Santo Efrém, o Sírio — Antologia de hinos e comentários espirituais

Esta antologia reúne hinos, comentários bíblicos e orações do acervo transmitido sob o nome de Santo Efrém, o Sírio. A Palavra, a Encarnação, a misericórdia, os santos mistérios, a vitória de Cristo e a comunhão da Igreja orientam a leitura.

Versões equivalentes foram reunidas e passagens complementares organizadas com subtítulos. O último tema distingue textos cuja atribuição é recebida ou expressamente ressalvada no acervo e uma fórmula do Ritual do Batismo. As quebras de verso disponíveis foram preservadas; não se reconstruiu uma métrica ausente das fontes.

Sumário

A Palavra, a fé e o mistério de Deus

A Palavra é uma fonte que não se esgota

Santo Efrém, o Sírio — Comentário ao evangelho concordante, 1,18-19; SC 121

A palavra de Deus é uma árvore de vida que estende para ti os seus ramos benéficos; ela é como a rocha aberta no deserto, que se torna para todo o homem, de todos os pontos da Terra, bebida espiritual: «comeram do mesmo alimento espiritual e beberam da mesma bebida espiritual» (1Cor 10.3-4; Ex 17,1s.).

Aquele a quem é concedida alguma destas riquezas não deve pensar que a palavra de Deus se limita ao que ele nela encontra; pelo contrário, deve perceber que foi ele que só soube descobrir nela uma coisa, entre muitas outras. Enriquecido pela palavra, não deve pensar que foi ela que empobreceu; incapaz de esgotar as suas riquezas, deve dar graças pela sua magnitude. Alegra-te porque foste saciado, mas não te entristeças porque a riqueza da palavra te ultrapassa.

Aquele que tem sede alegra-se em beber, mas não se entristece com a sua incapacidade de esgotar a fonte. Mais vale que a fonte te esgote a sede, do que a tua sede esgote a fonte. Se a tua sede ficar saciada sem que a fonte seque, poderás voltar a beber sempre que tiveres sede. Pelo contrário, se esgotasses a fonte para te saciares, a tua vitória transformar-se-ia em tristeza. Dá graças por aquilo que recebeste e não murmures contra aquilo que não foi utilizado. Aquilo que tomaste e levaste é a tua parte; mas aquilo que resta também é uma herança tua.

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O sol, a luz e o calor: imagens do mistério trinitário

Santo Efrém, o Sírio — Hino sobre a Trindade

Refrão: Bendito seja Aquele que Te envia!

Toma como símbolos o sol para o Pai,
A luz para o Filho,
O calor para o Espírito Santo.

Embora sendo um único ser,
Percebemos nele uma trindade.
Quem poderá compreender o inexplicável?

Este único é múltiplo: um é formado por três,
E três formam apenas um,
Grande mistério e maravilha manifesta!

O sol é distinto do seu irradiar
Embora esteja a ele unido,
Pois os seus raios também são o sol.

E contudo ninguém fala de dois sóis,
Embora os raios sejam também
O sol cá em baixo.

Assim também não dizemos que há dois deuses.
Deus, Nosso Senhor, é Deus;
E também Ele Se encontra acima do criado.

Quem será capaz de mostrar como e onde
Está ligado o raio do sol,
Bem como o seu calor, ainda que soltos?

Não se encontram, nem separados nem confundidos,
Estão unidos, embora sejam distintos,
São livres, embora estejam ligados, ó maravilha!

Quem poderá, perscrutando-os, ter domínio sobre eles?
E contudo, não é certo que são
Aparentemente tão simples, tão fáceis?

Embora o sol permaneça no alto
A claridade e o calor que dele emanam
São, para os de cá de baixo, um símbolo claro.

Sim, os seus raios incidem sobre a terra
E permanecem nos nossos olhos,
Como se fosse ele a revestir-nos a carne.

Quando se fecham os olhos no instante do sono,
Como mortos, ele abandona-os,
A eles que em breve despertarão.

E, assim como ninguém compreende
De que forma entra a luz no olho,
Assim Nosso Senhor no seio. […]

O nosso Salvador tomou um corpo
Com toda a fragilidade que nele existe,
Para vir santificar o universo.

Mas, quando o raio remonta à sua fonte,
Vemos que nunca esteve separado
Daquele que o engendrou.

Derrama o seu calor sobre os que se encontram cá em baixo,
Como Nosso Senhor
Deixou o Espírito Santo aos discípulos.

Contempla estas imagens do mundo criado
E não duvides do que diz respeito aos Três,
Pois de outra forma perder-te-ás!

Tornei claro para ti aquilo que era obscuro:
Como podem os três formar um só,
A Trindade que é uma mesma essência!

Refrão: Bendito seja Aquele que Te envia!

Nota editorial: O título litúrgico usado no acervo foi substituído por um título descritivo do hino. A imagem é conservada como linguagem poética; não se acrescentou número de hino sem confirmação.

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A oração e a fé de Zacarias

Santo Efrém, o Sírio — Comentário ao Diatessaron, I, 11–13; SC 127, p. 49, conforme a versão equivalente.

O anjo disse-lhe: «A tua súplica foi atendida». Se Zacarias acreditava que a sua oração seria atendida, rezava bem; se não acreditava, rezava mal. Chegara a altura de a sua oração ser atendida; contudo, ele duvidou. Foi portanto justificado que, a partir desse momento, tivesse ficado mudo. Anteriormente, ele rezava para ter um filho; no momento em que a sua oração foi atendida, mudou e disse: «Como hei de saber que é assim?» A sua boca duvidou da sua oração, e ele perdeu a fala. […] Enquanto Zacarias acreditava, falava; assim que deixou de acreditar, calou-se. Enquanto acreditava, falava: «Eu acreditei, por isso falei» (Sl 115,10). Porque desprezou a palavra do anjo, esta palavra atormentou-o, a fim de que ele honrasse, pelo seu silêncio, a palavra que tinha desprezado.

Convinha que ficasse muda a boca que tinha dito: «Como hei de saber que é assim?», para que aprendesse a possibilidade do milagre. A língua que estava solta foi presa, para que aprendesse que Aquele que tinha prendido a língua podia desprender o seio. Assim, pois, a experiência instruiu aquele que não tinha aceitado o ensinamento da fé. […] E ele aprendeu que Aquele que tinha fechado uma boca aberta podia abrir um seio fechado.

Nota editorial: Duas versões equivalentes foram cotejadas e apresentadas uma única vez.

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Pescadores de homens e a sabedoria do Evangelho

Santo Efrém, o Sírio — Comentário ao Evangelho concordante, 4, 20; SC 121

Quando vieram a Ele, eram pescadores de peixe, e tornaram-se pescadores de homens, como está dito: «Eis que agora mandarei chamar muitos pescadores e eles os pescarão; depois disso lhes enviarei muitos caçadores, e eles os caçarão em cada monte e colina e nas cavernas dos penhascos» (Jer 16,16). Se tivesse enviado sábios, dir-se-ia que tinham persuadido o povo e o tinham ganhado, ou que o tinham enganado e aprisionado. Se tivesse enviado ricos, dir-se-ia que tinham enganado o povo, alimentando-o, ou que o haviam corrompido com dinheiro e subjugado. Se tivesse enviado homens fortes, dir-se-ia que tinham atraído o povo pela força ou forçado pela violência.

Mas os apóstolos não tinham nada disso. O Senhor mostrou-o a todos através do exemplo de Simão Pedro, a quem faltou a coragem e que teve medo da voz de uma criada; que era pobre, porque não podia sequer pagar a sua quota do imposto (Mt 17,24ss): «não tenho ouro nem prata», disse ele (Act 3,6); e que era inculto, uma vez que, quando negou o Senhor, não soube encontrar um estratagema inteligente para o fazer.

Estes pescadores de peixes partiram pois pelo mundo, e alcançaram a vitória sobre os fortes, os ricos e os sábios. Que grande milagre! Fracos como eram, atraíram sem violência os fortes para a sua doutrina; pobres, ensinaram os ricos; ignorantes, fizeram discípulos entre os sábios e os prudentes. A sabedoria do mundo deu lugar a esta sabedoria que é a sabedoria das sabedorias.

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A Natividade e a Mãe de Deus

José acolhe o Senhor de todas as coroas

Santo Efrém, o Sírio — Hino para a Natividade

José abraçava o Filho do Pai celeste recém-nascido,
servindo-O como a seu Deus,
nele se regozijava como na própria bondade,
cuidando daquele que é o único Justo (cf Mt 1,19):
que paradoxo!
«De onde me é dado a mim, ó Filho do Altíssimo, ter em Ti um filho?
Indispus-me com tua Mãe, que pensei em repudiar,
não sabendo que tinha em seu seio um grande tesouro
que, na minha pobreza, me tornaria subitamente rico!
O rei David, de cuja estirpe nasci, cingiu a coroa.
Vê o despojamento a que cheguei: em vez de rei, sou carpinteiro;
mas foi-me dada uma coroa,
pois tenho nos braços o Senhor de todas as coroas!»

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A Virgem e o fruto da árvore da vida

Santo Efrém, o Sírio — Hino

Vem, Moisés, mostra-nos a sarça do cimo da montanha cujas chamas dançavam no teu rosto (Ex 3,2): é o filho do Altíssimo que apareceu no seio da Virgem Maria e iluminou o mundo com a sua vinda. Glória a Ele da parte de toda a criatura e feliz aquela que O gerou!

Vem, Gedeão, mostra-nos esse velo e esse suave orvalho (Jz 6,37), explica-nos o mistério das tuas palavras: Maria é o velo que recebeu o orvalho, o Verbo de Deus; nela Se manifestou na criação e resgatou o mundo do pecado.

Vem, David, mostra-nos a cidade que viste e a planta que dela brotou: a cidade é Maria, a planta que dela saiu é o nosso Salvador, cujo nome é Aurora (Jr 23,5; Zc 3,8 LXX).

Eis que a árvore da vida que era guardada por um querubim com espada de fogo (Gn 3,24) habita em Maria, a Virgem pura; José a guarda. O querubim depôs a espada porque o fruto que guardava foi enviado do alto dos Céus para junto dos que estavam exilados no abismo. Comei dele todos, homens mortais, e vivereis. Bendito seja o fruto que a Virgem gerou.

Bendito seja Aquele que desceu e habitou em Maria e dela saiu para nos salvar. Bem-aventurada Maria, tu que foste julgada digna de ser a mãe do Filho do Altíssimo, tu que geraste o Ancião que tinha criado Adão e Eva. Ele saiu de ti, suave fruto cheio de vida, e por Ele os exilados têm de novo acesso ao paraíso.

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Maria contempla o Filho

Santo Efrém, o Sírio — Hinos V e VI sobre a Natividade; excertos.

Com palavras sublimes,
Ardendo de amor,
Maria embalava-O:
«Como me foi dado, a mim, a solitária,
Conceber e dar à luz
Aquele que é o único e o múltiplo,
O mais pequeno e o Maior?
Aqui está Ele inteiro, junto a mim
E inteiro perto de todo o universo.

No dia em que Gabriel
Entrou na minha pobre casa
Tornou-me de súbito
Nobre dama e serva:
Pois eu era a serva da tua divindade (cf Lc 1,38),
Mas também sou a mãe
Da tua humanidade,
Meu Senhor e meu filho!

A serva tornou-se de repente
Filha de rei,
Por Ti, filho de David,
Eis que a mais humilde
Da casa de David,
Eis que uma filha da terra
Chega até ao céu
Por Aquele que é do céu!

Que maravilha para mim!
Perto de mim repousa
Este recém-nascido, o Ancião dos dias! (cf Dn 7,9)
Fixa o seu olhar na totalidade do céu,
E sem cessar
Os seus lábios balbuciam.
É tão parecido comigo!
Enquanto com Deus
Fala em silêncio!

Quem já viu alguma vez
Um recém-nascido olhar
Todas as coisas em toda a parte?
No seu olhar se compreende
Que é Ele que dirige
Toda a criação, de alto a baixo.
No seu olhar se compreende
Que Ele, como Senhor, dá ordens
A todo o universo.

Como poderia eu abrir
Uma fonte de leite,
Para Ti, que és a Fonte?
Como poderia eu dar
Alimento
A Ti que alimentas todos os seres
À tua mesa?
Como cobrir-Te de panos,
A Ti, que estás revestido de um manto de luz? (cf Sl 104,2)

A minha boca não sabe
O que há-de chamar-Te,
Ó Filho do Deus vivo! (cf Mt 16,16)
Se ouso chamar-Te
Filho de José,
Tremo, pois não és da sua semente. […]

Embora sejas o Filho do Único
A partir de agora
Vou chamar-Te
Filho de um grande número,
Pois para Ti não bastam
Milhares de nomes:
És filho de Deus mas também filho do homem (cf Mc 1,1; 8,31)
E também filho de José (cf Lc 3,23)
E filho de David (cf Lc 20,41)
E filho de Maria (cf Mc 6,3).»

Nota editorial: O post reunia dois conjuntos de hinos. A seleção seguinte apresenta separadamente o hino VII e seus complementos.

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A Virgem Mãe e a espiga da vida

Santo Efrém, o Sírio — Hino VII sobre a Virgem; excertos em traduções do acervo.

A Virgem Mãe

Vinde, sábios, admiremos a Virgem Mãe, a filha de David, esta flor de beleza que deu à luz a maravilha. Admiremos a fonte donde brota o princípio, a embarcação completamente carregada de alegrias que nos traz a mensagem vinda do Pai. No seu seio puríssimo, recebeu e trouxe este grande Deus que governa a criação, este Deus por Quem a paz reina na terra e nos céus. Vinde, admiremos a Virgem puríssima, maravilhosa em si mesma, a única criatura que deu à luz sem ter conhecido homem. A sua alma estava cheia de assombro, e todos os dias glorificava a Deus na alegria, por estes dons que parecia não poderem unir-se: a sua integridade virginal e o seu Filho bem-amado. Sim, abençoado seja Quem dela nasceu! […]

O canto de Maria

Jovem pomba (Cant 6,9), transportou a águia,
O Ancião dos dias (Dn 7,9), cantando os seus louvores:
«Meu Filho, Tu, de riqueza sem igual, quiseste crescer
Num ninho miserável. Harpa melodiosa,
Permaneces em silêncio como criança de berço.
Permite-me, pois, que cante para Ti. […]

Tua morada, meu Filho, é mais que todas as outras,
Todavia quiseste que fosse eu a tua morada.
O céu é pequeno para conter a tua glória,
Eu, porém, o mais humilde dos seres, Te trago em mim.
Permite a Ezequiel vir ver-Te ao meu colo,
Reconhecer em Ti Aquele que os querubins
Transportavam no carro (Ez 1) […]; hoje sou eu quem Te transporta […]
E com grande tremor os querubins exclamam:
“Bendita seja a glória de Deus no lugar onde repousas!” (Ez 3, 12).
Esse lugar é em mim, meu seio é tua morada;
Meus braços são o trono da tua grandeza. […]

Vem ver-me, Isaías, vê e alegremo-nos!
Eis que concebi, permanecendo embora virgem (Is 7,14).
Profeta do Espírito, de visões tão ricas,
Vê agora o Emanuel que de ti permaneceu escondido. […] […]»

A colheita da alegria

«Vinde a mim, vós, os sábios, chantres do Espírito, profetas que nas vossas visões tivestes a revelação das realidades escondidas, agricultores que, após terdes semeado, adormecestes na esperança. Levantai-vos, saltai de alegria vendo a colheita dos frutos. Eis nos meus braços a espiga de vida que dá pão aos que têm fome, que satisfaz os miseráveis. Congratulai-vos comigo: recebi uma braçada de alegrias!»

Nota editorial: Reuniram-se passagens complementares das duas versões; a cena de Ezequiel, o convite a Isaías e o convite final à alegria não são repetidos.

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Abraão, Sara e a alegria do nascimento prometido

Santo Efrém, o Sírio — Sobre Abraão e Isaac (trad. Sr Isabelle de la Source, Lire la Bible avec les Pères, Médiaspaul 1988, t. 1, p. 72)

Devido à idade, Abraão e a sua mulher tinham ficado incapazes de dar vida; nos corpos de ambos, a juventude tinha-se apagado, mas a sua esperança em Deus continuava bem viva; não enfraquecera, era indestrutível.

Foi por isso que Abraão, contra toda a esperança, gerou Isaac, que é uma figura do Senhor. Não era natural, com efeito, que o seio já morto de Sara pudesse conceber Isaac e que ela o alimentasse com o seu leite; como também não era natural que a Virgem Maria, sem conhecer homem, concebesse o Salvador do mundo, e O desse à luz sem perder a sua integridade. […] Diante da tenda, o anjo disse ao patriarca: «Dentro de um ano, nesta mesma época, Sara terá já um filho» (Gn 18,14). O anjo também […] disse a Maria: «Salve ó cheia de graça hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho» (Lc 1, 28; 31). Sara riu-se pensando na sua esterilidade, olhando a sua idade (v. 12); sem crer na palavra, exclamou: «Velha como estou, poderei ainda ter esta alegria, sendo também velho o meu senhor?» Maria, pensando na virgindade que queria guardar, hesitou, e disse ao anjo: «Como será isso, se eu não conheço homem?» (Lc 1, 34) A promessa era, certamente, contra a natureza, mas Aquele que, contra toda esperança, deu Isaac a Sara, nasceu realmente, segundo a carne, da Virgem Maria.

Logo que Isaac viu o dia segundo a palavra de Deus, Sara e Abraão ficaram cheios de alegria. Quando Jesus veio ao mundo segundo o anúncio de Gabriel, Maria e José ficaram cheios de alegria. […] «Quem teria dito a Abraão que Sara na sua velhice aleitaria um filho?» exclamou a estéril. «Quem teria dito ao mundo que o meu seio virginal alimentaria uma criança com o meu leite?» exclamou Maria. De facto, não foi por causa de Isaac que Sara se riu, mas sim por causa Daquele que nasceu de Maria; tal como João Baptista manifestou a sua alegria estremecendo no seio da sua mãe, Sara manifestou a sua rindo-se.

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O Evangelho, a conversão e a misericórdia

A bondade do senhor da vinha

Santo Efrém, o Sírio — Comentário ao Diatessaron, XV, 15–17; SC 121, conforme os dados do acervo.

Estes homens estavam prontos para trabalhar, mas ninguém os contratara; eram laboriosos, mas estavam ociosos por falta de trabalho e de patrão. Quando uma voz os contratou, quando uma palavra os pôs a caminho, no seu zelo, não combinaram previamente o preço do seu trabalho, como tinham feito os primeiros. O senhor avaliou a sua tarefa com sabedoria e pagou-lhes o mesmo que aos outros. Nosso Senhor proferiu esta parábola para que ninguém diga: «Como não fui chamado na juventude, não serei recebido»; mostra assim que, seja qual for o momento da sua conversão, todos os homens serão acolhidos. […] O proprietário saiu «muito cedo», «pela meia manhã», «ao meio dia», «pelas três horas da tarde» e «ao cair da tarde»; podemos interpretar estas horas como o começo da sua pregação, o curso da sua vida e finalmente a cruz, pois foi aí, à última hora, que o bom ladrão entrou no Paraíso (cf Lc 23: 43). Para que não nos ocorra incriminar o ladrão, Nosso Senhor afirma a boa vontade deste homem: se ele tivesse sido contratado, teria trabalhado, mas ninguém o contratara.

Aquilo que damos a Deus é claramente indigno dele, e aquilo que Ele nos dá fica muito além do que merecemos.

Somos contratados para um trabalho proporcional às nossas forças, mas recebemos um salário totalmente desproporcionado. […] Ele trata da mesma maneira os primeiros e os últimos: todos receberam um denário com a efígie do Rei, que significa o Pão da Vida (cf Jo 6,35), que é o mesmo para todos; com efeito, o remédio da vida é o mesmo para todos os que o tomam.

Não podemos censurar ao senhor da vinha a sua bondade, nem podemos comentar negativamente a sua justiça: na sua justiça, ele pagou o que tinha combinado, e na sua bondade mostrou-se misericordioso como quis. Foi para nos dar este ensinamento que Nosso Senhor proferiu esta parábola, resumindo-a com esta pergunta: «Não me será permitido fazer o que quero do que é meu?»

Nota editorial: Três versões da mesma passagem foram reunidas. Não se repetiu a variante que inverte a relação entre a pobreza da nossa oferta e a generosidade do dom de Deus.

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Zaqueu: o homem velho dá lugar ao homem novo

Santo Efrém, o Sírio — Comentário ao Diatessaron, XV, 20–21; SC 121, p. 277, indicada na versão equivalente.

Rezava Zaqueu em seu coração: «Bem-aventurado o que for digno de receber este Justo em sua casa». Nosso Senhor disse-lhe: «Desce depressa, Zaqueu!» E ele, vendo que o Senhor lhe conhecia os pensamentos, meditou: «Se Ele conhece os meus pensamentos, também conhece os meus atos»; e por isso declarou: «Se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais».

«Desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa». Graças à segunda árvore, a do chefe dos publicanos, a primeira árvore, a de Adão, cai no esquecimento, e também o nome de Adão é esquecido graças ao do justo Zaqueu […]: «Hoje entrou a salvação nesta casa». […] Pela sua obediência pronta, aquele que não passava de um ladrão torna-se um benfeitor; aquele que era coletor de impostos torna-se discípulo.

Zaqueu abandonou a lei antiga ao subir a uma árvore inerte, símbolo da surdez do seu espírito; esta ascensão é o símbolo da sua salvação. Ele abandonou a sua baixeza, subindo à árvore para ver a divindade nas alturas. E Nosso Senhor apressou-Se a convidá-lo a descer daquela árvore ressequida que era a sua antiga maneira de ser, a fim de que ele não permanecesse surdo. O amor a Nosso Senhor que nele ardia consumiu o homem velho e moldou um homem novo.

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Os publicanos à mesa com o Senhor

Santo Efrém, o Sírio — Comentário ao Evangelho ou Diatessaron, 5, 17

Nosso Senhor escolheu Mateus, o cobrador de impostos, para encorajar os colegas deste a virem com ele. Viu-os, pecadores que eram, chamou-os e mandou-os sentar junto de Si. Espetáculo admirável: os anjos ficam de pé, trémulos, enquanto os publicanos, sentados, se divertem. Os anjos enchem-se de temor perante a grandeza do Senhor, enquanto os pecadores comem e bebem com Ele. Os escribas sufocam de ódio e despeito, e os publicanos exultam perante a sua misericórdia. O Céu viu este espetáculo e ficou cheio de admiração; o inferno também o viu e ficou louco. Satanás viu-o e enfureceu-se; a morte viu-o e enfraqueceu; os escribas viram-no e ficaram muito perturbados.

Havia alegria no Céu e júbilo entre os anjos porque os rebeldes tinham sido convencidos, os recalcitrantes tinham ganhado sensatez, os pecadores tinham sido corrigidos, e os publicanos tinham sido justificados. Tal como Nosso Senhor não renunciou à ignomínia da cruz apesar das exortações dos seus amigos (Mt 16,22), assim também não renunciou à companhia dos publicanos apesar da zombaria dos seus inimigos. Desprezou a zombaria e desdenhou o elogio, fazendo assim o que é o melhor para os homens.

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João Batista e os dons do Reino

Santo Efrém, o Sírio — Comentário ao Diatessaron, 9, 7-13; SC 121

«De entre os homens, nenhum é maior do que João». Se todos os santos, esses homens justos, fortes e sábios, pudessem reunir-se e habitar num só homem, não chegariam a igualar João Batista […], e por isso se diz que em muito ele ultrapassa os homens e que pertence à categoria dos anjos (Mc 1,2 grego; Ml 3,1 hebr).

«Mas o menor do Reino de Deus é maior do que ele.» Com o que disse acerca da grandeza de João, Nosso Senhor quis anunciar-nos a abundante misericórdia de Deus e a Sua generosidade para com os Seus eleitos. Por mais célebre e grandioso que seja João, sê-lo-á menos do que o menor do Reino, como diz o apóstolo Paulo: «Pois o nosso conhecimento é imperfeito […] mas, quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá» (1Co 13,9-10). João é grande, e disse por intuição: «Eis o Cordeiro de Deus » (Jo 1,29); mas essa grandiosidade, comparada com a glória que será revelada àqueles que dela forem considerados dignos, é como um mero antegosto. Por outras palavras, todas as coisas grandes e admiráveis da terra, comparadas com as beatitudes do alto, surgem-nos na sua pequenez e na sua vacuidade […].

João foi considerado digno dos grandes dons deste mundo: a profecia, o sacerdócio (cf. Lc 1,5) e a justiça […]. João é maior do que Moisés e os profetas, mas a antiga Lei precisa do Novo Testamento, pois aquele que é maior do que os profetas, disse ao Senhor: «Eu é que tenho necessidade de ser batizado por Ti» (Mt 3,14). João é igualmente grande porque a sua concepção foi anunciada por um anjo, porque o seu nascimento esteve envolto em milagres, porque anunciou Aquele que dá a vida, porque batizou para a remissão dos pecados. […] Moisés conduziu o povo até ao Jordão e a Lei conduziu o gênero humano até ao batismo de João. Mas «se de entre os homens, nenhum é maior do que João», o precursor do Senhor, quão maiores serão aqueles a quem nosso Senhor lavou os pés e em quem insuflou o Seu Espírito (Jo 13,4; 20,22)!

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A paz levada pelos enviados de Cristo

Santo Efrém, o Sírio — Comentário ao Diatessaron, VIII, 3–4; SC 121, p. 159, conforme a versão equivalente.

«Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: a paz seja nesta casa» (Lc 10, 5), para que o próprio Senhor lá entre e resida, como junto de Maria. […] Esta saudação é o mistério da fé que brilha no mundo; por ela, o ódio é asfixiado, a guerra interrompida e os homens compreendem-se mutuamente. O efeito desta saudação estava oculto por um véu, apesar da prefiguração do mistério da ressurreição […], que ocorre sempre que a luz aparece e a aurora expulsa a noite. A partir do momento em que Cristo enviou os seus discípulos pela primeira vez, os homens começaram a dar e a receber esta saudação, que é fonte de cura e de bênção. […]

Esta saudação, com o seu poder oculto […], é amplamente suficiente para todos. Foi por isso que Nosso Senhor a enviou como pré-anúncio com os seus discípulos, para que ela realizasse a paz e, levada pela voz dos apóstolos, seus enviados, Lhe preparasse o caminho. Ela foi semeada em todas as casas […], entrou em todos os corações que a entenderam, para separar e distinguir os seus filhos, reconhecendo-os. Ela permanecia neles, mas denunciava os que lhe eram estranhos, porque não a acolhiam.

Esta saudação de paz não secava, jorrava dos apóstolos para os seus irmãos, desvendando os tesouros inesgotáveis do Senhor […]. Presente naqueles que a davam e nos que a acolhiam, este anúncio de paz não sofria diminuição nem divisão. Sobre o Pai, anunciava que Ele está perto de todos e em todos; sobre a missão do Filho, revelava que Ele está por inteiro junto de todos, mesmo que o seu fim seja estar junto do Pai. Ela não cessa de proclamar que, doravante, as figurações são realizadas e a verdade expulsa enfim as sombras.

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A caridade semeada por Deus

Santo Efrém, o Sírio — Comentário do Diatessaron, cap. 16, 9/23

«Mestre, qual é o maior mandamento da Lei? Jesus disse-lhe: ‘Amarás ao Senhor, teu Deus […] e amarás ao teu próximo como a ti mesmo’» (Mt 22,36-39). O amor de Deus poupa-nos da morte e o amor do homem poupa-nos do pecado, pois ninguém peca contra aquele a quem ama. Mas que coração poderá possuir em plenitude o amor pelo seu próximo? Que alma poderá fazer frutificar em si mesma, para com toda a gente, o amor nela semeado por este preceito: «Amarás ao teu próximo como a ti mesmo»? Os nossos meios são incapazes, por si sós, de ser instrumentos da vontade rápida e rica de Deus: para isso é necessário o fruto da caridade semeado pelo próprio Deus.

Deus pode, pela Sua natureza, realizar tudo o que quer; ora, Ele quer dar a vida aos homens. Os anjos, os reis, os profetas […] passaram, mas os homens não foram salvos – até que descesse dos céus Aquele que nos toma pela mão e nos ressuscita.

Nota editorial: Conservou-se a referência «16, 9/23» conforme o acervo, sem transformar a barra em intervalo não verificado.

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O cego recebe a luz e revela o Filho do Criador

Santo Efrém, o Sírio — Comentário do Diatesseron, 16, 28-31 (a partir da trad. SC 121, pp. 299ss.)

«Fez lama com a saliva e ungiu-lhe os olhos». E a luz jorrou da terra, como no começo, quando […] as trevas cobriam o abismo e o espírito de Deus Se movia sobre a superfície das águas. Deus disse: «Faça-se a luz» e a luz foi feita (Gn 1, 2-3). Assim, curou um defeito que existia desde a nascença, para mostrar que Ele, cuja mão terminava aquilo que faltava à natureza, era Aquele que, com a Sua mão, tinha dado origem à Criação, no princípio. E como se recusavam a crer que Ele era antes de Abraão (Jo 8, 57), provou com esta ação que era o Filho d’Aquele que, com a Sua mão, «formou o homem do pó da terra» (Gn 2, 7).

Ele fez isso para aqueles que procuravam os milagres a fim de acreditarem: «Os judeus pedem sinais» (1Cor 1, 22). Não foi a piscina de Siloé que abriu os olhos ao cego, tal como não foram as águas do Jordão que purificaram Naamã (2Rs 5, 14): foi a ordem do Senhor que realizou tudo. Mais do que isso, não é a água do nosso batismo, mas os nomes da Trindade que se pronunciam sobre ela que nos purificam. Ele ungiu-lhe os olhos com lama, para que os fariseus pudessem limpar a cegueira do seu coração. […] Aqueles que viam a luz física foram conduzidos por um cego que via a luz do espírito; e, na sua noite, o cego era conduzido por aqueles que viam exteriormente, mas que eram espiritualmente cegos.

O cego lavou a lama dos seus olhos e viu-se a si próprio; os outros lavaram a cegueira do coração, e examinaram-se a si mesmos. Assim, ao abrir exteriormente os olhos dum cego, Nosso Senhor abria secretamente os olhos de muitos outros cegos. […] Nestas poucas palavras do Senhor estavam escondidos tesouros admiráveis e, nesta cura, estava esboçado um símbolo: Jesus, o Filho do Criador.

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A humanidade de Cristo comunica a vida divina

Santo Efrém, o Sírio — Homilia sobre Nosso Senhor, 10–11; excertos.

A força divina que o homem não pode tocar desceu e envolveu-Se num corpo palpável, para que os pobres a toquem e para que, ao tocarem a humanidade de Cristo, captem a sua divindade. Através de dedos de carne, o surdo-mudo sentiu que lhe tocavam nos ouvidos e na língua: através de dedos palpáveis, captou a divindade intocável naquele momento em que o nó da sua língua foi rompido, naquele momento em que as portas fechadas dos seus ouvidos foram abertas. Porque o arquiteto e o artesão do corpo veio até ele e, com palavras suaves, criou, sem dor, aberturas nos seus ouvidos surdos; então, também aquela boca fechada, até ali incapaz de articular palavra, pôs no mundo o louvor daquele que assim fazia a sua esterilidade dar fruto.

De igual modo, o Senhor fez uma lama com a sua saliva e estendeu-a sobre os olhos do cego de nascença (Jo 9,6) para nos fazer compreender que faltava alguma coisa a este, tal como ao surdo-mudo; uma imperfeição inata do nosso barro humano foi assim suprimida graças ao fermento que vem do seu corpo perfeito. […] Para compensar o que faltava a estes corpos humanos, Ele deu qualquer coisa de Si mesmo, tal como a Si mesmo Se dá como alimento [na eucaristia]. É este o meio pelo qual Ele anula os defeitos e ressuscita os mortos, para podermos reconhecer que, graças ao seu corpo «onde habita a plenitude da divindade» (Col 2,9), os defeitos da nossa humanidade são colmatados, e a verdadeira vida é dada aos mortais por este corpo onde habita a vida verdadeira.

Nota editorial: As versões equivalentes foram reunidas; a referência foi cotejada na tradução histórica da homilia.

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Elias aprende a doçura de Deus

Santo Efrém, o Sírio — Oeuvres, ed. Assemani, t. 1, p. 486 (a partir da trad. Thèmes et figures, DDB 1984, coll. Pères dans la foi 28-29, p. 285)

«Eis que o Senhor vai passar. Nesse momento, passou diante dele um vento impetuoso e violento, que fendia as montanhas e quebrava os rochedos, mas o Senhor não estava naquele vento» (1Rs 19, 11). Em seguida, após o furacão, ocorreram tremores de terra e relâmpagos; Elias percebeu que Deus também não estava ali. O objectivo destes fenómenos era o de conter o zelo, aliás louvável, do profeta nos limites da sua responsabilidade e ensinar-lhe, a exemplo dos sinais da autoridade divina, que a severidade devia ser temperada com misericórdia. De acordo com o sentido oculto, os turbilhões de vento que precederam a vinda de Deus, os tremores de terra, os incêndios ateados pelos ventos, eram sinais precursores do juízo universal. […]

«Após o fogo, ouviu-se um murmúrio». Através deste símbolo, Deus refreia o zelo imoderado de Elias. Com isto quer dizer-lhe: «Vês que os ventos impetuosos não Me agradam, nem os terríveis tremores de terra, e que também não gosto dos relâmpagos e dos raios: porque não imitas a doçura do teu Deus? Porque não abrandas um pouco esse zelo que te consome, a fim de te tornares protector dos homens do teu povo, em vez de seres seu acusador?» O doce murmúrio representa a alegria da vida bem aventurada que será dada aos justos quando, no fim dos tempos, tiver lugar o temível juízo final. […]

«Após ter escutado este murmúrio, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e ficou de pé à entrada da gruta e eis que uma voz lhe falou: ‘Elias, que fazes aqui?’ Ele respondeu: ‘Sinto um zelo ardente pelo meu Senhor, o Deus dos exércitos, pois os filhos de Israel abandonaram a Tua aliança’». O profeta manteve-se à entrada da gruta, sem ousar aproximar-se de Deus que chegava, e cobriu o rosto, pensando que não era digno de ver Deus. […] No entanto, tinha perante os seus olhos um sinal da clemência divina e, facto que devia tê-lo tocado ainda mais, passava pessoalmente pela experiência da bondade maravilhosa de Deus nas palavras que Ele lhe dirigia. Quem não ficaria seduzido pela benevolência de uma tão grande majestade, por uma pergunta tão doce: «Elias, que fazes aqui?»

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O batismo e o pão da vida

Caná, a Encarnação e a abundância do dom

Santo Efrém, o Sírio — Comentário ao Diatessaron, V, 6 e seguintes; SC 121, conforme as versões do acervo.

Porque terá Nosso Senhor, como primeiro sinal, transformado a água em vinho? Para demonstrar que Deus, que transformou a natureza no interior das talhas, também operou uma transformação no seio da Virgem. Como milagre supremo, Jesus abriu um túmulo, a fim de manifestar a sua independência em relação à ávida morte, que tudo engole.

Para autenticar e confirmar a dupla perturbação da natureza que ocorre com o seu nascimento e a sua ressurreição, Jesus transformou a água em vinho sem modificar as talhas de pedra: era o símbolo do seu corpo, milagrosamente concebido e maravilhosamente criado numa virgem, sem intervenção de homem. […] Contrariamente ao que é habitual, as talhas deram ao mundo um vinho novo, sem ter jamais havido repetição de tal maravilha. Assim também, a Virgem que concebeu e deu ao mundo o Emanuel (cf Is 7,14) não voltou a conceber. O milagre das talhas de pedra é este: a pequenez torna-se grandeza, a parcimónia transmuta-se em superabundância, a água da fonte em vinho doce.

[…] Em Maria, pelo contrário, a grandeza e a glória da divindade mudam de aspecto, tomando uma aparência de fragilidade e ignomínia.

Naquelas talhas que serviam para os ritos de purificação dos judeus, verte nosso Senhor a sua doutrina, mostrando assim que veio segundo a Lei e os profetas, mas para tudo mudar com os seus ensinamentos, tal como a água se transformou em vinho. […] «É que a Lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade vieram-nos por Jesus Cristo» (Jo 1,17). O esposo que morava em Caná convidou o Esposo que veio do Céu; e o Senhor, que estava preparado para estas núpcias, respondeu ao seu convite. Os que estavam sentados à mesa convidaram Aquele que instala os mundos em seu Reino, e Ele enviou-lhes um presente de núpcias que os fez exultar. […] Não tinham vinho que chegasse, mesmo do de menor qualidade, e Ele deu-lhes um pouco da sua riqueza: em resposta ao convite, Ele convidou-os para as suas núpcias.

Nota editorial: O cabeçalho de uma versão nomeava Simeão, o Novo Teólogo, embora indicasse o Diatessaron e reproduzisse o texto atribuído a Efrém na outra versão. Corrigiu-se a identificação nesta antologia; os posts de origem permanecem intactos.

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O pão, o vinho e a dádiva da vida

Santo Efrém, o Sírio — Comentário ao Diatessaron, XII, 1–5 e 11; SC 121; excertos.

Dons gratuitos que preparam o dom maior

No deserto, Nosso Senhor multiplicou o pão e em Caná transformou a água em vinho. Deste modo, habituou a boca dos Seus discípulos ao Seu pão e ao Seu vinho, até à altura em que lhes daria o Seu corpo e o Seu sangue. Fez-lhes provar um pão e um vinho transitórios para fazer nascer neles o desejo do Seu corpo e do Seu sangue vivificantes. Deu-lhes estas pequenas coisas generosamente para que eles soubessem que a Sua dádiva suprema seria gratuita. Deu-lhas gratuitamente embora eles tivessem podido comprar-Lhas, para que ficassem a saber que não lhes pediria que pagassem uma coisa inestimável: porque, embora eles pudessem pagar o preço do pão e do vinho, não poderiam pagar o Seu corpo e o Seu sangue.

Não só nos ofereceu gratuitamente as Suas dádivas, como ainda nos tratou com afeição. Porque nos deu estas pequenas coisas gratuitamente para nos atrair, para irmos até Ele e recebermos gratuitamente o enorme bem que é a Eucaristia. Estas pequenas porções de pão e de vinho que ofereceu eram agradáveis à boca, mas a dádiva do Seu corpo e do Seu sangue é útil ao espírito. Ele atraiu-nos através daqueles alimentos agradáveis ao paladar, a fim de nos chamar para aquilo que dá vida à nossa alma. […]

A abundância do pão

A obra do Senhor abarca tudo: num abrir e fechar de olhos, multiplicou um pedaço de pão. O que os homens fazem e transformam em dez meses de trabalho, fazem os Seus dez dedos num instante. […] De uma pequena quantidade de pão nasceu uma quantidade enorme de pães; foi como na primeira bênção: «crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra» (Gn 1,28).

Todavia, não foi pelo seu poder que Ele mediu o alcance do milagre, mas pela fome dos que ali se encontravam. Seria impossível avaliar o milagre pela medida do seu poder; medido pela fome daqueles milhares de homens, o milagre excedeu os doze cestos. A capacidade dos artesãos não excede a dos clientes: eles não conseguem corresponder a tudo o que lhes é pedido. As realizações de Deus, pelo contrário, superam todo o desejo. […]

O pão para todas as nações

Saciados no deserto, como outrora os israelitas pela oração de Moisés, eles exclamaram: «Este é, na verdade, o Profeta que estava para vir ao mundo». Era uma alusão às palavras de Moisés: «O Senhor vos suscitará um profeta», não um qualquer, mas «um profeta como eu» (Dt 18,15), que vos saciará de pão no deserto. Como Moisés, Ele caminhou sobre o mar, apareceu na nuvem luminosa, libertou o seu povo; Ele entregou Maria a João, como Moisés entregou o seu rebanho a Josué. […] Mas o pão de Moisés não era perfeito: foi dado unicamente aos israelitas. Querendo significar que o seu dom é superior ao de Moisés e o seu apelo às nações mais perfeito, Nosso Senhor disse: «Se alguém comer deste pão, viverá eternamente», porque «o pão de Deus desceu do Céu» e foi dado a todo o mundo (Jo 6,51).

O vinho e a Lei levada ao cumprimento

Como primeiro sinal, deu um vinho agradável aos convidados, para manifestar que o seu sangue alegraria todas as nações. Com efeito, assim como o vinho intervém em todas as alegrias da Terra, assim também todas as libertações se prendem com o mistério do seu sangue. Ele deu aos convidados de Caná um vinho excelente que lhes transformou o espírito, para lhes mostrar que a doutrina de que ia abeberá-los lhes transformaria o coração.

Este vinho, que no princípio não era senão água, foi transformado nos cântaros, símbolos dos primeiros mandamentos enviados por Ele com vista à perfeição. A água transformada é a Lei levada ao seu cumprimento. Os convidados da boda beberam aquilo que tinha sido água, mas que já não sabia a água. Do mesmo modo, quando ouvimos os antigos mandamentos, não os saboreamos no seu antigo sabor, mas no novo.

Nota editorial: Quatro versões e seleções sobrepostas foram reunidas com subtítulos. A multiplicação instantânea e a preparação para o corpo e o sangue de Cristo aparecem uma única vez.

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A pia batismal e a fonte que dá vida

Santo Efrém, o Sírio — Hino V para a Epifania; excertos.

Descei, irmãos, e revesti-vos do Espírito Santo nas águas;
uni-vos aos seres espirituais que servem o nosso Deus.
Bendito Aquele que instituiu o batismo para o perdão dos filhos de Adão!
Esta água é o fogo secreto que ferra a marca em seu rebanho,
com os três nomes espirituais que espantam o Mal (cf Ap 3,12). […]
João atestou do nosso Salvador: «Ele batizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo» (Mt 3,11).
Eis, irmãos, o fogo e o Espírito, no verdadeiro batismo.
Mais poder tem na verdade o batismo do que o Jordão, que é um riacho:
com suas vagas de água e de óleo santo, ele lava o pecado de todos os seres humanos.
Por indicação de Eliseu, Naamã mergulhou nele sete vezes e ficou limpo da lepra (2Rs 5,10.14);
mas o batismo purifica-nos dos pecados que estão escondidos na alma.
Moisés batizou o povo no mar (1Cor 10,2),
sem poder, contudo, lavar-lhe o coração, manchado pelo pecado.
Mas eis que um padre, semelhante a Moisés, lava da alma as suas manchas,
e, com o óleo, marca os cordeiros novos para o Reino. […]
Pela água nascente do rochedo foi a sede do povo saciada (Ex 17,1s);
por Cristo e sua fonte, foi saciada a sede das nações. […]
Eis que do lado de Cristo corre uma fonte que dá vida (cf Jo 19,34);
bebendo dela, os povos sequiosos esquecem suas queixas.
Verte, Senhor, sobre a minha fraqueza, o teu orvalho;
pelo teu sangue, perdoa os meus pecados.
Que eu seja incluído no número dos teus santos,
e sentado à tua direita.

Nota editorial: Esclareceu-se o sujeito da imersão de Naamã, por indicação de Eliseu, e completou-se a referência a 2Rs 5,10.14. O cotejo conserva a ação de Eliseu por meio do banho prescrito.

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O óleo santo e os cordeiros do rebanho

Santo Efrém, o Sírio — Hino III sobre a Epifania; excertos.

Como é alto o lugar que ocupais!
Enquanto a pecadora ungiu
Os pés do seu Senhor, como uma serva (cf Lc 7,38),
É o próprio Cristo que pelos seus ministros, qual servo,
Marca o vosso corpo com a unção batismal.
O Senhor das ovelhas acha conveniente
Colocar pessoalmente o seu sinal nos seus servos. […]

Refrão : Eis que Cristo assinala com o óleo
Os seus cordeiros novos no Batismo.

O óleo que Elias fez com que abundasse (cf 1Rs 17,14)
Era um alimento para a boca;
A vasilha da viúva, com efeito,
Não era o chifre da unção (cf 1Sam 16,1).
Mas o óleo com que Nosso Senhor nos ungiu
Não é um alimento:
Ele transforma o pecador, esse lobo exterior,
Em cordeiro, membro do seu rebanho (cf. Mt 7,15). […]

O ramo da oliveira que a pomba trouxe no bico (cf Gn 8,11)
Era um símbolo da unção batismal.
Todos os da arca correram para ela,
Pois ela trazia uma boa nova de redenção.
Acorrei vós também a esse santo óleo;
Que os vossos corpos falíveis se regozijem,
Pois ele traz a Boa Nova da redenção. […]

Quando David foi ungido, meus irmãos (cf 1Sm 16,13),
O Espírito desceu,
Discerniu o coração desse bravo e aí encontrou as suas delícias.
O perfume desse óleo tornou-se o do seu coração;
O Espírito fez morada nele e nele cantou (cf 1Sam 16,23).
Mas a vossa unção é maior,
Uma vez que o Pai, o Filho e o Espírito Santo
Desceram e vieram morar em vós. […]

O óleo de alto preço que Maria
derramou sobre a cabeça de Nosso Senhor
Espalhou o seu perfume por toda a casa (Jo 12,3).
Também o perfume da vossa unção
Se expande e é exalado até aos céus,
onde faz as delícias dos anjos nas alturas;
Satanás detesta o seu odor,
Para Deus o seu aroma é suave. […]

Vinde, ovelhas, recebei o vosso sinal
Que afasta os que vos querem devorar!
Vinde, cordeiros, recebei o vosso sinal,
Pois o vosso sinal é verdade. […]
Essa verdade parece-se muito
Com uma grande árvore que espalha a sua sombra […]:
As nações vieram albergar-se sob os seus ramos (cf Mt 13,32),
Colheram os seus frutos e ficaram saciadas.

Nota editorial: A oração do Ritual do Batismo que precedia o hino foi separada e identificada no apêndice. Corrigiram-se Is 16,13 para 1Sm 16,13 e Mt 13,22 para Mt 13,32; o cotejo confirma a passagem do hino III.

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A Paixão, a ressurreição e a esperança

O cálice e a fraqueza humana assumida por Cristo

Santo Efrém, o Sírio — Comentário ao Diatessaron, XX, 2–7; SC 121, pp. 344 e seguintes, conforme a versão equivalente.

«Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice» (Mt 26,39). […] Ele bem sabia aquilo que dizia ao Pai – que era possível o Pai afastar o cálice –, mas viera bebê-lo por todos, a fim de pagar com esse cálice a dívida que a morte dos profetas e dos mártires não pudera pagar. […]

Aquele que havia descrito a sua condenação à morte nos profetas e que havia prefigurado o mistério da sua morte pelos justos, quando chegou a altura de consumar essa morte, não Se recusou a beber o cálice. Se não tivesse querido bebê-lo, mas antes afastá-lo, não teria comparado o seu corpo com o Templo nesta frase: «Destruí este Templo e em três dias o levantarei» (Jo 2,19); nem teria dito aos filhos de Zebedeu: «Podeis beber o cálice que Eu vou beber?»; e ainda: «Tenho de receber um batismo» (Lc 12,50). […]

«Se é possível, passe de Mim este cálice»: Ele diz isto por causa da fraqueza que adotara, que não era fingida, mas real. Uma vez que Se fizera pequeno e que tinha de facto adotado a nossa fraqueza, temia e sentia-Se abalado na sua fraqueza. Tendo revestido a forma humana, tendo adotado a fraqueza humana, comendo quando tinha fome, cansando-Se com o trabalho, deixando-Se vencer pelo sono, tudo o que estava relacionado com a carne tinha de ser cumprido quando chegou a altura da sua morte. […]

A fim de trazer conforto aos seus discípulos pela sua Paixão, Jesus sentiu o que eles sentem: tomou sobre Si o medo deles, para lhes mostrar, pela semelhança da sua alma, que não devem vangloriar-se a propósito da morte antes de terem passado por ela. Com efeito, se Aquele que nada teme sentiu medo e pediu para ser salvo quando sabia que tal era impossível, quanto mais devem os outros perseverar na oração perante a tentação, a fim de serem dela libertados quando se apresentar. […] Para dar coragem aos que temem a morte, Ele não escondeu o seu próprio receio, para que eles saibam que este medo não os leva ao pecado, desde que não permaneçam nele. «Todavia, não se faça como Eu quero, mas como Tu queres» (Mt 26,39): que Eu morra para dar a vida à multidão.

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A cruz, ponte sobre a morte

Santo Efrém, o Sírio — Homilia sobre Nosso Senhor, 3–4 e excertos seguintes.

Nosso Senhor foi tocado pela morte, mas, em contrapartida, abriu um caminho que esmaga a morte: submeteu-Se à morte e sofreu-a voluntariamente, para a destruir. Seguindo a ordem da morte, «saiu carregando a cruz» (Jo 19,17); mas, já na cruz, soltou um brado e tirou os mortos do inferno, embora a morte não quisesse consenti-lo. […]

Ele é o glorioso «filho do carpinteiro» (Mt 13,55), que, no carro da cruz, desceu à voraz garganta da morada dos mortos e transferiu o género humano para a morada da vida (cf Col 1,13). E, se pela árvore do paraíso o género humano caíra na morada dos mortos, pela árvore da cruz passou para a morada da vida. Naquele madeiro, fora enxertado o azedume; neste, foi enxertada a doçura, para que nele reconheçamos o Senhor a quem nenhuma criatura pode opor-se.

Glória a Vós, que lançastes a cruz como ponte sobre a morte, para que os homens por ela passassem do país da morte para o país da vida. […] Glória a Vós, que Vos revestistes do corpo do mortal Adão e dele fizestes a fonte da vida para todos os mortais. Sim, Vós estais vivo, porque os vossos carrascos foram afinal semeadores: semearam a vossa vida nas profundezas da terra, como se faz com o trigo, para que cresça e com ele faça crescer muitos grãos (cf Jo 12,24).

Vinde, façamos deste amor um imenso incensório universal; prodigalizemos cânticos e orações Àquele que da cruz fez um turíbulo à Divindade e nos cumulou de riquezas com o seu sangue.

Nota editorial: Completou-se a referência da passagem da cruz como ponte pelo cotejo da homilia.

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Jonas e a conversão dos povos

Santo Efrém, o Sírio — Diatessaron 11, 1-3 (a partir da trad. SC 121, pp. 195ss. rev.)

Apesar de todos os sinais que Nosso Senhor nos enviou, aqueles cegos nada viam e diziam-Lhe: «Queríamos ver um sinal vindo de Ti». Nosso Senhor deixou de lado reis e profetas, Suas testemunhas, e apelou aos Ninivitas. […] Jonas anunciara a destruição aos Ninivitas; tinha-lhes inspirado temor, tinha semeado no seu seio a consternação; e eles, por resposta, deram-lhe a colheita da contrição e os frutos da penitência. As nações foram, pois, eleitas e os incircuncisos aproximaram-se de Deus. Os pagãos receberam a vida e os pecadores converteram-se […].

«Reclamavam um sinal do Céu» (Lc 11,16), por exemplo um trovão, como acontecera com Samuel (cf 1Sm 7, 10). […] Tinham ouvido uma pregação vinda do alto, e não acreditaram. Por isso, a pregação veio das profundezas […]: «O Filho do homem estará no coração da terra, como Jonas esteve no ventre da baleia». […] Jonas emergiu do mar e pregou aos Ninivitas, que fizeram penitência e foram salvos. Também Nosso Senhor, depois de ter ressuscitado o Seu corpo da morada dos mortos, enviou os Seus apóstolos pelo meio das nações, que se converteram totalmente e receberam a plenitude da vida.

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A descida do Pastor e a luz da ressurreição

Santo Efrém, o Sírio — Hino I sobre a Ressurreição; excertos complementares do acervo.

O Pastor desce e sobe

O Pastor de todos desceu,
procurou Adão, ovelha perdida,
levou-o aos ombros e subiu.
Fez de Si mesmo um sacrifício
oferecido ao Senhor do rebanho (cf Lc 15,4; Jo 10,11).
Bendita seja a sua descida até nós!
Ele veio, orvalho e chuva vivificante,
a Maria, terra sedenta.
O grão de trigo desceu à terra
e dela voltou a subir,
ramo e pão novo (Jo 12,24).
Bendita seja a sua oferenda! […]
Do alto, o poder desceu a nós;
do seio da Virgem, a esperança brilhou para nós;
do sepulcro, a vida surgiu para nós,
à direita do Pai,
Ele Se senta como rei para nós.
Bendita seja a sua honra!
Do alto jorrou como um rio;
de Maria saiu como um rebento;
do bosque suspendeu-Se como fruto,
E subiu ao Céu,
oferenda de primícias.
Bendita seja a sua vontade!

A luz que vence as trevas

Jesus Cristo, Nosso Senhor,
Do seio do Pai veio até nós.
Chegou, livrou-nos das trevas
E encheu-nos da sua alegre Luz.

O dia nasceu para os homens;
O poder das trevas foi anulado.
Da sua Luz veio para nós uma luz
Que iluminou nossos olhos apagados.

Ergueu a sua Glória sobre a terra
E iluminou os abismos mais profundos.
Aniquilou a morte, pôs fim às trevas,
Despedaçou as portas do inferno.

Iluminou todas as criaturas
Em trevas desde os tempos mais antigos,
Realizou a salvação e deu-nos a vida;
Virá depois na sua Glória
E iluminará os olhos de todos
Os que O tiverem esperado.

O nosso Rei vem na sua imensa Glória:
Acendamos nossas lâmpadas, saiamos ao seu encontro (Mt 25,6);
Alegremo-nos nele, tal como Ele Se alegrou em nós
E nos alegrou com a sua Luz gloriosa.

Irmãos, erguei-vos, preparai-vos
Para dar graças ao nosso Rei e Salvador
Que virá na sua Glória e nos alegrará
Com a sua alegre Luz no Reino eterno.

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A vigilância e a espera do Senhor

Santo Efrém, o Sírio — Comentário ao Diatessaron, XVIII, 15 e seguintes; excertos.

Esperar sem fixar a hora

Para impedir qualquer pergunta indiscreta acerca do momento da sua segunda vinda, Jesus declarou: «Essa hora, ninguém a conhece, nem mesmo o Filho» (Mt 24,36); e, noutro momento: «Não vos pertence conhecer os dias e os tempos» (Act 1,7). Escondeu-nos esse conhecimento para que vigiemos, e cada um possa pensar que tal vinda se produzirá durante a sua vida. Se o tempo da sua vinda tivesse sido revelado, o seu advento seria em vão, pois as nações e os séculos em que se produzisse não o teriam desejado. Ele bem disse que viria, mas não precisou em que momento; dessa forma, todas as gerações e todos os séculos têm sede dele.

É certo que fez conhecer os sinais da sua vinda; mas não revelou o seu termo. Na mudança constante em que vivemos, alguns desses sinais já tiveram lugar, outros já passaram, outros duram sempre. Com efeito, a sua última vinda será semelhante à primeira: os justos e os profetas desejavam-na e pensavam que teria lugar no tempo deles. Também hoje, cada um dos fiéis de Cristo deseja acolhê-Lo no seu próprio tempo, tanto mais que Jesus não disse claramente quando apareceria. Assim, ninguém poderá imaginar que Cristo esteja submetido a uma lei do tempo, a uma hora qualquer, Ele que domina os números e o tempo.

Manter acesas as lâmpadas

Vigiai, porque quando o corpo adormece é a natureza que nos domina, e nessa altura a nossa ação não é dirigida pela nossa vontade mas pela força da natureza. E quando reina sobre a alma um pesado torpor de fraqueza e tristeza, é o inimigo que a domina. […] Foi por isso que o Senhor falou da vigilância da alma e do corpo, para que o corpo não se afunde num sono pesado nem a alma no entorpecimento. Como dizem as Escrituras: «Despertai como é justo» (1Co 15,34), «se pudesse chegar ao fim, estaria ainda convosco» (Sl 139,18) e «não desanimeis» (cf Ef 3,13). […]

«Cinco delas eram insensatas, diz o Senhor, e cinco prudentes.» Não é à virgindade que Ele chama sabedoria, uma vez que todas elas eram virgens, mas às boas obras. Mesmo que a tua castidade seja igual à santidade dos anjos, repara que a santidade dos anjos está isenta de inveja e de qualquer outro mal. Se não fores repreendido por impureza, cuida que também não o sejas por arrebatamento e por cólera. […] «Estejam cingidos os vossos rins», para que a castidade não nos pese. «E acesas as vossas lâmpadas» (Lc 12,35), porque o mundo é como a noite: tem necessidade da luz dos justos. «Brilhe a vossa luz diante dos homens de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus» (Mt 5,16).

Nota editorial: A abertura equivalente sobre a hora desconhecida não é repetida; a exortação à vigilância e às boas obras foi preservada.

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A esperança do Paraíso

Santo Efrém, o Sírio — Hinos sobre o Paraíso

A contemplação do Paraíso maravilhou-me, pela sua paz e a sua beleza: ali mora a beleza sem mancha, ali reside a paz sem tumulto. Feliz aquele que merecer recebê-la, se não por justiça, ao menos por bondade; se não por causa das suas obras, ao menos por piedade. […]

Quando o meu espírito regressou à Terra, mãe dos espinhos, apresentaram-se-me dores e males de todo o gênero. Aprendi assim que este lugar é uma prisão. E, contudo, os cativos que nela estão encerrados choram ao sair dela. Espantei-me também ao ver o que as crianças choram ao sair do seio materno: choram quando passam das trevas para a luz, de um espaço estreito para o vasto universo. Também a morte é, para os homens, uma espécie de parto: os que nascem, choram ao deixar o Universo, mãe das dores, para entrar no Paraíso de delícias.

Ó Tu, Senhor do Paraíso, tem piedade de mim! Se não me for possível entrar no teu Paraíso, faz-me ao menos digno dos prados que o rodeiam. No centro do Paraíso está a mesa dos santos, mas os seus frutos caem para o exterior como migalhas destinadas aos pecadores que, também aí, viverão pela tua bondade.

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A oração e a comunhão da Igreja

A alma e a Igreja como festim de núpcias

Santo Efrém, o Sírio — Hinos sobre a fé, XIV; fonte declarada: Evangelizo.

Senhor, convido-Te para um festim de núpcias em cânticos.
Em Caná, faltou o vinho, que exprime o nosso louvor;
Tu, convidado que encheste as talhas de bom vinho,
enche a minha boca com os teus louvores!

O vinho de Caná é o símbolo do nosso louvor,
porque os que dele beberam ficaram maravilhados.
Nesse festim de núpcias que não era o teu,
Tu, que és o verdadeiro justo,
fizeste transbordar seis talhas de vinho delicioso;
no festim para o qual Te convido,
podes, pois, encher com a tua suavidade
os ouvidos de uma multidão.

No passado, foste convidado para as núpcias de outros;
eis agora o teu próprio festim, casto e belo.
Que ele alegre o teu povo!
Que os teus cânticos regalem os teus convidados;
que a minha cítara acompanhe o teu canto!

A tua noiva é a nossa alma;
o nosso corpo é o teu aposento de núpcias;
os nossos sentidos e os nossos pensamentos são os convidados.
Se, para Ti, uma só pessoa é já um festim de núpcias,
como será grande o de toda a Igreja!

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Eu estou no meio deles

Santo Efrém, o Sírio — Hino sem identificação de coleção ou número; denominado «inédito» no documento e no acervo.

Aquele que celebra sozinho no coração do deserto

é uma assembleia numerosa.

Se dois se unirem para celebrar entre os rochedos,

aí estarão presentes milhões, miríades.

Se três se reunirem,

um quarto estará no meio deles.

Se forem seis ou sete,

estarão reunidos doze mil milhões.

Se se puserem em fila,

encherão o firmamento de orações.

Se estiverem crucificados sobre a rocha,

e marcados com uma cruz de luz,

a Igreja estará fundada.

Se estiverem reunidos,

o Espírito plana sobre as suas cabeças.

E, quando terminam a sua oração,

o Senhor levanta-Se e serve os seus servidores (cf Lc 12,37; Jo 13,4)

Nota editorial: Adotou-se integralmente o texto de Sophia.docx21, sem duplicar a versão equivalente. «Inédito» é uma indicação recebida, não uma afirmação de que o hino nunca tenha sido publicado.

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Todas as criaturas se unem na ação de graças

Santo Efrém, o Sírio — Diatesseron, oração final

Ó misericórdias, enviadas e derramadas sobre todos os homens! É em Ti que elas permanecem, Senhor, Tu que, na tua piedade para com os homens, foste ao seu encontro, abrindo-lhes os tesouros das tuas misericórdias pela tua morte. […] Com efeito, o teu ser profundo está escondido aos olhos dos homens, mas fica esboçado em pequenos movimentos. As tuas obras fornecem-nos o esboço do seu Autor, tal como as criaturas nos designam o seu Criador (Sb 13,1; Rom 1,20), para que possamos tocar naquele que Se oculta à investigação intelectual mas Se revela nos seus dons. É difícil estarmos presentes a Ele face a face, mas é fácil aproximarmo-nos dele.

As nossas ações de graças são insuficientes, mas nós Te adoramos em todas as coisas, por causa do teu amor para com todos os homens. Distingues cada um de nós pelo mais fundo do nosso ser invisível, a nós que estamos todos ligados nas nossas fundações pela natureza única de Adão. […] Nós Te adoramos, a Ti que colocaste cada um de nós neste mundo, que nos confiaste tudo o que nele se encontra e que nos retirarás dele numa hora que não conhecemos. Nós Te adoramos, a Ti que puseste a palavra na nossa boca, para que pudéssemos apresentar-Te os nossos pedidos. Adão Te aclama, ele que repousa em paz, e nós, sua posteridade, aclamamos-Te com ele, pois todos somos beneficiários da tua graça. Os ventos Te louvam […], a terra Te louva […], os mares Te louvam […], as árvores Te louvam […], as plantas e as flores Te bendizem também. […] Que todas as coisas se juntem e unam as suas vozes para Te louvar, ultrapassando-se umas às outras nas ações de graças por todas as tuas bondades e unindo-se na paz para Te bendizer; que todas as coisas juntas elevem para Ti uma obra de louvor.

A nós, cabe-nos tender para Ti com toda a nossa vontade; a Ti cabe-Te derramar sobre nós um pouco da tua plenitude, para que a tua verdade nos converta e assim desapareça a nossa fraqueza que, sem a tua graça, não pode alcançar-Te, ó Senhor de todos os dons.

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Textos de tradição e atribuição assinaladas

A serpente elevada e a conversão

Texto atribuído a Santo Efrém — Sermão Sobre a penitência, atribuído a Efrém; tradução de Ir. Isabelle de la Source indicada na versão equivalente.

Quando o povo pecou no deserto (Nm 21,5s), Moisés, que era profeta, ordenou aos israelitas que fixassem uma serpente a uma cruz para matarem o pecado. […] Eles tinham de olhar para a serpente porque fora por meio de serpentes que os filhos de Israel tinham sido castigados. E por que razão o foram por meio de serpentes? Porque tinham renovado a conduta dos nossos primeiros pais: Adão e Eva tinham pecado comendo o fruto da árvore; os israelitas tinham murmurado por causa da comida, e proferir queixas porque não se tem legumes é o cúmulo da murmuração. O salmo atesta: «Eles revoltaram-se contra o Altíssimo no deserto» (Sl 77,17). Ora, também no Paraíso tinha sido a serpente a dar início à murmuração. […] Os filhos de Israel aprenderiam assim que a mesma serpente que tinha conspirado para levar a morte a Adão conspirara igualmente para os matar a eles. Por isso, Moisés suspendeu-a de um madeiro, a fim de que, ao vê-la, eles fossem conduzidos, por semelhança, a recordar-se da árvore. Com efeito, aqueles que para ela voltavam os seus olhos eram salvos, não por causa da serpente, naturalmente, mas por se terem convertido. Olhando para a serpente, recordavam-se dos seus pecados. Por terem sido mordidos, arrependiam-se e voltavam a ser salvos. A sua conversão transformava o deserto em morada de Deus; o povo pecador tornava-se, pela penitência, uma assembleia eclesial e, melhor ainda, apesar de si mesmo, adorava a cruz.

Nota editorial: Conservou-se a ressalva de atribuição explícita no acervo. As duas versões equivalentes aparecem uma única vez.

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A cruz reúne os povos

Texto atribuído a Santo Efrém — Homilia atribuída a Efrém; sem numeração segura no acervo.

De ora em diante, pela cruz, as sombras estão dissipadas e a verdade eleva-se, como diz o apóstolo João: «Porque as primeiras coisas passaram […] Eu renovo todas as coisas» (Ap 21,4-5). A morte é espoliada, o inferno liberta os cativos, o homem está livre, o Senhor reina, a criação está em alegria. A cruz triunfa e todas as nações, tribos, línguas e povos (Ap 7,9), vêm para O adorar. Com o beato Paulo, que exclama : «Quanto a mim, porém, de nada quero me gloriar, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo» (Ga 6,14), encontramos nela a nossa alegria. A cruz traz a luz a todo o universo, ela afasta as trevas e reúne as nações do Ocidente, do Oriente, do Norte e do mar numa só Igreja, numa única fé, num só baptismo na caridade. Fixada no Calvário, ela dirige-se ao centro do mundo.

Armados com a cruz, os apóstolos vão pregar e reunir na sua adoração o universo inteiro, espezinhando todas as forças hostis. Por ela, os mártires confessaram a sua fé com audácia e não temeram os ardis dos tiranos. Carregando-a, os monges fizeram da solidão a própria morada, numa imensa alegria.

Na hora em que Jesus regressar, aparecerá primeiro no céu esta cruz, ceptro precioso, vivo, verdadeiro e santo do Grande Rei: «Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem» (Mt 24,30). Vê-la-emos, escoltada pelos anjos, a iluminar a Terra, de uma a outra ponta do Universo, mais clara que o sol, a anunciar o Dia do Senhor.

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Maria, nova árvore de vida

Tradição sob o nome de Santo Efrém — Hino mariano transmitido sob o nome de Efrém; sem numeração no acervo.

Filho de Deus, concede-me o teu dom admirável, para que eu possa celebrar a maravilhosa beleza de tua bem-amada Mãe! Conservando a sua virgindade, ela concebeu o Filho, em seu seio imaculado teve aquele que traz nas mãos o universo, amamentou quem às nações dá alimento. Virgem e mãe, o que não é ela, desde então? Ela é santa de corpo, bela na alma, pura de espírito, segura na inteligência, perfeita nos sentimentos, casta e fiel, pura de coração e plena de virtude.

Que em Maria exultem os corações virgens, porque dela nasceu aquele que libertou o género humano, votado a escravatura terrível. Que o velho Adão, ferido pela serpente, se alegre em Maria; pois Maria deu a Adão uma descendência que lhe permitiu esmagar a serpente maldita e o sarou da sua ferida mortal (Gn 3,15). Que os sacerdotes se alegrem na Virgem bendita; pois ela pôs no mundo o Sumo-sacerdote que a Si próprio Se fez vítima, pondo fim aos sacrifícios da antiga aliança […] Que em Maria se alegrem todos os profetas, porque nela se cumpriram as suas visões, nela se realizaram as suas profecias, se confirmaram os seus oráculos. Que em Maria exultem todos os patriarcas, porque ela recebeu a bênção que lhes foi prometida, ela que, em seu Filho, os tornou perfeitos […]

Maria é a nova árvore de vida, que dá aos homens, em vez do fruto amargo colhido por Eva, um dulcíssimo fruto de que o mundo se alimenta.

Nota editorial: Preservou-se o hino sob a atribuição recebida, sem estabelecer sua autenticidade. O título litúrgico acrescentado numa versão não foi tratado como parte do poema.

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Maria acolhe o Deus que Se faz pequeno

Texto transmitido sob o nome de Santo Efrém — Homilias sobre a Mãe de Deus, II, 93–145; CSCO 363 e 364, pp. 52–53, conforme o acervo; identificação recebida, não revalidada nesta edição.

Contemplai Maria, bem-amados, vede como Gabriel entrou em sua casa e que, ao ouvi-la perguntar «Como será isso?», o servo do Espírito Santo deu a seguinte resposta: «Nada é impossível a Deus, para Ele tudo é simples». Ela acreditou no que ouvira e disse: «Eis a serva do Senhor» . E o Senhor desceu, de uma forma que só Ele conhece: pôs-Se em movimento e veio como Lhe agradava; entrou nela sem que Ela o sentisse e Maria acolheu-O sem sofrimento. Ela trouxe dentro de si Aquele de que o mundo está cheio. Ele abaixou-Se para ser o modelo que renova a antiga imagem de Adão.

Por isso, quando te anunciarem o nascimento de Deus, guarda silêncio. Que a palavra de Gabriel esteja presente no teu espírito, pois nada é impossível a esta gloriosa Majestade que Se abaixou por nós e que nasceu da nossa humanidade. Nesse dia, Maria tornou-se o Céu que contém a Deus, pois a divindade sublime veio fazer dela a sua morada. Nela, Deus fez-se pequeno sem enfraquecer a sua natureza, para nos fazer crescer. Nela, Ele Deus teceu para nós uma veste com a qual nos salvou. Nela se cumpriram todas as palavras dos profetas e dos justos. Dela se elevou a luz que expulsou as trevas do paganismo .

Numerosos são os títulos de Maria […]: ela é o palácio no qual habitou o poderoso Rei dos reis, mas Ele não a deixou como viera, pois foi dela que Ele Se fez carne e que nasceu. Ela é o novo Céu no qual o Rei dos reis habitou; nela Se elevou Cristo e dela subiu para iluminar a criação, formada e talhada à sua imagem. Ela é a cepa de vinha que deu uvas; ela gerou um fruto superior à natureza; e Ele, se bem que diferente dela pela sua natureza, vestiu a sua cor quando nasceu dela. Ela é a fonte da qual brotaram as águas vivas para os sequiosos, e quantos aí se dessedentam dão frutos a cem por um.

Nota editorial: As duas versões foram cotejadas. A atribuição e os dados bibliográficos são conservados como recebidos, com ressalva; a passagem não é apresentada como de autenticidade estabelecida.

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João Batista, testemunha da Luz

Hino atribuído a Santo Efrém — Hino da liturgia siríaca atribuído a Efrém.

A ti, João, reconhecemos-te como novo Moisés,
pois viste a Deus com toda a claridade e já não em figura;
a ti, reconhecemos como novo Josué,
pois não fizeste apenas que os homens passassem duma margem para a outra do Jordão,
mas dum mundo ao outro nas águas do Jordão; […]

Tu és o novo Samuel, pois não te limitaste a ungir David, mas batizaste o Filho de David;
tu és o novo David, que não foste apenas perseguido pelo rei Saul, mas morto pelo rei Herodes;
tu és o novo Elias, que não foste apenas nutrido com pão por um corvo,
mas foste nutrido por Deus com gafanhotos e mel silvestre no deserto;
tu és o novo Isaías, que já não proclamas apenas que a Virgem há de dar à luz o Emanuel,
mas apontas o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. […]

Bem-aventurado és tu, João, eleito por Deus, que suspendeste as mãos sobre o teu Mestre
e nelas tinhas a chama cujo brilho faz encandear os anjos!
Estrela da manhã (cf Nm 24,17), tu mostraste aos homens a manhã verdadeira;
amanhecer da alegria (cf Sl 30,6), tu manifestaste ao gênero humano o dia da verdadeira glória;
lâmpada ardente e luminosa (cf Jo 5,35), tu apontaste aos homens a Luz sem ocaso;
mensageiro do Deus da reconciliação (cf Is 9,5 LXX), à tua frente foi enviado o arcanjo Gabriel
a anunciar-te a Zacarias, para quem foste muito mais do que o fruto esperado; […]

Maior entre os nascidos de mulher (cf Mt 11,11), tu surgiste antes do Emanuel,
Aquele que excede toda a criação;
enfim, primogênito de Isabel, precedeste o Primogênito de toda a criatura (cf Col 1,15).

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Contemplar desde agora a vida da ressurreição

Texto transmitido sob o nome de Santo Efrém — Sermão III, 2 e 4–5; versão do Breviário indicada no acervo, 9 de junho.

Fazei resplandecer, Senhor, o dia luminoso da vossa ciência
e dissipai as trevas noturnas da nossa alma,
para que seja iluminada e Vos sirva renovada e pura.

O nascer do sol assinala aos mortais o começo das suas labutas;
adornai, Senhor, a morada da nossa alma,
para que nela permaneça o esplendor daquele dia que não tem fim.

Fazei, Senhor, que cheguemos a contemplar em nós mesmos a vida da ressurreição,
e que nada consiga apartar o nosso espírito das vossas alegrias.

Imprimi, Senhor, em nossos corações
o sinal daquele dia que não se rege pelo movimento do sol,
infundindo-nos uma constante orientação para Vós.

Todos os dias Vos abraçamos nos sacramentos
e Vos recebemos no nosso corpo;
tornai-nos dignos de sentir em nós mesmos
a ressurreição que esperamos.

Com a graça do batismo
conservamos escondido no nosso corpo
o tesouro que nos destes,
esse tesouro que aumenta na mesa dos vossos sacramentos;
fazei-nos viver sempre na alegria da vossa graça.

Nós Vos pedimos
que, através daquela beleza espiritual
que a vossa vontade imortal faz resplandecer mesmo nas criaturas mortais,
nos leveis a compreender retamente a beleza da nossa própria dignidade. […]

A vossa ressurreição, ó Jesus,
faça crescer em nós o homem espiritual
e os sinais dos vossos sacramentos no-lo revelem como num espelho,
para o conhecermos cada vez melhor. […]

Concedei, Senhor,
que caminhemos velozmente para a nossa pátria celeste
e, como Moisés no alto do monte,
a possamos desde já contemplar através da Revelação.

Nota editorial: Conservam-se a atribuição e a referência da fonte litúrgica recebida, sem nova conclusão de autenticidade.

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Senhor e Mestre da minha vida

Oração tradicional atribuída a Santo Efrém — Oração quaresmal tradicionalmente atribuída a Santo Efrém; versão litúrgica do acervo.

Senhor e Mestre da minha vida,
não me abandones ao espírito de preguiça, de desencorajamento
de dominação e de vã tagarelice.

(Prostramo-nos)

Concede-me a graça de um espírito de castidade, de humildade,
de paciência e de caridade, a mim, Teu servo.

(Prostramo-nos)

Sim, meu Senhor e meu Rei, que eu veja as minhas faltas
e não condene o meu irmão.
Tu, que és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

(Prostramo-nos e, seguidamente, inclinamo-nos até ao chão e dizemos três vezes)

Ó Deus, tem piedade de mim, pecador.
Ó Deus, purifica-me que sou pecador.
Ó Deus, meu Criador, salva-me.
Perdoa-me os meus numerosos pecados!

Nota editorial: Conservam-se as rubricas e as invocações da versão recebida. A autoria é apresentada como atribuição litúrgica tradicional.

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Oração para a unção depois do batismo

Texto litúrgico — Ritual do Batismo; fórmula litúrgica transcrita no acervo.

«Pelo batismo, Deus todo-poderoso, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, libertou-te do pecado e fez-te renascer da água e do Espírito. Fazes agora parte do seu povo; marcou-te com o óleo santo para que sejas eternamente membro de Jesus Cristo, sacerdote, profeta e rei.»

Nota editorial: Este texto pertence ao ritual que o acervo antepunha ao hino. Foi separado para não ser atribuído ao poeta.

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Fontes e critérios

As traduções portuguesas procedem do acervo Sophia, com fonte declarada Evangelho Cotidiano / Evangelho Quotidiano / Evangelizo, e do item 21 de Sophia.docx. Preservam-se os dados disponíveis de SC (Sources chrétiennes), CSCO, Assemani, Bouvet, Brésard, Delhougne e Isabelle de la Source nas referências e no registro editorial. Não se trata de uma nova tradução.

O título «hino inédito» do documento foi conservado apenas como dado da fonte. Não se afirmou um ineditismo histórico. Foram reservados textos de Isaac, o Sírio, uma introdução e uma homilia contemporâneas, além dos excertos da Transfiguração cuja autoria diverge entre as versões. A atribuição dos demais textos segue os dados recebidos e as ressalvas assinaladas.

Cotejo: Homilia sobre Nosso Senhor; Hinos para a Epifania, traduções históricas em New Advent.

Os mapas de origem e as variantes permanecem no registro editorial interno. Preparação em 19 de outubro de 2026.

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