Esta antologia reúne homilias e reflexões de São Cesário de Arles sobre o seguimento de Cristo, a escuta das Escrituras, a caridade, a misericórdia e a conversão. A humildade e o amor conduzem o percurso, que termina com a leitura espiritual do encontro de Abraão com os três visitantes.
Os fragmentos foram organizados por tema. Os trechos complementares de um mesmo sermão foram reunidos e identificados; as referências das obras acompanham as seleções.
Sumário
- Seguir Cristo
- Escutar a Palavra e cultivar o coração
- A caridade e a misericórdia
- Conversão, perdão e cura
- A fé de Abraão e a presença da Trindade
- Fontes e critérios da seleção
Seguir Cristo
Seguir Cristo pela humildade e pela cruz
São Cesário de Arles — Sermão 159, 1, 4–6; CCL 104, 650, conforme a referência do fragmento entregue.
Quando o Senhor nos diz no evangelho: «Se alguém quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo», achamos que Ele está a mandar-nos fazer uma coisa difícil e a impor-nos um fardo pesado. Mas, se Aquele que manda nos ajudar a realizar aquilo que manda, deixa de ser difícil cumpri-lo. […]
Para onde devemos seguir a Cristo senão para onde Ele foi? Ora, nós sabemos que Ele ressuscitou e subiu aos céus; pois é para aí que temos de O seguir. E não desesperemos, porque, se é verdade que nada podemos por nós mesmos, também é certo que contamos com a promessa de Cristo. O céu estava longe antes de a nossa Cabeça a ele ter ascendido. A partir de agora, nós, que somos membros do corpo ao qual pertence esta Cabeça (cf Col 1,18), porque havemos de desesperar de chegar ao céu? Se temos muitas preocupações e sofrimentos a afligir-nos nesta terra, sigamos a Cristo, em quem se encontram a felicidade perfeita, a paz suprema e a tranquilidade eterna.
Mas o homem que quer seguir a Cristo tem de ouvir estas palavras do apóstolo João: «Aquele que diz que está nele deve também andar como Ele andou» (1Jo 2,6). Queres seguir a Cristo? Sê humilde, como Ele foi humilde. Queres juntar-te a Ele nas alturas? Não desprezes o seu abatimento.
Ao pecar, o homem encheu o seu caminho de obstáculos; mas este ficou facilitado quando Cristo o pisou com a sua ressurreição, transformando um carreiro estreito numa avenida digna de um rei. A humildade e a caridade são os dois pés que permitem percorrê-la rapidamente. Todos os homens são atraídos para as alturas da caridade, mas a humildade é o primeiro degrau que é preciso subir. Porque levantas o pé acima de ti? Afinal queres subir ou queres cair? Começa pelo primeiro degrau, ou seja, pela humildade, e ele te permitirá subir.
Foi por isso que o nosso Senhor e Salvador não Se limitou a dizer: «Renuncie a si mesmo», mas acrescentou: «Tome a sua cruz e siga-Me». Que significa tomar a cruz? Significa aguentar tudo o que é penoso, pois é desse modo que caminharemos atrás de Jesus. Assim que tivermos começado a segui-lo, adaptando-nos à sua vida e aos seus mandamentos, encontraremos no nosso caminho muitas pessoas que nos contradirão, que procurarão desviar-nos, que não se limitarão a troçar de nós, mas nos perseguirão. Essas pessoas não se encontram somente entre os pagãos que estão fora da Igreja; encontram-se até entre os que, vistos do exterior, parecem estar dentro da Igreja. […]
Portanto, se desejas seguir Cristo, toma a tua cruz sem mais demoras e suporta os maus sem te deixares abater. […] «Se alguém quiser seguir-Me […], tome a sua cruz e siga-Me»; se queremos pôr isto em prática, esforcemo-nos, com a ajuda de Deus, por fazer nossas estas palavras do apóstolo Paulo: «Se tivermos que comer e que vestir, estaremos contentes»; pois corremos o perigo de, ao procurar mais bens terrenos do que aqueles de que precisamos, querendo enriquecer, cair na armadilha da tentação, «em ciladas e tentações e em muitos desejos insensatos e funestos, que mergulham os homens na ruína e na perdição» (1Tm 6,8-9). Que o Senhor Se digne tomar-nos sob a sua proteção e livrar-nos desta tentação.
Nota editorial: A introdução já publicada foi completada pelo fragmento entregue à edição, que desenvolve a humildade, a caridade e a perseverança no seguimento de Cristo. As duas partes pertencem ao Sermão 159.
Escutar a Palavra e cultivar o coração
As Escrituras, cartas da nossa pátria
São Cesário de Arles — Sermão 7, excerto.
Prestai atenção, caríssimos irmãos: as Sagradas Escrituras foram-nos transmitidas, por assim dizer, como cartas enviadas da nossa pátria. Com efeito, a nossa pátria é o paraíso; os nossos pais são os patriarcas, os profetas, os apóstolos e os mártires; os nossos concidadãos são os anjos; o nosso Rei é Cristo. Quando Adão pecou, fomos, por assim dizer, lançados no exílio deste mundo. Mas, porque o nosso Rei é fiel e misericordioso, mais do que se possa imaginar ou dizer, dignou-Se enviar-nos, por intermédio dos patriarcas e dos profetas, as Sagradas Escrituras, como cartas pelas quais nos convidava para a nossa eterna e primeira pátria. […] Em razão da sua inefável bondade, convidou-nos a reinar com Ele.
Nessas condições, que ideia farão de si mesmos os servos que […] não se dignam ler as cartas que os convidam para a bem-aventurança do Reino? […] «Aquele que ignora será ignorado» (1Cor 14,38). Na verdade, àquele que negligencia procurar Deus neste mundo pela leitura dos textos sagrados, Deus, por seu lado, recusar-Se-á a admiti-lo à bem-aventurança eterna. Este deve temer que lhe fechem as portas, que o deixem de fora com as virgens loucas (cf Mt 25,10) e que mereça ouvir: «Não sei quem vós sois; não vos conheço; afastai-vos de Mim, vós todos que fizestes o mal». […] Quem quiser ser favoravelmente escutado por Deus deve começar por escutar a Deus. Como terá a veleidade de querer que Deus o escute favoravelmente, se Lhe presta tão pouca atenção que nem se preocupa em ler os seus preceitos?
Preparar a terra do coração para a Palavra
São Cesário de Arles — Sermões ao povo, n.º 6, passim; SC 175.
Irmãos bem amados, quando vos apresentamos uma coisa útil para a vossa alma, que ninguém tente desculpar-se dizendo: «Não tenho tempo para ler, e é por isso que não posso conhecer os mandamentos de Deus nem observá-los». […] Evitemos as vãs tagarelices e as brincadeiras corrosivas […], e veremos se não temos tempo para consagrar à leitura da Sagrada Escritura. […] Quando as noites são mais longas, haverá alguém capaz de tanto dormir, que não possa ler ou ouvir ler as Escrituras? […] Pois a luz da alma e seu alimento eterno é a Palavra de Deus, sem a qual o coração não pode nem viver nem ver. […]
O cuidado da nossa alma é semelhante ao cultivo da terra. Assim como para cultivar a terra se arranca de um lado e se extirpa do outro até à raiz para semear o bom grão, o mesmo se deve fazer à nossa alma: arrancar o que é mau e plantar o que é bom; extirpar o que é prejudicial, transplantar o que é útil; desenraizar o orgulho e plantar a humildade; deitar fora a avareza e guardar a misericórdia; desprezar a imoralidade e amar a castidade. […]
Efetivamente, vós sabeis como se cultiva a terra. Em primeiro lugar, arrancam-se as silvas e atiram-se as pedras para longe, seguidamente lavra-se a própria terra, faz-se o mesmo segunda vez, e terceira, e finalmente […] semeia-se. Que seja assim na nossa alma: em primeiro lugar, arranquemos as silvas, ou seja, os maus pensamentos; seguidamente, retiremos as pedras, isto é, a malícia e a dureza. Por último, lavremos o nosso coração com o arado do Evangelho e a relha da cruz e, quebrado pela penitência, amolecido pela esmola e pela caridade, preparemo-lo para a semente do Senhor […], para que possa receber com alegria a semente da palavra divina e não dar apenas trinta, mas sessenta e cem vezes o seu fruto.
A caridade e a misericórdia
A caridade, riqueza dos pobres e alma das Escrituras
São Cesário de Arles — Sermões ao povo, n.º 23, incluindo §§ 4–5, inspirados em Santo Agostinho; SC 243.
O amor que todos podem viver
Em todas as obras de verdadeira e perfeita caridade de que vos falo, não há nada que tenha de ser feito com as mãos ou os pés; ninguém pode, pois, argumentar que é incapaz ou que está doente. […] Ninguém poderá apresentar desculpas plausíveis para dizer que não é capaz de pôr estes conselhos em prática. Pois ninguém vos diz: «Jejua mais do que podes, permanece acordado toda a noite sem teres forças para tal» […]; ninguém te obriga a vender todos os teus bens para os dares aos pobres, nem a permaneceres virgem. […] Aquele que pode fazer tudo isto deve dar graças a Deus. E se aquele que não pode fazê-lo mantiver uma caridade verdadeira, possuirá tudo, porque o amor basta, mesmo sem todas aquelas boas obras. Pelo contrário, sem o amor, estas boas obras de nada servem. É por isso que vos digo e redigo tudo isto, irmãos caríssimos, para que possais compreender cada vez melhor que ninguém pode afirmar que não é capaz de cumprir os mandamentos de Deus. […]
Mantende, pois, a doce e salutar ligação do amor, sem a qual o rico é pobre e com a qual o pobre é rico. O que possui um rico que não tenha caridade? […] E, uma vez que, como afirma o evangelista, «Deus é amor» (1Jo 4,8), que poderá faltar ao pobre, se tiver caridade e merecer possuir a Deus? […] Amai, pois, irmãos caríssimos, e mantende a caridade, sem a qual ninguém verá jamais a Deus.
A força e os frutos da verdadeira caridade
«Quem observa toda a lei mas falta num só mandamento, torna-se réu de todos os outros» (Tg 2,10). O que é este único preceito, senão o verdadeiro amor, a caridade perfeita? Foi dela que o apóstolo Paulo também disse: «Toda a lei se encerra neste preceito: amarás ao teu próximo como a ti mesmo» (Gal 5,14). […]
Porque a verdadeira caridade é paciente na adversidade e comedida na prosperidade; é forte no sofrimento, alegre nas boas obras, perfeitamente segura na tentação; é suave com os verdadeiros irmãos e paciente com os falsos; é inocente nas armadilhas; chora com a maldade; respira na verdade. É pura em Susana casada, em Ana viúva, em Maria virgem (Dan 13,1ss; Lc 2,36). É humilde na obediência de Pedro e livre na argumentação de Paulo. É humana no testemunho dos cristãos, divina no perdão de Cristo. Porque a verdadeira caridade, queridos irmãos, é a alma das Escrituras, a força da profecia, a moldura do conhecimento, o fruto da fé, a riqueza dos pobres, a vida dos moribundos. Conservai-a, pois, com fidelidade; amai-a com todo o vosso coração e com toda a força do vosso entendimento (cf Mc 12,30).
Nota editorial: São passagens complementares do Sermão 23. Conserva-se a indicação do acervo de que o segundo excerto é inspirado em Santo Agostinho. Uma legenda de imagem foi retirada do corpo do texto.
Encontrar o amor no coração e amar os inimigos
São Cesário de Arles — Sermões ao povo, n.º 37, incluindo § 1; SC 243.
Dar lugar à bondade no coração
Há muitas coisas que não conseguimos realizar fisicamente, pela nossa fraqueza humana; mas, se o desejarmos verdadeiramente, poderemos, com a inspiração de Deus, encontrar amor no nosso coração. Há coisas que não conseguimos tirar do sótão, da adega ou da despensa de nossa casa, mas não temos nenhuma desculpa quando se trata do coração. […]
Ninguém nos diz: «Ide para o Oriente à procura do amor; navegai para Ocidente e encontrareis o amor». Não, ordenam-nos que entremos no interior do nosso coração, de onde a cólera nos faz sair com tanta frequência. Como diz o profeta: «Pecadores, lembrai-vos disto e meditai» (Is 46,8). Não é em países distantes que encontramos o que o Senhor nos pede; Ele envia-nos para dentro de nós mesmos, para o nosso coração, porque colocou em nós o que nos pede. O amor perfeito é a boa vontade da alma; foi acerca dele que os anjos proclamaram aos pastores: «Paz na Terra aos homens de boa vontade» (Lc 2,14). […]
Trabalhemos, pois, com todas as nossas forças e com a ajuda de Deus, para dar o primeiro lugar na nossa alma à bondade e não ao mal, à paciência e não à cólera, à benevolência e não à inveja, à humildade e não ao orgulho. Em suma, que a delicadeza do amor tome de tal modo posse do nosso coração que não deixe espaço para a amargura do rancor.
O mandamento de amar os inimigos
Algum de vós poderá dizer: «Não sou capaz de amar os meus inimigos». Deus diz-te constantemente, nas Escrituras, que és capaz, e tu respondes-Lhe que não és? Reflete comigo: em quem deves acreditar, em Deus ou em ti? Uma vez que Aquele que é a própria Verdade não pode mentir, que a fraqueza humana abandone as suas desculpas fúteis. Aquele que é justo não pode ordenar coisas impossíveis, nem Aquele que é misericordioso condenará um homem por algo que este não era capaz de evitar. Nesse caso, a que se devem as nossas hesitações? Ninguém sabe melhor aquilo de que somos capazes do que Aquele que nos tornou capazes de o realizar. Há tantos homens, tantas mulheres e crianças, tantas jovens delicadas que por amor de Cristo suportaram as chamas, o fogo, o gládio e as feras de forma imperturbável, e nós dizemos que não somos capazes de suportar insultos de gente tola? […]
Se só tivéssemos de amar os bons, que diríamos do comportamento do nosso Deus, sobre quem está escrito: «De tal modo amou Deus o mundo que lhe deu o seu Filho unigénito»? (Jo 3,16) Que bem tinha o mundo feito para que Deus o amasse desta maneira? Cristo nosso Senhor veio encontrar todos os homens, não somente maus, mas mortos pelo pecado original; e contudo, «amou-nos e entregou-Se a Si mesmo por nós» (Ef 5,2). Ou seja, amou também aqueles que não O amavam, como observa o apóstolo Paulo: «Cristo morreu pelos pecadores» (Rom 5,6); e, na sua misericórdia inexprimível, deu este exemplo a todo o género humano: «Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração» (Mt 11,29).
Nota editorial: As duas passagens do Sermão 37 foram reunidas, mantendo a distinção entre a preparação interior e o amor aos inimigos.
A misericórdia na terra e no Céu: dar e perdoar
São Cesário de Arles — Sermão 25, excertos; SC 243; cf. CCL 103, 111–112 para a abertura.
A misericórdia humana e a misericórdia divina
«Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia» (Mt 5,7). A palavra misericórdia é suave, meus irmãos. Se a palavra é suave, quanto mais o facto! […] Dado que todos nós queremos misericórdia, tomemo-la como protetora neste mundo, para que nos liberte no mundo que há de vir. Com efeito, há uma misericórdia no Céu, à qual chegamos por atos de misericórdia na terra. A Escritura diz claramente: «Senhor, a tua misericórdia está no Céu» (Sl 35,6 Vulg).
Portanto, há uma misericórdia na terra e outra no Céu, isto é, uma humana e outra divina. Qual é a misericórdia humana? É inclinares-te sobre a miséria dos pobres. E qual é a misericórdia divina? É, sem dúvida alguma, aquela que concede o perdão dos pecados. Tudo o que a misericórdia humana dá ao longo do caminho desta vida, a misericórdia divina o faz na pátria. Porque é Deus que, neste mundo, sofre frio e fome na pessoa dos pobres, como Ele mesmo disse: «Sempre que fizestes isto a um destes pequeninos foi a Mim que o fizestes» (Mt 25,40). Sim, Deus, que quer dar generosamente do alto do Céu, quer receber na terra.
As duas formas de esmola
Há uma misericórdia do Céu à qual se chega através da misericórdia na Terra. […] E há dois tipos de esmola: uma é boa e a outra melhor. Uma consiste em dar pão aos pobres; a outra, em perdoar imediatamente ao irmão que pecou contra nós. Com a ajuda do Senhor, apressemo-nos a praticar estes dois tipos de esmola, para podermos receber o perdão eterno e a verdadeira misericórdia de Cristo. Pois Ele mesmo disse: «Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celeste vos perdoará a vós. Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai vos não perdoará as vossas» (Mt 6,14s). E o Espírito Santo clama: «Um homem guarda rancor contra outro homem e pede a Deus que o cure? Não tem compaixão pelo seu semelhante e pede o perdão dos seus pecados?» (Sir 28,3s). […]
Apressemo-nos, enquanto podemos e enquanto vivemos, a praticar esses dois tipos de esmola e a distribuí-la aos outros. Assim, no dia do juízo, poderemos dizer com confiança: «Dá-nos, Senhor, porque também nós demos».
Nota editorial: A primeira passagem pertence ao Sermão 25, sobre a misericórdia, e foi reunida à reflexão sobre dar e perdoar. Corrigiu-se a indicação de «Homilia 83» que acompanhava esse primeiro excerto; o Sermão 83 trata do encontro de Abraão com os três visitantes.
Sofrer e amar com os membros de Cristo
São Cesário de Arles — Sermões ao povo, n.º 24; SC 243.
Refleti, meus irmãos, e vede o exemplo de Nosso Senhor, que fez de nós viajantes a caminho da cidade celeste (cf Hb 11,13s), pela via da caridade. […] Estando no Céu, a sua compaixão pelos seus membros que sofrem — pois Ele é a cabeça dos membros e do corpo de todo o mundo (cf Col 2,19) — levou-O a dizer: «Quantas vezes o deixastes de fazer a um dos meus irmãos mais pequeninos, também a Mim o deixastes de fazer». […] Quando Ele transformou Paulo, o perseguidor, em pregador, disse-lhe do alto do Céu: «Saulo, Saulo, porque Me persegues?» (At 9,4). […] Quem Saulo perseguia eram os cristãos; como podia Cristo dizer que O perseguia a Ele, que estava no Céu? Mas Cristo estava nos cristãos, sofrendo com todos os seus membros, dando verdade a esta palavra: «Quando um membro sofre, todos os membros sofrem com ele» (1Cor 12,26). […]
Suportemos, pois, os fardos uns dos outros (cf Gal 6,2), pois os outros membros devem seguir a cabeça. […] Se o nosso Senhor e Salvador, que não teve pecado, Se digna amar-nos, a nós pecadores, com uma afeição tão grande que afirma sofrer o que nós sofremos, porque é que nós, que somos pecadores e podemos resgatar os nossos pecados através da caridade, não nos amamos com um amor tão perfeito que partilhemos, por caridade, todo o mal que é suportado por um de nós? […] Uma mão ou outro membro cortado do corpo já não sente nada; assim é o cristão que não sofre com a infelicidade, o infortúnio ou a morte de outro.
Onde estiver o teu tesouro, aí estará o teu coração
São Cesário de Arles — Sermão 32, 1–3; SC 243.
Deus aceita as nossas ofertas de dinheiro e apraz-Lhe que demos esmola aos pobres, mas com a condição de que todo o pecador, quando oferecer a Deus o seu dinheiro, Lhe ofereça também a sua alma. […] Quando o Senhor ordena: «Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus» (Mc 12,17), o que quer dizer é: «Tal como dais a César, nas moedas de prata, a sua imagem em efígie, dai também a Deus, em vós mesmos, a imagem de Deus» (cf Gn 1,26). […]
Assim, e como já bastas vezes dissemos, quando distribuirmos dinheiro aos pobres, ofereçamos a nossa alma a Deus, de forma que, onde estiver o nosso dinheiro, possa também estar o nosso coração. De fato, porque nos pede Deus que demos dinheiro? Seguramente porque sabe que lhe temos um apreço especial e não deixamos de pensar nele; e porque sabe que, onde tivermos o dinheiro, teremos também o coração. Eis por que motivo nos exorta a construir tesouros no céu através de dádivas feitas aos pobres: para que o nosso coração vá até onde tivermos enviado o nosso tesouro, de tal maneira que, quando o sacerdote disser: «Corações ao alto», possamos responder de consciência tranquila: «O nosso coração está em Deus».
Conversão, perdão e cura
Não desprezar a misericórdia de Cristo
São Cesário de Arles — Sermões ao povo, n.º 57, 4.
O Senhor dirá àqueles que desprezaram a sua misericórdia: «Homem, fui Eu que, com as minhas mãos, te formei do pó da terra, fui Eu que insuflei o espírito no teu corpo de terra, fui Eu que Me dignei atribuir-te a nossa imagem e a nossa semelhança, fui Eu que te coloquei no meio das delícias do paraíso. Mas tu, desprezando os mandamentos da vida, preferiste seguir o sedutor a seguir o Senhor.
»Consequentemente, quando foste expulso do paraíso e ficaste preso nas cadeias da morte pelo pecado, enternecido de misericórdia, Eu entrei num seio virginal para vir ao mundo, sem prejuízo para essa virgindade. Fui estendido numa manjedoura, envolvido em panos; suportei os dissabores da infância e os sofrimentos humanos, pelos quais Me fiz semelhante a ti, com o único objetivo de te tornar semelhante a Mim. Suportei as bofetadas e os escarros daqueles que se riam de Mim, bebi vinagre com fel. Flagelado com varas, coroado de espinhos, pregado à cruz, trespassado pela lança, entreguei a alma aos tormentos para te arrancar à morte. Vê a marca dos cravos com que fui pregado; vê o meu lado trespassado. Suportei estes sofrimentos para te dar a minha glória; suportei a tua morte para que tu vivesses para toda a eternidade. Repousei, encerrado no sepulcro, para que tu reinasses no céu.
»Porque perdeste aquilo que sofri por ti? Porque renunciaste às graças da tua redenção? Dá-Me a tua vida, pela qual dei a minha; dá-Me a tua vida, que destróis sem cessar pelas feridas dos teus pecados».
A confissão, remédio para as feridas do pecado
São Cesário de Arles — Sermão ao povo, n.º 59; tradução de Soleil Levant, 1962, revista, conforme o acervo; cf. SC 330, p. 43.
Para nosso bem e nossa salvação, a Sagrada Escritura aconselha-nos a que confessemos os nossos pecados, incessantemente e com humildade, não somente perante Deus, mas também perante um homem santo e temente a Deus. É assim que o Espírito Santo nos recomenda pela voz do apóstolo Tiago: «Confessai, pois, os pecados uns aos outros e orai uns pelos outros para serdes curados» (5, 16) […]; e o salmista diz: «Confessarei os meus erros ao Senhor; e Vós perdoastes a culpa do meu pecado» (31, 5).
Ferimo-nos com os nossos pecados; por isso, devemos recorrer sempre ao medicamento da confissão. Com efeito, se Deus quer que nós confessemos os nossos pecados, não é que Ele não os saiba, mas é porque o diabo deseja encontrar forma de nos acusar perante o tribunal do Juízo Eterno; por isso, quer que pensemos mais em desculpá-los do que em acusá-los. O nosso Deus, pelo contrário, porque é bom e misericordioso, quer que os confessemos neste mundo, de modo a que não sejamos confundidos sobre eles no outro. Assim, ao confessarmo-nos, Ele mostra-se clemente; se os reconhecemos, perdoa-nos. […] E nós, irmãos, somos realmente os vossos médicos espirituais; procuramos com solicitude curar as vossas almas.
A fé de Abraão e a presença da Trindade
Abraão, os três visitantes e o mistério da Trindade
São Cesário de Arles — Sermão 83, sobre Abraão e os três visitantes de Mambré.
Onde decorreu o encontro [de Abraão com os três visitantes]? «Junto ao carvalho de Mambré», palavra que significa visão ou perspicácia. Vede bem em que sítios o Senhor combina os seus encontros! Pois não é verdade que as qualidades de perspicácia e clarividência de Abraão agradaram ao Senhor? Que ele tinha pureza de coração, o que lhe permitiu ver a Deus (cf Mt 5,8)? É em lugares assim e em corações assim que o Senhor reúne os seus convivas!
No Evangelho, o Senhor refere aos judeus este encontro, dizendo-lhes: «Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia; ele viu-o e exultou de alegria». «Viu-o», diz, porque Abraão reconheceu o mistério da Santíssima Trindade: viu o Pai, o Filho e o Espírito Santo nos dias da sua vida, e as três Pessoas no mesmo dia, uma vez que Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo são um só e o mesmo Deus. Com efeito, cada um deles é Deus na totalidade, e todos juntos também o são. Não será, pois, difícil discernir o Pai, o Filho e o Espírito Santo nas três medidas de farinha que Sara foi buscar para eles, pois há nelas unidade de substância. Mas podemos ver Sara a outra luz, como figura da Igreja, e, nesse caso, as três medidas de farinha são a fé, a esperança e a caridade. Com efeito, estas virtudes são os frutos da Igreja universal, e quantos as tiverem no coração podem ter a certeza de possuir nele a Santíssima Trindade.
Fontes e critérios da seleção
As traduções portuguesas reproduzem o fragmento entregue à edição e o acervo Sophia. Os posts do acervo indicam Evangelho Cotidiano ou Evangelho Quotidiano como fonte. Esta antologia não constitui uma nova tradução.
SC designa Sources Chrétiennes, e CCL designa Corpus Christianorum, Series Latina. As referências das obras foram preservadas, com o ajuste de identificação assinalado na seleção sobre a misericórdia. Os sinais […] e […] indicam omissões presentes nos excertos.
Os mapas das publicações anteriores permanecem no registro editorial interno. A leitura desta antologia não depende de links para posts individuais.
Organização editorial preparada em 15 de outubro de 2026.



