Esta antologia reúne catequeses de São Cirilo de Jerusalém sobre a conversão, a fé, o Filho de Deus, o batismo, o Espírito Santo, a cruz, a ressurreição e a vida eterna.
Os textos foram organizados em sete temas. As catequeses mistagógicas são apresentadas conforme a tradição que as transmite sob o nome de Cirilo; sua atribuição é discutida na investigação histórica. Versões equivalentes foram reunidas e passagens de obras diferentes foram separadas, preservando as omissões das traduções.
Sumário
- A conversão e a preparação do coração
- A veste nupcial e as disposições da alma
- A purificação da alma e a esperança da salvação
- O tempo favorável da conversão e do batismo
- O pecado, a liberdade e a vigilância interior
- A misericórdia de Deus não se esgota
- A conversão e a oração que alcança o perdão
- A alma livre e a responsabilidade humana
- O discernimento que distingue o trigo do joio
- A fé, o Credo e o conhecimento de Deus
- O Pai e o Filho, Salvador do mundo
- O Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo
- O Filho único, gerado antes de todos os séculos
- O Filho está sentado à direita do Pai
- Reconhecer o Filho de Deus
- A geração eterna do Filho e a nossa adoção
- A realeza do Filho e o serviço do Salvador
- O Pai envia o Filho como médico da humanidade
- O perseguidor torna-se testemunha de Cristo
- O batismo e a participação nos santos mistérios
- O Espírito Santo, santificador e consolador
- A cruz e a ressurreição de Cristo
- A Igreja e a esperança da vida eterna
- As duas vindas de Cristo
- Os céus e a terra serão renovados
- Vigiar sem calcular o dia da vinda do Senhor
- Esperar o Senhor que vem do Céu
- O juiz não faz aceção de pessoas
- O pastor reconhecerá as suas ovelhas
- A criação anuncia a ressurreição dos mortos
- A Igreja católica: assembleia que reúne a todos
- As muitas portas da vida eterna
- Fontes e critérios
A conversão e a preparação do coração
A veste nupcial e as disposições da alma
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal preliminar nn. 3-4
Na festa de casamento mencionada nos evangelhos, entrou um homem vestido de forma desleixada, que se deitou e começou a comer, pois tinha o consentimento do noivo. Mas esse convidado, vendo que todos envergavam uma veste branca, devia ter feito o mesmo.
Pelo contrário, serviu-se dos pratos como os outros, embora nem a veste nem as disposições o assemelhassem a eles. Acontece que, embora generoso, o noivo não era desprovido de discernimento. E, ao passar por entre os convidados, olhando-os um por um (não estava interessado na sua maneira de comer, mas nas suas vestes), viu um intruso que não vestia o traje nupcial e perguntou-lhe: «Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?» Como te atreveste? Vejo que o porteiro não te impediu de entrar, tão liberal é o mordomo. Ignoravas qual era a veste exigida para seres admitido no banquete, compreendo; mas, quando entraste e viste que todos os convidados envergavam vestes deslumbrantes, não deverias ter aprendido alguma coisa com aquilo que te chamou a atenção? Não deverias ter feito uma saída honesta, como honesta fora a tua entrada? Mas eis que a tua entrada em falso vai valer-te uma triste expulsão. […]
Viste o que aconteceu àquele homem? Pois tem cuidado contigo. […] É possível que tenhas entrado com a alma manchada de pecados e com intenção impura. […] Faz, pois, uma saída sincera hoje e, amanhã, uma reentrada muito sincera. Se a tua alma estava vestida de avareza, entra com outra. Despoja-te da roupa que vestias, não vistas coisa alguma; despoja-te da fornicação e da impureza e enverga a veste brilhante da castidade. É o conselho que te dou antes de Jesus, o Esposo das almas, entrar e ver a tua veste.
A purificação da alma e a esperança da salvação
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal preliminar n.º 9
[Aos catecúmenos:] Apressa os teus passos em direção às catequeses. Acolhe pressurosamente os exorcismos; é sob eles que se opera a tua salvação.
Diz a ti próprio que és ouro sem valor, falsificado, misturado com diversos materiais: bronze, estanho, ferro, chumbo. O que pretendemos é o ouro sem misturas. Só através do fogo pode o ouro ser purificado de elementos estranhos; assim também, só através dos exorcismos pode a alma ser purificada. Eles são orações divinas, retiradas das divinas Escrituras […]. Os hábeis ourives servem-se de instrumentos delicados para soprar no seu braseiro e fazer surgir as pepitas de ouro ocultas no cadinho; ao atearem a chama, descobrem o objeto que procuravam. O mesmo acontece quando os exorcistas expulsam o temor pelo sopro divino e, como num cadinho – neste caso, o corpo -, reacendem a alma: o demônio, que é o inimigo, foge e fica a salvação, a esperança da vida eterna, até que a alma, purificada das suas faltas, possua a salvação.
Permaneçamos, pois, irmãos, presos à esperança, entreguemo-nos para que o Deus do Universo, vendo as nossas disposições, nos purifique das nossas faltas, nos convide a conceber uma esperança viva a respeito dos nossos projetos e nos conceda a conversão que salva. Foi Deus que chamou; tu foste chamado.
O tempo favorável da conversão e do batismo
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal I, 1–5; excertos. Traduções do acervo: Soleil Levant / Evangelho Cotidiano.
O chamamento e o novo nascimento
Vós sois catecúmenos, sois aqueles que se preparam para o batismo, discípulos da Nova Aliança e já participantes dos mistérios de Cristo, pelo chamamento e também pela graça. Foi-vos dado «um coração novo e um espírito novo» (Ez 18,31), para alegria dos habitantes dos céus. Se efetivamente, de acordo com o Evangelho, a conversão de um só pecador provoca esta alegria (Lc 15,7), quanto mais a salvação de tantas almas não incitará ao júbilo dos habitantes dos céus?
Empreendestes uma boa e muito bela viagem: aplicai-vos a percorrer o caminho com fervor. O Filho Único de Deus está pronto a resgatar-vos: «Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos» (Mt 11,28). Vós que soçobrais sob o pecado, presos pelas cadeias das vossas faltas, ouvi o que diz a voz de um profeta: «Lavai-vos, purificai-vos, tirai da frente dos meus olhos a malícia das vossas ações» (Is 1,16), para que o coro dos anjos vos apregoe: «Feliz aquele a quem é perdoada a culpa e absolvido o pecado» (Sl 31,1) Vós que acabais precisamente de acender as lâmpadas da fé, que as vossas mãos diligentes guardem a chama, de modo que Aquele que, na nossa santíssima colina do Gólgota, abriu pela fé o paraíso ao ladrão (Lc 23,43), vos conceda cantar o cântico nupcial.
Se alguém é escravo do pecado, que se prepare, através da fé batismal, para o novo nascimento que fará dele um homem livre, um dos filhos de adoção. Que abandone a lamentável escravidão dos seus pecados para adquirir a bem-aventurada escravidão do Senhor. […] Adquiri pela fé «os primeiros dons do Espírito Santo» (2Co 5,5) a fim de poderdes ser recebidos na morada eterna; recebei o sacramento que vos marcará, tornando-vos íntimos do Mestre.
A confissão, a ascese e o perdão
É agora o tempo da confissão. Confessa os teus pecados de palavra e de ação, os da noite e os do dia. Confessa-os neste «tempo favorável» e, no «dia da salvação» (Is 49,8; 2Co 6,2), recebe o tesouro celeste. […] Deixa o presente e crê no futuro. Andaste tantos anos sem parares os teus trabalhos vãos aqui da terra, e não podes parar quarenta dias para te ocupares do teu próprio fim? «Parai! Reconhecei que Eu sou Deus», diz a Escritura (Sl 46,11). Renuncia ao chorrilho de palavras inúteis, não digas mal nem escutes o maldizente, mas dispõe-te desde já a rezar. Mostra, na ascese, o fervor do teu coração; purifica esse receptáculo, para receberes uma graça mais abundante. Porque a remissão dos pecados é dada de modo igual a todos, mas a participação no Espírito Santo é concedida segundo a medida da fé de cada um. Se não te esforçares, recolhes pouco; se te esforçares muito, grande será a tua recompensa. És tu próprio que estás em jogo; vela pelos teus interesses.
Se tens um agravo contra alguém, perdoa-lhe. Acabas de receber o perdão dos teus pecados; impõe-se, portanto, que também perdoes o pecador, senão como dirás ao Senhor: «perdoa-me os meus muitos pecados», se tu próprio não perdoares ao teu companheiro de trabalho algumas faltas que tenha cometido contra ti? (cf Mt 18,23ss)
Nota editorial: Versões da mesma catequese foram reunidas; a formulação equivalente sobre o tempo favorável e o perdão aparece uma única vez.
O pecado, a liberdade e a vigilância interior
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal II, 1–3; excertos.
A liberdade e a origem do mal
O mal deliberado é fruto da premeditação; ora, nós pecamos indubitavelmente com premeditação, como afirma claramente o profeta: «Eu te plantei como vinha escolhida, planta de boa qualidade; como degeneraste em sarmento bastardo, ó videira estranha?» (Jr 2,21). Boa planta, mau fruto: o mal vem da premeditação. O culpado não é aquele que planta, mas a videira será consumida pelo fogo, uma vez que, tendo sido plantada para dar bons frutos, deu voluntariamente frutos maus. «Deus criou os homens retos, eles, porém, procuraram maquinações sem fim», observa o Eclesiastes (7,29). «Na verdade, nós somos obra de Deus, criados em Jesus Cristo, em vista das boas obras», diz o apóstolo (Ef 2,10). Portanto, o Criador, que é bom, criou para boas obras, mas a criatura, seguindo uma escolha própria, voltou-se para o mal.
O pecado é, pois, um mal terrível, como dissemos; mas não é incurável: terrível para quem se apega a ele, é fácil de curar para quem, por meio da penitência, se separa dele. […] Mas então, o que é o pecado? É um animal? É um demónio? Qual é a sua origem? Não se trata, ó homem, de um inimigo que te ataca de fora, mas de uma produção má que cresce a partir de ti. Se olhares com olhos francos, não terás concupiscência; se guardares o que te pertence e não tomares o que é dos outros, a avareza cairá por terra; se pensares no juízo, nem a fornicação, nem o adultério, nem o homicídio, nem qualquer tipo de desobediência prevalecerão em ti. Quando, porém, te esqueces de Deus, começas a pensar no mal e a cometer a iniquidade.
Não deixar a tentação criar raízes
Mas tu não és o único instigador da má ação; há outro cuja perversidade te incita a ela: o diabo. Este ser sugere o mal a todos, mas não triunfa sobre aqueles que se recusam a ouvi-lo. Daí a palavra do Eclesiastes: «Se a ira do príncipe se inflamar contra ti, não abandones o teu posto» (Qo 10,4), tranca a tua porta, mantém-no longe de ti e ele não te fará mal. Se acolheres levianamente a sugestão de um desejo graças às tuas considerações, ela criará raízes em ti, acorrentará a tua inteligência e atrair-te-á para o abismo da miséria.
Mas talvez digas: «Sou “fiel” e o desejo não me dominará, mesmo que pare a refletir sobre ele». Não sabes que uma raiz, à força de se agarrar a ela, chega a conseguir quebrar uma pedra? Não acolhas a semente, pois ela destruirá a tua fé. Antes que ela floresça, arranca o mal pela raiz, para que a tua indiferença inicial não te obrigue, mais tarde, a pensar muito em machados e fogo. Cura os teus olhos doentes no tempo oportuno, para não teres de procurar o médico quando ficares cego.
Nota editorial: Conservam-se apenas os excertos patrísticos. A reflexão contemporânea anexada no acervo não foi atribuída a Cirilo. O rascunho sem título repete a versão já publicada e não é reproduzido novamente.
A misericórdia de Deus não se esgota
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal n.º 2, 10
Bem pode o povo pecar que não desencoraja a misericórdia de Deus. O povo fez um bezerro, mas Deus teve misericórdia dele; negou a Deus, mas Deus não Se negou a Si mesmo (cf 2Tm 2,13). «Estes são os teus deuses, Israel» (Ex 32,4), disseram os hebreus, e mesmo depois disso o Deus de Israel, fiel a Si mesmo, tornou-Se o seu salvador. Mas o povo não foi o único a pecar; com ele pecou o sumo sacerdote, Aarão. E Moisés disse: «A cólera do Senhor também se acendeu contra Aarão»; mas acrescentou: «Eu rezei por ele, e Deus perdoou-lhe» (Dt 9,20). Então Moisés, rezando pelo sumo sacerdote pecador, desarmou o Senhor, e Jesus, o Filho único, quando reza por nós, não desarma a Deus? Ele não impediu que Aarão, que era culpado, se tornasse sumo sacerdote, e impedirá que vós, que saístes do paganismo, alcanceis a salvação?
Faz tu também penitência, ó homem, e nada impedirá que a graça chegue até ti. De agora em diante, comporta-te irrepreensivelmente, porque Deus ama verdadeiramente os homens e ninguém poderá dar uma explicação plausível para esse amor: mesmo que todas as línguas fossem agrupadas, ainda assim não conseguiriam dar uma explicação sequer parcial da misericórdia de Deus. Com efeito, apresentámos uma parte do que está escrito sobre a sua misericórdia com os homens, mas não conhecemos a amplitude do seu perdão com os anjos: também a eles perdoa, pois só há uma criatura sem pecado: Jesus, que nos purifica dos nossos pecados. Também aos anjos concede o devido perdão.
Nota editorial: A referência à intercessão de Moisés por Aarão foi corrigida para Dt 9,20.
A conversão e a oração que alcança o perdão
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal n.º 2, 15.20
Evita cuidadosamente uma vã desconfiança em relação à conversão. Conheces porventura o poder da conversão? Poderás conhecer a força da arma de salvação e saber o que pode a confissão? […]
Com a sua conversão, Ezequias inverteu uma decisão divina que estava tomada. Estando ele doente, Isaías disse-lhe: «Põe ordem nas tuas coisas, porque vais morrer e não viverás» (2Rs 20,1; Is 38,1). […]
Ezequias não fugiu à penitência. Tendo-lhe vindo à memória a palavra da Escritura que diz: «Quando te desviares do mal para chorar, serás salvo» (Is 30,15), virou o rosto para a parede e, do seu leito, elevou o pensamento para o Céu (pois a espessura das paredes não atrasa as orações de um coração piedoso), dizendo: «Senhor, lembra-Te de mim» (Is 38,3). Com efeito, basta que Te lembres de mim para que eu seja curado. […] E ao homem a quem a sentença do profeta tinha tirado por completo a esperança de viver foram concedidos mais quinze anos; em testemunho disto, o Sol andou para trás. Assim, pois, o Sol recuou por causa de Ezequias, e eclipsou-se por causa de Cristo: em vez de recuar, eclipsou-se, mostrando assim a diferença entre um e outro. O primeiro teve poder para anular uma sentença de Deus, e Jesus não havia de conceder o perdão dos pecados?
Vira-te e chora pelas tuas faltas, fecha a porta e pede que te sejam perdoados os teus pecados, a fim de que Deus afaste de ti as chamas ardentes; pois a confissão tem força para extinguir o próprio fogo, tal como tem força para amansar os leões. […] E vós também, confessai os vossos pecados ao Senhor de todo o coração, a fim de obterdes o perdão dos vossos pecados passados, de receberdes o dom celestial e, finalmente, de herdardes o Reino dos Céus com todos os santos, em Cristo Jesus, a quem pertence toda a glória pelos séculos dos séculos, amém.
A alma livre e a responsabilidade humana
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal IV, 18–22; excertos.
Ao conhecimento da nossa luminosa, gloriosa e santíssima fé, junta ainda, sejas tu quem fores, o conhecimento de ti mesmo. Homem, tu és duplo por natureza, composto por alma e corpo; e é o mesmo Deus que cria a alma e o corpo. Além disso, tens uma alma livre, obra-prima de Deus, criada à imagem do seu autor, imortal pela graça de Deus, que a criou imortal. És um ser vivo, racional e incorruptível, pela graça daquele que lhe conferiu estas prerrogativas, dotado da faculdade de fazer o que quer. […]
Antes de nascer neste mundo, a alma não comete pecados; mas, depois de termos vindo a este mundo sem pecados, eis que pecamos deliberadamente. […] A alma é imortal e todas elas, sejam de homem ou de mulher, são idênticas, pois só os membros do corpo diferem. Não existe uma categoria de almas que pecam por natureza e uma categoria de almas que fazem o bem por natureza; umas e outras agem por escolha livre, dado que a substância das almas tem a mesma estrutura em todos, e é semelhante.
A alma é livre, e o demônio tem a capacidade de lhe fazer sugestões, mas não tem o poder de a obrigar, a despeito da sua liberdade de escolha. Ele esboça em ti um pensamento de fornicação, e tu acolhes esse pensamento se quiseres; se não quiseres, afasta-lo. Pois, se fosse necessário que fornicasses, que sentido teria Deus ter preparado a geena? Se fosse a natureza, e não o livre arbítrio, a levar-te a fazer o bem, que sentido teria Deus ter preparado coroas inefáveis? […] Ficas assim a conhecer, caro amigo, na medida desejável por esta altura, o que diz respeito à alma.
Nota editorial: Completou-se a referência truncada do acervo, IV, 18–2. Conservou-se a seleção da tradução, sem acrescentar os trechos que ela omite.
O discernimento que distingue o trigo do joio
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal n.º 4, 1
O vício imita a virtude e o joio tenta fazer-se passar por trigo: a aparência é semelhante, mas o sabor não engana o conhecedor. O demónio também se disfarça de anjo de luz, não para voltar para onde estava (porque tornou o seu coração duro como uma bigorna e a sua determinação anterior é agora irrevogável), mas para cercar aqueles que levam uma vida semelhante à dos anjos com as trevas da cegueira e a pestilência da incredulidade. Muitos são os lobos que andam em pele de cordeiro. Das ovelhas, tiraram apenas as peles, não as unhas nem os dentes, mas, vestidos com o velo de um animal doméstico e usando a sua aparência para enganar os que não têm malícia, deixam escorrer pelos dentes o vírus mortal da impiedade.
Precisamos, pois, da graça divina, de ter um discernimento sábio e de estar de olhos bem abertos, para não sermos vítimas da nossa ignorância e comermos joio em vez de trigo; para não confundirmos o lobo com uma ovelha e nos tornarmos sua presa; para não imaginarmos que o demónio destruidor é um anjo benéfico e sermos devorados, pois ele «anda à nossa volta como leão que ruge, procurando a quem devorar» (1Pd 5,8), como diz a Escritura. É por isso que a Igreja nos adverte, é por isso que damos estas lições e é por isso que as instituímos.
A fé, o Credo e o conhecimento de Deus
A confiança e a riqueza da fé
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal 5
«Quem achará um homem verdadeiramente fiel?», pergunta a Escritura (Prov 20,6). Não to digo para te incitar a abrires-me o coração, mas para que mostres a Deus a candura da tua fé, a esse Deus que sonda os rins e os corações, e que conhece os pensamentos dos homens (cf Sl 7,10; 93,11). Sim, grande coisa é um homem de fé, mais rico do que todos os ricos. Com efeito, o crente possui todas as riquezas do Universo, dado que as despreza e as esmaga aos pés; já os ricos, mesmo que possuam imensas coisas materiais, são espiritualmente pobres: quanto mais juntam, mais consumidos se sentem pelo desejo daquilo que não têm. Pelo contrário, e esse é o cúmulo do paradoxo, o homem de fé é rico na sua pobreza, porque sabe que apenas precisa de se alimentar e se vestir; contentando-se com isso, pode pisar as riquezas aos pés.
E não somos só nós, os que trazemos o nome de Cristo, que vivemos da fé. Todos os homens vivem desta maneira, mesmo os que são estranhos à Igreja. É pela fé no futuro que duas pessoas que pouco se conhecem contraem matrimónio; a agricultura baseia-se na confiança de que os trabalhos empreendidos darão frutos; os marinheiros depositam a sua confiança num frágil esquife de madeira. […] A maior parte dos empreendimentos humanos assenta na fé; toda a gente acredita em certos princípios.
Hoje, porém, a Escritura apela à verdadeira fé e traça-nos o caminho que agrada a Deus. […] Foi graças a esta fé que, no caso de Daniel, se fechou a boca dos leões (cf Dan 6,23). «Empunhai o escudo com o qual podereis apagar os dardos inflamados do maligno» (Ef 6,16). […] A fé sustenta os homens, permitindo-lhes andar sobre as águas do mar (cf Mt 14,29). Alguns, como o paralítico, foram salvos pela fé de outros (cf Mt 9,2); a fé das irmãs de Lázaro era tão forte que ele foi chamado dos mortos (cf Jo 11). […] A fé que é dada gratuitamente pelo Espírito Santo ultrapassa por completo as forças humanas. Graças a ela, podemos dizer a esta montanha: «Muda-te daqui para acolá» e ela mudar-se-á (Mt 17,20).
Abraão, pai dos que acreditam
São Cirilo de Jerusalém — Catequeses batismais, n.º 5
Muito haveria a dizer acerca da fé. Mas basta-nos lançar olhar sobre um dos modelos que o Antigo Testamento nos dá, Abraão, pois somos seus filhos pela fé. Ele não foi justificado só pelas obras, mas também pela fé: praticara muitas ações boas, mas só depois de ter dado prova da sua fé foi chamado amigo de Deus. As suas obras tornaram-se perfeitas pela sua fé. De fato, foi pela fé que deixou os seus pais; foi pela fé que deixou a sua pátria e a sua casa. Ora, da mesma forma que ele foi justificado, também tu te tornas justo. Com o passar do tempo, o seu corpo tornou-se incapaz de ser pai, porque era velho; Sara, a quem ele se unira, também já era idosa. Não tinham, pois, nenhuma esperança de ter descendência. Mas Deus anuncia a esse ancião que será pai, e a fé de Abraão não vacilou. Considerando que o seu corpo estava já próximo da morte, não teve em conta a sua incapacidade física, mas o poder daquele que prometera, pois julgou que aquele que lhe fizera tal promessa era digno de confiança. Foi assim que, de dois corpos já marcados de algum modo pela morte, nasceu um filho. […]
É o exemplo da fé de Abraão que nos torna a todos seus filhos. De que maneira? Os homens consideram inacreditável a ressurreição dos mortos, como é inacreditável que dois velhos, marcados já para a morte, possam gerar descendência. Mas quando nos anunciam a boa nova de Cristo, crucificado na cruz, morto e ressuscitado, acreditamos. É, pois, pela semelhança com a sua fé que entramos na filiação de Abraão. E então, com a fé, recebemos como ele o vaso espiritual, somos circuncidados no batismo pelo selo do Espírito Santo.
A fé como assentimento e como dom espiritual
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal 5, 10-11
A palavra «fé» tem um duplo significado. Há, na verdade, um aspecto da fé que diz respeito aos dogmas e que consiste em concordar com uma dada verdade. Este aspecto da fé é proveitoso para a alma, segundo a palavra do Senhor: «Quem ouve a Minha palavra e crê n’Aquele que Me enviou tem a vida eterna» (Jo 5,24). […]
Mas há um segundo aspecto da fé: é a fé que nos foi dada por Cristo como carisma, gratuitamente, como dom espiritual. «A um é dada, pela ação do Espírito, uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, segundo o mesmo Espírito; a outro, a fé, no mesmo Espírito; a outro, o dom das curas, no único Espírito» (1Co 12,8-9). Esta fé que nos é dada como graça pelo Espírito Santo não é, pois, apenas uma fé dogmática, mas tem também o poder de realizar coisas que ultrapassam as forças humanas. Quem possui essa fé dirá «a este monte: “Tira-te daí e lança-te ao mar” […], assim acontecerá». Pois, quando alguém pronuncia esta palavra com fé «e não vacilar em seu coração, mas acreditar que o que diz se vai realizar» (Mc 11,23), recebe a graça da sua realização. É desta fé que foi dito: se tivésseis fé «como um grão de mostarda». Na verdade, o grão de mostarda é muito pequeno, mas tem em si uma energia fogosa; semente minúscula, desenvolve-se a ponto de estender os seus longos ramos e de até poder abrigar as aves do céu (cf Mt 13,32). Do mesmo modo, a fé realiza numa alma os maiores feitos, num piscar de olhos.
Quando está iluminada pela fé, a alma representa Deus diante de si e contempla-O tanto quanto possível. Abarca os limites do universo e, antes do fim dos tempos, já vê o julgamento e o cumprimento das promessas. Tu, portanto, possui essa fé que depende de Deus e que te leva a Ele; então receberás d’Ele essa fé que age para além das forças humanas.
O Credo e a transmissão da fé
São Cirilo de Jerusalém — Catequeses em Jerusalém, n.º 5, 12-13; PG 33, 520-524 (trad. Breviário, rev.)
Na instrução e profissão da tua fé, abraça e conserva sempre só aquela que a Igreja agora te entrega, e que está fundamentada em toda a Escritura. Nem todos podem ler a Escritura, uns porque não sabem e outros porque estão demasiadamente ocupados. Por isso, a fim de que ninguém pereça por causa da ignorância, resumimos todo o dogma da fé nos poucos versículos do Credo. […]
Conserva em tua memória estas palavras tão simples que ouves agora, e a seu tempo buscarás na Escritura o fundamento de cada um dos artigos. Esse símbolo da fé não foi composto segundo o parecer dos homens; as verdades que ele contém foram seleccionadas entre os pontos mais importantes de toda a Escritura, e resumem toda a doutrina da fé. E, assim como a semente de mostarda, apesar de ser um grão tão pequeno, contém em gérmen muitos ramos (Mt 13,32), também o símbolo da fé condensa em breves palavras o núcleo de toda a Revelação, contida tanto no Antigo como no Novo Testamento.
Portanto, irmãos, conservai cuidadosamente a tradição que agora recebeis e gravai-a profundamente em vossos corações (2Cor 3,3). […] Diz o Apóstolo: «Ordeno-vos na presença de Deus, que dá a vida a todas as coisas, e de Jesus Cristo, que deu testemunho diante de Pôncio Pilatos, que guardeis sem mancha até à aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo» (1Tim 6,13s) a fé que recebestes.
Conhecer a Deus segundo a capacidade recebida
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal n.º 6, 5-6
A pretexto de que não consigo beber o rio todo, deverei privar-me de tomar modestamente o que dele necessito? A pretexto de que a constituição dos meus olhos me impede de olhar o Sol de frente, deixarei de ver aquilo que as minhas necessidades me solicitam? A pretexto de que entrei num enorme pomar e não consigo comer todos os frutos que nele se encontram, deverei sair dele com fome? Eu louvo e glorifico Aquele que nos criou, porque tal está prescrito por mandamento divino: «Todo o ser vivo bendiga o seu santo nome» (Sl 145, 21) […].
Mas não está escrito: «Os seus [dos pequeninos] anjos, nos Céus, veem para sempre o rosto do meu Pai que está nos Céus» (Mt 18,10)? Os anjos veem a Deus, não como Ele é, mas – também eles – como O compreendem. Com efeito, foi o próprio Jesus que disse: «Não porque alguém tenha visto o Pai, a não ser Aquele que existe junto de Deus: este viu o Pai» (Jo 6,46). Os anjos veem, pois, de acordo com a sua capacidade, e os arcanjos como podem; os tronos e as dominações veem-no melhor que estas primeiras categorias, mas ficam aquém de um conhecimento digno do seu objeto. Só o Espírito Santo, juntamente com o Filho, O pode ver como Ele deve ser visto, pois «sonda todas as coisas e conhece as profundezas de Deus» (1Cor 2,10). Uma vez que tanto o Filho unigénito como o Espírito Santo conhecem adequadamente o Pai – pois «ninguém reconhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho O quiser revelar» (Mt 11,27) –, o Filho vê Deus como Ele deve ser visto e revela-O, com o Espírito e através do Espírito Santo, a cada um segundo a sua capacidade. […]
Portanto, uma vez que nem os anjos O conhecem – pois, como dissemos, o Unigénito revela com o Espírito e pelo Espírito Santo, a cada um segundo a sua capacidade –, que ninguém se envergonhe de confessar a sua ignorância.
O Pai e o Filho, Salvador do mundo
O Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal n.° 7, 4-7
Quando pronunciamos o nome do Pai, isso também nos faz pensar no Filho; tal como, referindo o Filho, pensamos imediatamente no Pai. Se, pois, há um Pai, é absolutamente necessário compreender que é Ele Pai de um Filho; e, se há um Filho, é absolutamente expetável que seja Filho de um Pai. […]
Claro, num sentido muito amplo, Deus é o Pai da multidão dos seres; mas, por natureza e na realidade, é o Pai do único Filho gerado, Nosso Senhor Jesus Cristo; é-o sem ter tido de utilizar o tempo , mas por ser, desde sempre, o Pai do único Filho gerado. […]
É um Pai perfeito, que gerou um Filho perfeito; que tudo deu Àquele a quem gerou – porque Jesus diz: «Tudo me foi entregue por meu Pai» (Mt 11,27); que é glorificado por aquele Filho único a quem gerou, porque o Filho diz: «Eu honro o meu Pai » (Jo 8,49), e ainda: «Assim como Eu tenho guardado os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor» (Jo 15,10). Dizemos pois, também nós, como o apóstolo: «Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e o Deus de toda a consolação!» (2Cor 1,3), e: «É por isso que eu dobro os joelhos diante do Pai, do qual recebe o nome toda a família, nos Céus e na Terra» (Ef 3,14-15), glorificando-O com o único Filho gerado. […]
Se, com efeito, nos foi concedido dizer, em especial nas nossas orações: «Pai nosso que estais nos Céus» (Mt 6,9), foi por pura benevolência da sua misericórdia. Porque não é por termos nascido segundo a natureza do Pai dos Céus que Lhe chamamos «Pai», mas porque, pela graça do Pai e a ação do Espírito Santo, fomos passados da escravidão à adoção filial e fomos admitidos, por indizível misericórdia, a empregar esse nome.
O Filho único, gerado antes de todos os séculos
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal, n.º 4, 7
Crê no Filho de Deus, o único, Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus gerado de Deus, vida gerada da vida, luz gerada da luz, semelhante em tudo Àquele que O gerou; Ele que não adquiriu o ser no tempo, mas antes de todos os séculos, que foi gerado pelo Pai eternamente e sem falhas; que é Sabedoria, Poder e Justiça subsistente de Deus; que está sentado à direita do Pai desde antes de todos os séculos.
Não foi depois da Paixão, ao contrário do que afirmam alguns, que, coroado por Deus em razão da sua paciência, por assim dizer, Ele recebeu o trono colocado à direita do Pai; não, Ele possui a dignidade real desde que existe (ora, Ele foi gerado desde toda a eternidade), sentado no trono com o Pai, pois é, como se disse, Deus, Sabedoria e Força, exercendo a realeza com o Pai e sendo, pelo Pai, autor de todas as coisas.
Nada falta à sua dignidade para ser divina: Ele conhece Aquele que O gerou tal como é conhecido por Aquele que O gerou; em suma, recorda o que está escrito no Evangelho: «Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho» (Mt 11,27).
O Filho está sentado à direita do Pai
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal n.º 14, 27-30
Recorda aquilo que te disse sobre o fato de o Filho estar sentado à direita do Pai, porque é isso que diz o símbolo: «Subiu aos Céus e está sentado à direita do Pai»! […]
O profeta Isaías, que tinha visto este trono antes da presença do Salvador na carne, afirma: «Vi o Senhor, sentado num trono elevado» (Is 6,1); ora, como «ao Pai, nunca ninguém O viu» (Jo 1,18; cf 1Tim 6,16), a personagem que apareceu ao profeta era o Filho. O salmista diz também: «O teu trono está preparado desde sempre; Tu existes desde toda a eternidade» (Sl 92,2), e há numerosos testemunhos desta realidade. […]
O Salmo 109 diz claramente: «Disse o Senhor ao meu Senhor: ‘Senta-Te à minha direita até que faça dos teus inimigos escabelo de teus pés!’». O Senhor reforça estas palavras no Evangelho, afirmando que Davi não as disse acerca de si mesmo, mas sob inspiração do Espírito Santo: «O próprio Davi Lhe chama Senhor». E nos Atos dos Apóstolos, no dia de Pentecostes, Pedro levantou-se com os onze e, discutindo com os israelitas, recordou-lhes, citando estas mesmas palavras, o testemunho do Salmo 109 (cf At 2,34). […]
Existem certamente outros testemunhos sobre a presença do Filho Unigênito à direita de Deus; mas contentemo-nos com estes, recordando uma vez mais que Ele não entrou na posse desta dignidade do trono na sequência do seu advento na carne, mas entrou nela muito antes de todos os séculos, pois é o Filho único gerado de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, que ocupa desde sempre o trono à direita do Pai.
Reconhecer o Filho de Deus
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal, n.º 11, 3.
Nosso Senhor Jesus Cristo fez-Se homem ignorado por muitos. Querendo ensinar uma verdade ignorada, reuniu os seus discípulos e perguntou-lhes: «Quem dizem os homens que é o Filho do homem?»
Ele não procurava uma glória vã; queria revelar-lhes a verdade, para que eles, os companheiros do Filho único de Deus, não O tomassem por um homem vulgar. E, quando eles Lhe responderam: «Uns dizem […] que é Elias, outros que é Jeremias», retorquiu-lhes: «A estes, é lícito não saberem; mas vós, apóstolos, que em meu nome limpais os leprosos, expulsais os demónios e ressuscitais os mortos, não deveis ignorar Aquele por quem realizais estes prodígios». E, como todos se calassem, porque esta ciência ultrapassava os conhecimentos humanos, Pedro, o chefe dos apóstolos, o arauto principal da Igreja, não recorreu a uma palavra que tivesse encontrado sozinho, antes seguiu uma inspiração que não vinha do homem, mas do Pai que lhe iluminava o entendimento, e replicou: «Tu és o Messias», e não apenas isso, mas «o Filho de Deus vivo». Segue-se uma bem-aventurança, porque, na verdade, estas palavras não eram apenas humanas. Jesus apõe um selo a esta declaração: ela vem do Pai. Com efeito, o Salvador diz: «Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus».
Assim pois, quem reconhece Nosso Senhor Jesus Cristo como Filho de Deus participa desta bem-aventurança; mas quem nega o Filho de Deus é miserável e desgraçado.
A geração eterna do Filho e a nossa adoção
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal XI, 5–10; excertos. Traduções do acervo.
O hoje eterno
Deus é espírito (Jo 4,24), e portanto Aquele que é espírito gerou espiritualmente […], por uma geração simples e incompreensível. O próprio Filho diz do Pai: «O Senhor disse-Me: ‘Tu és Meu Filho, hoje mesmo Te gerei’» (Sl 2,7). Este hoje não é recente, mas eterno; este hoje não é deste tempo, mas de todos os séculos. «Desde o dia do Teu nascimento receberás o principado no esplendor sagrado, desde o seio materno, desde a aurora da Tua infância» (Sl 109,3).
Filho por natureza, filhos por adoção
Acreditai em Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, mas, segundo o Evangelho, seu Filho único: «Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único, para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo 3,16). […]
Ele é o Filho de Deus por natureza e não por adoção, pois nasceu do Pai. […] Porque o Pai, sendo Deus verdadeiro, gerou o Filho à sua semelhança, Deus verdadeiro. […] Cristo é filho por natureza, um verdadeiro filho, não um filho adotivo como vós, os novos batizados, que agora vos tornastes filhos de Deus. Porque vos tornastes também filhos, mas por adoção, segundo a graça, como está escrito: «Mas a todos os que O receberam, aos que crêem nele, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo 1,12). Nós somos gerados pela água e pelo Espírito (Jo 3,5), mas não da mesma maneira que Cristo foi gerado pelo Pai. Porque, no momento do batismo, este último levantou a voz e disse: «Este é o meu Filho», para mostrar que Ele era Filho antes mesmo do seu batismo.
O Pai não gerou o Filho como, nos homens, o espírito gera a palavra. Porque o espírito em nós subsiste, enquanto a palavra, uma vez pronunciada e difundida no ar, desaparece. Mas nós sabemos que Cristo foi gerado Verbo, Palavra perene e viva, não pronunciada e saída dos lábios, mas nascida eternamente do Pai, de modo substancial e inefável. Porque «no princípio já existia o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus» (Jo 1,1), sentado à sua direita (Sl 109,1). Ele é a Palavra que compreende a vontade do Pai e produz todas as coisas por sua ordem, Palavra que desce e que sobe (Ef 4,10) […], Palavra que fala e que diz: «Eu digo o que vi junto de meu Pai» (Jo 8,38). Palavra plena de autoridade (Mc 1,27) e que tudo rege, porque «o Pai entregou tudo ao Filho» (Jo 3,35).
Nota editorial: As versões equivalentes foram reunidas. Corrigiram-se Jo 5,24 para Jo 4,24 e «criação» para «geração» no trecho sobre a geração do Filho, conforme o cotejo da catequese XI, 5.
A realeza do Filho e o serviço do Salvador
São Cirilo de Jerusalém — Catequese Batismal 10, 2-5; PG 33, 662ss. (a partir da trad. Bouvet/Orval)
Se alguém quer honrar a Deus, que se prostre diante do Filho de Deus. Sem isso, o Pai não aceita ser adorado. Do alto dos céus, o Pai fez ouvir as seguintes palavras: «Este é o Meu Filho muito amado, em Quem pus a Minha complacência» (Mt 3, 17). O Pai compraz-Se no Filho […], que é chamado «Senhor» (Lc 2, 11), não abusivamente, como os senhores humanos, mas porque o senhorio Lhe pertence por natureza desde toda a eternidade. […]
Não deixando de ser quem é e mantendo verdadeiramente a glória imutável do Seu estado de Filho, Ele não deixa de Se adaptar às nossas fraquezas, como médico muito hábil e mestre compassivo. Fê-lo quando era realmente Senhor, não tendo poder por transferência, antes Lhe pertencendo por natureza a glória do senhorio. Não era Senhor à nossa maneira, mas era Senhor com toda a verdade, exercendo o senhorio com o consentimento do Pai, sobre as Suas próprias criaturas. Com efeito, nós temos domínio sobre os homens que são nossos iguais, quer em dignidade, quer em sofrimento, e muitas vezes temo-lo também sobre os que são mais velhos. Pelo contrário, em Nosso Senhor Jesus Cristo o senhorio não é deste tipo: Ele é, em primeiro lugar, Criador, e depois Senhor. Ele tudo criou segundo a vontade do Pai, e depois exerce o senhorio sobre aquilo que só por Ele existe.
O Pai envia o Filho como médico da humanidade
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal 12, 6-8
Os profetas foram enviados com Moisés para curar Israel; mas cuidavam de Israel chorando, sem conseguirem dominar o mal, como disse um deles: «Ai de mim! Desapareceram da terra os justos» (Mq 7,1-2). […] Grande era a ferida da humanidade; «desde a planta dos pés até ao alto da cabeça, não há nada de são em vós. Tudo são feridas, contusões, chagas vivas, que não foram curadas, nem ligadas, nem suavizadas com azeite» (Is 1,6). Os profetas, esgotados pelas lágrimas, diziam: «Quem dera que viesse de Sião a salvação de Israel!» (Sl 13,7) […] E outro profeta suplicava nestes termos: «Senhor, abaixa os céus e desce» (Sl 143,5). As feridas da humanidade excedem os nossos remédios. «Derrubaram os Teus altares e assassinaram os Teus profetas.» (1R 19,10). A nossa miséria não pode ser curada por nós; é de Ti que necessitamos para nos reerguemos.
O Senhor satisfez a oração dos profetas. O Pai não desprezou a nossa raça mortificada; enviou do céu o Seu próprio Filho como médico. «O Senhor que procurais virá brevemente» disse um profeta. Onde? «No Seu santuário» (Ml 3,1), onde apedrejastes o Seu profeta (2Cr 24,21). […] O próprio Deus disse ainda: «Eis que Eu venho para morar no meio de ti, e muitas nações se unirão ao Senhor» (Zc 2,14-15). […] Agora venho reunir todos os povos de todas as línguas, porque «veio para o que era Seu, e os Seus não O receberam» (Jo 1,11).
Vens; e que dás Tu às nações? «Eu virei para reunir os povos e colocarei no meio deles um sinal» (Is 66,18-19). Com efeito, na seqüência do Meu combate na cruz, cada um dos Meus soldados levará sobre a fronte o selo real (Ap 7,3). E outro profeta disse: «Inclinou os céus e desceu, com densas nuvens debaixo dos Seus pés». (Sl 17,10). Mas a Sua descida dos céus permaneceu desconhecida dos homens.
O perseguidor torna-se testemunha de Cristo
São Cirilo de Jerusalém — Catequese baptismal 10 (a partir da trad. Bouvet, Soleil Levant 1961, pp. 201ss.)
«Não nos anunciamos a nós mesmos, mas anunciamos Jesus Cristo; somos vossos servos por causa de Jesus» (2Cor 4, 5). Quem é então esta testemunha que anuncia Cristo? É aquele que outrora O perseguia. Que maravilha! Eis que o perseguidor de antigamente anuncia Cristo. Por quê? Será que foi comprado? Mas ninguém poderia persuadi-lo desta maneira. Terá sido a visão de Cristo nesta terra que o cegou? Mas Jesus já tinha subido ao céu. Saulo saíra de Jerusalém para perseguir a Igreja de Cristo, e três dias depois, em Damasco, o perseguidor transformara-se em pregador. Sob que influência? Há quem cite como testemunhas a favor dos seus amigos pessoas do seu partido. Eu, ao invés, apresento como testemunha um antigo inimigo.
Ainda duvidas? Grande é o testemunho de Pedro e João, mas […] eles eram gente da casa. Quando a testemunha é um antigo inimigo, de um homem que mais tarde morrerá pela causa de Cristo, quem poderá duvidar do valor do seu testemunho? Admiro o plano do Espírito Santo […]: Ele concede que Paulo, o antigo perseguidor, escreva as suas catorze epístolas. […] Como não se podiam contestar os seus ensinamentos, permitiu que aquele que fora outrora o inimigo e o perseguidor escrevesse mais do que Pedro e João; é assim que a fé de todos nós pode ser fortalecida. Com efeito, todos ficaram estupefactos com Paulo: «Não é aquele que nos perseguia? Não terá vindo aqui para nos prender?» (Act 9, 21). Não fiqueis surpreendidos, diz Paulo. Eu percebo-vos; para mim «é duro revoltar-me contra a espora» (Act 26,14). «Não sou digno de ser chamado apóstolo porque persegui a Igreja de Deus» (1Cor 15, 9); «Ele foi misericordioso para comigo: o que eu fazia, fazia-o por ignorância.» […] «A graça de Deus superabundou em mim» (1Tim 1, 13-14).
O batismo e a participação nos santos mistérios
João Batista e o início da nova aliança
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal 3 (a partir da trad. Soleil Levant 1962, p. 71 rev.)
Ponto final do Antigo Testamento, o batismo é também o início do Novo. Com efeito, ele teve como promotor João e «entre os nascidos de mulher não apareceu ninguém maior do que ele» (Mt 11, 11). João termina a série de profetas, «porque todos os profetas e a Lei vaticinaram até João» (Mt 11, 13). E abre a era do Evangelho, como está escrito: «Princípio do Evangelho de Jesus Cristo […]. João Batista apareceu no deserto a pregar um baptismo» (Mc 1, 1.4).
Opô-lo-ias a Elias, o tisbita que foi levado para o céu? Mas ele não é superior a João. Enoc foi levado para o céu, mas não é superior a João. Moisés foi um grande legislador em Israel. Todos os profetas foram admiráveis, mas não eram superiores a João. Não se trata de comparar profetas com profetas; mas o seu Senhor, o nosso Senhor, o Senhor Jesus, declarou: «Entre os homens não apareceu ninguém maior do que João Batista» (Mt 11, 11). A comparação foi estabelecida entre o grande servo e os seus companheiros, mas a superioridade e a graça do Filho face aos servos não tem comparação.
Vês então que homem Deus escolheu como primeiro beneficiário desta graça? Um pobre, um amigo do deserto, que não era por isso inimigo dos homens. Ao alimentar-se de gafanhotos, dava asas à sua alma. Comendo mel, pronunciava palavras mais doces e mais úteis que o mel. Vestindo um traje de pêlo de camelo, demonstrava na sua pessoa o exemplo do esforço. Foi desde o ventre de sua mãe santificado pelo Espírito Santo (Lc 1, 15). Jeremias foi santificado, mas não era profeta desde o ventre materno. Apenas João, na prisão do ventre de sua mãe, estremeceu de alegria (Lc 1, 44); ainda sem ver com os olhos de carne, sob a ação do Espírito, ele reconheceu o Senhor. A grandeza da graça do batismo exigia um grande chefe de fila.
A alma preparada para o Esposo
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal n.º 3, 1.16
«Alegrem-se os Céus, exulte a Terra» (Is 49,13) por estes [catecúmenos] que vão ser aspergidos com o hissopo e purificados com o hissopo místico pelo poder daquele que, aquando da sua Paixão, foi dessedentado com o hissopo por meio de uma cana. Rejubilem as potências celestes e preparem-se as almas que vão unir-se ao Esposo místico; porque já se ouve a voz daquele que clama no deserto: «Preparai o caminho do Senhor» (Is 40,3). […]
«Tem confiança, Jerusalém, o Senhor vai eliminar todas as tuas iniquidades» (Sof 3,14.15). O Senhor vai purificar as manchas dos teus filhos e das tuas filhas com um espírito de justiça e um espírito de extermínio. Ele vos aspergirá com água pura e sereis purificados de todas as vossas faltas (cf. Ez 36,25). Junto a vós, os anjos cantarão estas palavras: «Quem é esta, que se ergue, de brancura imaculada, apoiada no seu amado?» (cf Cant 8,5). A alma que foi escrava chama amado ao que foi o seu Senhor; e Ele, ratificando esta escolha sincera, exclama, após a confissão feita com boa consciência: «Como és bela, minha amiga, como és bela; teus dentes são como rebanhos de ovelhas tosquiadas» (Cant 4, 1.2). E acrescenta: «Todas elas tiveram gêmeos» (Ibid.), porque a graça é dupla: é a graça que é realizada pela água e pelo Espírito, e a que é anunciada no Antigo e no Novo Testamento.
Que, no final do vosso jejum, instruídos com a nossa doutrina, carregados dos frutos das vossas boas obras, companheiros sem mancha do Esposo espiritual, possais alcançar a remissão dos vossos pecados pelo Deus a quem pertence toda a glória, que Ele partilha com o Filho e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos, amém.
Preparar a alma para a adoção filial
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal III, 14–15.
Jesus Cristo era Filho de Deus, mas só começou a pregar depois do seu batismo. Se o próprio Mestre dispôs o tempo segundo uma ordem, deveremos nós, que somos servos, erguer-nos, temerários e rudes? Jesus iniciou a pregação exatamente quando o Espírito Santo desceu sobre Ele sob forma corpórea de uma pomba, não para Se manifestar a Jesus pela primeira vez (pois Ele conhecia o Espírito antes de Este vir sob forma corpórea), mas para que João, que batizou Jesus, visse o Espírito: «Eu não O conhecia, mas quem me enviou a batizar na água é que me disse: “Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e permanecer é que batiza no Espírito Santo”».
Se tiveres uma piedade sincera, também sobre ti descerá o Espírito Santo e a voz do Pai far-se-á ouvir do alto, não dizendo: « Este é o meu Filho» (Mt 3,17), mas: «Este tornou-se de agora em diante meu filho». Porque a palavra «é» só Lhe pertence a Ele, uma vez que «no princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus» (Jo 1,1). A palavra «é» aplica-se a Ele porque Ele é sempre o Filho de Deus; pelo contrário, a ti aplica-se «tornou-se de agora em diante», porque não o és por natureza, mas recebes o nome de filho por adoção. Ele «é» eternamente; tu recebes a graça progressivamente.
Prepara, pois, o receptáculo da tua alma para te tornares filho de Deus, herdeiro de Deus e co-herdeiro com Cristo (cf Rom 8,17). E preparar-te-ás de forma útil se progredires da crença à convicção firme, se escolheres «depor o homem velho».
Nota editorial: Este excerto foi separado da catequese XVII, 9–10, que aparecia no mesmo post.
A pomba e a dignidade dos batizados
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal XVII, 9–10.
O Espírito Santo desceu durante o batismo de Cristo para que a dignidade dos batizados não passasse despercebida, como disse João:
«Aquele que me enviou a batizar na água disse-me: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito descer e sobre Ele permanecer, é Ele o que batiza no Espírito Santo’» (Jo 1,33).
Atenção: o que diz o Evangelho? «Os céus rasgaram-se»; mas rasgaram-se por causa da dignidade daquele que desceu. «Eis que os céus se abriram para Ele, e viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e vir sobre Ele» (Mt 3,16). Com efeito, era necessário […] que as primícias do Espírito Santo dos batizados fossem dadas à humanidade do Salvador que concede tão grande graça.
Talvez tenha descido também sob a forma de pomba para mostrar, como sugerem alguns, um modelo da pomba pura, inocente e simples, que, com as suas orações, trabalha pelos seus pequeninos e pelo perdão dos pecados. […] Em parte, a pomba de Noé prefigurava esta. Pois, assim como no tempo de Noé os homens receberam a salvação através da madeira e da água, e deram início a uma nova geração, e assim como a pomba voltou para ele à noite com um ramo de oliveira, assim também o Espírito Santo desceu sobre o verdadeiro Noé, o autor da segunda geração, que trazia consigo na mesma arca amostras de todas as espécies […]. A pomba espiritual desceu no momento do batismo para mostrar que é Ele próprio que salva os crentes pelo madeiro da cruz e que, ao anoitecer, trará a salvação pela sua morte.
A água do batismo: túmulo e mãe
São Cirilo de Jerusalém — Catequese mistagógica II, 4–7; também numerada como catequese XX.
Fostes conduzidos pela mão à piscina batismal, como Cristo o foi da cruz até ao túmulo que está diante de vós [na igreja do Santo Sepulcro]. Depois de terdes confessado a vossa fé no Pai e no Filho e no Espírito Santo, fostes imersos três vezes na água e três vezes emergistes, símbolo dos três dias que Cristo passou no túmulo. Tal como o nosso Salvador passou três dias e três noites no coração da terra, também vós, ao sairdes da água depois da vossa imersão, haveis imitado Cristo. […] Quando imergistes, estáveis na noite, não víeis nada; mas ao sairdes da água estáveis como que em pleno dia. Num mesmo movimento, morrestes e nascestes; essa água que salva foi ao mesmo tempo o vosso túmulo e a vossa mãe. […]
Estranho paradoxo! Não estamos verdadeiramente mortos, não fomos verdadeiramente sepultados, não fomos verdadeiramente crucificados nem ressuscitados; mas, se esta nossa imitação não é mais do que uma imagem, a salvação é uma realidade. Cristo foi realmente crucificado, realmente sepultado e verdadeiramente ressuscitou, e toda esta graça nos é dada para que, participando nos seus sofrimentos e imitando-os, ganhemos a salvação. Que imenso amor pelos homens! Cristo recebeu os pregos nas suas mãos puras e sofreu; a mim, sem sofrimento e sem dor, concede-me por esta participação a graça da salvação. […]
Sabemo-lo bem: se é certo que o batismo nos purifica dos pecados e nos dá o Espírito Santo, ele é também a réplica da Paixão de Cristo. É por isso que Paulo proclama: «Não o sabeis? Nós todos, que fomos batizados em Jesus Cristo, foi na sua morte que fomos batizados. Fomos portanto sepultados com Ele no batismo.» […] Tudo o que Cristo suportou, foi por nós e para nossa salvação, na realidade e não em aparência. […] E nós tornamo-nos participantes dos seus sofrimentos. Por isso, Paulo continua a proclamar: «Se nos tornamos um só com Cristo por uma morte semelhante à sua, sê-lo-emos também por uma ressurreição que se lhe assemelhe» (Rom 6,3-5).
Nota editorial: A numeração dupla do acervo foi explicitada; a passagem pertence às catequeses mistagógicas, tradicionalmente transmitidas sob o nome de Cirilo.
O pão do Céu e o cálice da salvação
São Cirilo de Jerusalém — Catequese mistagógica IV, 1–9; também numerada como catequese XXII; excertos.
Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue
O Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e deu-o aos seus discípulos, dizendo: «Tomai e comei, isto é o meu corpo»; em seguida, tomando o cálice, disse: «Tomai e bebei, isto é o meu sangue» (cf 1Cor 11,23-25). Se Ele próprio declarou abertamente, ao falar do pão: «Isto é o meu corpo», quem ousará duvidar? E se Ele próprio é tão afirmativo quando diz: «Isto é o meu sangue», quem hesitará ainda ou dirá que não é o seu sangue? […]
De outra vez, em Caná da Galileia, Jesus tinha transformado a água em vinho, no vinho que é irmão do sangue. Quem poderá pois recusar-se a acreditar que Ele transforma o vinho em sangue? Convidado para um casamento humano, operou aquele milagre espantoso; pois com muito mais razão, quem poderá recusar-se a reconhecer que Ele concede «aos companheiros do Esposo» (Mt 9,15) a alegria do seu corpo e do seu sangue?
Porque o seu corpo é-te dado sob a aparência de pão e o seu sangue sob a aparência de vinho a fim de que, tendo participado do corpo e do sangue de Cristo, sejas com Ele um mesmo corpo e um mesmo sangue. Desta forma, tornamo-nos «portadores de Cristo» («cristóforos»). O seu corpo e o seu sangue penetram nos nossos membros, tornando-nos participantes da natureza divina.
Julgar pela fé
Naquele tempo, Cristo disse: «Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós». Mas eles não ouviram estas palavras espiritualmente e foram-se embora escandalizados, julgando que o Senhor os tinha convidado para uma refeição comum.
Já no Antigo Testamento havia os pães da proposição. Mas deixou de ser necessário oferecer o pão da Antiga Aliança. Na Nova Aliança, temos o pão do Céu e o cálice da salvação (cf Sl 115,13), que santificam a alma e o corpo. De facto, tal como o pão se acorda com o corpo, assim o Verbo se harmoniza com a alma.
Portanto, não te detenhas no pão e no vinho como se fossem apenas isso, porque, segundo a afirmação do Mestre, eles são corpo e sangue. Seja qual for a perceção dos sentidos, que a fé seja o teu conforto. Não julgues a realidade pelo seu sabor, mas pela fé. […]
O que aprendeste dá-te esta certeza: o que parece pão não é pão – embora tenha sabor a pão –, mas o corpo de Cristo; e o que parece vinho não é vinho – embora o gosto o queira afirmar –, mas o sangue de Cristo.
O coração fortalecido pelo pão espiritual
Disse David num salmo: «Assim [o homem] obtém azeite para fazer brilhar o seu rosto e pão que lhe reconforta o ânimo» (Sl 103,15). Fortalece, pois, o teu coração tomando este pão espiritual e alegra o rosto da tua alma. E, de rosto descoberto e em pureza de consciência, reflete a glória do Senhor como um espelho.
Nota editorial: As versões e os complementos de uma mesma catequese foram reunidos sem repetir a passagem sobre a participação no corpo e no sangue de Cristo. As instruções sobre a recepção da comunhão pertencem à catequese seguinte.
Receber o Rei com reverência
São Cirilo de Jerusalém — Catequese mistagógica V, 21; também numerada como catequese XXIII.
Por isso, quando te aproximares para O receber, não avances sem respeito, estendendo as palmas das mãos com os dedos afastados. Mas, uma vez que na tua mão direita vai repousar o teu Rei, faz-Lhe um trono com a mão esquerda e, recebendo o corpo de Cristo no côncavo da tua direita, responde: Amém!
Nota editorial: A referência foi restituída à quinta catequese mistagógica; o acervo a agregava à catequese XXII. Conserva-se o testemunho do rito antigo descrito no texto.
O Espírito Santo, santificador e consolador
Um só Espírito Santo, santificador universal
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal n.º 4, 16-17
Crê no Espírito Santo; venera-O, tal como aprendeste a venerar o Pai e o Filho, e não sigas aqueles cujo ensino O rebaixa.
Aprende que o Espírito Santo é único, indivisível, poderosíssimo; Ele multiplica as suas obras sem no entanto Se dividir; é Ele quem conhece os mistérios, quem perscruta todas as coisas, mesmo as profundezas de Deus. Ele que veio sob a forma de pomba sobre o Senhor Jesus Cristo; Ele que foi a força da Lei e dos profetas; e que ainda agora, tendo chegado o tempo do batismo, marca todas as almas com o seu selo; toda a natureza inteligente tem necessidade da sua santidade. Quem ousasse blasfemar contra o Espírito Santo não teria perdão, nem neste século nem no século futuro; Ele é glorificado, com o Pai e o Filho, com a glória da divindade; dele necessitam Tronos e Dominações, Principados e Potestades.
Porque há um só Deus, o Pai de Cristo; e um só Senhor Jesus Cristo, o Filho único gerado por Deus; único também é o Espírito Santo, universal santificador e divinizador, que falou pela Lei e pelos profetas, no Antigo e no Novo Testamentos. Guarda sempre esse selo na tua inteligência.
O Espírito Santo e os sentidos da palavra espírito
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal XVI, 13.
Dado que sobre o «espírito» – sem mais – muitas coisas diferentes estão escritas nas divinas Escrituras, e sendo de temer que a ignorância traga confusões, porque pode não se perceber de que espírito se ocupa o texto escriturário, é bom […] precisar os conhecimentos sobre o tipo de espírito que a Escritura afirma ser o Santo. […] A muitas coisas se chama «espírito». Com efeito, também ao anjo se chama espírito, à nossa alma se chama espírito, e a este vento que sopra se chama espírito; a uma grande virtude se chama espírito […]; até ao nosso adversário demónio se chama espírito. Na presença destas diversas aceções, faz por não tomares, pela força da homonímia, um pelo outro.
Acerca da nossa alma, com efeito, diz a Escritura: «Mal deixam de respirar [de ter o sopro], regressam ao pó da terra» (Sl 145,4). E, quanto ao assunto da própria alma, diz ainda: «O Senhor que estendeu os céus e fundou a Terra e criou o espírito humano nos homens» (Zc 12,1). Sobre os anjos, diz nos salmos: «Fazes dos ventos teus mensageiros, e dos relâmpagos, teus ministros» (Sl 103,4). Quanto ao vento, diz sobre ele: «Era como o vento leste, que destroça as naus de Társis» (Sl 47,8); e «como se agitam as árvores das florestas impelidas pelo vento» (Is 7,2); e «fogo e granizo, neve e neblina; vento tempestuoso, que obedece à sua palavra» (Sl 148,8).
Sobre o bom ensinamento, diz o próprio Senhor: «As palavras que vos disse são espírito e são vida» (Jo 6,63), isto é, de natureza espiritual. O Espírito Santo não fala com a língua, mas, pessoa viva, permite-Se falar com sabedoria, é então Ele próprio quem fala e quem assiste.
Nota editorial: O post reunia duas catequeses; o excerto sobre a vida eterna foi separado e identificado em XVIII, 29–31.
A água viva e a diversidade dos dons
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal XVI, 11–12; tradução do Breviário indicada no acervo.
«É o Espírito que vivifica» (2Cor 3,6).
«A água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma nascente de água a jorrar para a vida eterna» (Jo 4, 14). É uma água completamente nova, viva e que jorra, que jorra para aqueles que são dignos dela. Por que razão é o dom do Espírito apelidado de «água»? É porque a água está na base de tudo; porque a água produz a vegetação e a vida; porque a água desce do céu sob a forma de chuva; porque, ao cair sob uma única forma, ela actua de uma maneira multiforme. […] Ela é diferente na palmeira, diferente na vinha, ela dá-se inteiramente a todos. Tem apenas uma maneira de ser e não é diferente de si mesma. A chuva não se transforma quando cai aqui ou ali mas, ao adaptar-se à constituição dos seres que a recebem, produz em cada um deles aquilo que lhe convém.
O Espírito Santo actua assim. Apesar de ser único, simples e indivisível, «Ele distribui os seus dons a cada um conforme entende» (1Cor 12, 11). Da mesma maneira que a lenha seca, associada à água, produz rebentos, a alma que vivia no pecado, mas que a penitência torna capaz de receber o Espírito Santo, produz frutos de justiça. Embora o Espírito seja simples, é Ele, por ordem de Deus e em nome de Cristo, que anima numerosas virtudes.
Ele utiliza a língua deste ao serviço da sabedoria; ilumina pela profecia a alma daquele; dá a outro o poder de expulsar os demónios; dá a outro ainda o de interpretar as divinas Escrituras. Fortifica a castidade de um, ensina a outro a arte da esmola, ensina àqueloutro o jejum e a ascese, a outro ainda ensina a desprezar os interesses do corpo, prepara outro para o martírio. Diferente nos diferentes homens, Ele não é diferente de si mesmo, tal como está escrito: «Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um para proveito comum» (1Cor 12, 7).
O Espírito Santo perscruta as profundezas de Deus
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal XVI, 22–23; Sophia.docx, item 8.
Grande, poderoso nos seus dons, admirável: assim é o Espírito Santo. […] Viste o seu poder estender-se a todo o mundo; não permaneças, pois, na Terra, mas eleva-te ao Céu, eleva-te em pensamento ao primeiro Céu e vê as incontáveis miríades de anjos. Esforça-te por te elevares ainda mais através da reflexão, e vê também os arcanjos, vê também os espíritos, vê as virtudes, vê as dominações. Pois o Chefe supremo de todos esses espíritos, o Senhor e santificador, é o Paráclito.
Entre os homens, Elias, Eliseu, Isaías, todos precisam dele; entre os anjos, Miguel e Gabriel, precisam dele. Não há criatura que seja igual a Ele em honra, pois as várias categorias de anjos e todos os seus exércitos reunidos não se comparam ao Espírito Santo: a bondade infinita do Paráclito eclipsa todos estes seres. Eles são enviados para um ministério, ao passo que Ele perscruta as profundezas de Deus, como diz o Apóstolo: «O Espírito Santo penetra todas as coisas, até o que há de mais profundo em Deus» (1Cor 2,10). De facto, quem conhece os pensamentos de um homem a não ser o seu próprio espírito? Da mesma forma, ninguém conhece os pensamentos de Deus a não ser o Espírito de Deus.
Nota editorial: Conservou-se o corpo do documento, com correções de concordância e remoção de caracteres invisíveis; não se reproduziu a data biográfica incorreta do cabeçalho.
O Espírito Santo, força dos mártires
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal n.º 16, 20-21
O Espírito é chamado Paráclito porque consola, tranquiliza e vem em socorro da nossa fraqueza: «não sabemos o que havemos de pedir, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis» (Rm 8,26) dirigidos a Deus. Muitas vezes, um homem que é maltratado por causa de Cristo é injustamente desonrado; é sujeito ao martírio, com tormentos, fogo, animais ferozes, precipício. Mas o Espírito Santo diz-lhe suavemente: «Espera no Senhor» (Sl 26,14); isto que agora passas é pouco, e grandes serão as recompensas; sofrerás algum tempo, mas estarás eternamente na companhia dos anjos: «Os sofrimentos do tempo presente nada são comparados com a glória que vos será revelada» (Rm 8,18). Ele descreve ao homem o Reino dos Céus, apontando-lhe o paraíso das delícias. E os mártires, obrigados a voltar o rosto físico para os juízes, mas já no paraíso pelo seu poder, desprezam as dificuldades que têm diante dos olhos.
Os mártires dão testemunho pelo poder do Espírito Santo. O Salvador disse aos seus discípulos: «Quando vos levarem às sinagogas, aos magistrados e às autoridades, não vos preocupeis como haveis de vos defender ou com o que haveis de dizer, pois o Espírito Santo vos ensinará, naquela hora, o que é necessário dizer» (Lc 12,11-12). De facto, é impossível dar testemunho a favor de Cristo se não recebermos o testemunho do Espírito Santo; pois, se «ninguém pode dizer: “Jesus é Senhor!”, a não ser sob a ação do Espírito Santo» (1 Cor 12,3), alguém dará a vida por Jesus a não ser pelo Espírito Santo?
Batizados no Espírito Santo
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal XVII, 14–15.
O Paráclito desceu para revestir os apóstolos de poder e os batizar. O Senhor disse: «Sereis batizados no Espírito Santo dentro de poucos dias» (At 1,5). Não se trata de uma graça parcial, mas do poder absoluto; com efeito, assim como aquele que é mergulhado na água e batizado é rodeado pelas águas, também os apóstolos foram completamente batizados pelo Espírito. Mas a água envolve o corpo externamente; o Espírito, porém, batiza a alma escondida no íntimo do ser, nada deixando intocado.
Porque te surpreendes com isto? Considera um exemplo material […]: quando o fogo penetra a espessura do ferro, toda a massa deste se transforma em fogo: de frio, torna-se incandescente; de baço, brilhante. Se o fogo, que é material, penetra a matéria do ferro e nela trabalha sem obstáculos, porque haverás de te surpreender com o facto de o Espírito Santo penetrar as profundezas da alma? […] «E encheu toda a casa onde se encontravam» (At 2,2): a casa tornou-se o receptáculo da água mística. Os discípulos estavam sentados no interior e toda a casa se encheu; foram, pois, batizados sem restrições, segundo a promessa, as suas almas e os seus corpos foram revestidos da veste divina que salva.
«Viram então aparecer uma espécie de línguas de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles» (At 2,3). […] É isto que vos deve acontecer: a supressão e destruição dos vossos pecados como espinhos, e a iluminação das preciosas profundezas da vossa alma; finalmente, o dom da graça, que Ele também concedeu aos apóstolos, e que repousou sobre eles sob a forma de línguas de fogo, para lhes coroar a cabeça de diademas espirituais inteiramente novos, feitos de línguas de fogo. A espada de fogo barrara as portas do paraíso; a língua de fogo salvadora restituiu a graça.
Nota editorial: A referência, ausente no post, foi identificada pelo cotejo; corrigiram-se dois lapsos mecânicos.
A cruz e a ressurreição de Cristo
A cruz liberta a humanidade do pecado
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal, n.° 13
Dizia São Paulo: «Quanto a mim, de nada me quero gloriar, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo» (Gal 6,14). Foi coisa deveras admirável ter aquele cego de nascença recuperado a vista em Siloé; mas que significou isso para os cegos de todo o mundo? A ressurreição de Lázaro, morto havia quatro dias, foi coisa grande, que ultrapassou a natureza; mas essa graça aproveitou apenas a ele, nada trouxe a todos os que, no mundo, tinham morrido pelos seus pecados. Foi assombroso fazer brotar, a partir de apenas cinco pães, alimento bastante para saciar cinco mil homens; mas isso nada significou para aqueles que, em todo o universo, sofriam de fome e de ignorância. Admirável foi a libertação de uma mulher acorrentada por Satanás havia dezoito anos; mas que significará esse fato comparado com a nossa situação de presos pelas correntes dos nossos pecados ?
Mas a vitória da cruz conduziu à luz todos aqueles que a ignorância tornava cegos, libertou todos os que o pecado fazia cativos e resgatou toda a humanidade. Não te surpreenda que o mundo inteiro tenha sido resgatado. Aquele que morreu por este resgate não era só um homem, mas o Filho unigênito de Deus. O pecado de Adão trouxe a morte ao mundo; ora, se a queda de um só fez reinar a morte sobre todos os homens, não há de a justiça de um só, com muito mais forte razão, fazer reinar a vida (cf Rom 5, 17)? Se outrora, pela árvore cujo fruto comeram, os nossos primeiros pais foram expulsos do paraíso, não hão de agora, pela árvore da cruz de Jesus, entrar os crentes muito mais facilmente no Paraíso? Se o primeiro ser modelado de barro trouxe a morte a todos, não há de Aquele que do barro o modelou trazer a todos a vida eterna, Ele que é a própria Vida (cf Jo 14,6)?
Não nos envergonhemos da cruz de Cristo
São Cirilo de Jerusalém — Catequeses batismais IV, 10 e 14; XIII, 3–4, 6 e 23; excertos. PG 33 e traduções do acervo.
O testemunho do Gólgota
Ele foi realmente crucificado pelos nossos pecados. Quem quiser negá-lo, será confundido por este lugar ilustre, por este Gólgota abençoado onde estamos reunidos precisamente por causa daquele que ali foi crucificado; e pelo madeiro da cruz, que, dividido em fragmentos, enche hoje a terra inteira. Ele não foi crucificado pelos seus próprios pecados, mas para que nós fôssemos libertados dos nossos. Por isso, foi desprezado pelos homens e, como homem, esbofeteado; mas, como Deus, foi reconhecido por toda a criação: pois o Sol, ao ver o seu Senhor ultrajado, afastou-se tremendo, incapaz de suportar tal visão. […]
Não nos envergonhemos da cruz de Cristo; mesmo que outro a esconda, tu, marca-a visivelmente na fronte, para que os demónios fujam aterrorizados ao verem este sinal régio. Faz este sinal quando comeres e beberes, te sentares e te levantares, falares e andares, enfim, em todos os teus atos. Porque aquele que foi crucificado aqui está no alto dos Céus.
Com efeito, se, depois de ter sido crucificado, Ele tivesse permanecido no túmulo, teríamos de corar; mas não: crucificado no nosso Gólgota, Ele subiu da montanha do Oriente, do Monte das Oliveiras, para o Céu. Com efeito, tendo descido da nossa terra para o inferno e subido de novo para nós, subiu de nós para o Céu, enquanto o Pai O aclamava, dizendo: «Senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos como escabelo de teus pés» (Sl 109,1).
A Paixão real e a ressurreição
Sim, Jesus sofreu realmente por todos os homens. A cruz não era um simulacro, pois dessa maneira também a redenção o teria sido. A morte não foi uma ilusão […]; a Paixão foi real. Cristo foi realmente crucificado: não temos nada de que nos envergonhar. Não podemos negar que Ele foi crucificado; pelo contrário, digo-o com orgulho. […] Reconheço a cruz porque conheço a ressurreição. Se o crucificado tivesse permanecido na morte, eu não teria reconhecido a cruz, mas tê-la-ia ocultado, assim como ao meu Senhor. Mas a cruz foi seguida da ressurreição; por isso, não me envergonho de falar dela.
A entrega livre e a fidelidade na provação
Não devemos ter vergonha da cruz do Salvador, mas gloriar-nos nela. «A linguagem da cruz é escândalo para os judeus e loucura para os gentios», mas para nós é salvação. É loucura para os que se perdem e poder de Deus para os que se salvam (1Cor 1,18-24). Não foi apenas um homem que morreu, mas o Filho de Deus, Deus feito homem. No tempo de Moisés, o cordeiro afastou o anjo exterminador (Ex 12,23); pois muito mais «o Cordeiro de Deus que vai tirar o pecado do mundo» (Jo 1,29) nos libertou dos nossos pecados. […]
Ele não deixou esta vida obrigado, não foi imolado à força, mas pela sua própria vontade. Escutai o que nos diz: «Tenho poder para a dar e para tornar a tomá-la» (Jo 10,18). […] Entregou-Se deliberadamente à sua Paixão, feliz na sua entrega, sorrindo ao seu triunfo, contente por salvar os homens. Não teve vergonha da cruz, porque salvava o mundo. Não era um pobre homem que sofria, mas Deus feito homem que combatia para obter o preço da paciência. […]
Não te regozijes na cruz somente em tempo da paz; mantém a fé no tempo da perseguição. Não sejas amigo de Jesus apenas em tempo de paz, para te tornares seu inimigo no tempo da guerra. Agora, recebes o perdão dos teus pecados e os dons espirituais prodigalizados pelo teu rei; quando eclodir a guerra, combate com bravura por Ele. Jesus foi crucificado por ti, Ele que não tinha pecado. […] Não foste tu que Lhe deste esta graça, pelo contrário, recebeste-a dele. Dá graças Àquele que pagou a tua dívida sendo crucificado por ti no Gólgota.
Nota editorial: As versões equivalentes foram cotejadas. A exposição da cruz, da entrega livre e da perseverança foi reunida; uma repetição interna de XIII, 3 foi retirada antes da versão mais completa.
O ladrão e a graça da última hora
São Cirilo de Jerusalém — Catequese Batismal, 13 (a partir da trad. Bouvet, Soleil Levant 1962, pp. 285ss. rev.)
Um dos ladrões que tinham sido crucificados com Jesus exclamou: «Senhor, lembra-Te de mim! Agora, é para Ti que me volto. […] Não te declaro as minhas obras, porque me fazem tremer. Todos os homens têm boas disposições relativamente aos companheiros de jornada, e eis que eu sou Teu companheiro na jornada para a morte. Lembra-Te de mim, Teu companheiro de jornada, não agora, mas quando chegares ao Teu Reino (cf. Lc 23, 42).
Que poder foi esse que te iluminou, bom ladrão? Quem te ensinou a adorar assim Aquele que fora desprezado e crucificado contigo? Ó luz eterna, que iluminas os que se encontram nas trevas (cf. Lc 1, 79)! «Tem coragem! Em verdade te digo, hoje mesmo estarás Comigo no Paraíso, porque hoje ouviste a Minha voz e não endureceste o coração» (cf. Sl 94, 8). Por ter desobedecido, Adão foi expulso do Paraíso. […] Mas tu, que hoje obedeceste à fé, serás salvo. Para Adão, a árvore foi ocasião de queda; a ti, a árvore far-te-á entrar no Paraíso. Ó graça imensa e inexprimível! Abraão, o fiel por excelência, ainda não tinha entrado, e o ladrão entra. Maravilhado, Paulo observa: «Onde abundou o pecado, superabundou a graça» (Rom 5, 20). Aqueles que tinham trabalhado todo o dia ainda não tinham entrado no Reino, e este, o homem da última hora, entra sem tardar. Que ninguém murmure contra o senhor: «Em nada te prejudico, meu amigo. […] Ou não me será permitido dispor dos meus bens como entender?» O ladrão quer ser justo […], por mim, contento-me com a fé de que ele deu provas. […] Eu, o pastor, encontrei a ovelha perdida e pu-la aos ombros (cf. Lc 15, 5), porque ela me disse: «Errei, mas lembra-te de mim, Senhor, quando chegares ao Teu Reino.»
Crer na ressurreição de Cristo
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal, n.º 4, 11-12
Ele foi realmente colocado como homem num sepulcro de rocha, mas as rochas quebraram-se com medo dele; e desceu ao mundo subterrâneo para de lá resgatar os justos. […] Aquele que desceu aos infernos voltou a subir, e Jesus, que foi sepultado, ressuscitou realmente ao terceiro dia.
Se algum dia fores atacado, deves perguntar imediatamente: «Jonas não ressuscitou ao fim de três dias?». Um morto ressuscitou tocando nos ossos de Eliseu (cf 2Rs 13,21) e o Criador dos homens não ressuscitará, por maioria de razão pelo poder do Pai? Mas Ele ressuscitou de fato e, uma vez ressuscitado, foi visto de novo pelos seus discípulos. E os doze discípulos, testemunhas da sua ressurreição (cf At 2,32.33), não a testemunharam com discursos floreados, mas travaram sobre ela batalhas que os levaram aos suplícios da morte.
Segundo as Escrituras, «com o depoimento de duas ou três testemunhas, toda a questão será resolvida» (Dt 19,15). Nós dispomos de doze testemunhas e tu continuas a não acreditar na ressurreição?
A tristeza transforma-se em alegria
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal n.°14,1-2
«Alegra-te, Jerusalém, rejubilai, vós todos que amais» (Is 66,10) Jesus, porque Ele ressuscitou. Regozijai-vos, vós todos que estáveis de luto, […] porque Aquele que sofreu violência ressuscitou. Tal como a lembrança da cruz contristava a nossa assembleia, da mesma forma, a boa nova da ressurreição seja a sua alegria. Que a tristeza se mude em alegria, as lamentações em exultação, e que a alegria e o júbilo encham os vossos lábios, em honra daquele que depois da sua ressurreição disse: «Salve!».
Sei, de facto, como era o desgosto dos amigos de Cristo [após a sua crucifixão]; não dizíamos nada sobre a sua morte nem sobre o seu sepultamento e não proclamávamos a boa nova da ressurreição: o vosso espírito, em suspenso, esperava a notícia desejada. Mas Ele ressuscitou, o Morto, aquele que está «livre entre os mortos» (Sl 87,6) e é o libertador dos mortos, o Homem que, sem Se queixar, tinha cingido a desonrosa coroa de espinhos, este Homem, ressuscitado, cingiu o diadema da vitória sobre a morte.
Pois bem! Tal como produzimos testemunhos a respeito da cruz, estabeleçamos agora igualmente, por estas provas, a ressurreição: o apóstolo aí está para nos afirmar: «Ele foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras» (1Co 15,4).
O horto, o túmulo e a busca do Ressuscitado
São Cirilo de Jerusalém — Catequese baptismal n° 14 (trad. Bouchet, Lectionnaire, p. 204; cf. Eds. du Soleil Levant, p. 305)
«Perto do lugar em que Jesus tinha sido crucificado, havia um horto e, no horto, um túmulo novo […]. Foi ali que puseram Jesus» (Jo 19, 41-42)
Em que estação desperta o Salvador? No Cântico dos Cânticos, diz-se: «Eis que o Inverno passou, cessaram e desapareceram as chuvas. Apareceram as flores na nossa terra […]» (2, 11-12). Não estará a terra actualmente cheia de flores […]? Com a chegada do mês de Abril, estamos na Primavera. Ora é nesta estação, neste primeiro mês do calendário hebraico, que se celebra a Páscoa, outrora em símbolo e agora na realidade. […]
Um horto foi o local da sepultura do Senhor. […] E que diz Aquele que está sepultado no horto? «Colho a minha mirra e o meu bálsamo, a mirra e o aloés e todos os balsameiros mais selectos» (Cant 5, 1; 4, 14), pois tudo isso simboliza a sepultura. Os Evangelhos também dizem: «As mulheres foram ao sepulcro levando os perfumes que haviam preparado» (Lc 24, 1). […]
Porque, antes de entrarem na câmara atravessando as portas fechadas, o Esposo e médico das almas fora procurado por mulheres de coração forte. As santas mulheres foram ao sepulcro e procuraram Aquele que havia ressuscitado. […] Segundo o Evangelho, Maria foi ao sepulcro, procurou-O e não O encontrou, em seguida recebeu a mensagem dos anjos e por fim viu Cristo. Não haviam estas circunstâncias sido também descritas? Sim, porque Maria diz no Cântico: «Durante a noite, no meu leito, busquei aquele que a minha alma ama» (3, 1). […] Diz o Evangelho que Maria foi ao sepulcro «logo de manhã, ainda escuro» (Jo 20, 1). «Procurei-O de noite, mas não O achei.» E, no Evangelho, Maria diz: «Porque levaram o meu Senhor e não sei onde O puseram.» Mas os anjos aparecem então: «Porque buscais entre os mortos Aquele que vive?» (Lc 24, 5) […] Maria não O reconheceu e era em seu nome que o Cântico dos Cânticos dizia: «Vistes, acaso, aquele a quem a minha alma ama?» «Mal passara pelos guardas (trata-se dos dois anjos), encontrei aquele a quem a minha alma ama. Agarrei-me a ele e não o larguei mais» (3, 3-4).
As mulheres encontram o Ressuscitado
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal n.º 14, 13
«Jesus saiu ao seu encontro e saudou-as. Elas aproximaram-se, abraçaram-Lhe os pés e prostraram-se diante dele». Abraçaram-no para que se cumprissem aquelas palavras: «Abraçá-lo-ei e já não o soltarei» (Cânt 3,4). As mulheres seriam fisicamente fracas, mas a sua coragem era viril. A abundância das águas não tinha força para apagar o seu amor, nem os rios podiam engoli-lo. Aquele que procuravam morrera, mas a sua esperança na ressurreição não se havia extinguido.
E o anjo dirige-se-lhes de novo: «Não temais» (Mt 28,5). Não digo este «não temais» aos soldados, mas a vós. A eles, deixai-os temer, para que, instruídos pela experiência, possam ser testemunhas e dizer: «Este era verdadeiramente o Filho de Deus» (Mt 27,54). Vós, pelo contrário, não deveis temer, porque «o amor perfeito expulsa o medo» (1Jo 4,18).
«Ide dizer aos seus discípulos que Ele ressuscitou» (Mt 28,7). Elas vão-se embora com um temor misturado com alegria. E não está também isso escrito? Sim: o salmo 2, que narra a Paixão de Cristo, diz o seguinte: «Servi o Senhor com temor e com tremor rendei-lhe homenagem» (Sl 2,11). «Alegrai-vos», porque o Senhor ressuscitou, mas «tremei», porque a terra tremeu e o anjo vos apareceu como um relâmpago.
Jonas e as testemunhas da ressurreição
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal XIV, 16–23; excertos.
O sinal de Jonas
Dirá alguém: mostrem-nos que é possível a ressurreição de um homem morto há três dias e que um homem metido no túmulo pode ressuscitar ao fim de três dias. Ora, se procuramos uma testemunha idônea sobre essas circunstâncias precisas, dá-no-la o próprio Senhor nos Evangelhos quando diz: «Assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no seio da terra» (Mt 12,40). Quando examinamos a história de Jonas, a semelhança parece-nos muitíssimo significativa.
Jesus foi enviado a proclamar a penitência: tal como Jonas. Mas este fugiu, apreensivo com o que dali resultaria, ao passo que Jesus Se apresentou de coração aberto para pregar a salutar penitência. Jonas dormia no barco e ressonava enquanto a tempestade agitava o mar. Por obra da providência, também o mar despertou durante o sono de Jesus, a fim de revelar a seguir o poder daquele que dormia. […] Jonas foi atirado para o ventre do monstro; Jesus, pelo contrário, desceu espontaneamente até onde se encontrava o monstro místico da morte; e desceu espontaneamente para que a morte rejeitasse – vomitasse – aqueles a quem tinha tragado, conforme a passagem da Escritura: «Livrá-los-ei do poder do sepulcro, resgatá-los-ei da morte» (Os 13,14). […]
Creio que Jonas foi preservado porque «a Deus tudo é possível» (Mt 19,26). Creio também que Cristo foi ressuscitado de entre os mortos: com efeito, numerosos são os testemunhos que possuo a esse respeito, tanto nas Sagradas Escrituras, como na ação daquele que ressuscitou, manifestada até aos nossos dias; Ele foi o único que desceu aos infernos para de lá subir logo a seguir. Ele desceu à morte e muitos corpos de santos que estavam mortos foram por Ele ressuscitados. […] Uma vez, pois, que temos as profecias, a fé habita em nós.
Firmados na rocha da fé
Tu estás firmado na rocha da fé na ressurreição. […] «Cristo ressuscitou de entre os mortos, como primícias daqueles que adormeceram; e apareceu a Cefas e depois aos Doze» (1Cor 15,20.5). Com efeito, se não acreditas no testemunho de um, aqui tens doze testemunhas. «Em seguida, apareceu a mais de quinhentos irmãos» (1Cor 15,6). Se não têm fé nos doze, que acreditem nos quinhentos. […]
Há muitas testemunhas da ressurreição do Salvador: a noite e a luz da Lua cheia, porque estávamos na décima sexta noite da Lua. A rocha do monumento que O acolheu […], porque a pedra viu diretamente o Senhor; e também a pedra que foi rolada, e que ainda se encontra no mesmo sítio, é uma testemunha direta da ressurreição. Os anjos de Deus foram, com a sua presença, outras tantas testemunhas da ressurreição do Filho único.
Pedro, João, Tomé e todos os apóstolos: os primeiros, porque correram para o monumento e viram os panos com que Ele fora envolvido abandonados no chão após a ressurreição; estes, porque Lhe tocaram nas mãos e nos pés, e contemplaram o lugar dos cravos; e todos eles, porque beneficiaram do sopro do Salvador e receberam, pelo poder do Espírito Santo, o poder e a honra de perdoar os pecados.
Outras testemunhas: as mulheres que Lhe tocaram nos pés e contemplaram a dimensão do tremor de terra e o esplendor do anjo que ali se encontrava; os panos que Cristo ressuscitado tinha deixado abandonados. […] Outra testemunha é Pedro, que O tinha negado três vezes, mas que, após a tripla declaração, foi colocado no governo das ovelhas místicas. […]
Tens, portanto, muitas testemunhas.
A Igreja e a esperança da vida eterna
As duas vindas de Cristo
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal 15, 1-3
Anunciamos a vinda de Cristo: não apenas a sua primeira vinda, mas também uma segunda, bem mais gloriosa. Com efeito, a primeira foi marcada pelo signo da paciência, enquanto a outra trará o diadema da realeza divina. Aquando da primeira vinda, Ele foi enfaixado e deitado na manjedoura; aquando da segunda, será «envolvido em luz como num manto» (Sl 103,2). Aquando da primeira, suportou a cruz e desprezou a vergonha; aquando da segunda, avançará para a glória escoltado por um exército de anjos.
Não nos basta já apoiarmo-nos na primeira vinda; continuamos à espera da segunda. E, depois de termos dito, aquando da primeira: «Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor!» (Mt 21,9), voltaremos a dizer-Lho aquando da segunda, quando viermos, com os anjos, ao encontro do Senhor para O adorar. O Salvador virá, não para ser novamente julgado, mas para julgar aqueles que julgaram. Ele tinha vindo realizar a salvação e ensinar os homens através da persuasão; nesse dia, porém, tudo submeterá à sua realeza.
Os céus e a terra serão renovados
São Cirilo de Jerusalém — Catequeses batismais, nº 15 (a partir da trad.Bouvet, Soleil levant 1961, p. 330 rev.)
Nosso Senhor Jesus Cristo virá dos céus e virá no fim deste mundo, no último dia; porque este mundo terá um fim, e este mundo criado será renovado. Efetivamente, uma vez que a corrupção, o roubo, o adultério e toda a espécie de faltas se espalharam sobre a terra e «derramam sangue sobre sangue» (Os 4,2), para que esta admirável morada não permaneça cheia de injustiça, este mundo desaparecerá e surgirá outro mais belo. […]
Escutai o que diz Isaías: «os céus enrolam-se como um pergaminho, os seus exércitos extinguem-se e caem como folhas mortas de vinha ou de figueira» (Is 34, 4). E o Evangelho diz: «o Sol irá escurecer-se, a Lua não dará a sua luz, as estrelas cairão do céu» (Mt 24, 29). Não nos aflijamos como se fôssemos os únicos que têm de morrer: as estrelas também morrerão, mas talvez sejam ressuscitadas. O Senhor enrolará os céus, não para os destruir, mas para os ressuscitar mais belos. Escutai o que diz o profeta David: «Tu fundaste a terra desde o princípio e os céus são obra das Tuas mãos. Eles deixarão de existir, mas Tu permanecerás; […] como um vestido que se muda, assim eles desaparecem. Mas Tu permaneces sempre o mesmo, os Teus anos não têm fim» (Sl 101, 26-28). […] Escutai ainda as palavras do Senhor: «O céu e a terra passarão, mas as Minhas palavras não hão de passar» (Mt 24, 35); é que o peso das coisas criadas não se iguala ao das palavras do seu Senhor.
Nota editorial: As duas versões equivalentes foram reunidas numa única seleção.
Vigiar sem calcular o dia da vinda do Senhor
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal n.º 15, 4-7
O mundo visível passará e aquele que esperamos virá, mais belo do que ele; mas que ninguém queira saber o dia, porque não nos compete, dizia Jesus, «conhecer os tempos nem os momentos que o Pai fixou com a sua autoridade» (At 1,7). Por isso, não tenhais a audácia de avançar uma data para estes acontecimentos, nem a negligência de voltar a dormir, mas «estai preparados, porque na hora em que menos pensais, virá o Filho do homem».
Mas nós tínhamos de conhecer os sinais do fim; além disso, estamos à espera de Cristo; por isso, para evitar que morramos desiludidos e que sejamos enganados pelo Anticristo mentiroso, os apóstolos, movidos por uma escolha divina, dirigem-se ao verdadeiro Mestre, segundo o plano salvífico, e perguntam-Lhe: «Diz-nos: quando será isso e qual o sinal da tua vinda e da consumação dos tempos?» (Mt 24,3).
Esperamos o teu regresso, mas Satanás transforma-se em anjo de luz. Corrige-nos, pois, para que não adoremos outro em teu lugar!
E Ele, abrindo a sua boca divina e bendita, disse: «Tomai cuidado para que ninguém vos engane!» (Mt 24,4). E vós, meus ouvintes, que O vedes, de certa maneira, com os olhos do entendimento, escutai-O a repetir-vos: «Tomai cuidado para que ninguém vos engane! Pois muitos virão em meu nome, dizendo ‘Eu sou o Cristo’, e a muitos hão de enganar» (Mt 24,4-5). […] «Vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor».
Esperar o Senhor que vem do Céu
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal n.º 15, 10.19
O verdadeiro Cristo, o Filho único de Deus, não voltará à terra. Se alguém aparecer no deserto, como uma aparição, não vades ao seu encontro: «se alguém vos disser: “Eis aqui o Cristo”, ou: “Ei-lo ali!”, não acrediteis» (Mc 13,21). De agora em diante, não olheis para a terra. Porque o Mestre descerá do céu. Não sozinho, como antes, mas com uma grande companhia, escoltado por miríades de anjos; não misteriosamente, como a chuva sobre o velo, mas como um relâmpago que brilha intensamente. Ele próprio disse: «Como o relâmpago surge do oriente e é visível até ao ocidente, assim será a vinda do Filho do Homem» (Mt 24,27); E ainda: «ao verem o Filho do Homem a vir sobre as nuvens do céu com poder e grande glória e enviará os seus anjos, com uma grande trombeta» (Mt 24,30-31). […]
Acolhamos e esperemos o Senhor que vem do céu sobre as nuvens. Então, soarão as trombetas dos anjos; os que repousam em Cristo ressuscitarão primeiro; entre os vivos, os que praticam a piedade serão levados nas nuvens e receberão a recompensa das suas provações, um tributo mais do que humano, pois terão suportado batalhas sobre-humanas. Como escreve o apóstolo Paulo: «À ordem dada, à voz do arcanjo e ao som da trombeta divina, o próprio Senhor descerá do céu, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; em seguida, nós, os vivos, os que tivermos ficado, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para irmos ao encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor» (1Tess 4,16-17).
O juiz não faz aceção de pessoas
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal n.º 15, 22-23
Este Rei glorioso, que está rodeado por uma guarda de anjos e sentado no mesmo trono que o Pai, não desprezará os seus próprios servos. Para que os eleitos não sejam confundidos com os inimigos, «Ele enviará os seus anjos, com uma grande trombeta, e eles reunirão os seus eleitos dos quatro ventos» (Mt 24: 31). Ele, que não desprezou Lot no seu isolamento, desprezará a multidão dos justos? «Vinde, benditos de meu Pai» (Mt 25: 34), dirá aos que forem transportados em carros de nuvens e reunidos pelos anjos.
Mas, dirá algum dos presentes, eu sou pobre e talvez me encontrem na cama, sem forças; ou: sou uma mulher pobre e serei apanhada a moer na mó (cf Lc 17: 34) – não seremos desprezados?
Confia em mim, homem, o juiz não faz aceção de pessoas; Ele «não julgará segundo as aparências nem decidirá pelo que tiver ouvido» (Is 11,3). Ele não põe os sábios à frente dos simples, nem os ricos à frente dos pobres.
Mesmo que estejas no campo, os anjos irão buscar-te; não penses que ele leva os que possuem a terra e deixa os que a trabalham. Mesmo que sejas escravo, mesmo que sejas pobre, não te preocupes. Aquele que tomou a forma de escravo não despreza os escravos. Mesmo que estejas doente numa cama, está escrito: «Estarão dois num leito: um será levado e o outro deixado» (Lc 17,34). […]
Tem confiança, trabalha, combate com coragem, e nada de ti perecerá.
O pastor reconhecerá as suas ovelhas
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal n.º 15, 25
«O Pai não julga ninguém: entregou ao Filho o poder de tudo julgar» (Jo 5,22); não é que Se despoje do seu poder, mas julga através do Filho, e o Filho julga por indicação do Pai. Porque as indicações do Pai não são de um tipo e as indicações do Filho de outro tipo, elas são uma única e mesma indicação. O que diz então o juiz sobre a tua responsabilidade ou irresponsabilidade em relação às tuas obras?
«Todas as nações se reunirão na sua presença», pois todos devem dobrar o joelho diante de Cristo, seja no Céu, na Terra ou do inferno (cf Rom 14,10; Fil 2,10), «e Ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos» (Mt 25,32). Como separa o pastor? Será procurando num livro qual dos animais é uma ovelha e qual deles é um cabrito? Ou julga com base no que vê? Não é verdade que a lã designa a ovelha e um velo peludo e seco o cabrito? Assim, se foste previamente purificado das tuas faltas, as tuas obras hão de parecer como lã pura, espera-te o manto da inocência e dirás: «Já despi a minha túnica. Vou tornar-me a vestir?» (Ct 5,3); a tua pelagem fará que sejas reconhecido como ovelha. Mas, se fores peludo, à imagem de Esaú, que tinha o pelo espesso e espírito ligeiro, de tal maneira que sacrificou o seu direito de primogenitura e vendeu a sua prerrogativa por um prato de lentilhas, serás colocado à esquerda.
Queira Deus que nenhum dos que aqui estão caia em desgraça e seja colocado, por causa de suas más ações, nas fileiras da esquerda, que são as dos pecadores.
A criação anuncia a ressurreição dos mortos
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal XVIII, 6; dados da tradução preservados no registro interno.
Arrancada uma árvore, cortada até pela sua base e depois feito o transplante— o salgueiro, por exemplo—, ela rebenta e volta a florir; e não voltará à vida um homem arrancado ao solo? Colhidas as sementes, repousam e descansam nos celeiros e voltarão a viver depois da primavera; e não voltará à vida o homem depois de ceifado e lançado aos celeiros da morte? Cortado e transplantado um ramo ou um rebento de vide, ganha vida e dá fruto; e não há de voltar a levantar-se o homem que caiu, para quem tudo foi criado?
Considerai agora o que se passa à nossa volta. Contemplai o panorama deste vasto universo: é semeado o trigo ou outro cereal, cai ao chão, apodrece, e já não serve para moer. Mas renasce desse apodrecimento, e cresce, e multiplica-se. Foi semeado um só grão e dá vinte, ou trinta, ou mais. Ora, para quem foi ele criado? Não foi para nosso uso? Não é para si próprias que as sementes saem do nada. Por isso, aquilo que foi criado para nós morre e renasce, e nós, para quem este prodígio acontece todas as vezes, seríamos nós excluídos deste benefício? Como deixaremos então de crer na ressurreição?
Nota editorial: A indicação PG 38, 1021 do acervo não foi repetida como referência segura; o trecho foi conferido em XVIII, 6.
A Igreja católica: assembleia que reúne a todos
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal XVIII, 23–25; tradução do acervo.
A Igreja é chamada católica ou universal porque está espalhada por todo o mundo, de uma à outra extremidade da terra, e porque universalmente e sem erro ensina toda a doutrina que os homens devem conhecer, sobre as coisas visíveis ou invisíveis, celestes ou terrestres. É chamada católica também porque conduz ao verdadeiro culto toda a classe de homens, autoridades e súbditos, doutos e incultos. É católica finalmente porque cura e sara todo o gênero de pecados, tanto os da alma como os do corpo, e possui todo o gênero de virtudes, qualquer que seja o seu nome, em obras e palavras e nos mais diversos dons espirituais.
Com toda a propriedade é chamada Igreja, quer dizer, assembléia convocada, porque convoca e reúne a todos na unidade, tal como o Senhor determina no Levítico: «convoca toda a assembléia para a entrada da tenda da reunião» (8,3) […]. E, no Deuteronômio, diz Deus a Moisés: «convoca o povo para junto de Mim, a fim de ouvirem as Minhas palavras» (4,10). […] Também o Salmista proclama: «eu Te darei graças na solene assembléia, e Te louvarei no meio da multidão» (Salmo 35/34,18) […].
Mas foi a partir das nações gentias que depois o Salvador instituiu uma segunda assembléia, a nossa Santa Igreja dos cristãos, acerca da qual disse a Pedro: «e sobre esta Pedra edificarei a Minha Igreja, e as portas do Abismo nada poderão contra ela» (Mt 16,18). […] E logo que a primeira assembléia fundada na Judéia foi destruída, multiplicaram-se por toda a terra as Igrejas de Cristo. Delas falam os Salmos, que dizem: «Aleluia! Cantai ao Senhor um cântico novo, louvai-O na assembléia dos fiéis!» (149,1). […] E é a respeito desta nova Igreja Santa e Católica que Paulo escreve a Timóteo: «quero que saibas como deves proceder na casa de Deus, esta Igreja do Deus vivo, coluna e sustentáculo da Verdade» (1Tm 3,15).
As muitas portas da vida eterna
São Cirilo de Jerusalém — Catequese batismal XVIII, 29–31.
A vida subsistente e verdadeira é o Pai, que, pelo Filho e no Espírito Santo, derrama os dons celestes sobre todos, sem exceção. Graças à sua misericórdia, também nós, homens, recebemos a promessa indefetível da vida eterna. E não devemos recusar-nos a crer, porque «a Deus nada é impossível» (Mt 19,26). […]
As provas da vida eterna abundam. Ao nosso desejo de a adquirir as divinas Escrituras indicam métodos para lá chegar. Antes de mais, as Escrituras ensinam que a obtemos pela fé, porque está escrito: «Quem crê no Filho tem a vida eterna» (Jo 3,36) […]. Noutra passagem, apontam o martírio e a confissão em Cristo, quando diz: «Quem se despreza a si mesmo neste mundo tem a vida eterna» (Jo 12,25). Dizem também que a vida eterna se ganha antepondo Cristo às riquezas e aos parentes: «E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, […] terá por herança a vida eterna» (Mt 19,29). E ainda, pela observância dos mandamentos: « Não matarás, não cometerás adultério […]» (Mt 19,18), respondeu Jesus ao interlocutor que Lhe perguntou: «Mestre, que hei de fazer de bom para alcançar a vida eterna?» (Mt 19,16). E também, como é evidente, guardando-nos das obras más e servindo a Deus, porque São Paulo disse: «Mas agora, que estais libertos do pecado e vos tornastes servos de Deus, produzis frutos que levam à santificação, e o resultado é a vida eterna» (Rm 6,22).
A busca da vida eterna comporta tantos aspectos que, devido ao seu grande número, não falei nela. Com efeito, o Senhor misericordioso não abriu uma única porta, nem uma segunda porta, mas numerosas portas de acesso à vida eterna, a fim de que todos, cada um naquilo que depender de si, possam gozá-la sem dificuldade.
Nota editorial: A referência incompleta «29–31» foi identificada como catequese XVIII. O texto estava reunido à catequese XVI, 13.
Fontes e critérios
As traduções portuguesas procedem do acervo Sophia, cuja fonte declarada é Evangelho Cotidiano / Evangelho Quotidiano / Evangelizo, e do item 8 de Sophia.docx. Foram preservadas as indicações disponíveis das traduções do Breviário, de Bouvet, de Bouchet e de Soleil Levant. Não se trata de uma nova tradução.
O cotejo das catequeses permitiu completar referências, distinguir a numeração das catequeses mistagógicas e ajustar lapsos pontuais. Três textos com atribuição divergente ou não confirmada foram reservados; a reflexão contemporânea anexada a um dos posts não foi atribuída ao autor antigo. Os mapas de origem e as variantes permanecem no registro editorial interno.
Cotejo: Catequeses de Cirilo de Jerusalém, tradução histórica em New Advent.
Preparação editorial em 19 de outubro de 2026.



