atentos e mais disponíveis à graça.
E talvez comecemos então a compreender melhor quais são as montanhas que a fé precisa mover.
Nem sempre são as circunstâncias exteriores.
Existem montanhas dentro de nós.
Um orgulho antigo que nos impede de pedir perdão. Um ressentimento que alimentamos durante anos. Uma ferida que transformamos em amargura. Um hábito do qual nos tornamos escravos. A necessidade de controlar as pessoas que amamos. O medo que nos impede de confiar. A dificuldade de perdoar alguém que nos feriu.
Às vezes pedimos insistentemente a Deus que mova as montanhas ao nosso redor, enquanto Ele deseja começar movendo aquela que cresceu dentro de nosso coração.
A Epístola deste domingo nos ajuda a compreender onde está a verdadeira força do cristão. São Paulo descreve os Apóstolos de maneira surpreendente: perseguidos, desprezados, cansados, considerados loucos por causa de Cristo. Quando insultados, bendizem; quando perseguidos, suportam; quando caluniados, respondem com bondade.
E então Paulo diz aos coríntios:
«Sede meus imitadores.»
Ele não lhes pede que imitem seus dons ou sua autoridade. Pede que imitem sua maneira de seguir Cristo.
Aqui se encontra o paradoxo do Evangelho: a força cristã não aparece na capacidade de dominar os outros, mas na liberdade de continuar amando quando seria mais fácil responder ao mal com o mal.
É também muito belo perceber que as leituras deste domingo nos apresentam, de maneiras diferentes, dois pais.
Paulo chama os cristãos de Corinto de seus filhos, porque os gerou pelo Evangelho. Sua autoridade sobre eles nasce do amor e da entrega.
E, no Evangelho, encontramos aquele pai anônimo carregando diante de Cristo o sofrimento de seu filho.
Ambos nos lembram que amar alguém significa também aceitar que não temos domínio sobre sua vida. Não podemos viver pelo outro, decidir pelo outro ou salvá-lo por nossas próprias forças. Podemos acompanhá-lo, aconselhá-lo, sofrer com ele, rezar por ele e, sobretudo, colocá-lo continuamente diante de Deus.
No final do Evangelho, logo depois de falar da fé capaz de mover montanhas, Jesus anuncia novamente Sua Paixão:
«O Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens; eles O matarão, e ao terceiro dia ressuscitará.»
Não é por acaso que o Evangelho termina assim.
A fé capaz de mover montanhas não é uma fé triunfalista. É a fé que aprende a atravessar a Cruz sem perder a esperança na Ressurreição.
Talvez não vejamos todas as montanhas desaparecerem. Talvez algumas permaneçam conosco durante muito tempo. Mas podemos nós mesmos ser transformados enquanto as atravessamos.
É por isso que Cristo não nos pede uma fé espetacular.
Pede uma fé viva.
Uma fé alimentada pela oração, purificada pelo jejum, provada pela paciência e manifestada no amor. Uma fé pequena como uma semente, mas profundamente enraizada em Deus.
E quando nossas forças parecerem insuficientes, talvez não precisemos procurar palavras mais elaboradas. Bastará fazer nossa a oração daquele pai:
«Senhor, eu creio; ajuda minha incredulidade!»
Porque, muitas vezes, é justamente quando reconhecemos que não podemos mover sozinhos nenhuma montanha que finalmente permitimos que Deus comece a mover nosso coração.



