São Clemente de Roma — Antologia de reflexões e orações

Esta antologia reúne fragmentos da Primeira Carta aos Coríntios de São Clemente de Roma, já publicados em Sophia. Os textos convidam à conversão, à humildade, à concórdia e à confiança em Deus, e culminam numa oração pela Igreja e por todos os habitantes da terra.

A seleção está organizada por tema e pela sequência dos capítulos da carta. As versões sobrepostas foram reunidas, preservando os trechos complementares e as referências bibliográficas.

Sumário

Conversão e pureza do coração

O tempo favorável da conversão

São Clemente de Roma — Primeira Carta aos Coríntios, 7–13 e 19, excertos; referências da versão publicada: Funk 1,71–73.77–79.87.

Fixemos atentamente o olhar no sangue de Cristo e compreendamos quanto é precioso aos olhos de Deus, seu Pai, esse sangue que, derramado para nossa salvação, ofereceu ao mundo inteiro a graça da penitência. Percorramos todas as épocas do mundo e verificaremos que em cada geração o Senhor concedeu o tempo favorável da penitência a todos os que a ele quiseram converter-se.

Percorramos todas as épocas e veremos que, de geração em geração, o Mestre ofereceu a possibilidade de conversão a todos quantos queriam voltar-se para Ele. Noé pregou a conversão, e aqueles que o escutaram foram salvos. Jonas anunciou aos ninivitas a destruição que os ameaçava; eles arrependeram-se dos seus pecados, apaziguaram a Deus e, apesar de Lhe serem estranhos, alcançaram, por suas súplicas, a salvação.

Pela sua vontade omnipotente, Deus quer que todos aqueles que ama participem da conversão. É por isso que devemos obedecer à sua magnífica e gloriosa vontade. Imploremos humildemente a sua misericórdia e a sua bondade; confiemo-nos à sua compaixão, abandonando as preocupações frívolas, a discórdia e a inveja, que só conduzem à morte.

Sejamos humildes, meus irmãos, rejeitemos todos os sentimentos de orgulho, de jactância, de vaidade e de cólera. Agarremo-nos firmemente aos preceitos e aos mandamentos do Senhor Jesus, tornando-nos dóceis e humildes diante das suas palavras. Pois diz o texto sagrado: «Para quem voltarei o meu olhar, senão para o homem humilde e pacífico, que teme as minhas palavras?» (Is 66,2)

Observemos fielmente este preceito e estes mandamentos, a fim de nos conduzirmos sempre, com toda humildade, na obediência às suas santas palavras. Fixemos atentamente nosso olhar no Pai e Criador do universo e desejemos com todo ardor seus dons de paz e seus magníficos e incomparáveis benefícios.

Nota editorial: O parágrafo inicial e o último provêm de «Tempo favorável da penitência»; os três parágrafos centrais, de «Convertei-vos a Mim…». As passagens sobre Noé, Jonas e a humildade são apresentadas uma única vez, na versão mais desenvolvida.

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«Purificar o interior do nosso coração»

São Clemente de Roma — Primeira Carta aos Coríntios, 14–16.

É justo e santo, irmãos, obedecer a Deus em vez de seguir os agitadores orgulhosos. […] Juntemo-nos àqueles que, com piedade, põem em prática a paz, não aos que fingem querer a paz. Com efeito, está dito: «Este povo aproxima-se de Mim só com palavras e honra-me só com os lábios, pois o seu coração está longe de Mim» (Is 29,13; Mc 7,6). E ainda: «Abençoam com a boca, mas amaldiçoam com o coração»  (Sl 61,5). E também: «Mas logo O enganavam com a boca e Lhe mentiam com a língua. Os seus corações não eram leais com Ele, nem fiéis à Sua aliança» (Sl 77,36). […]

Com efeito, Cristo pertence aos que são humildes de coração e não aos que se elevam acima do Seu rebanho. O cetro da majestade de Deus (cf Hb 1,8), o Senhor Jesus Cristo, não veio acompanhado pela vaidade nem pelo orgulho ─ e no entanto poderia fazê-lo ─, mas pela humildade de coração, como o Espírito Santo tinha dito acerca d’Ele: «Quem acreditou no Nosso anúncio? A quem foi revelado o braço do Senhor? O servo cresceu diante do Senhor como um rebento, como raiz em terra árida, sem figura nem beleza. Vimo-Lo sem aspecto atraente» (Is 53,1-3). […] Vedes assim, bem-amados, o modelo que vos foi dado. Se o Senhor Se humilhou desta maneira, que deveremos fazer nós, a quem Ele permitiu que caminhemos sob o jugo da Sua graça?

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Providência e esperança na ressurreição

«Sabei que está próximo o reino de Deus.»

São Clemente de Roma — Primeira Carta aos Coríntios, 19–23.

Fixemos o olhar no Pai e Criador do mundo; liguemo-nos aos seus dons de paz e aos seus benefícios, que são magníficos, incomparáveis. Contemplemo-Lo por meio do pensamento e consideremos com os olhos da alma a longa paciência dos seus desígnios; reflitamos na mansidão com que trata a criação inteira. […] Pois distribui os seus benefícios por toda a criação, mas prodiga-no-los de forma superabundante quando recorremos à sua misericórdia. […]

Tende porém, cautela, bem amados, não vão esses benefícios numerosos transformar-se em condenação para nós, se não vivermos de maneira digna dele. […] Consideremos quão próximo Se encontra de nós, não Lhe escapando nenhum pensamento nosso, nenhuma deliberação interior. É justo, pois, que não abandonemos o nosso lugar contra a sua vontade. […] Que ela não seja para nós a palavra que diz: «Infelizes daqueles cuja alma se encontra dividida, daqueles que duvidam em seu coração, daqueles que dizem: “Já ouvimos dizer isto no tempo dos nossos pais; mas eis que envelhecemos e nada nos aconteceu.” Ó insensatos! Comparai-vos a uma árvore; tomai um cepo de videira: começa por perder as folhas, depois nasce um rebento, depois uma folha, depois uma flor, depois a uva verde, e em seguida ali está a uva madura.» Vede como, em pouco tempo, o fruto da árvore atinge a maturidade. Na verdade, será rápido e súbito o cumprimento dos seus desígnios! Também a Escritura o testemunha: «A sua hora está para chegar, os seus dias já estão contados» (Is 13,22); bem como: «Imediatamente entrará no seu santuário o Senhor que vós procurais» (Mal 3,1).

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«A menina não está morta: dorme.»

São Clemente de Roma — Primeira Carta aos Coríntios, 24–28; SC 167.

Notemos, meus bem-amados, que o Senhor não cessa de nos mostrar a ressurreição futura de que nos deu as primícias ao ressuscitar de entre os mortos o Senhor Jesus Cristo. Observemos, bem-amados, as ressurreições que acontecem periodicamente. O dia e a noite fazem-nos ver uma ressurreição: a noite deita-se, levanta-se o dia; o dia desaparece, vem a noite. Reparemos nos frutos: como se fazem as sementeiras? O que acontece? Sai o semeador e lança à terra diversas sementes. Estas caem, secas e nuas, na terra e desagregam-se. Depois, a partir dessa mesma decomposição, a magnífica providência do Mestre fá-las reviver e dum só grão surgem imensos que, por sua vez, crescem e dão frutos. […] Acharemos, pois, estranho e extraordinário que o Criador do universo faça ressuscitar aqueles que O serviram fielmente e com a confiança duma fé perfeita? […]

Com essa esperança, que os nossos corações se apeguem então Àquele que é fiel às suas promessas e justo nos seus julgamentos. Ele, que nos proibiu de mentir (Ex 20,16), pela mesmíssima razão também não mente. Nada é impossível a Deus, excepto mentir (Jr 32,17; Lc 1,37; Heb 6,18). Reavivemos, pois, a nossa fé nele e entendamos que Ele tudo pode.

Com uma palavra da sua omnipotência, Ele formou o universo e com uma palavra pode aniquilá-lo. […] Ele fará todas as coisas quando quiser e como quiser. Nada desaparecerá jamais daquilo que Ele tiver decidido. Tudo está presente diante dele e nada escapa à sua Providência.

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Cristo e a comunhão da Igreja

«O caminho que conduz à vida»

São Clemente de Roma — Primeira Carta aos Coríntios, 36–38; tradução indicada no post: breviário.

Meus bem-amados, eis o caminho pelo qual encontramos a salvação: Jesus Cristo, o Sumo Sacerdote que apresenta as oferendas, o protetor e auxílio da nossa fraqueza (Hb 10,20; 7,27; 4,15). Por Ele fixamos o olhar no alto dos Céus; por Ele contemplamos, como que num espelho, a face pura e sublime do Pai; por Ele se abriram os olhos do nosso coração; por Ele, a nossa inteligência limitada e obscura desabrocha para a luz; por Ele, quis o Mestre dar-nos a saborear a sabedoria imortal, Ele que é «resplendor da glória do Pai […], tão superior aos anjos quanto superior ao deles é o nome que recebeu em herança» (Hb 1,3-4). […]

Consideremos o nosso corpo: a cabeça não é nada sem os pés, assim como os pés não são nada sem a cabeça; os membros mais insignificantes que temos são necessários e benéficos para todo o corpo; e todos contribuem para a salvação do corpo inteiro, colaborando numa submissão que os unifica (1Cor 12:12ss). Asseguremos, portanto, a salvação do corpo místico que formamos em Cristo Jesus, e que cada um de nós se submeta ao seu próximo, segundo o carisma que recebeu. Que o forte se preocupe com o fraco e que o fraco respeite o forte; que o rico ajude o pobre e que o pobre dê graças a Deus que lhe concedeu alguém para o compensar da sua indigência; que o sábio mostre a sua sabedoria não por palavras mas por boas ações; que o humilde não dê testemunho de si mesmo, mas deixe a outro esse cuidado; que aquele que é casto na sua carne não se glorie, sabendo que é outro que lhe concede a continência.

Pensemos pois, meus irmãos, na forma como nascemos: que éramos nós quando viemos ao mundo? De que túmulo, de que escuridão nos tirou Aquele que nos formou, nos criou e nos introduziu neste mundo, que Lhe pertence? Ele já nos tinha preparado os seus benefícios antes mesmo de nascermos. Visto que tudo isto recebemos dele, devemos dar-Lhe graças por tudo.

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«A Sucessão Apostólica»

São Clemente de Roma — Primeira Carta aos Coríntios, 42–44.

Os apóstolos receberam do Senhor Jesus Cristo, para nós, a Boa Nova; Jesus, o Cristo, foi enviado por Deus. O Cristo vem pois de Deus, os apóstolos de Cristo. Estas duas missões procedem ordenadamente da vontade de Deus. Providos de instruções, cheios de segurança pela ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo, reforçados pela palavra de Deus, eles partiram, com a garantia do Espírito Santo, a anunciar que o Reino de Deus estava próximo. Pregavam nos campos e nas cidades, onde estabeleceram as suas primícias, a quem nomearam, com a ajuda do Espírito Santo, bispos e diáconos dos futuros fiéis. […] É de admirar que os homens que Deus investiu de uma tal missão em Cristo tenham, por sua vez, estabelecido os ministros que acabo de invocar? […] Os nossos apóstolos também souberam por nosso Senhor Jesus Cristo que haveria litígios quanto às funções do bispo. Foi essa a razão pela qual, na sua correta previsão, estabeleceram os ministros acima citados e instituíram que, após a sua morte, outros homens, devidamente provados, lhes sucedessem.

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Oração pela Igreja e pelo mundo

Mestre e Senhor, ouve as nossas orações

São Clemente de Roma — Primeira Carta aos Coríntios, 59–60; versões de oração publicadas em Sophia. Uma delas indica a coleção Icthus, vol. 2, p. 68.

Que o Artesão do Universo

conserve intacto na terra

o número dos Seus eleitos,

pelo seu Filho bem-amado, Jesus Cristo.

Por Ele nos chamou das trevas à luz

da ignorância ao conhecimento da glória do Seu nome.

Em Ti pomos a nossa esperança,

princípio de toda a criação.

Abriste os olhos do nosso coração,

a fim de Te reconhecerem,

a Ti, o único Altíssimo nos céus,

Santo que repousa entre os santos.

Tu abates a insolência dos soberbos,

alteras os cálculos das nações,

elevas os humildes e derrubas os poderosos,

Tu nos enriqueces e nos empobreces,

tomas e dás a vida.

Único benfeitor dos espíritos

e Deus de toda a carne,

perscrutas as profundezas,

vigias as obras dos homens,

és socorro nos perigos,

Salvador dos desesperados,

Criador e Guardião de todo o espírito vivente. […]

Nós Te pedimos, ó Todo-Poderoso,

sê nosso auxílio e nosso defensor.

Salva os oprimidos,

tem piedade dos pequenos,

levanta os que caíram.

Mostra-Te aos que estão em necessidade,

cura os enfermos,

reconduz os que do Teu povo se perderam,

dá alimento aos que têm fome,

a liberdade aos prisioneiros;

corrige os fracos,

consola os pusilânimes;

e que todos os povos reconheçam,

que só Tu és Deus,

que Jesus Cristo é Teu Filho,

que somos o Teu povo, as ovelhas do Teu redil.

Através das tuas obras, manifestaste a ordem eterna do mundo, Senhor, Criador do universo. Tu permaneces o mesmo através das gerações: justo nos teus julgamentos, admirável na tua força e magnificência, cheio de sabedoria quando crias, sábio para fortalecer todos os seres na existência, Tu, que manifestas a tua bondade para com todas as coisas visíveis, a tua fidelidade para com aqueles que confiam em Ti, Tu, que és misericordioso e compassivo.

Perdoa as nossas transgressões, os nossos erros, as nossas quedas, as nossas fraquezas. Não leves em conta os pecados dos teus servos e das tuas servas, mas purifica-nos com o banho da tua verdade e guia os nossos passos, para que andemos em santidade do coração, para que façamos o que é bom e agradável a teus olhos e aos olhos dos nossos governantes.

Sim, Mestre, faz brilhar sobre nós o teu rosto, para nos concederes todo o bem, em paz, para nos protegeres com a tua mão poderosa, livrando-nos de todo o mal com a força do teu braço e subtraindo-nos ao ódio injusto dos nossos inimigos. A nós e a todos os habitantes da terra, dá-nos, Senhor, a concórdia e a paz, como fizeste outrora aos nossos pais quando Te invocavam piedosamente, com toda a confiança e retidão de coração.

Nota editorial: A primeira parte conserva a disposição em versos da oração publicada sob o título «Deus torna-Se visível em Jesus». A segunda reúne os trechos complementares de louvor, perdão e paz da versão «Mestre e Senhor…», omitindo a introdução repetida.

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Fontes e critérios da seleção

Os textos reproduzem as traduções já publicadas em Sophia; a maioria dos posts indica Evangelho Cotidiano como fonte. A antologia não constitui uma nova tradução. SC designa Sources Chrétiennes. As referências bibliográficas e a numeração bíblica das versões foram conservadas.

Os sinais […] e […] indicam omissões presentes nas fontes. As seleções de capítulos não contíguos continuam como excertos, sem pretensão de reproduzir a carta integral. A oração em versos conserva as quebras de linha da publicação de origem; os acréscimos provenientes de outra versão estão identificados em nota.

O fragmento «Purificar o interior do nosso coração», presente no documento Sophia.docx, corresponde à passagem já publicada sobre os capítulos 14–16; foi incluído uma única vez na redação do acervo.

A sequência dos capítulos foi conferida na Primeira Carta de Clemente aos Coríntios, edição inglesa de Ante-Nicene Fathers disponibilizada por New Advent. Esse cotejo identifica a obra e as passagens; as traduções portuguesas são as do acervo.

Organização editorial preparada em 14 de outubro de 2026.

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