Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Amados em Cristo,
Há uma imagem particularmente bela no Evangelho deste domingo: a de um homem que planta uma vinha. Antes de confiá-la aos lavradores, ele próprio prepara tudo aquilo de que necessitarão para fazê-la frutificar: cerca-a, escava nela um lagar, constrói uma torre e somente então a entrega aos seus cuidados. Nada começa com os lavradores. Quando chegam, a vinha já existe; a terra já foi preparada; os instrumentos necessários já lhes foram oferecidos. A eles cabe cultivar aquilo que receberam e, no tempo oportuno, entregar ao senhor os frutos que lhe pertencem. Talvez seja precisamente aqui que devamos começar a escutar esta parábola: antes de falar da infidelidade humana, Cristo nos fala da generosidade de Deus. Antes de qualquer exigência, existe um dom. Antes de nosso trabalho, existe a graça. Antes de nossa resposta, existe um Deus que prepara a vinha e, numa confiança surpreendente, coloca-a em nossas mãos.
Aos primeiros ouvintes de Jesus, a imagem remetia imediatamente à história de Israel, a vinha que Deus plantara, cultivara e guardara, enviando repetidamente os profetas para chamar seu povo à fidelidade. Mas o Senhor conta essa parábola já em Jerusalém, depois de sua entrada messiânica e quando se aproxima rapidamente a hora de sua Paixão. Por isso, como observa nosso Arcebispo Metropolitano Iosif, estamos diante de uma verdadeira «profecia-revelação»: sob a imagem dos servos rejeitados e mortos, Cristo recorda a longa história da recusa dos profetas; e, quando o proprietário decide finalmente enviar o próprio filho, dizendo «Terão respeito a meu filho», o Senhor começa a revelar aquilo que acontecerá com Ele próprio. O filho será lançado para fora da vinha e morto; poucos dias depois, o Filho unigênito será conduzido para fora da cidade e crucificado. E Aquele que os homens rejeitarão será justamente a Pedra que Deus constituirá como Pedra angular.
Contudo, seria muito confortável ouvir esta parábola apenas como relato da infidelidade de outros. A Palavra de Deus nunca nos é proclamada para que contemplemos de longe os pecados daqueles que viveram antes de nós. Se hoje a Igreja escuta essa parábola, é porque também ela recebeu a vinha. E cada um de nós, de algum modo, recebeu uma parcela dela. Nossa vida é uma vinha confiada por Deus. Nossa fé é uma vinha. Nossa família, nossas capacidades, nosso tempo, os bens que administramos, as oportunidades que tivemos, as pessoas colocadas em nosso caminho e a própria comunidade eclesial na qual fomos chamados a servir: tudo isso nos foi confiado. Nada trouxemos ao mundo e nada poderemos levar conosco quando dele partirmos. Somos, durante algum tempo, administradores de dons cuja origem está em Deus e cujo sentido último somente n’Ele pode ser encontrado.
É justamente aí que se revela o pecado mais profundo dos lavradores da parábola. Eles não são condenados simplesmente porque produziram poucos frutos. Algo muito mais grave aconteceu: esqueceram-se de que eram lavradores e começaram a comportar-se como proprietários. Quando chegam os servos do senhor da vinha, eles os tratam como intrusos; e quando avistam o filho, dizem: «Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo e apoderemo-nos de sua herança». Querem conservar a vinha, mas já não querem aquele a quem ela pertence. Desejam a herança sem o herdeiro, o dom sem o doador. É uma imagem extraordinariamente precisa daquilo que o pecado realiza em nós: recebemos e, pouco a pouco, começamos a dizer «é meu»; administramos e passamos a imaginar que somos proprietários; desfrutamos do dom e acabamos esquecendo Aquele que o concedeu.
Essa tentação pode atingir inclusive nossa relação com Deus. Podemos receber a fé e transformá-la numa posse; receber a Tradição e utilizá-la para nos sentirmos superiores; receber um ministério e convertê-lo em poder; participar da Igreja e começar a pensar nela como uma realidade que deve corresponder aos nossos desejos. A reflexão do Metropolita Iosif é particularmente incisiva neste ponto ao recordar que até a experiência religiosa pode adoecer quando deixa de abrir o homem à comunhão e passa a alimentar sua autorreferencialidade. A oração, o jejum, o conhecimento da fé e a fidelidade à tradição são dons preciosos e indispensáveis; mas sua autenticidade manifesta-se quando nos conduzem para fora de nós mesmos, em direção a Deus e ao próximo. Se, ao contrário, servem para alimentar a vaidade, a condenação dos outros ou a autossuficiência, podemos permanecer exteriormente dentro da vinha e, ainda assim, esquecer Quem é o seu Senhor.
Entretanto, há outro aspecto da parábola que não deveria passar despercebido: a impressionante paciência do proprietário. Um servo é maltratado, outro é morto, outro apedrejado; novos servos são enviados e recebem o mesmo tratamento. Humanamente, esperaríamos que o proprietário reagisse imediatamente e retirasse a vinha daqueles homens. Mas ele insiste. Continua chamando, continua esperando, continua oferecendo uma possibilidade de retorno. Até que realiza o gesto mais desconcertante de todos: envia o próprio filho. Nessa insistência reconhecemos toda a história da misericórdia divina. Deus poderia abandonar o homem às consequências de sua recusa, mas continua procurando-o. Envia os profetas, chama à conversão, fala através das Escrituras, desperta a consciência e, finalmente, não envia apenas uma nova mensagem: envia o próprio Filho. A resposta de Deus à infidelidade humana é aproximar-Se ainda mais.
E aqui a parábola nos conduz ao mistério da Cruz. O Filho vem sabendo que a vinha se rebelou contra seu Senhor. Vem para aqueles que desejam apropriar-se da herança e, ainda assim, entrega-Se em suas mãos. Aquilo que parece a vitória definitiva dos lavradores — eliminar o herdeiro — torna-se, pelo desígnio de Deus, o princípio de uma nova criação. «A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto procede do Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos.» A rejeição não consegue frustrar o amor de Deus. A morte não consegue deter a Vida. A pedra descartada pelos homens torna-se fundamento do novo edifício, porque a Cruz desemboca na Ressurreição. A própria leitura matutina deste domingo, com as mulheres Miróforas chegando ao túmulo e encontrando-o vazio, proclama aquilo que a parábola ainda anuncia veladamente: o Filho rejeitado vive, e a morte não pôde conservar em seu poder o Herdeiro da vinha.
À luz desse mistério, compreendemos melhor também as palavras de São Paulo na Epístola deste domingo: «Vigiai, permanecei firmes na fé, sede corajosos, sede fortes. Tudo entre vós se faça no amor». Talvez possamos encontrar justamente aí a resposta à pergunta que a parábola inevitavelmente suscita: quais são os frutos que o Senhor procura em sua vinha? Certamente a fidelidade, a justiça, a oração, a perseverança e todas as virtudes que nascem da vida em Cristo. Mas São Paulo parece reuni-las numa única palavra: amor. Dom Irineo observa justamente que o amor não deve ser apenas uma qualidade acrescentada às nossas ações; deve ser sua origem, seu conteúdo e sua finalidade. Não basta fazer coisas boas: é preciso que aquilo que fazemos nasça do amor de Cristo e conduza à comunhão.
Existe, portanto, um contraste profundo entre a palavra dos lavradores e a palavra do Apóstolo. Os lavradores dizem: «Apoderemo-nos da herança». Paulo diz: «Tudo entre vós se faça no amor». De um lado está a existência entendida como apropriação; do outro, a existência transformada em dom. De um lado, o homem fecha as mãos para conservar aquilo que recebeu; do outro, abre-as porque aprendeu de Cristo que a verdadeira vida encontra-se na entrega. O próprio Filho é a manifestação perfeita dessa existência eucarística: Ele não Se apropria, mas Se oferece; não conserva para Si, mas Se entrega; não transforma seu poder em domínio, mas faz de sua própria vida um dom para a vida do mundo.
É precisamente isso que aprendemos em cada Divina Liturgia. No coração da Anáfora, elevando a Deus os dons do pão e do vinho, proclamamos: «O que é teu, do que é teu, nós Te oferecemos em tudo e por tudo». Talvez não exista resposta mais perfeita ao pecado dos lavradores. Eles receberam a vinha e disseram: «É nossa». A Igreja recebe a criação e responde: «É tua». Recebemos o pão, o vinho, a vida, o tempo, o trabalho, nossos dons e tudo aquilo que somos; e, reconhecendo sua verdadeira origem, devolvemos tudo a Deus em ação de graças. Então aquilo que oferecemos retorna a nós transfigurado: o pão e o vinho tornam-se para nós comunhão no Corpo e no Sangue de Cristo, e nós mesmos somos chamados a tornar-nos uma oferta viva, uma existência eucarística, um povo que recebe tudo como dom e transforma o dom recebido em comunhão.
Por isso, talvez a pergunta que devamos levar conosco neste domingo não seja: «Quem eram os maus lavradores?», mas outra, muito mais próxima e exigente: que frutos está produzindo a vinha que Deus colocou em minhas mãos? O que estou fazendo com o tempo que recebi, com as pessoas que me foram confiadas, com minha fé, meus talentos, meus recursos, minhas responsabilidades e minha participação na vida da Igreja? Tudo isso passará um dia para outras mãos. O que permanecerá serão os frutos que, pela graça de Deus, fomos capazes de produzir.
O Senhor continua vindo à sua vinha. Continua falando por sua Palavra, alimentando-nos pelos Santos Mistérios e oferecendo-nos tempo para a conversão. Ainda podemos aprender a receber sem nos apropriar, a administrar sem dominar, a servir sem buscar reconhecimento e a transformar em amor aquilo que gratuitamente recebemos. E, quando chegar o tempo da colheita, que Ele encontre em nós não proprietários zelosos de uma herança que jamais nos pertenceu, mas servidores agradecidos que souberam reconhecer em tudo o dom de suas mãos e devolver-Lhe, multiplicado em frutos de amor, aquilo que por sua infinita bondade nos confiou.
Amém.



