São Macário do Egito — Antologia de homilias espirituais atribuídas

Esta antologia reúne excertos do acervo Sophia sobre o acolhimento de Cristo, a cura da alma, a oração, a graça do Espírito e a vida fraterna.

Os textos são apresentados como homilias atribuídas a São Macário do Egito. Conservam-se as indicações de paráfrase de Simeão, o Metafraste, quando presentes nas fontes, e a numeração das homilias ou capítulos informada no acervo. Esta seleção não constitui uma nova tradução nem uma edição crítica.

Sumário

Acolher Cristo e receber a vida

Acolher Cristo, médico da alma

Homilia atribuída a São Macário do Egito — Homilias espirituais, 30, 9.

Acolhamos o nosso Deus e Senhor, o verdadeiro médico, o único que é capaz de curar a nossa alma ao vir a nós, Ele que tanto penou por nós. Ele bate sem cessar à porta do nosso coração, para que Lha abramos e O deixemos entrar para Ele repousar na nossa alma, para que Lhe lavemos os pés e O cubramos com perfume, para fazer em nós a sua morada. Com efeito, Jesus acusa aquele que não Lhe lavou os pés, dizendo: «Eu estou à porta e chamo. Se alguém ouvir a minha voz e Me abrir a porta, entrarei em sua casa» (Ap 3,20). Foi para isto – para vir à nossa alma e fazer dela sua morada – que Ele suportou tantos sofrimentos, que entregou o seu corpo à morte e nos resgatou da servidão.

É por isso que o Senhor dirá àqueles que, no julgamento, estiverem à sua esquerda e forem enviados para a geena: «Tive fome e não Me destes de comer; tive sede e não Me destes de beber» (Mt 25,42ss). Porque a sua comida, a sua bebida, as suas roupas, o seu teto, o seu repouso estão no nosso coração; por isso, Ele bate sem cessar, querendo entrar em nós; acolhamo-lo, portanto, e recebamo-lo dentro de nós, pois Ele é também o nosso alimento, a nossa bebida, a nossa vida eterna.

E toda a alma que não O acolhe dentro de si, para Ele aí encontrar repouso, ou antes, para que ela repouse nele, não herdará o Reino dos Céus com os santos e não poderá entrar na cidade celeste. Mas Tu, Senhor Jesus Cristo, deixa-nos entrar, a nós que glorificamos o teu nome, com o Pai e o Espírito Santo, por todos os séculos. Ámen.

Nota editorial: O fragmento de Sophia.docx e a publicação do acervo apresentam o mesmo excerto em variantes de redação. Reproduz-se aqui a versão do documento, sem duplicação. A alusão ao acolhimento de Jesus remete à cena de Lc 7,44–46; Ap 3,20 é uma citação distinta, aproximada dessa cena no próprio excerto.

Voltar ao sumário

Reconhecer as feridas e procurar o Médico

Homilia atribuída a São Macário do Egito — Homilias espirituais, cap. 100, conforme o acervo.

A alma pobre em espírito reconhece as suas feridas, bem como as trevas das paixões que a rodeiam. Ela procura continuamente a redenção que lhe vem do Senhor. Carregando com as suas dores, não exulta com nenhum dos bens deste mundo, mas procura o único médico bom, não se confiando senão aos seus cuidados.

Como será então que esta alma ferida se tornará bela, graciosa e apta a viver com Cristo? Como, senão recuperando a sua antiga criação e reconhecendo claramente as suas feridas e a sua pobreza? Porque, se a alma não se comprazer nos seus ferimentos e nas marcas das suas paixões, se não ocultar as suas faltas, o Senhor não lhe imputará a causa do mal, mas virá cuidar dela, curá-la e restabelecer nela uma beleza impassível e incorruptível. Mas a alma não pode ficar agarrada àquilo que fez, como se disse; não pode comprazer-se nas suas paixões, mas deve apelar ao Senhor com todas as suas forças, a fim de que Ele lhe dê o seu Espírito, liberto de todas as paixões. Esta alma será, pois, bem-aventurada.

Mas infeliz da alma que não sente as suas feridas e que, movida por um grande vício e um endurecimento sem medida, não acredita ter em si mal algum. Esta alma não será visitada nem curada pelo bom médico, porque não O procura nem se preocupa com os seus ferimentos, considerando que se comporta bem e que está sã. Com efeito, está dito: «Não são os sãos que precisam de médico, mas os doentes» (Mt 9,12).

Voltar ao sumário

Cristo restaura a nossa natureza

Homilia atribuída a São Macário do Egito — Cap. 150, conforme o acervo.

Qual é a economia da vinda de Cristo? É o regresso da nossa natureza a si própria e a sua restauração. Porque Cristo concedeu à natureza humana a dignidade de Adão, o primeiro homem. Além disso, concedeu-lhe — graça verdadeiramente divina e verdadeiramente grande — a herança celeste do Espírito bom, fazendo-a sair da prisão das trevas; e mostrou-lhe o caminho da vida: quem passar por esta porta, quem bater a esta porta, poderá entrar no Reino. Pois está dito: «Pedi e dar-se-vos-á, batei e abrir-se-vos-á» (Mt 7,7). Por esta porta, poderão entrar todos quantos quiserem encontrar a liberdade da sua alma e desejarem que esta recupere os seus pensamentos, se enriqueça permanecendo com Cristo e O tenha como Esposo, em comunhão com o Espírito.

Nisto vemos o inefável amor do Mestre pelo homem, que Ele criou à sua imagem!

Voltar ao sumário

O Rei que nos cura e nos convida às bodas

Homilia atribuída a São Macário do Egito — Homilias espirituais, n.º 15, §§ 30–31.

No mundo visível, se um povo muito pequeno se revolta contra o rei, este não se incomoda a dirigir pessoalmente as operações, antes envia os seus soldados, com os respetivos chefes, e são eles que travam o combate. Pelo contrário, se o povo que se ergue contra ele é muito poderoso e é capaz de lhe devastar o reino, então o rei vê-se obrigado a empreender pessoalmente a campanha, com a sua corte e o seu exército, e a travar ele o combate. Considera que dignidade é a tua! Pois foi o próprio Deus quem empreendeu a campanha, com os seus próprios exércitos – os anjos e os espíritos santos –, para vir proteger-te e te libertar da morte. Tem, pois, confiança, e repara na providência de que és objeto.

Retiremos outro exemplo da vida presente. Imaginemos um rei que depara com um homem pobre e doente e, longe de se desgostar dele, lhe trata as feridas com medicamentos salutares, o leva para o palácio, o veste de púrpura, o cinge com um diadema e o convida para a sua mesa. Pois é assim que Cristo, o Rei celeste, Se aproxima do homem doente, o cura e o convida para a sua mesa real, e fá-lo sem lhe violar a liberdade, antes o persuadindo a aceitar honra tão elevada.

Está escrito no Evangelho que o Senhor enviou os seus servos, mandando-os convidar todos quantos quisessem acorrer, mandando-os anunciar: «Preparei o meu banquete!» Os convidados, porém, desculparam-se. […] Aquele que convidava estava pronto, mas os convidados recusaram o convite; são, portanto, responsáveis pelo seu destino. Tal é a grande dignidade dos cristãos. Eis que o Senhor lhes prepara o Reino, e os convida a nele entrar; mas eles recusam-se. Perante o dom que nos foi prometido, poder-se-ia dizer que, se uma pessoa […] sofresse tribulações desde a criação de Adão até ao fim do mundo, nada teria feito em comparação com a glória que receberá em herança, porque está destinada a reinar com Cristo pelos séculos sem fim. Glória Àquele que amou de tal maneira esta alma, que Se entregou e Se confiou a ela, bem como a sua graça! Glória à sua majestade!

Voltar ao sumário

A oração e a morada de Deus

Orar e tornar-se morada do Senhor

A espera de Deus na oração

Homilias espirituais, n.º 33, excerto sobre a oração.

Para rezar, não são precisos gestos, nem gritos, nem silêncio, nem genuflexões. A nossa oração, ao mesmo tempo sábia e fervorosa, deve ser uma espera de Deus, até que Ele venha visitar a nossa alma por todas as suas vias de acesso, por todos os seus caminhos, por todos os seus sentidos. Demos tréguas aos nossos silêncios, aos nossos gemidos, aos nossos soluços: não procuremos na oração senão o abraço apertado de Deus.

Não é verdade que, no trabalho, empregamos todo o nosso corpo num mesmo esforço? Não colaboram nisso todos os nossos membros? Pois que também a nossa alma se consagre toda à oração e ao amor do Senhor; que não se deixe distrair nem bloquear com pensamentos; que toda ela seja espera de Cristo. Então, Cristo iluminá-la-á, ensinar-lhe-á a verdadeira oração, conceder-lhe-á a súplica pura e espiritual de acordo com a vontade de Deus, a adoração «em espírito e verdade» (Jo 4,24).

Quem exerce um comércio não procura apenas ter lucro; também se esforça, por todos os meios, por aumentá-lo e acrescentá-lo: empreende novas viagens e renuncia às que lhe parecem não trazer proveito; só parte com a esperança de um negócio. Como ele, saibamos também conduzir a nossa alma pelos caminhos mais diversos e mais oportunos, e adquiriremos, o ganho supremo e verdadeiro, esse Deus que nos ensina a rezar na verdade.

O Senhor repousa numa alma fervorosa, faz dela o seu trono de glória, ali Se senta e ali permanece.

A alma como casa do Senhor

Homilia 33, excerto sobre a alma como morada de Deus.

O Senhor instala-Se numa alma fervorosa, faz dela o Seu trono de glória, toma assento nela e nela permanece. […] Esta casa onde habita o seu mestre é toda graça, ordem e beleza, assim como a alma com quem o Senhor permanece é toda ordem e beleza. Ela possui o Senhor e todos os Seus tesouros espirituais. Ele habita nela, e nela domina.

Que terrível, porém, é a casa de onde o Senhor está ausente, longe da qual o Senhor Se encontra! Esta casa deteriora-se, arruína-se, enche-se de manchas e de desordem, tornando-se, na palavra do profeta, lugar de reunião de serpentes e de sátiros, casa abandonada que se enche de gatos selvagens, de hienas e de cardos (Is 34,11-15). Infeliz da alma que não consegue levantar-se de queda tão funesta, que se deixa prender e acaba por odiar o esposo e por desviar os seus pensamentos de Jesus Cristo!

Mas quando o Senhor a vê recolher-se e procurar, noite e dia, o seu Senhor, chamá-Lo como Ele a convida a fazer: «Orai sem desfalecer», então «Deus far-lhe-á justiça» (Lc 18, 1-7), como prometeu, e purificá-la-á de todo o mal, fazendo dela uma esposa «sem mancha nem ruga» (Ef 5, 27). Acredita na Sua promessa, que é a verdade. Verifica se a tua alma encontrou a luz que lhe iluminará os passos, bem como o alimento e a bebida verdadeiros, que são o Senhor. Ainda não os tens? Procura noite e dia, e encontrá-los-ás.

Nota editorial: A Homilia 33 aparece em dois excertos complementares, apresentados separadamente. O trecho sobre a casa foi encontrado em duas variantes de tradução e é reproduzido uma única vez. A referência a Isaías foi corrigida de 35,11–15 para 34,11–15.

Voltar ao sumário

Recolher os pensamentos e esperar o Senhor

Homilia atribuída a São Macário do Egito — Homilia 31.

Deus é o bem supremo; congrega nele os pensamentos do teu espírito e não penses senão em aguardar a sua vinda. Que a alma congregue os seus pensamentos dispersos pelo pecado, como se reunisse um bando de crianças que brincam, e os reconduza à mansão do seu corpo, esperando o Senhor em jejum e com amor, até que Ele venha e verdadeiramente a acolha. […]

Se o nosso coração não se orgulhar, se não enviarmos os nossos pensamentos a pastar nos prados das ervas loucas do pecado, mas se, pelo contrário, elevarmos o espírito e conduzirmos os nossos pensamentos à presença do Senhor com um desejo fervoroso, então, no seu bem-querer, o Senhor virá seguramente a nós e unir-nos-á verdadeiramente a Si. […]

Apressa-te, pois, a agradar ao Senhor, espera-O incessantemente no teu coração, procura-O nos teus pensamentos, incita a tua vontade e os teus sentimentos a orientarem-se constantemente para Ele. Verás então que Ele virá a ti e fará de ti a sua morada.

Voltar ao sumário

Pedir sem desfalecer o dom do Espírito

Homilia atribuída a São Macário do Egito — Homilia n.º 16.

Para conseguir o pão do corpo, o mendigo não se constrange em bater de porta em porta a pedi-lo; se não lho dão, avança um pouco e pede, ainda mais sem cerimônia, pão, roupas ou sandálias para consolo do corpo; se nada lhe derem, insiste e dali não sai, ainda que o expulsem. Nós, que procuramos receber o pão celeste e verdadeiro para nos fortificar a alma, que desejamos vestir as celestes roupas de luz e que aspiramos a calçar as imateriais sandálias do Espírito para refrigério da nossa alma imortal, muito mais devemos, incansável e resolutamente, com fé e amor, ter sempre paciência, bater à porta espiritual de Deus e pedir com perfeita constância para sermos considerados dignos da vida eterna.

Por isso dizia o Senhor «uma parábola sobre a obrigação de orar sempre, sem desfalecer» (Lc 18,1), a que acrescentava estas palavras: quanta «justiça para com os que Lhe imploram noite e dia» (v. 7) terá então nosso Pai Celeste. E disse ainda, sobre o amigo: «Se ele não se levantar por ser amigo, ao menos, por causa da sua insistência, levantar-se-á para lhe dar tudo aquilo de que precisa». Acrescenta então: «Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei à porta e abrir-se-vos-á. Porque quem pede recebe; quem procura encontra; e a quem bate à porta, abrir-se-á». E prossegue: «Se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem!» É por isso que o Senhor nos exorta a pedir sempre, incansável e tenazmente, a procurar e a bater à porta continuamente: porque Ele prometeu dar aos que pedem, procuram e batem, não aos que não pedem. É por Lhe rezarmos, Lhe suplicarmos e O amarmos que Ele quer dar-nos a vida eterna.

Nota editorial: A referência à justiça feita aos que clamam noite e dia foi ajustada de Lc 18,6 para Lc 18,7.

Voltar ao sumário

A graça do Espírito e o combate espiritual

O fermento celeste do Espírito

Homilia atribuída a São Macário do Egito — Homilia n.º 24, 4; PG 34, 662, conforme o acervo.

Se amassarmos farinha sem lhe misturarmos fermento, bem podemos amassá-la, sová-la e trabalhá-la, que a massa não fermentará nem servirá para comer. Mas, quando lhe misturamos fermento, este faz levedar e crescer toda a massa, como na comparação que o Senhor aplicou ao Reino. […] Assim é com a carne: por muito cuidado que tenhamos, se não lhe deitarmos sal para que se conserve, […] começará a cheirar mal e tornar-se-á imprópria para consumo. Imagina, pois, que toda a humanidade é massa ou carne, e que a natureza divina do Espírito Santo é o sal e o fermento que vêm do outro mundo. Se o fermento celeste do Espírito e o sal bom da natureza divina não forem introduzidos na natureza humana humilhada e com ela misturados, nunca a alma perderá o mau odor do pecado, nem levedará, perdendo o peso e o defeito do «fermento da malícia» (1Cor 5,7). […]

Se a alma se apoiar apenas nas suas próprias forças e se se crer capaz de tudo conseguir sem a ajuda do Espírito, engana-se redondamente; ela não está feita para as moradas do céu, não está feita para o Reino. […] Se o pecador não se aproximar de Deus, se não renunciar ao mundo, se não esperar na esperança, e se a paciência for um bem estranho à sua natureza própria, que é a força do Espírito Santo, se o Senhor não instilar, do alto, a sua própria vida nessa alma, nunca tal homem provará a verdadeira vida. […] Pelo contrário, se tiver recebido a graça do Espírito, se dele não se afastar, se não O desgostar com a sua negligência e as suas más ações, se, perseverando longamente no combate, não ofender o Espírito (cf Ef 4,30), terá a felicidade de obter a vida eterna.

Voltar ao sumário

A perseverança que se torna fruto do Espírito

Homilia atribuída a São Macário do Egito — Paráfrase de Simeão, o Metafraste; Homilias espirituais, n.º 19, conforme o acervo.

Quem quiser aproximar-se do Senhor, ser digno da vida eterna, tornar-se morada de Cristo, ser cheio do Espírito Santo para dar os frutos desse Espírito […] deve acreditar firmemente no Senhor e entregar-se sem reservas aos seus mandamentos. […] Deve obrigar-se a ser humilde perante os homens […], como o Senhor recomenda: «Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas» (Mt 11,29). Do mesmo modo, deve esforçar-se por ser habitualmente misericordioso, suave, compassivo e bondoso, como o Senhor também ordena: «Sede misericordiosos tal como o vosso Pai celeste é misericordioso» (Lc 6,36; Mt 5,48); e ainda: «se me amardes, guardareis os meus mandamentos» (Jo 14,15); «o Reino dos Céus sofre de violência, e os violentos apoderam-se dele»; e «esforçai-vos por entrar pela porta estreita» (Lc 13,24). Em tudo, deve inspirar-se na humildade, no comportamento, na mansidão e no modo de viver do Senhor. […]

Persevere na oração, peça sem se cansar que o Senhor venha habitar nele, o restaure e lhe dê força para guardar todos os seus mandamentos, e que o próprio Salvador se torne a morada da sua alma. E o que conseguir fazer exercendo violência sobre si mesmo, contrariando a inclinação da natureza, fá-lo-á de boa vontade, porque se habituará completamente ao bem, lembrando-se incessantemente do Senhor e esperando-O com grande amor. Quando o Senhor vir tal resolução […], terá piedade dele, libertá-lo-á dos seus inimigos e do pecado que nele habita, e enchê-lo-á do Espírito Santo. E ele guardará todos os mandamentos do Senhor em verdade, sem violência nem fadiga – ou melhor, será o próprio Senhor a cumprir nele os seus próprios preceitos e ele produzirá os frutos do Espírito com toda a pureza (cf Ga 5,22).

Voltar ao sumário

Coragem no combate espiritual

Homilia atribuída a São Macário do Egito — Homilias espirituais, n.º 51, conforme o acervo.

Escrevo-vos, irmãos bem amados, para que saibais que, desde o dia em que Adão foi criado até ao fim do mundo, o Maligno fez e fará guerra constante aos santos (Ap 13,7). […] Contudo, são poucos os que se dão conta de que o saqueador das almas coabita com eles nos seus corpos, muito perto das suas almas. Vivem na tribulação e não há neste mundo ninguém que os possa reconfortar. Por isso, erguem o olhar para o Céu e aí colocam a sua esperança, contando receber alguma coisa dentro de si próprios. Desta forma, e graças à armadura do Espírito (Ef 6,13), vencerão. Com efeito, é do Céu que recebem a força, que permanece escondida aos olhos da carne. Enquanto procurarem Deus com todo o seu coração, a força de Deus virá secretamente em seu auxílio a todo o momento. […] É precisamente porque tocam com o dedo na sua fraqueza, porque são incapazes de vencer, que eles solicitam ardentemente a armadura de Deus e, assim revestidos com o equipamento do Espírito para o combate (Ef 6,13), tornam-se vitoriosos. […]

Sabei, pois, irmãos bem-amados, que em todos os que preparam a sua alma para se tornarem terra boa para a semente celeste, o inimigo apressa-se a semear o seu joio. […] Sabei também que aqueles que não procuram o Senhor com todo o coração não são tentados por Satanás de forma tão evidente; é mais às escondidas e por manhas que ele tenta […] afastá-los de Deus.

Mas agora, irmãos, tende coragem e não receeis. Não vos deixeis assustar com imaginações suscitadas pelo inimigo. Na oração, não vos entregueis a uma agitação confusa, multiplicando gritos sem nexo, mas acolhei a graça do Senhor na contrição e no arrependimento. […] Tende coragem, reconfortai-vos, resisti, preocupai-vos com a vossa alma, perseverai zelosamente na oração. […] Porque todos os que procuram Deus com verdade receberão uma força divina na sua alma e, recebendo essa unção celeste, sentirão em si o gozo e a doçura do mundo que há de vir. Que a paz do Senhor, aquela que esteve com todos os santos padres e os guardou das tentações, permaneça também convosco.

Voltar ao sumário

A comunhão, a entrega e o descanso

A vida fraterna e o tesouro comum

Homilia atribuída a São Macário do Egito — Terceira homilia, 1–3; PG 34, 467–470.

Façam o que fizerem, os irmãos devem mostrar-se caridosos e alegres uns para com os outros. O que trabalha dirá assim do que ora: «O tesouro que o meu irmão possui também é meu, uma vez que nos é comum». Por seu lado, o que ora dirá daquele que lê: «O benefício que ele tira da leitura também me enriquece». E o que trabalha dirá: «É no interesse da comunidade que faço este serviço».

Os múltiplos membros do corpo formam um só corpo e apoiam-se mutuamente, cumprindo cada um a sua tarefa. O olho vê por todo o corpo; a mão trabalha para os outros membros; o pé, ao caminhar, leva-os a todos. E é assim que os irmãos se devem comportar uns com os outros (cf. Rom 12, 4-5). O que ora não julgará o que trabalha se este não orar. O que trabalha não julgará o que ora. […] O que serve não julgará os outros. Pelo contrário, faça o que fizer, agirá para a maior glória de Deus (cf. 1Cor 10,31; 2Cor 4,15). […]

Assim, uma grande concórdia e harmonia formarão o «vínculo da paz» (Ef 4,3), que os unirá entre si e os fará viver com transparência e simplicidade sob o olhar benevolente de Deus. O essencial, evidentemente, é perseverar na oração. Além disso, só uma coisa é necessária: cada um deve possuir no seu coração esse tesouro que é a presença viva e espiritual do Senhor. Quer trabalhe, ore ou leia, cada um deve poder dizer que está na posse desse bem imperecível que é o Espírito Santo.

Voltar ao sumário

A alma, mais preciosa que o mundo inteiro

Homilia atribuída a São Macário do Egito — Paráfrase de Simeão, o Metafraste, sobre os Discursos de São Macário, o Egípcio, cap. 148.

Comparados com a eternidade do mundo incorruptível, mil anos deste mundo são como um grão de areia tirado do mar. Peço-te que reflitas nisto: supõe que te tornavas o único rei de toda a terra, o único dono de todos os tesouros do mundo. […] Se te fosse dado escolher, trocarias por eles o Reino verdadeiro e certo, que não tem em si absolutamente nada que passe e se dissolva? Posso afirmar que não, se o teu juízo for sólido e fores sábio em todas as coisas.

«Que aproveitará ao homem, se ganhar o mundo inteiro, mas arruinar a sua vida?» (Mt 16,26), essa vida [da alma] que aprendemos que não pode ser trocada por coisa alguma? Pois só esta vida – já para não falar do Reino dos Céus – é, em si mesma, muito mais preciosa que o mundo inteiro e o reino deste mundo. A alma é mais preciosa pelo seguinte: a nenhum outro ser criado é mais conveniente que Deus conceda a união e a comunhão com a sua própria natureza, a natureza do Espírito, nem ao céu, nem ao sol, nem à lua, nem às estrelas, nem ao mar, nem à terra, nem a qualquer criatura do mundo visível, mas apenas ao homem, que O ama acima de todas as coisas.

Se, pois, na retidão do nosso juízo, não trocamos estas coisas do mundo – a riqueza e o reino de toda a terra – pelo reino eterno, que loucura é a da maior parte dos homens que o consideram comparável a coisas vis e comuns, como uma certa cobiça, a pequena glória, um lucro medíocre e coisas semelhantes?

Voltar ao sumário

Entregar-se inteiramente ao Senhor

Homilia atribuída a São Macário do Egito — Homilias espirituais; tradução indicada no acervo: Deseille, coleção Spiritualité Orientale 40, Bellefontaine, 1984, p. 114.

Como é possível que, apesar de tais encorajamentos e tais promessas da parte do Senhor, nos recusemos a entregar-nos a Ele totalmente e sem reservas, a renunciarmos a todas as coisas e mesmo à nossa própria vida, em conformidade com o Evangelho (Lc 14, 26), para amarmos apenas a Ele, e mais ninguém a não ser Ele?

Considera tudo o que foi feito para nós: que glória nos foi dada, que planos com vista à história da salvação fez o Senhor desde os pais e os profetas, que promessas, que exortações, que compaixão da parte do Mestre desde as origens! No fim, manifestou a Sua indizível benevolência para conosco ao vir habitar conosco e ao morrer na cruz para nos converter e nos trazer à vida. E nós não abandonamos as nossas próprias vontades, o nosso amor ao mundo, as nossas predisposições e os nossos maus hábitos, aparecendo nisso como homens de pouca fé, ou mesmo sem fé nenhuma. […]

E, contudo, vede como, apesar de tudo isso, Deus Se mostra cheio de uma doce bondade. Ele protege-nos e cuida de nós invisivelmente; apesar das nossas faltas, não nos abandona definitivamente à maldade e às ilusões do mundo; na Sua grande paciência, impede-nos de perecer e vigia de longe o momento em que voltaremos para Ele.

Voltar ao sumário

O verdadeiro sábado, descanso da alma

Homilia atribuída a São Macário do Egito — Homilia 35.

Na Lei dada através de Moisés, […] Deus ordenava a todos que descansassem e que não fizessem qualquer trabalho ao Sábado. Mas isto era «imagem e sombra» (Heb 8,5) do verdadeiro Sábado, que é atribuído à alma pelo Senhor. Efectivamente, a alma que foi julgada digna do verdadeiro Sábado deixa de se dedicar às suas preocupações indignas e mesquinhas, e descansa delas, celebrando o verdadeiro Sábado e gozando do verdadeiro descanso, liberta de todas as obras das trevas. […]

Outrora, estava prescrito que até os animais privados de razão descansassem ao Sábado: o boi não devia ser sujeito ao jugo nem o burro transportar carga, porque até os próprios animais repousavam dos trabalhos penosos. Vindo até nós e dando-nos o verdadeiro e eterno Sábado, o Senhor trouxe o descanso à alma que andava carregada e oprimida com o peso do pecado e que, sob coação, realizava obras de injustiça, sujeita que estava a cruéis senhores. Ele aliviou-a do peso intolerável das ideias vãs e miseráveis, livrou-a do jugo amargo das obras da injustiça, e deu-lhe o descanso.

Com efeito, o Senhor chama o homem ao descanso dizendo-lhe: «Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e aliviar-vos-ei» (Mt 11,28). E todas as almas que confiam e se aproximam dele […] celebram um Sábado verdadeiro, delicioso e santo, uma festa do Espírito, numa alegria e num júbilo inexprimível; e rendem a Deus um culto puro que Lhe agrada, porque vem dum coração puro. Esse é o Sábado verdadeiro e santo.

Voltar ao sumário

Fontes e critérios

Traduções portuguesas: fragmento entregue em Sophia.docx e publicações do acervo Sophia, que indicam Evangelho Cotidiano ou Evangelho Quotidiano como fonte. Os excertos e suas omissões foram preservados; variantes equivalentes foram reunidas e ajustes de referência ou de redação foram registrados editorialmente.

PG designa Patrologia Graeca. A numeração é a fornecida nas fontes de cada excerto; a identificação como homilia, capítulo ou paráfrase foi mantida sem uniformização conjectural.

Cotejo da Homilia 33: Fifty Spiritual Homilies, Homily XXXIII. Conferência da alusão bíblica: Isaías 34,11–14.

Os mapas de origem e as variantes permanecem no registro editorial interno. Organização editorial preparada em 16 de outubro de 2026.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *