São Basílio, o Grande — Antologia de homilias e reflexões

Esta antologia reúne homilias e reflexões de São Basílio, o Grande, sobre a conversão, o amor de Deus, a caridade, a oração e a vida no Espírito Santo. Os fragmentos foram organizados por tema, preservando os trechos complementares e apresentando uma única vez as versões repetidas.

Ao final, encontram-se excertos da tradição litúrgica associada ao seu nome. Esses textos são identificados como complemento litúrgico. As referências e as ressalvas de atribuição acompanham cada seleção.

Sumário

Conversão, humildade e vida em Cristo

Deus não Se cansa de nos chamar à conversão

São Basílio, o Grande — Grandes Regras monásticas, Prólogo.

Irmãos, não nos deixemos ficar na indiferença e no desleixo; não adiemos sempre para amanhã ou para mais tarde, com ligeireza, o momento de pormos mãos à obra. «É este o tempo favorável, é este o dia da salvação », diz o apóstolo Paulo (2Cor 6,2). Agora é o tempo da penitência, mais tarde será o da recompensa; o presente é o tempo da perseverança, e um dia virá o da consolação. Agora, Deus vem em auxílio daqueles que se afastam do mal; mais tarde, Ele será o juiz dos atos, das palavras e dos pensamentos dos homens. Hoje, usufruímos da sua paciência; conheceremos a justiça dos seus julgamentos no momento da ressurreição, quando cada um de nós receber consoante as obras realizadas.

Até quando adiaremos obedecer a Cristo, que nos chama para o seu reino celeste? Quando nos decidiremos a purificar-nos? Não nos decidiremos a abandonar o nosso género habitual de vida, para seguir a fundo o Evangelho? Afirmamos desejar o reino de Deus, mas não nos preocupamos grandemente com os meios para o alcançar.

E, apesar de não nos dedicarmos minimamente à observância dos mandamentos do Senhor, estamos convencidos, na vaidade do nosso espírito, de que somos dignos de receber a mesma recompensa que recebem aqueles que resistiram ao pecado até à morte. Mas quem é o homem que, tendo-se deitado em sua casa a dormir no tempo da sementeira, pode recolher braços cheios de espigas no tempo da colheita? Quem poderá fazer a vindima sem ter plantado e cultivado a vinha? Os frutos são para aqueles que trabalharam; as recompensas e as coroas, para aqueles que venceram. Foi jamais coroado atleta algum que não se tenha sequer despido para combater o adversário? E nem sequer basta vencer, é também necessário «competir segundo as regras» (2Tim 2,5), como diz o apóstolo Paulo, isto é, segundo os mandamentos que nos foram dados.

Deus é bom, mas também é justo: o Senhor «ama a justiça e a retidão» (Sl 33,5); por isso, «Quero cantar a bondade e a justiça: a Vós, Senhor, entoarei salmos» (Sl 101,1). Vê com que discernimento usa o Senhor de misericórdia: não é misericordioso sem examinar, como não julga sem piedade, porque «justo e compassivo é o Senhor, o nosso Deus é misericordioso» (Sl 116,5). Não tenhamos, pois, uma ideia truncada de Deus; o seu amor por nós não deve ser um pretexto para sermos negligentes.

Nota editorial: O fragmento entregue à edição amplia a passagem já publicada sobre a conversão. A abertura foi conservada e a interpelação «Até quando» aparece uma única vez.

Voltar ao sumário

Nada preferir a Cristo

São Basílio, o Grande — Grandes Regras monásticas, questão 8.

Nosso Senhor Jesus Cristo disse a todos, por várias vezes e apresentando diversas provas: «Se alguém quiser vir após Mim, que renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e Me siga»; e também: «Aquele de entre vós que não renunciar a tudo o que tem não pode ser meu discípulo». Parece, pois, exigir a renúncia mais completa. […] «Onde estiver o teu tesouro», diz noutra altura, «aí estará o teu coração» (Mt 6,21). Portanto, se reservamos para nós bens terrenos ou qualquer provisão fugaz, o nosso espírito permanece aí atolado, como que na lama. É então inevitável que a nossa alma seja incapaz de contemplar a Deus e se torne insensível ao desejo dos esplendores do céu e dos bens que nos foram prometidos. Só poderemos obter esses bens se os pedirmos sem cessar, com um desejo ardente, que, de resto, nos tornará leve o esforço para os atingir.

Renunciar a nós mesmos é, pois, soltar os laços que nos prendem a esta vida terrena e passageira, libertar-nos das contingências humanas, a fim de sermos mais capazes de caminhar na via que conduz a Deus. É libertar-nos dos entraves, a fim de possuirmos e usarmos bens que são «muito mais preciosos do que o ouro e a prata» (Sl 18,11). Em suma, renunciar a nós mesmos é transportar o coração humano para a vida no céu, de tal forma que possamos dizer: «A nossa pátria está nos céus» (Fil 3,20). E, sobretudo, é começarmos a tornar-nos semelhantes a Cristo, que Se fez pobre por nós, Ele que era rico (2Cor 8,9). Temos de nos assemelhar a Ele se quisermos viver em conformidade com o Evangelho.

Voltar ao sumário

Dar fruto

São Basílio, o Grande — Homilias sobre o Hexâmeron, V, 6.

O Senhor está permanentemente a comparar a alma humana com uma vinha: «O meu amigo possuía uma vinha numa colina fértil» (Is 5,1); «plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe» (Mt 21,33). É, evidentemente, à alma humana que Jesus chama a sua vinha, foi a ela que cercou, qual sebe, com a segurança que proporcionam os seus mandamentos e a proteção dos seus anjos, porque «o anjo do Senhor assenta os seus arraiais em redor dos que O temem» (Sl 33,8). Em seguida, ergueu em nosso redor uma paliçada, estabelecendo na Igreja «primeiro, apóstolos, segundo, profetas, terceiro, doutores» (1Cor 12,28). Por outro lado, através dos exemplos dos homens santos de outrora, eleva-nos os pensamentos, não os deixando cair por terra, onde mereceriam ser pisados. Deseja que os abraços da caridade, quais sarmentos de uma vinha, nos liguem ao nosso próximo e nos levem a repousar nele. Assim, mantendo permanentemente o impulso em direção aos céus, elevar-nos-emos como vinhas trepadeiras até aos mais altos cumes.

O Senhor pede-nos também que consintamos em ser podados. Ora, uma alma é podada quando afasta para longe de si os cuidados do mundo, que são um fardo para o nosso coração. Assim, aquele que afasta de si mesmo o amor carnal e a ligação às riquezas, ou que tem por detestável e desprezível a paixão pela miserável vanglória foi, por assim dizer, podado, e voltou a respirar, liberto do fardo inútil das preocupações deste mundo.

Mas – e mantendo ainda a linha da parábola – não podemos produzir apenas lenha, ou seja, viver com ostentação, ou procurar os louvores dos de fora. Temos de dar fruto, reservando as nossas obras para as mostrarmos ao verdadeiro agricultor (Jo 15,1).

Voltar ao sumário

A humildade e o exemplo de Cristo

São Basílio, o Grande — Homilia sobre a humildade, 5–6.

Lembra-te de que «Deus resiste aos soberbos e dá a graça aos humildes» (Tg 4,6). Tem presente a palavra do Senhor: «Quem se exaltar será humilhado e quem se humilhar será exaltado» (Mt 23,12). Se achas que tens alguma coisa boa, reconhece-a, mas sem esquecer as tuas faltas; não te engrandeças com o bem que hoje fizeste, nem esqueças o mal recente ou passado; se o presente é para ti motivo de glória, lembra-te do passado e assim destruirás esse estúpido abcesso! Se vires o teu próximo pecar, não consideres mais do que a falta que ele cometeu e pensa também no bem que faz ou fez; se examinares o conjunto da tua vida e não te prenderes a coisas fragmentárias, descobrirás muitas vezes que é melhor do que tu; é que é assim que Deus examina o homem. Lembremo-nos disso muitas vezes, para nos preservarmos do orgulho, abaixando-nos, para sermos elevados.

Acabado de nascer, ei-Lo numa gruta, deitado, não num berço, mas numa manjedoura. Na casa de um artesão e de uma mãe sem recursos, é submisso à Sua mãe e ao esposo desta. Deixou-Se ensinar, ouvindo aqueles dos quais não tinha a menor precisão, interrogando-os de tal maneira que os deixou espantados com a Sua sabedoria. Submete-Se a João e o Senhor recebe o batismo das mãos do servo. Nunca opôs resistência aos que O atacavam, nem recorreu ao Seu poder invencível para se libertar das mãos que O prendiam, antes Se deixou levar como que impotente, e na medida em que tal Lhe pareceu adequado, concedeu poder sobre Si a um poder efêmero. Compareceu perante o sumo sacerdote na qualidade de acusado; levado à presença do governador, submeteu-Se ao juízo deste, e podendo perfeitamente responder aos caluniadores, sofreu as calúnias em silêncio. Coberto de escarros por escravos e servos indignos, foi por fim entregue à morte, a uma morte infamante aos olhos dos homens. E foi assim que decorreu a Sua vida desde o nascimento até ao fim.

Mas, depois de tal aniquilamento, fez resplandecer a sua glória, glorificando com Ele os que com Ele tinham sido desprezados. Tais eram, com efeito, os seus primeiros discípulos, que, pobres e nus, percorreram o universo sem palavras de sabedoria nem séquitos faustosos, mas sós, errantes e sofredores, vagabundos por terra e por mar, vergastados, apedrejados, perseguidos e, finalmente, levados à morte. Tais são os divinos ensinamentos do nosso Pai. Imitemo-los, para chegarmos, também nós, à glória eterna, ao perfeito e verdadeiro dom de Cristo.

Nota editorial: Foram reunidas a exortação à humildade e a descrição do abaixamento de Cristo, sem repetir a conclusão. Corrigiu-se a referência do primeiro versículo de Jo 4,6 para Tg 4,6.

Voltar ao sumário

O amor de Deus e a gratidão

«Desenvolver em nós o germe do amor»

São Basílio, o Grande — Grandes Regras monásticas, questão 2.

O amor de Deus não se ensina. Ninguém nos ensinou a apreciar a luz ou a valorizar a vida acima de tudo, nem a amar aqueles que nos deram à luz ou nos criaram. Da mesma forma, ou melhor, com mais razão ainda, não é um ensinamento exterior que nos ensina a amar a Deus. Na própria natureza do ser vivo – e refiro-me ao ser humano – existe um germe que contém em si o princípio dessa capacidade de amar.

É à escola dos mandamentos de Deus que cabe acolher este germe, cultivá-lo com diligência, alimentá-lo cuidadosamente e levá-lo à perfeição através da graça divina. Na medida em que o Espírito Santo nos ajudar, esforçar-nos-emos, com a ajuda de Deus e das vossas orações, por acender a centelha do amor divino que está escondida em vós. […]

Vivemos santamente na virtude usando leal e adequadamente essas faculdades; pelo contrário, desviando-as do seu fim, somos arrastados para o mal. Esta é, de facto, a definição do vício: o uso abusivo, contrário aos mandamentos do Senhor, das faculdades que Deus nos deu para o bem; e esta é, consequentemente, a definição da virtude que Deus exige de nós: o uso consciente dessas faculdades de acordo com os mandamentos do Senhor.

Assim sendo, diremos o mesmo da caridade: tendo recebido de Deus o mandamento do amor, possuímos imediatamente, desde a nossa origem, a faculdade natural de amar.

Voltar ao sumário

Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração

São Basílio, o Grande — Grandes Regras monásticas, questão 2.

Recebemos de Deus a tendência natural para fazer o que Ele nos manda, de maneira que não podemos insurgir-nos, como se Ele nos pedisse uma coisa extraordinária, nem orgulhar-nos, como se déssemos mais do que aquilo que nos é dado. […] Ao recebermos de Deus o mandamento do amor, possuímos imediatamente, desde a nossa origem, a faculdade natural de amar. Não foi a partir do exterior que fomos por ela enformados; e isto é evidente, porque procuramos naturalmente aquilo que é belo […]; sem que no-lo ensinem, amamos aqueles que nos são aparentados, pelos laços do sangue ou de uma qualquer aliança; enfim, de boa vontade damos provas de benevolência aos nossos benfeitores.

Ora, haverá coisa mais admirável do que a beleza de Deus? […] Haverá desejo mais ardente do que a sede provocada por Deus na alma purificada, que exclama com emoção sincera: «Desfaleço de amor» (Cant 2, 5)? […] Esta bondade é invisível aos olhos do corpo, só podendo ser captada pela alma e pela inteligência; sempre que iluminou os santos, deixou neles o aguilhão de um grande desejo, a ponto de eles exclamarem: «Ai de mim, que vivo no exílio» (Sl 119, 5), «Quando poderei eu chegar, para contemplar a face de Deus?» (Sl 41,3), «Desejo partir para estar com Cristo» (Fil 1, 23) e «A minha alma tem sede do Senhor, do Deus vivo» (Sl 41, 3). […] Assim, pois, os homens aspiram naturalmente ao belo. Mas aquilo que é bom é também supremamente amável; ora, Deus é bom; portanto, se todas as coisas procuram o que é bom, todas as coisas procuram a Deus. […]

Se o afeto dos filhos pelos pais é um sentimento natural, que se manifesta no instinto dos animais e na disposição dos homens para amarem sua mãe desde tenra idade, não sejamos menos inteligentes do que as crianças, nem mais estúpidos do que os animais: não nos apresentemos diante de Deus que nos criou como estranhos sem amor. Mesmo que não tivéssemos compreendido, pela sua bondade, quem Ele é, devíamos ainda assim, apenas pelo fato de termos sido criados por Ele, amá-l’O acima de tudo, e permanecer ligados à memória do que Ele é, como as crianças permanecem ligadas à memória de sua mãe.

Voltar ao sumário

Deus não abandona a sua criatura

São Basílio, o Grande — Grandes Regras monásticas, questão 2.

Deus tinha criado o homem à sua imagem e semelhança (cf Gn 1,26), e havia-o julgado digno de O conhecer, pois estava acima de todos os animais devido ao dom da inteligência, fora criado no gozo das incomparáveis delícias do Paraíso e fora feito senhor de tudo o que havia à face da Terra. Mas, ao vê-lo cair no pecado, instigado pela serpente, e, pelo pecado, na morte e no sofrimento que a ela conduzem, não o rejeitou. Pelo contrário, deu-lhe desde logo o auxílio da sua Lei; designou anjos para o guardarem e cuidarem dele; enviou profetas para lhe reprovarem a maldade e lhe ensinarem a virtude […].

E quando, apesar destas graças e de muitas outras, os homens persistiram na desobediência, não Se afastou deles. Tendo nós ofendido o nosso benfeitor e mostrado indiferença pelos sinais da sua proteção, não fomos abandonados pela bondade do Senhor nem obliterados do seu amor, antes fomos subtraídos à morte e devolvidos à vida por Nosso Senhor Jesus Cristo; e a maneira como fomos salvos é digna de uma admiração maior ainda: «Ele, que é de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas despojou-Se a Si próprio, tomando a condição de servo» (Fl 2,6-7). «Ele tomou sobre Si as nossas doenças, carregou as nossas dores, […] foi ferido […]» para nos salvar pelas suas chagas (Is 53,4-5). Ele «resgatou-nos da maldição da Lei, ao fazer-Se maldição por nós» (Gl 3,13) e sofreu a mais infamante morte para nos conduzir à vida da glória.

E não Lhe bastou devolver à vida aqueles que estavam na morte; também os revestiu da dignidade divina e lhes preparou no repouso eterno uma felicidade que ultrapassa toda a imaginação humana. «Como hei de retribuir ao Senhor todos os seus benefícios para comigo?» (Sl 115,12), como retribuiremos tudo o que Ele nos deu? Ele é tão bom que nada pede em compensação por tantas graças: contenta-Se em ser amado.

Voltar ao sumário

A caridade e o uso dos bens

Ser rico aos olhos de Deus

São Basílio, o Grande — Homilia 6, sobre as riquezas (Destruirei os meus celeiros), excertos; PG 31, 261ss.

«Que hei-de fazer? Vou aumentar os meus celeiros!» Porque eram as terras deste homem tão produtivas, se ele fazia tão mau uso da sua riqueza? É para mais intensamente se ver a manifestação da imensa bondade de um Deus que estende a Sua graça a todos, «pois Ele faz que o sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores» (Mt 5,45). […] Eram estes os benefícios de Deus para com este rico: uma terra fecunda, um clima temperado, abundantes colheitas, bois para o trabalho, e tudo o que assegurasse a prosperidade. E ele, que dava em troca? Mau humor, taciturnidade e egoísmo. Era assim que agradecia ao seu benfeitor.

Esquecia que pertencemos todos à mesma natureza humana; não pensou que devia distribuir o que lhe sobrava aos pobres; não fez nenhum caso destes mandamentos divinos: «não negues um benefício a quem precisa dele, se estiver nas tuas mãos concedê-lo» (Prov 3,27), «não se afastem de ti a bondade e a fidelidade» (3,3), «partilha o teu pão com quem tem fome» (Is 58,7). Todos os profetas, todos os sábios lhe gritavam estes preceitos, mas ele fazia ouvidos de mercador. Os seus celeiros rachavam, muito pequenos para o trigo que lá se acumulava, mas o seu coração não estava satisfeito. […] Ele não queria desfazer-se de nada, mesmo não chegando a armazenar tudo. Este problema incomodava-o: «Que hei-de fazer?» perguntava constantemente. Quem não teria piedade de um homem assim obcecado? A abundância tornava-o infeliz […]; lamentava-se tal e qual como os indigentes: «Que hei-de fazer? Como hei-de alimentar-me, vestir-me?» […]

Considera, homem, quem te cumulou com a sua generosidade. Reflete um pouco sobre ti mesmo: quem és tu? O que te foi confiado? De quem recebeste esse cargo? Porque foste tu escolhido, em detrimento de muitos outros? O Deus de bondade fez de ti seu administrador; és responsável pelos teus companheiros de trabalho: não penses que tudo foi preparado apenas para ti! Dispõe dos bens que possuis como se eles pertencessem aos outros. O prazer que eles te proporcionam dura pouco, em breve te escaparão e desaparecerão, mas ser-te-ão pedidas contas rigorosas. Ora, tu guardas tudo, tens portas e fechaduras bem cerradas; e embora tenhas tudo muito bem fechado, a ansiedade impede-te de dormir. […]

«Que hei-de fazer?» Há uma resposta imediata: «Satisfarei as almas dos esfomeados; abrirei os meus celeiros e convidarei todos os que passam necessidades. […] Farei ouvir uma palavra generosa: vós, a quem falta o pão, vinde a mim; tomai a vossa parte, de acordo com as vossas necessidades, dos dons concedidos por Deus que jorram como que de uma fonte pública.» Mas tu, homem rico, insensato, estás bem longe disso! Por que razão? Ciumento de veres os outros gozarem de riquezas, entregas-te a cálculos miseráveis, não te preocupas em distribuir a cada um o indispensável, mas em tudo amealhar, privando os outros dos benefícios de que poderiam usufruir. […]

Nota editorial: As duas versões foram reunidas, conservando a descrição dos dons de Deus, da avareza e da responsabilidade pelos bens. O convite para abrir os celeiros aos pobres aparece uma única vez; a imagem da terra fecunda encontra-se na seleção seguinte.

Voltar ao sumário

Deu fruto cem por um

São Basílio, o Grande — Homilia 6, sobre as riquezas; PG 31, 262ss.

Tu és um servo do Deus santo, um gestor para benefício dos teus companheiros de serviço. Não penses que todos os bens que possuis se destinam ao teu consumo. […] Imita a terra, homem: dá frutos como ela; não sejas mais duro que a matéria inanimada. A terra não amadurece os seus frutos para usufruir deles, mas para te ser útil. Além de que és tu que recolhes os frutos da tua generosidade, porque a recompensa pelas boas ações recai sobre aqueles que as praticam: se deste de comer ao faminto, aquilo que deste volta para ti com juros.

Assim como o grão lançado à terra dá frutos para o semeador, também o pão estendido ao faminto te dará, mais tarde, um lucro imenso. Assim pois, o tempo das colheitas na Terra é tempo para semeares no alto: «Fazei sementeiras de justiça» (Os 10,12). Porque te preocupas? Para quê essa inquietação e essa pressa em encerrar o teu tesouro dentro da argamassa e dos tijolos? «O bom nome é mais desejável que as muitas riquezas» (Pr 22,1).

Voltar ao sumário

«Construir outros celeiros»

São Basílio, o Grande — Homilia 6, sobre as riquezas.

«Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma. O que preparaste, para quem será?». A conduta deste homem é tanto mais ridícula quanto o castigo eterno será rigoroso. Com efeito, que projetos abriga no seu espírito este homem que em breve vai partir deste mundo? «Deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores». Eu dir-lhe-ia de bom grado: fazes bem, demolindo os celeiros da injustiça e destruindo com as tuas próprias mãos o que construíste de maneira desonesta. Deita por terra as reservas desse trigo que nunca saciou ninguém e arrasa os silos que guardam a tua avareza. Arranca-lhes os tetos, derruba-lhes as paredes e expõe à luz do sol esse trigo cheio de mofo libertando da sua prisão as riquezas que permaneciam cativas. […]

«Deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores». E, uma vez que tenhas voltado a atafulhá-los, o que farás? Demoli-los-ás para construíres outros ainda maiores? Haverá maior insensatez do que atormentar-se sem fim, construindo obstinadamente para depois demolir? Se quiseres, os teus celeiros podem ser casas para os pobres: acumula tesouros no Céu, pois a traça e a ferrugem não corroem o que neles for armazenado e os ladrões não os arrombam nem furtam (cf Mt 6,20).

Voltar ao sumário

«Não acumuleis tesouros na terra»

São Basílio, o Grande — Homilia sobre a caridade, conforme o acervo: PG 31, 266–267; 275.

Por que te atormentas e fazes tantos esforços para colocar a tua riqueza em segurança atrás de cimento e de tijolos? «Vale mais o bom nome que grandes riquezas» (Pr 22,1). Gostas do dinheiro por causa da consideração que te granjeia. Imagina só quanto maior será a tua fama se te puderem chamar pai e protetor de milhares de crianças, em vez de guardares milhares de moedas de ouro em sacos. Quer queiras, quer não, um dia terás mesmo de deixar cá o teu dinheiro; pelo contrário, a glória de todo o bem que tiveres feito, levá-la-ás contigo à presença do supremo Mestre, enquanto todo um povo, defendendo-te insistentemente diante do juiz comum, te atribuirá nomes que dirão que o alimentaste, o assististe, que foste bom para ele.

Como deverias estar reconhecido, feliz e orgulhoso da honra que te é dada: não és tu que tens de ir importunar os outros à sua porta, são os outros que correm para a tua. Mas nesse momento ficas sombrio, tornas-te inacessível, evitas os encontros, com medo de teres de deixar um pouco daquilo que tão ciosamente guardas. E só dizes uma coisa: «Não tenho nada, não vos vou dar nada porque sou pobre.» És na realidade pobre, e pobre de todo o bem: pobre de amor, pobre de bondade, pobre de confiança em Deus, pobre de esperança eterna.

Voltar ao sumário

«Ao ouvir estas palavras, […] retirou-se pesaroso.»

São Basílio, o Grande — Homilia 7, sobre a riqueza; PG 31, 278.

O caso do jovem rico e dos seus semelhantes faz-me pensar no de um viajante que, pretendendo visitar uma cidade, ao aproximar-se das suas muralhas, depara com uma estalagem, hospeda-se nela e, desencorajado pelos últimos passos que ainda lhe falta dar, perde o benefício das fadigas da viagem e acaba por não ir visitar as belezas da dita cidade. Assim são os que cumprem os mandamentos mas se revoltam com a ideia de perderem os seus bens. Conheço muitos que jejuam, rezam, fazem penitência e praticam todo o tipo de obras de caridade, mas não dão uma esmola aos pobres. De que lhes servem as outras virtudes?

Eles não entrarão no Reino dos Céus porque «é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus». São palavras claras e o seu Autor não mente, mas raros são aqueles que se deixam tocar por elas. «Como viveremos quando estivermos despojados de tudo?» exclamam. «Que existência levaremos quando tudo for vendido e já não tivermos propriedades?» Não me perguntem qual é o desígnio profundo que está subjacente aos mandamentos de Deus. Aquele que estabeleceu as nossas leis conhece igualmente a arte de conciliar o impossível com a lei.

Voltar ao sumário

O Espírito Santo e o batismo

Ser uma alma plenamente espiritual

São Basílio, o Grande — Tratado sobre o Espírito Santo, IX, 22–23; PG 32, 107B–110C, conforme a referência do fragmento entregue.

Para o Espírito se voltam todos os que necessitam de santificação, para Ele se dirige o desejo de todos os que vivem segundo a virtude e que são, por assim dizer, revigorados pelo seu sopro, auxiliados na busca do fim que é conforme à sua natureza. […]

Purificar-se da fealdade adquirida pelos vícios, regressar à beleza da própria natureza, restituir, por assim dizer, a imagem real à sua forma original através da pureza é o único caminho para uma alma se aproximar do Espírito Santo. Ele, como o Sol que alcança um olhar puríssimo, mostrará em Si mesmo a imagem do invisível; e, na bem-aventurada contemplação da Imagem, verás a inefável beleza do Arquétipo.

Por meio dele, os corações são elevados, os fracos são guiados pela mão e os que progridem tornam-se perfeitos. É Ele que ilumina os purificados de toda a impureza e os torna «espirituais» pela comunhão com Ele. Assim como os corpos claros e transparentes cintilam quando são tocados por um raio de luz e eles próprios difundem outro brilho, assim também as almas que transportam o Espírito, iluminadas por Ele, tornam-se plenamente «espirituais» e difundem a graça aos outros.

Voltar ao sumário

A água, o sangue e o Espírito: figuras do batismo

São Basílio, o Grande — Tratado sobre o Espírito Santo, XIV.

A imagem é uma forma de mostrar, por analogia, as coisas que esperamos. Por exemplo, Adão é a prefiguração do Adão que havia de vir (cf 1Cor 15,45) e a pedra [no deserto, durante o Êxodo] prefigura Cristo; a água que jorra da pedra é imagem do poder vivificante do Verbo (cf Ex 17,6; 1Cor 10,4), pois Ele disse: «Se alguém tem sede, venha a Mim e beba» (Jo 7,37); o maná é a prefiguração do «pão vivo que desceu do Céu» (Jo 6,51); e a serpente colocada num poste é figura da Paixão, da nossa salvação consumada na cruz, pois quem olhasse para ela era salvo (cf Nm 21,9). Do mesmo modo, o que a Escritura diz sobre a saída dos israelitas do Egito foi narrado como prefiguração daqueles que se salvam através do batismo; pois os primogénitos dos israelitas foram salvos […] pela graça dada àqueles que tinham sido marcados com o sangue do cordeiro pascal, e esse sangue prefigurava o sangue de Cristo. […]

Nesses tempos, o mar e a nuvem (cf Ex 14) conduziam à fé pela admiração; mas, em relação ao futuro, prefiguravam a graça que estava para vir. «Aquele que for sábio refletirá em tudo isto e compreenderá o amor do Senhor» (Sl 107,43). Compreenderá que o mar, prefigurando o batismo, separava os judeus do faraó, tal como o batismo nos faz escapar à tirania do diabo. Outrora, o mar afogou o inimigo; hoje, morre a inimizade que nos separava de Deus. O povo saiu do mar são e salvo; e nós elevamo-nos das águas, como se ressuscitássemos de entre os mortos, salvos pela graça daquele que nos chamou. Por sua vez, a nuvem era a sombra do dom do Espírito, que refresca os nossos membros, apagando a chama das paixões.

Voltar ao sumário

A vida como oração

Fazer da vida uma oração incessante

São Basílio, o Grande — Homilia sobre a mártir Julita (Homilia 5), excerto sobre a oração.

Não podemos limitar a oração a pedidos em palavras. Com efeito, Deus não precisa apenas que Lhe façam discursos; mesmo que nada Lhe peçamos, sabe aquilo de que precisamos. O que dizer? A oração não consiste em fórmulas; antes abarca a vida toda. «Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus», diz o apóstolo Paulo (1Cor 10,31). Estás à mesa? Reza: ao pegar no pão, agradece Àquele que to concede; ao beber o vinho, lembra-te daquele que te proporcionou este dom, para te alegrar o coração e te consolar das tristezas. Terminada a refeição, não te esqueças de te recordar do teu benfeitor. Quando vestes a túnica, agradece Àquele que ta deu; quando vestes a capa, testemunha o teu afeto a Deus, que nos proporciona vestes adequadas ao inverno e ao verão, para nos proteger a vida.

Terminado o dia, agradece Àquele que te deu o sol para os trabalhos da jornada e o fogo para te iluminar o escuro e prover às tuas necessidades. A noite dá-te motivos de ação de graças; olhando o céu e contemplando a beleza das estrelas, reza ao Senhor do universo, que fez todas as coisas com tal sabedoria. Quando vês a natureza adormecida, adora Aquele que, por meio do sono, nos reconforta de todas as fadigas e nos devolve, através do repouso, o vigor das forças.

Deste modo, rezarás sem descanso, se a tua oração não se limitar a fórmulas, mas pelo contrário te mantiveres unido a Deus no decurso de toda a tua existência, de maneira a fazeres da vida uma oração incessante.

Nota editorial: O excerto pertence à homilia sobre a mártir Julita, n.º 5 da coleção de homilias. Corrigiu-se a indicação «Homilia sobre a humildade» presente numa das versões.

Voltar ao sumário

A alegria do nascimento de Cristo

O nascimento do Salvador: morte da morte

São Basílio, o Grande — Homilia sobre o nascimento de Cristo, 2 e 6; PG 31, 1459ss.; transmitida sob o nome de Basílio.

Deus na terra, Deus entre os homens!

Já não é Aquele que dá a sua Lei no meio dos relâmpagos, ao som da trombeta, no alto da montanha fumegante, na obscuridade de uma trovoada aterradora (Ex 19,18), mas Aquele que se relaciona com doçura e bondade, num corpo humano, com os seus irmãos. Deus na nossa carne! Já não é Aquele que age apenas em alguns momentos, como fazia com os profetas, mas Aquele que assume plenamente a natureza humana e que, pela sua carne que é a nossa carne, eleva a Si todos os homens.

Como foi que a luz veio a todos por um só? De que maneira está a divindade na carne? Está como o fogo no ferro […]: permanecendo no seu lugar, o fogo comunica ao ferro o seu ardor próprio; e, sem ficar diminuído, enche por completo o ferro ao qual se comunica. Da mesma forma, Deus, o Verbo que «habitou entre nós», não saiu de Si mesmo; o Verbo que Se fez carne não Se submeteu à mudança; o Céu não ficou privado daquele que o continha e a terra acolheu Aquele que está no Céu. […]

Entra plenamente neste mistério: Deus veio à carne para matar a morte que nela se escondia. Assim como os medicamentos nos curam logo que são assimilados pelo corpo, assim como a obscuridade que reina numa casa se dissipa quando a luz lá entra, assim também a morte que nos tinha em seu poder foi anulada pela vinda do nosso Deus. Assim como o gelo formado durante a noite se funde sob o calor dos raios solares, assim também a morte reinou até à manifestação de Cristo. Mas logo que o Sol de justiça se elevou (Mal 3,20), «a morte foi absorvida pela vitória» (1Cor 15,54), pois não podia suportar a presença da verdadeira vida. […] Demos glória com os pastores, dancemos em coro com os anjos «pois um Salvador nos nasceu hoje, que é Cristo Senhor» (Lc 2, 11). […] Festejemos a salvação do mundo, o dia do nascimento de toda a humanidade.

«O Senhor é Deus; Ele tem-nos iluminado» [Sl 118 (117), 27], não sob a Sua aparência de Deus, para não assustar a nossa fraqueza, mas sob a forma de um servo, a fim de conferir a liberdade àqueles que estavam condenados à servidão. Quem teria o coração suficientemente adormecido e indiferente para não exultar de alegria, para não irradiar felicidade, perante este acontecimento? É uma festa comum a toda a Criação. Todos devem contribuir para ela, ninguém se deve mostrar ingrato. Elevemos nós também a voz para cantar o nosso júbilo!

Nota editorial: As versões da homilia natalícia foram reunidas, conservando o apelo final à alegria. Esta homilia é transmitida sob o nome de Basílio; a atribuição foi questionada na história editorial, e aqui se mantém essa ressalva.

Voltar ao sumário

Contemplar a glória do Filho Unigênito

São Basílio, o Grande — Homilia sobre o nascimento de Cristo; PG 31, 1471ss.; tradução de Bouchet, Lectionnaire, p. 62, indicada por uma das versões; transmitida sob o nome de Basílio.

«Ao ver a estrela, os magos sentiram uma grande alegria» (Mt 2,10). Também nós acolhemos essa grande alegria nos nossos corações, a mesma alegria que os anjos anunciam aos pastores. Adoremos com os magos, demos glória com os pastores, cantemos com os anjos: «Nasceu-nos um Salvador, que é o Messias Senhor; o Senhor Deus apareceu-nos». […]

Esta festa é comum a toda a criação: as estrelas correm no céu, os magos chegam de países pagãos, a Terra recebe-a numa gruta. Não há nada que não contribua para esta festa, nada que não chegue lá com as mãos cheias. Façamos nascer em nós um canto de alegria […]; festejemos a salvação do mundo, o dia do nascimento da humanidade. Hoje foi abolida a condenação que afligia Adão. Que nunca mais se diga: «Tu és pó e em pó te hás de tornar» (Gn 3,19) mas: «Unido Àquele que desceu do Céu serás exaltado no Céu». […]

«Nasceu-nos um menino, um filho nos foi dado, eterno é o seu poderio» (Is 9,5). […] Que abismo de bondade e de amor pelos homens! Une-te pois àqueles que, na alegria, recebem o seu Senhor que desce do Céu e adoram o Grande Deus neste Menino. O poder de Deus manifesta-se neste corpo como a luz através das janelas, e resplandece aos olhos dos que têm um coração puro (Mt 5,8). Com eles, poderemos então, «de rosto descoberto, contemplar, como num espelho, a glória do Senhor, e sermos nós próprios transfigurados de glória em glória» (2Cor 3,18), pela graça de Nosso Senhor Jesus Cristo e pelo seu amor pelos homens.

Nota editorial: Versões repetidas reunidas. Trata-se de outra passagem da mesma homilia natalícia transmitida sob o nome de Basílio, com a ressalva de atribuição indicada na seleção anterior.

Voltar ao sumário

Complemento: a tradição litúrgica de São Basílio

Os textos seguintes pertencem à tradição celebrativa da Igreja. A designação litúrgica «de São Basílio» é preservada, sem equiparar todas as fórmulas transmitidas a homilias de autoria individual.

Oração eucarística: criação e salvação

Tradição litúrgica — Divina Liturgia de São Basílio, oração eucarística, primeira parte, excerto.

Santo, santo, Tu és verdadeiramente santo, Senhor nosso Deus, e não há limite para a grandeza da Tua santidade: Tu dispuseste todas as coisas com correcção e justeza. Modelaste o homem com o barro da terra, honraste-o com a imagem do próprio Deus, colocaste-o num paraíso de delícias, prometendo-lhe – se observasse os mandamentos – a imortalidade e o gozo dos bens eternos. Mas ele transgrediu os Teus mandamentos, Deus verdadeiro, e, seduzido pela malícia da serpente, vítima do seu próprio pecado, submeteu-se à morte. Pelo Teu justo juízo, foi expulso do Paraíso para este mundo, reenviado para a terra de onde havia sido tirado.

Mas Tu dispuseste para ele, no Teu Cristo, a salvação pelo novo nascimento, pois não rejeitaste para sempre a criatura que havias criado na Tua bondade; velaste por ela de muitas maneiras, na grandeza da Tua misericórdia. Enviaste profetas, fizeste milagres pelos santos que, em cada geração, Te foram agradáveis; deste-nos a Lei para nos socorrer; estabeleceste os anjos, para nos guardarem.

E, ao chegar a plenitude dos tempos, falaste-nos no Teu único Filho, por Quem criaste o universo; Ele que é o esplendor da Tua glória e a imagem da Tua natureza; Ele que tudo realiza pelo poder da Sua palavra; Ele, que não preservou ciosamente a Sua igualdade com Deus mas, sendo Deus desde toda a eternidade, veio à terra, viveu com os homens, tomou carne na Virgem Maria, aceitou a condição de escravo, assumiu o nosso corpo miserável, para nos tornar conformes ao Seu corpo de glória (Heb 1, 2-3; Fil 2, 6-7; 3, 21).

E, como foi pelo homem que o pecado entrou no mundo – e, pelo pecado, a morte –, agradou ao Filho único, a Ele que Se encontrava eternamente no Teu seio, ó Pai, mas que nasceu de mulher, condenar o pecado na Sua carne, a fim de que aqueles que haviam morrido em Adão tivessem a plenitude da vida em Cristo (Rom 5, 12; 8, 3). Enquanto viveu neste mundo, Ele deu-nos preceitos de salvação, desviou-nos do erro dos ídolos, levando-nos a conhecer-Te, a Ti, Deus verdadeiro. Desse modo, conquistou-nos para Si como povo escolhido, sacerdócio real, nação santa (1 Ped 2, 9).

Nota editorial: Excerto da tradição litúrgica que leva o nome de São Basílio. Na frase sobre a vinda do Filho, distingue-se a sua existência eterna da sua manifestação na terra.

Voltar ao sumário

Oração eucarística: memória, invocação e comunhão

Tradição litúrgica — Divina Liturgia de São Basílio, oração eucarística, segunda parte, excerto.

«Fazei isto em memória de Mim. Todas as vezes que comerdes deste pão e que beberdes deste cálice anunciareis a Minha morte, confessareis a Minha ressurreição.» Fazemos, pois, memória do Senhor, dos sofrimentos salvíficos de Cristo, da Sua cruz vivificante, do Seu enterramento durante três dias, da Sua ressurreição de entre os mortos, da Sua ascensão ao céu, da Sua presença à Tua direita, ó Pai, e da Sua segunda vinda, glorioso e temível, oferecendo-Te, daquilo que Te pertence, estas coisas que são Tuas.

Em tudo e por tudo Te cantamos, Te bendizemos, Te damos graças, Senhor, e Te suplicamos, a Ti, nosso Deus. Foi por isso, Mestre santíssimo, que fomos considerados dignos de servir no Teu santíssimo altar, não pela nossa justiça, porque nada fizemos de bom nesta terra; mas, por causa da Tua bondade e da Tua misericórdia superabundante, ousamos aproximar-nos do Teu altar, oferecer o sacramento do santíssimo corpo e do sangue sagrado do Teu Cristo. Pedimos-Te e invocamos-Te, ó Santo dos Santos: que, pela Tua bondade e benevolência, o teu Espírito Santo desça sobre nós e sobre os dons aqui presentes, que os abençoe e os santifique, que consagre este pão ao precioso corpo de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (o diácono responde: Ámen) e este cálice ao precioso sangue de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (o diácono responde: Ámen), derramado pela vida do mundo (o diácono responde: Ámen).

Que todos nós, que participamos no único pão e no único cálice, estejamos unidos uns aos outros na comunhão do único Espírito Santo, e que nenhum de nós participe no corpo santo e no sangue sagrado do Teu Cristo para seu juízo e sua condenação, mas que encontremos piedade e graça, com todos os santos que, desde o começo, Te foram agradáveis. […] E concede-nos glorificar e aclamar, a uma só voz e com um só coração, o Teu nome adorável e maravilhoso: Pai, Filho e Espírito Santo, agora e para sempre, pelos séculos dos séculos. Ámen.

Voltar ao sumário

Grande litania da paz e litania da comunhão

Tradição litúrgica — Divinas Liturgias eucarísticas de São João Crisóstomo e de São Basílio, litanias, excertos.

Diácono: Em paz, oremos ao Senhor.

Todos: Kyrie, eleison.

Pela paz que vem do alto e pela salvação das nossas almas, oremos ao Senhor.

Kyrie, eleison.

Pela paz do mundo inteiro, pela estabilidade das santas Igrejas de Deus e pela união de todos, oremos ao Senhor.

Kyrie, eleison.

Por este santo templo e por aqueles que nele entram com fé, piedade e temor a Deus, oremos ao Senhor.

Kyrie, eleison.

Pelo nosso pai e bem-aventurado patriarca N., nosso bispo N., pela venerável ordem dos sacerdotes, pelo diaconado em Cristo, por todo o clero e pelo povo, oremos ao Senhor.

Kyrie, eleison.

Pelo nosso país e pelos que o governam, e em particular pelos servos de Deus N. e N., oremos ao Senhor.

Kyrie, eleison.

Por esta nossa cidade (ou «nossa vila», «nossa aldeia» ou «nosso santo mosteiro»), por todas as cidades, vilas e aldeias e pelos fiéis que nelas residem, oremos ao Senhor.

Kyrie, eleison.

Pela vinda de um tempo favorável, pela abundância dos frutos da terra e por dias de paz, oremos ao Senhor.

Kyrie, eleison.

Pelos que andam e trabalham no mar ou nos ares, pelos viajantes, pelos doentes, pelos aflitos, pelos que estão detidos, por todos os que sofrem e pela salvação de todos, oremos ao Senhor.

Kyrie, eleison.

Para que sejamos libertos de todas as aflições, da cólera, do perigo e da necessidade, oremos ao Senhor.

Kyrie, eleison.

Socorre-nos, salva-nos, tem piedade de nós e protege-nos, Senhor, com a Tua graça.

Kyrie eleison.

Invocando todos os santos, ainda e novamente em paz, oremos ao Senhor.

Kyrie, eleison. […]

Que este dia seja perfeito, santo, pacífico e sem pecado, peçamos ao Senhor.

Concede-o, Senhor.

Um anjo de paz, guia fiel, guardião das nossas almas e corpos, peçamos ao Senhor.

Concede-o, Senhor.

O perdão e a remissão pelos nossos pecados e transgressões, peçamos ao Senhor.

Concede-o, Senhor.

Tudo o que for bom e proveitoso às nossas almas e a paz para o mundo, peçamos ao Senhor.

Concede-o, Senhor.

A graça de passarmos o resto das nossas vidas na paz e na penitência, peçamos ao Senhor.

Concede-o, Senhor.

Um fim de vida cristão, sem dor, vergonha, pleno de paz, e a nossa justificação face ao Seu temível trono de Juiz, peçamos ao Senhor.

Concede-o, Senhor.

Suplicando a unidade da fé e a comunhão do Santo Espírito, recomendemo-nos mutuamente uns aos outros, e confiemos toda a nossa vida a Cristo, nosso Deus.

A Ti, Senhor.

Nota editorial: Texto litúrgico comum às celebrações associadas a São João Crisóstomo e a São Basílio. É conservado como complemento litúrgico, sem atribuição exclusiva de autoria a Basílio.

Voltar ao sumário

Fontes e critérios da seleção

As traduções portuguesas reproduzem os fragmentos entregues à edição e o acervo Sophia, que indica principalmente Evangelho Cotidiano ou Evangelho Quotidiano como fonte. Esta antologia não é uma nova tradução. Os sinais […] e […] indicam omissões dos excertos.

PG designa Patrologia Graeca. Mantiveram-se as referências das versões utilizadas, com os ajustes e as ressalvas indicados nas notas. O texto sobre oração foi identificado na homilia sobre Julita; as passagens natalícias são mantidas como transmitidas sob o nome de Basílio.

Para conferência: Tratado sobre o Espírito Santo, capítulos IX e XIV; Hexâmeron, homilia V, 6; referência e excerto da homilia sobre Julita; Divina Liturgia de São Basílio.

As correspondências com as publicações anteriores permanecem no registro editorial interno. A leitura desta antologia não depende de links para posts individuais.

Organização editorial preparada em 15 de outubro de 2026.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *