Esta antologia reúne sermões de São Pedro Crisólogo sobre o amor de Deus, a Encarnação, a Igreja, a misericórdia, a oração e a vitória de Cristo sobre a morte. As seleções estão distribuídas por seis temas, com referências para a leitura e a consulta.
Versões equivalentes foram reunidas e excertos complementares aproximados, respeitando as traduções recebidas. Inclui-se integralmente a passagem do Sermão 76 conservada em Sophia.docx. As notas assinalam os ajustes de referência e as principais decisões de composição.
Sumário
- O amor de Deus e a Encarnação
- O Reino e a Igreja
- Conversão, perdão e misericórdia
- Oração, jejum e partilha
- Cristo, Senhor da vida
- A Paixão e a alegria da Ressurreição
- As feridas de Cristo abrem o seu coração
- Jonas, sinal da Paixão e da Ressurreição
- Os Inocentes e a vitória recebida de Cristo
- As mulheres, mensageiras da Boa Nova
- Não temais: o Ressuscitado chama-nos irmãos
- Tocai-Me e vede: a realidade do corpo ressuscitado
- Tomé e o testemunho das feridas
- Na margem, o Senhor reconduz a Igreja à fé
- Fontes e critérios
O amor de Deus e a Encarnação
A dignidade humana renovada pela Encarnação
São Pedro Crisólogo — Sermão 148; PL 52, 596; tradução do Breviário e variantes do acervo.
Quando a Virgem concebe, virgem dá à luz e permanece virgem, isso não entra na ordem da natureza, mas na ordem dos sinais divinos; não é segundo a razão humana, mas conforme ao poder de Deus; não é a natureza humana que atua, mas o Criador; não é caso comum, mas único; é obra divina e não humana. O nascimento de Cristo não foi uma consequência necessária da natureza, mas do poder de Deus. Foi o mistério da piedade, a redenção da humanidade. Aquele que, sem nascer, fez o homem do barro intacto fez-Se homem nascendo de um corpo também intacto. A mão que Se dignou tomar o barro para formar o nosso corpo também Se dignou tomar a nossa carne para nos salvar. […]
Homem, porque és tão vil aos teus próprios olhos, quando és tão precioso aos olhos de Deus? Porque te desonras, quando Deus te honrou tanto? Porque te perguntas como foste criado, e negligencias em procurar para que fim? Esta morada do mundo que vês não foi construída só para ti? Foi para ti que a luz brilhou, a fim de vencer as trevas, para ti que se dispôs a noite e se mediu o dia; é para ti que o céu brilha com os raios do sol, da lua e das estrelas; para ti que a terra se cobre de flores, de árvores, de frutos; é por ti que vive no ar, nos campos e nas águas uma diversidade maravilhosa de animais, para que a tristeza e a solidão não ensombrassem a alegria da criação nascente.
Deus moldou-te do pó da terra (Gn 2,7), para que sejas senhor das coisas desta terra, partilhando com elas uma natureza comum. No entanto, por mais terreno que sejas, Deus não te nivelou ao ponto de não estares já ao nível dos céus, no que diz respeito à tua alma. Para que tenhas a inteligência em comum com Deus, e o corpo em comum com os animais, Deus deu-te o dom de uma alma celeste e de um corpo terreno; assim, em ti se enlaça uma união permanente entre o céu e a terra.
Além disso, o Criador procura o que pode acrescentar à tua dignidade; Ele deposita em ti a Sua imagem (Gn 1, 27), a fim de que esta imagem visível torne presente sobre a terra o Criador invisível, e confia-te a gestão dos bens terrenos, para que um tão vasto domínio não escape ao representante do Senhor. […] E o que Deus fez em ti pelo Seu poder, teve a bondade de o assumir em Si mesmo; Ele quis manifestar-Se verdadeiramente no homem em quem, até então, tinha aparecido apenas em imagem. Ele concedeu ao homem ser realmente o que anteriormente era apenas por uma simples semelhança.
Cristo nasceu para renovar com o seu nascimento a natureza corrompida; fez-Se criança, quis ser alimentado e passou pelas diversas idades da vida humana para restaurar a única idade perfeita e permanente, tal como a tinha criado. Ele toma para Si a vida humana para que o homem não volte a cair: tinha-o feito terreno e torna-o celeste; tinha-lhe dado uma alma humana e agora comunica-lhe o espírito divino. E assim, eleva o homem à dignidade divina, para que desapareça tudo o que nele havia de pecado, morte, fadiga e sofrimento, tudo o que havia de terreno; pela graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Deus, e vive e reina com o Pai, na unidade do Espírito Santo, agora e sempre e pelos séculos dos séculos.
Nota editorial: Reuniram-se passagens complementares e versões equivalentes. Corrigiu-se a referência ao Sermão 50 que acompanhava uma das versões: o texto pertence ao Sermão 148.
O amor deseja contemplar a Deus
São Pedro Crisólogo — Sermão 147, sobre o mistério da Encarnação; tradução da coleção Icthus, vol. 8, p. 114, e variantes.
Quando viu o mundo transtornado pelo medo, Deus pôs em ação o seu amor para o chamar a Si, a sua graça para o convidar, o seu afeto para o abraçar. Aquando do dilúvio, […] chamou Noé a gerar um mundo novo, encorajou-o com suaves palavras, deu-lhe uma confiança de predileto, instruiu-o com bondade sobre o presente e consolou-o com a sua graça relativamente ao futuro. […] Participou no seu labor e encerrou na arca o germe do mundo inteiro, a fim de que o amor pela sua aliança banisse o medo. […]
Em seguida, Deus chamou Abraão do meio das nações, elevou o seu nome e fez dele pai dos crentes. Acompanhou-o pelo caminho, protegeu-o no estrangeiro, cumulou-o de riquezas, honrou-o com vitórias, confirmou-o com as suas promessas, arrancou-o às injustiças, consolou-o na sua hospitalidade e maravilhou-o com um nascimento inesperado, a fim de que, atraído pela doçura do amor divino, ele aprendesse a […] adorar a Deus amando-O e já não temendo-O.
Mais tarde, por meio de um sonho, Deus consolou Jacob, que se encontrava em fuga. No regresso, provocou-o para um combate e, durante a luta, estreitou-o nos seus braços, a fim de que ele amasse o pai dos combates e deixasse de O temer. Depois, chamou Moisés e falou-lhe com amor de pai, para o convidar a libertar o seu povo.
Em todos estes acontecimentos, a chama da caridade divina abrasou o coração dos homens […] e estes, de alma ferida, começaram a desejar ver a Deus com os olhos da carne. […]
Como é que o homem, com o seu olhar tão limitado, pode abranger o Deus que o mundo não pode abarcar? O amor não se incomoda de saber se uma coisa é adequada, conveniente ou possível. O amor […] ignora a medida. Não se consola com o pretexto de que é impossível; a dificuldade não o detém […]. O amor não consegue deixar de ver quem ama. […] Como acreditar que se é amado por Deus sem O contemplar? Assim, o amor que deseja ver Deus, mesmo que não seja racional, é inspirado pela intuição do coração. Foi por isso que Moisés ousou dizer: «Se alcancei graça aos Teus olhos, revela-me as Tuas intenções» (Ex 33, 13ss.), e o salmista: «Mostra-nos o Teu rosto» (cf. 79, 4). […]
Não era por isso que os pagãos construíam ídolos? No seio do próprio erro, eles viam com os olhos o que adoravam.
Por conseguinte, conhecendo o desejo que os homens têm de O ver, Deus escolheu, para Se tornar visível, um meio que beneficiasse todos os habitantes da terra, sem com isso prejudicar o céu. Pode a criatura que Deus fez semelhante a Ele neste mundo ser considerada pouco digna no céu?: «Façamos o ser humano à Nossa imagem, à Nossa semelhança» disse Deus (Gn 1, 26). […] Se Deus tivesse retirado do céu a forma de um anjo, ter-Se-ia mantido invisível; se, em contrapartida, tivesse encarnado na terra numa natureza inferior à do homem, teria ofendido a divindade e teria rebaixado o homem, em vez de o elevar. Portanto, que ninguém, irmãos muito caros, considere uma ofensa a Deus o facto de Ele ter vindo aos homens como homem, e de ter encontrado este meio para ser visto por nós.
Nota editorial: Os excertos sobre a história da salvação, o desejo de ver Deus e a Encarnação foram reunidos sem repetir a conclusão comum.
Maria, Virgem Mãe, e a Igreja desposada por Cristo
São Pedro Crisólogo — Sermão 146, sobre Mt 1,18; PL 52, 591; coleção Icthus, vol. 12, p. 295.
«Maria, Sua mãe, estava noiva.» Teria sido suficiente dizer: Maria estava noiva. Que significa uma mãe noiva? Se é mãe, não está noiva; se está noiva, ainda não foi mãe. «Maria, Sua mãe, estava noiva»: noiva pela virgindade, Mãe pela fecundidade. Era uma Mãe que não conhecera homem e que, no entanto, conheceu a maternidade. Como não seria mãe antes de ter concebido, Ela que, após o nascimento, é virgem e mãe? Quando é que não foi mãe aquela que gerou o fundador dos tempos, Aquele que deu um começo às coisas? […]
Porque se destina o mistério da inocência celeste a uma noiva e não a uma virgem ainda livre? Porque tem o ciúme de um noivo de pôr a noiva em perigo? Porque será que tanta virtude parece pecado e a salvação eterna um risco? […] Que mistério se encontra aqui, meus irmãos? Não há um traço, uma letra, uma sílaba, uma personagem do Evangelho que esteja vazio de sentido divino. É escolhida uma noiva para ser já designada a Igreja, noiva de Cristo, segundo as palavras do profeta Oseias: «Então te desposarei conforme a justiça e o direito, com misericórdia e amor. Desposar-te-ei com fidelidade» (2, 21-22). É por isso que João diz: «Aquele que tem a esposa é o Esposo» (Jo 3,29). E São Paulo: «Por vos ter desposado com um único esposo, como virgem pura oferecida a Cristo» (2Cor 11, 2). Oh verdadeira esposa, a Igreja, que pelo nascimento virginal [do baptismo], gera uma nova infância de Cristo!
O Reino e a Igreja
O grão de mostarda e a árvore do Reino
São Pedro Crisólogo — Sermão 98, 1–2 e excertos seguintes; CCL 24A, 602.
Irmãos, ouvistes que o Reino dos céus, em toda a sua grandeza, é parecido a um grão de mostarda. […] É apenas isto que os crentes esperam? É isto que os fiéis aguardam? […] É isto «o que o olho não viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais veio ao coração do homem»? É isto que o apóstolo Paulo promete, e que está reservado no mistério inexprimível da salvação àqueles que amam? (1Cor 2,9) Não nos deixemos desconcertar pelas palavras do Senhor. Se, de fato, «a fraqueza de Deus é mais forte do que o homem, e a loucura de Deus é mais sábia do que o homem» (1 Cor 1,25), essa pequena coisa que é o bem de Deus é mais esplêndida do que a imensidão do mundo.
Possamos nós semear no nosso coração esta semente de mostarda, de modo que ela venha a ser a grande árvore do conhecimento (Gn 2,9), elevando-se em toda a sua altura para elevar os nossos pensamentos para o céu, e desenvolvendo todos os ramos da inteligência. […]
Cristo é o Reino. Como se fosse um grão de mostarda, Ele foi lançado num jardim, o corpo da Virgem. Cresceu e tornou-Se a árvore da cruz que cobre a terra inteira. Depois de ter sido esmagado pela Paixão, o Seu fruto produziu sabor suficiente para dar o Seu bom gosto e o Seu aroma a todos os seres vivos que n’Ele tocam. Pois, enquanto a semente de mostarda está intacta, as suas virtudes permanecem ocultas, mas desenvolvem toda a sua pujança quando a semente é esmagada. Da mesma forma, Cristo quis que o Seu corpo fosse esmagado para que a sua força não ficasse oculta. […] Cristo é Rei, porque é a fonte de toda a autoridade. Cristo é o Reino, pois n’Ele está toda a glória do Seu reino.
E Cristo é Homem, pois todo o homem é renovado nele. Cristo é o grão de mostarda, o instrumento de que Deus Se serve para fazer descer toda a sua grandeza à pequenez do homem. Ele fez-Se todas as coisas, para renovar todos os homens nele. Enquanto Homem, Cristo recebeu o grão de mostarda que é o Reino de Deus […]; enquanto Deus, possuía-o desde sempre e deitou a semente à terra no seu jardim. […]
O jardim é esta terra cultivada que se estendeu por todo o mundo, lavrada pela charrua da Boa Nova, encerrada pelos limites da sabedoria, de onde os apóstolos penaram para arrancar todas as ervas daninhas. Dá gosto contemplar os rebentos que são os crentes, os lírios que são as virgens e as rosas que são os mártires: flores que dão constantemente o seu perfume.
Cristo semeou, pois, o grão de mostarda no seu jardim. A semente criou raízes quando Ele prometeu o seu Reino aos patriarcas, germinou com os profetas, cresceu com os apóstolos e tornou-se a árvore imensa que estende os seus longos ramos sobre a Igreja, e lhe prodiga os seus dons. […] Toma as asas de prata da pomba de que fala o profeta (Sl 67,14). […] Levanta voo para usufruir de um repouso sem fim, fora do alcance dos laços (Sl 90,3), por entre folhagens magníficas. Sê suficientemente forte para levantar voo, e habita em segurança nesta vasta morada.
Nota editorial: Três versões foram cotejadas. A abertura sobre o grão semeado no corpo da Virgem aparece uma única vez.
O homem e a mulher, Cristo e a Igreja
São Pedro Crisólogo — Sermão 99; PL 52, 477.
«Nem a mulher é separável do homem, nem o homem da mulher, diante do Senhor», diz o apóstolo Paulo (1Cor 11,11) […]. O homem e a mulher caminham juntos para o Reino. Sem os separar, Cristo chama simultaneamente o homem e a mulher, que Deus uniu e que a natureza liga, dando-lhes a partilhar os mesmos gestos e as mesmas tarefas, num acordo admirável. Pelo laço do casamento, Deus faz que dois seres sejam um apenas e que um seja dois, de maneira que cada um descubra um outro eu, que não perde a sua singularidade nem se confunde no casal.
Mas por que razão, nas imagens que nos dá do seu Reino, Deus faz que intervenham desta maneira a mulher e o homem? (cf Lc 13,18.21). Porque nos sugere tanta grandeza servindo-Se de exemplos que podem afigurar-se-nos fracos e desproporcionados? Irmãos, um precioso mistério se esconde sob esta pobreza. Nas palavras do apóstolo Paulo: «Grande é este mistério: […] mas eu interpreto-o em relação a Cristo e à Igreja» (Ef 5,32).
Tais parábolas evocam o maior projeto da humanidade: o homem e a mulher puseram fim ao processo do mundo, processo que durava há séculos. Adão, o primeiro homem, e Eva, a primeira mulher, são conduzidos, da árvore do conhecimento do bem e do mal, ao fogo […] do Evangelho […]. Suas bocas, doentes com o fruto da árvore envenenada, sararão com o sabor caloroso da árvore da salvação; árvore com sabor a fogo, que inflama a consciência gelada pela árvore de outrora. Agora, a nudez perde efeito, já não causa vergonha: o homem e a mulher estão completamente cobertos de perdão.
Maria e o fermento da vida
São Pedro Crisólogo — Sermão 99.
Eva recebera do demônio o fermento da má fé; aquela mulher recebe de Deus o fermento da fé. […] Eva, pelo fermento da morte, corrompera, na pessoa de Adão, toda a massa do gênero humano; outra mulher renovará, na pessoa de Cristo, pelo fermento da ressurreição, toda a massa humana. Depois de Eva, que amassou o pão dos gemidos e do suor (Gn, 3,19), esta cozerá o pão da vida e da salvação. Depois daquela que foi, em Adão, a mãe de todos os mortos, esta será, em Cristo, a «verdadeira mãe de todos os vivos» (Gn, 3,20). Pois se Cristo quis nascer, foi para que nessa humanidade em que Eva semeou a morte, Maria restaurasse a vida. Maria oferece-nos a perfeita imagem desse fermento; e propõe-nos a correspondente parábola quando em seu seio recebe do Céu o fermento do Verbo e o derrama em seu seio virginal sobre a carne humana – que digo eu? Sobre uma carne que, no seu seio virginal, é toda celeste e que ela faz levedar.
Nota editorial: A introdução comum às parábolas do grão e do fermento foi reunida na seleção anterior; preserva-se aqui a aplicação mariana.
O fermento da doutrina celeste
São Pedro Crisólogo — Sermão 99.
Busquemos o sentido profundo desta parábola. A mulher que tomou o fermento é a Igreja; o fermento que ela tomou é a revelação da doutrina celeste; as três medidas em que misturou o fermento são a Lei, os Profetas e os Evangelhos, onde o sentido divino mergulha e se esconde sob termos simbólicos, a fim de ser captado pelo fiel e de escapar ao infiel. As palavras «até ficar tudo levedado» dizem respeito ao que diz o apóstolo Paulo: «Imperfeita é a nossa ciência, imperfeita também a nossa profecia. Quando vier o que é perfeito, desaparecerá o que é imperfeito» (1Cor 13,9). O conhecimento de Deus está agora na massa: espalha-se pelos sentidos, enche os corações, aumenta as inteligências e, como todos os ensinamentos, alarga-os, eleva-os e desenvolve-os até alcançarem as dimensões da sabedoria celeste. Tudo será levedado em breve. Quando? Na segunda vinda de Cristo.
Cristo conduz a barca da Igreja
São Pedro Crisólogo — Sermão 50, 1–3; PL 52, 339–340; tradução De Bouchet, Lectionnaire, p. 324.
Cristo sobe a um barco: não foi Ele quem descobriu o leito do mar depois de ter afastado as águas, para que o povo de Israel passasse a pé enxuto como num vale? (Ex 14, 29) Não foi Ele quem acalmou as ondas do mar sob os pés de Pedro, de forma a que a água fosse para os seus passos um caminho sólido e seguro? (Mt 14, 29). Ele sobe para o barco. Para atravessar o mar deste mundo até ao fim dos tempos, Cristo sobe para o barco da Sua Igreja para conduzir numa travessia pacífica, até à pátria do céu, aqueles que crêem n’Ele, e fazer cidadãos do Reino aqueles com quem comunga na Sua humanidade. Cristo não precisa certamente do barco, mas o barco precisa de Cristo. De fato, sem este piloto vindo do céu, o barco da Igreja, agitado pelas ondas, nunca chegaria ao porto.
Conversão, perdão e misericórdia
Mateus deixa a cobrança e segue o Senhor
São Pedro Crisólogo — Sermão 30.
Sentado no seu posto de cobrança, este infeliz publicano estava numa situação pior que a do paralítico […] que jazia no catre (cf Mc 2,1s). Um fora atingido pela paralisia no corpo, o outro na alma. No caso do primeiro, todos os membros estavam disformes; no caso do segundo, era a capacidade de ajuizar que estava confundida. O primeiro jazia prisioneiro da carne; o outro estava sentado, cativo de alma e corpo. Era contra a sua vontade que o paralítico sucumbia aos sofrimentos; já o publicano era voluntariamente escravo do mal do pecado. Este último, inocente a seus próprios olhos, era acusado de cupidez pelos outros; o primeiro, no meio das suas feridas, sabia-se pecador. Um acumulava lucro sobre lucro, e todos eram pecados; o outro apagava os seus pecados gemendo com dores. Por isso, são justas estas palavras dirigidas ao paralítico: «Meu filho, os teus pecados estão perdoados», porque ele compensava as suas faltas com o seu sofrimento; mas o publicano ouviu dizer: «Segue-Me», isto é: farás reparação pelos teus pecados seguindo-Me, tu que te perdeste seguindo o dinheiro.
Podereis perguntar: porque foi que o publicano, que era aparentemente mais culpado, recebeu um dom maior: tornou-se imediatamente apóstolo […], recebeu o perdão e concedeu a outros a remissão dos seus pecados, e iluminou a Terra com a luz da pregação do Evangelho. Pelo contrário, o paralítico apenas foi julgado digno de receber o perdão. Queres saber porque foi que o publicano recebeu mais graças? Porque, segundo a palavra do apóstolo Paulo, «onde abundou o pecado, superabundou a graça» (Rom 5,20).
À mesa com os pecadores
São Pedro Crisólogo — Sermão 30; PL 52, 285.
«Porque é que o vosso Mestre come com cobradores de impostos e pecadores?» Deus é acusado de se debruçar sobre o homem, de se sentar perto do pecador, de ter fome da sua conversão e sede do seu regresso, de aceitar comer os alimentos da misericórdia e beber a taça da bondade. Mas Cristo, meus irmãos, veio para esta refeição: a Vida veio para junto destes convivas para fazer com que aqueles que iam morrer vivessem com Ele, da mesma vida que Ele. A Ressurreição sentou-se a esta mesa para que aqueles que jaziam na morte se levantassem do túmulo; a Graça curvou-se para levar os pecadores até ao perdão; Deus veio até ao homem para que o homem chegasse até Deus; o juiz veio até à refeição dos culpados para subtrair a humanidade à sentença da condenação; o médico veio a casa dos doentes para lhes restabelecer as forças esgotadas, comendo com eles; o Bom Pastor curvou-Se para levar a ovelha perdida para o redil da salvação (Lc 15,3ss.). […]
«Porque é que o vosso Mestre come com cobradores de impostos e pecadores?» Mas quem é pecador senão aquele que recusa considerar-se pecador? Não será mergulhar no pecado, isto é, identificar-se com o pecado, deixar de reconhecer que se é pecador? E quem é injusto senão aquele que se considera justo? […] Vamos, fariseu, confessa o teu pecado e poderás vir à mesa de Cristo. Por ti, Cristo far-Se-á pão, o pão que será partido para o perdão dos teus pecados. Cristo tornar-Se-á para ti a taça, aquela taça que será derramada para remissão dos teus pecados. Vamos, fariseu, partilha a refeição dos pecadores para que possas tomar a tua refeição com Cristo. Reconhece que és pecador e Cristo comerá contigo. Entra com os pecadores no festim do teu Senhor e poderás deixar de ser pecador. Entra com o perdão de Cristo na casa da misericórdia.
João Batista ensina com palavras e atos
São Pedro Crisólogo — Sermão 167; PL 52, 636; referência a CCL recebida com erro de composição.
João Batista ensina com palavras e atos. Verdadeiro mestre, mostra pelo seu exemplo aquilo que afirma com a sua palavra. O saber faz o mestre, mas é a conduta que confere autoridade. […] Ensinar pelos atos é a única regra daquele que quer instruir. A instrução pelas palavras é sabedoria; mas quando passa pelos atos é virtude. Por conseguinte, a sabedoria é autêntica quando unida à virtude: só então é divina e não humana. […]
«Naqueles dias, apareceu João, o Batista, a pregar no deserto da Judéia. Dizia: ‘Convertei-vos, porque está próximo o Reino do Céu’» (Mt 3,1-2). «Convertei-vos.» Porque não diz: «Rejubilai»? «Rejubilai antes porque as realidades humanas dão lugar às realidades divinas, as terrestres às celestiais, as temporais às eternas, o mal ao bem, a incerteza à segurança, a tristeza à felicidade, as realidades perecíveis às que permanecerão para sempre. O Reino dos céus está muito próximo. Convertei-vos.» Que a tua conduta de convertido seja evidente. Tu que preferiste o humano ao divino, que quiseste ser escravo do mundo em vez de vencedor do mundo com o Senhor do mundo, converte-te. Tu que fugiste da liberdade que as virtudes conferem porque quiseste sofrer o jugo do pecado, converte-te; converte-te verdadeiramente, tu que, por medo de possuir a Vida, te entregaste à morte.
«João Baptista proclamava: ‘Arrependei-vos porque está próximo o reino dos céus’» (Mt 3,1). […] Bem-aventurado João, que quis que a conversão precedesse o julgamento, que os pecadores não fossem julgados mas recompensados, que os ímpios entrassem no Reino e não na punição. […] Quando proclamou João esta iminência do reino dos Céus ? O mundo estava ainda na sua infância […]; mas para nós, que hoje proclamamos essa iminência, o mundo está extremamente velho e cansado. Perdeu as forças, perde as faculdades; os sofrimentos acabrunham-no […]; clama o seu enfraquecimento, ostenta todos os sintomas do fim. […]
Estamos a ir a reboque de um mundo que se evade; esquecemos os tempos que aí vêm. Estamos ávidos de atualidade, mas não temos em consideração o julgamento que se aproxima. Não acorremos ao encontro do Senhor que chega. […]
Convertamo-nos, irmãos, convertamo-nos depressa. […] O Senhor, pelo fato de tardar, de ainda esperar, revela o Seu desejo de nos ver voltar para Ele, o desejo de que não pereçamos. Na Sua grande bondade, dirige-nos sempre estas palavras: «Não tenho prazer na morte do ímpio, mas sim na sua conversão, de maneira que ele tenha a vida» (Ez 33,11). Convertamo-nos, irmãos; não tenhamos medo de o tempo estar a acabar. O tempo do Autor do tempo não pode ser encurtado. A prova disso é aquele malfeitor do Evangelho que, na cruz e na hora da sua morte, escamoteou o perdão, se apoderou da vida e, ladrão do paraíso com arrombamento, conseguiu penetrar no Reino (Lc 23,43).
Nota editorial: A versão mais extensa reúne os dois excertos; a variante equivalente não foi repetida.
Regressar ao Pai sem desespero
São Pedro Crisólogo — Homilia sobre o perdão, 2–3; tradução do Breviário e variante do acervo.
Se a conduta deste jovem nos desagrada, aquilo que nos causa horror é a sua partida; por nós, não nos afastemos nunca de um pai destes! Pois a simples visão do pai faz fugir os pecados, expulsa o erro, exclui qualquer má conduta e qualquer tentação. Mas, no caso de termos partido, de termos esbanjado toda a herança do pai numa vida desregrada, de nos ter acontecido cometer erros ou más ações, de termos caído no abismo da blasfêmia, levantemo-nos e regressemos para junto deste pai que é tão bom, convidados por exemplo tão belo.
«Ainda ele estava longe, quando o pai o viu: enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos.» Pergunto-vos: haverá lugar para o desespero? Haverá pretexto para desculpas? Falsas razões para receios? Só for o receio do encontro com o pai, dos seus beijos e dos seus abraços; só se julgarmos que o pai deseja tomar para recuperar, em lugar de receber para perdoar, quando pega no filho pela mão, o toma nos abraços e o aperta contra o coração. Mas este pensamento, que esmaga a vida, que se opõe à nossa salvação, é amplamente vencido, amplamente aniquilado pelo seguinte: «Mas o pai disse aos servos: “Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejemos, porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado.”» Depois de termos ouvido isto, poderemos ainda demorar-nos? Que esperamos para regressar para junto do nosso Pai?
A túnica, o anel e a festa do regresso
São Pedro Crisólogo — Sermão sobre o filho pródigo; PL 52, 197; Année en fête, Migne, 2000, p. 243. A numeração não estava legível na fonte recebida.
O filho regressa a casa do pai e exclama : «Pai, pequei contra o céu e contra ti, já não mereço ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus assalariados.» […] Mas o pai acorreu, e acorreu de longe. «Quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós» (Rom 5, 8). O Pai acorreu […] na pessoa do Filho, quando por Ele desceu do céu à terra. «O Pai que me enviou está Comigo», diz Ele no evangelho (Jo 16, 32). E lançou-se-lhe ao pescoço: lançou-Se a nós quando, por Cristo, toda a Sua divindade desceu do céu e Se instalou na nossa carne. E cobriu-o de beijos. Quando? Quando «se encontraram a compaixão e a verdade, se abraçaram a justiça e a paz» (Sl 84, 11).
Mandou trazer-lhe a melhor túnica, a túnica que Adão tinha perdido, a glória eterna da imortalidade. Pôs-lhe um anel no dedo: o anel da honra, o título de liberdade, o especial penhor do espírito, o sinal da fé, a caução das núpcias celestes. Ouve o que diz o apóstolo Paulo: «Desposei-vos com um único esposo, como virgem pura oferecida a Cristo» (2Cor 11, 2). E calçou-lhe umas sandálias: para termos os pés calçados quando anunciamos a boa nova do evangelho, a fim de que sejam «os pés daqueles que anunciam a boa nova da paz» (Is 52, 7; Rom 10, 15).
Por ele mandou matar o vitelo gordo. […] O vitelo foi morto por ordem do pai porque Cristo, o Filho de Deus, não podia ser morto contra a vontade do Pai. Ouve novamente o apóstolo Paulo: «Ele não poupou o Seu próprio Filho, mas O entregou por todos nós» (Rom 8, 32).
O Pastor procura uma ovelha para salvar a todas
São Pedro Crisólogo — Sobre a ovelha perdida; Sermão 168, excertos; a segunda passagem é identificada como §§ 4–6 no acervo.
O fato de encontrarmos um objeto que tínhamos perdido enche-nos de uma alegria nova cada vez que ocorre. E esta alegria é maior do que a que experimentávamos, antes de o perder, quando aquele objeto estava bem guardado. Mas a parábola da ovelha perdida fala mais da ternura de Deus do que da maneira como os homens habitualmente se comportam. E exprime uma verdade profunda: abandonar o que tem importância por amor do que há de mais humilde é próprio do poder divino, não da cobiça humana. Porque Deus faz existir o que não é; Ele parte à procura do que está perdido guardando o que deixou ficar para trás, e encontra o que se tinha transviado sem perder o que está à sua guarda.
É por isso que este pastor não é da Terra, mas do Céu. A parábola não é de forma alguma uma representação de obras humanas, mas esconde mistérios divinos, como é demonstrado cabalmente pelos números que menciona: «Quem de vós, que possua cem ovelhas e tenha perdido uma delas…» Como vedes, a perda de uma só ovelha magoou tanto o pastor como se o rebanho inteiro, privado da sua proteção, se tivesse metido por um caminho errado. É por isso que, deixando as outras noventa e nove, ele parte à procura de uma só, […] a fim de, nela, as encontrar e as salvar a todas.
Este homem que possui cem ovelhas é o Bom Pastor (Jo 10,11), Cristo, que havia estabelecido todo o rebanho da raça humana numa só ovelha, isto é, em Adão, a quem colocara num Paraíso de delícias, numa região de pastagens vivificantes. Mas essa ovelha, confiando nos uivos de lobos, esqueceu a voz do Pastor e, perdendo-se no caminho que conduz ao redil da salvação, achou-se toda coberta de feridas mortais. Cristo veio a este mundo procurar a ovelha perdida e recuperou-a no seio da Virgem. Ele, que veio até nós nascido da carne, colocou-a depois sobre a cruz e levou-a aos ombros da Sua Paixão. Então, cheio da alegria da Ressurreição, ergueu-a, na Sua Ascensão, até às moradas do Céu.
Ele convoca os amigos e vizinhos, isto é, os Anjos, e diz-lhes: Alegrai-vos Comigo, porque encontrei a Minha ovelha perdida, e os Seus Anjos rejubilam e exultam com Cristo por causa do regresso da ovelha do Senhor. Não se irritam por vê-la sentar-se diante deles no trono de majestade, dado que a inveja não existe no Céu, de onde foi banida com o diabo, e esse pecado não poderá jamais lá reentrar graças ao Cordeiro que tira o pecado do mundo (Jo 1,29).
Irmãos, assim nos veio Cristo procurar à Terra. Procuremo-Lo no Céu. Assim nos levou Ele até à glória da Sua divindade. Levemo-Lo no nosso corpo com a santidade de toda a nossa vida.
Nota editorial: Reuniram-se dois excertos complementares. A legenda moderna da imagem foi retirada do corpo patrístico.
Oração, jejum e partilha
A ternura do Pai e o pão dos filhos
São Pedro Crisólogo — Sermão 55; PL 52, 352–354; tradução de En Calcat.
Se Deus quis que fosses pai […], foi para que, dando também a vida, soubesses o que é a ternura paternal, de modo a experimentares em ti o amor do Teu criador na medida em que podes sentir em ti mesmo afeição para com teus próprios filhos. […] Se, por conseguinte, crês em Deus, e confessas que é Pai, então crê que tudo quanto ordena, tudo quanto escolhe a teu respeito, é para tua salvação, é vida para ti. Não se podem anular os dons de uma mãe, não se podem recusar as advertências de um pai; ainda que as ordens paternas pareçam austeras, são na realidade salvadoras e vivificantes.
Assim, quando compreendeu que Deus era Pai, Abraão não se deteve na aparente dureza e aspereza dos mandamentos; mas glorificou o que o Pai dos céus ordenou […]; logo que Deus ordena, ele entrega-se inteiramente ao Seu amor. […] Quando se conhece Deus, para quê contestar os Seus dons de Pai, em vez de os acolher como coisas boas e vantajosas, tal como o pequeno e o inocente espera tudo de seu pai?
Examinai mais de perto a comparação que o Senhor emprega no Seu Evangelho: «Qual de vós, se o seu filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra?» Cristo veio para os filhos, ou seja, para o Seu povo eleito, mesmo que tenha tido pena de o ter gerado e tenha gritado: «Criei filhos e fi-los crescer mas eles revoltaram-se contra Mim» (Is 1, 2); por conseguinte, veio para os filhos, Ele, o verdadeiro pão do céu que dizia: «Eu sou o pão que desceu do céu» (Jo 6, 41).
Oração, jejum e misericórdia: uma só vida
São Pedro Crisólogo — Sermão 43; PL 52, 320–322; tradução do Breviário e variantes.
Há três atos, meus irmãos, em que a fé se sustenta, a piedade consiste e a virtude se mantém: a oração, o jejum e a misericórdia. A oração bate à porta, o jejum obtém, a misericórdia recebe. Oração, misericórdia e jejum são uma só coisa, dando-se mutuamente a vida. Com efeito, o jejum é a alma da oração e a misericórdia é a vida do jejum. Que ninguém os divida, pois não podem ser separados. Quem pratica apenas um ou dois deles, esse nada tem. Assim, pois, aquele que reza tem de jejuar, e aquele que jejua tem de ter piedade, escutando o homem que pede e que, ao pedir, deseja ser escutado. Pois aquele que não se recusa a ouvir os outros quando lhe pedem alguma coisa, esse faz-se ouvir por Deus.
Aquele que pratica o jejum tem de compreender o jejum; isto é, tem de ter compaixão do homem que tem fome, se quer que Deus tenha compaixão da sua própria fome. Aquele que espera obter misericórdia tem de ter misericórdia; aquele que quer beneficiar da bondade tem de praticá-la; aquele que quer que lhe deem tem de dar. […] Sê pois a norma da misericórdia a teu respeito: se queres que tenham misericórdia de ti de certa maneira, em certa medida, com tal prontidão, sê tu misericordioso com os outros com a mesma prontidão, a mesma medida e da mesma maneira.
A oração, a misericórdia e o jejum devem, pois, constituir uma unidade, para nos recomendarem diante de Deus; devem ser a nossa defesa, pois são uma oração a nosso favor com este triplo formato.
O que perdemos pela desatenção, devemos conquistá-lo pelo jejum; imolemos as nossas vidas pelo jejum, porque não há nada mais importante que possamos oferecer a Deus, como prova o profeta quando diz: «O sacrifício que agrada a Deus é um espírito contrito; Deus não desprezará um espírito humilhado e contrito» (Sl 50, 19). Oferece pois a tua vida a Deus, oferece a oblação do jejum para que tenhas aí uma oferta pura, um sacrifício santo, uma vítima viva que inste em teu favor. […]
Mas, para que estes dons sejam agradáveis, é preciso que venha em seguida a misericórdia. O jejum não dá fruto se não for regado pela misericórdia; o jejum torna-se menos árido pela misericórdia; o que a chuva é para a terra, é a misericórdia para o jejum. Quem jejua pode cultivar o coração, purificar a carne, arrancar os vícios, semear as virtudes; mas, se não verter ondas da misericórdia, não recolhe frutos.
Ó tu que jejuas, o teu campo jejuará também se for privado da misericórdia; ó tu que jejuas, o que espalhas pela tua misericórdia refletir-se-á na tua granja. Para não desperdiçares pela avareza, recolhe pela generosidade. Dando ao pobre, dás a ti próprio; porque aquilo que não entregas a outrem, não o terás.
Nota editorial: Três versões foram reunidas. A exortação à compaixão pelo faminto não foi duplicada; o sacrifício e o fruto da misericórdia foram preservados.
A misericórdia alimenta o jejum
São Pedro Crisólogo — Sermão 8; CCL 24, 59; PL 52, 208.
Meus irmãos, começamos hoje a grande viagem da Quaresma. Levemos, pois, no navio todas as nossas provisões de alimento e bebida, colocando sobre elas a misericórdia abundante de que teremos necessidade. Porque o nosso jejum terá fome, o nosso jejum terá sede se não se alimentar de bondade, se não se dessedentar com misericórdia. O nosso jejum terá frio, o nosso jejum desfalecerá se o velo da esmola não o cobrir, se a capa da compaixão não o envolver.
Irmãos, a misericórdia está para o jejum como a primavera está para os solos: a suave brisa primaveril faz florescer os rebentos nas planícies; a misericórdia do jejum faz brotar as nossas sementes até à floração, fá-las encherem-se de frutos até à colheita celeste. A bondade está para o jejum como o óleo está para o candeeiro: tal como a matéria gorda do óleo alimenta a luz do candeeiro, e com tão pouco alimento o faz brilhar para o conforto de toda a noite, assim a bondade faz o jejum resplandecer, emitindo raios até atingir o brilho pleno da continência. A esmola está para o jejum como o sol está para o dia: o esplendor do sol aumenta o brilho do dia, dissipa a obscuridade das nuvens; a esmola que acompanha o jejum santifica a santidade do mesmo jejum e, graças à luz da bondade, remove dos nossos desejos tudo o que poderia ser mortífero. Em suma, a generosidade está para o jejum como o corpo está para a alma: quando a alma se retira do corpo, traz-lhe a morte; se a generosidade se afastar do jejum, é a morte deste.
A esmola e a fuga da hipocrisia
São Pedro Crisólogo — Sermão 9; CCL 24, 64; PL 52, 211; S. Mateus comentado, DDB, 1985, p. 50.
«Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens.» Por quê? «Para não vos tornardes notados por eles.» E se eles vos notarem, que implicações tem isso para vós? «Não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está no Céu.» Irmãos, aqui o Senhor não julga, mas expõe. Ele traz à luz a astúcia dos nossos pensamentos; Ele põe a nu as disposições secretas das almas. Àqueles que meditam injustamente sobre a justiça, Ele indica a medida de uma retribuição justa. A justiça que se coloca perante os olhos dos homens não pode esperar do Pai o seu salário divino. Quis ser vista e foi vista; quis agradar aos homens e agradou. Tem o salário que pretendia; a recompensa que não quis ter, não a terá. […]
«Quando deres esmola, não permitas que toquem trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas.» «Tocar trombeta» é o termo adequado porque uma esmola deste tipo é mais propriamente um acto guerreiro do que pacífico. Toda ela está no seu alarde, não tem nada a ver com a misericórdia. Ela pertence ao país da desunião, ela não foi alimentada pela bondade. É um tráfico para a ostentação e não um negócio casto. […] «Quando, pois, deres esmola, não permitas que toquem trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas a fim de serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa.» Percebei: a esmola dada numa assembléia, em locais públicos, em reuniões, não é um dispêndio para aliviar os pobres, mas é posta diante do olhar dos homens para obter a sua estima. […] Fujamos da hipocrisia, meus irmãos, fujamos dela. […] Ela não ajuda o pobre; o queixume do indigente não passa de um pretexto para ele procurar mais ativamente uma glória aparatosa. Ela aumenta a sua exaltação com o sofrimento do pobre.
O Esposo e o vinho novo
São Pedro Crisólogo — Sermão 31, sobre o jejum; PL 52, 287 e seguintes.
«Porque é que nós e os fariseus jejuamos e os Teus discípulos não jejuam?» Por quê? Porque, para vós, o jejum pertence à lei e não é um dom espontâneo. O jejum em si mesmo não tem valor, o que conta é o desejo de quem jejua. Que proveito pensais ganhar jejuando contrariados e forçados? O jejum é um arado maravilhoso para lavrar o campo da santidade: converte os corações, desenraiza o mal, arranca o pecado, enterra o vício, semeia a caridade; mantém a fecundidade e prepara a colheita da inocência. Os discípulos de Cristo estão colocados no coração do campo maduro da santidade: recolhem molhos de virtudes e gozam do Pão da nova colheita; por conseguinte, não podem praticar jejuns doravante ultrapassados. […]
«Porque é que os Teus discípulos não jejuam?» O Senhor responde-lhes: «Porventura podem os convidados para as núpcias estar tristes, enquanto o esposo está com eles?» Aquele que toma mulher põe o jejum de lado, abandona a austeridade; entrega-se totalmente à alegria, participa nos banquetes; mostra-se em tudo afetuoso, delicado e alegre; faz tudo o que a sua afeição pela esposa lhe inspira. Cristo celebrava as Suas núpcias com a Igreja: por isso, tomava parte nas refeições, não recusava convites; cheio de benevolência e de amor, mostrava-Se humano, acessível, amável. É que Ele desejava unir o homem a Deus, e fazer dos Seus companheiros membros da família divina.
Do mesmo modo, diz Jesus: «Ninguém deita remendo de pano novo em roupa velha». Esse pano novo é o tecido do Evangelho, que está em vias de ser entretecido com a lã do Cordeiro de Deus: uma veste real que o sangue da Paixão irá em breve tingir de vermelho. Como aceitaria Cristo unir esse pano novo com a vetustez do legalismo de Israel? […] Assim como «ninguém deita vinho novo em odres velhos; se o fizer, o vinho romperá os odres e perde-se o vinho, tal como os odres. Mas vinho novo, em odres novos.» Esses odres novos são os cristãos. O jejum de Cristo é que purificará esses odres de toda a sujidade, para que fique intacto o sabor do vinho novo. O cristão torna-se assim o odre novo, pronto a receber o vinho novo, o vinho das bodas do Filho, pisado na prensa da cruz.
Nota editorial: O cotejo do latim identifica o Sermão 31, sobre Mt 9,14–17. A indicação «sobre Marcos 2» designava a passagem paralela. Corrigiu-se «jejuns doravante prescritos», que invertia o sentido de jejuns antigos ultrapassados.
Abraão, servidor dos pobres e dos estrangeiros
São Pedro Crisólogo — Sermão 122, sobre o rico e Lázaro.
«Abraão era muito rico», diz-nos a Escritura (Gn 13,2). […] Abraão, meus irmãos, não era rico devido a si próprio, mas devido aos pobres; pois em vez de guardar a sua fortuna, partilhava-a. […] Este homem, ele próprio estrangeiro, não cessou de tudo fazer para que os estrangeiros deixassem de se sentir estrangeiros. Vivendo numa tenda, não podia suportar que alguém passasse sem abrigo. Perpétuo viajante, acolhia todos os hóspedes que apareciam. […] Em vez de repousar na generosidade de Deus, sabia-se chamado a reparti-la: usava-a para defender os oprimidos, para libertar os prisioneiros, para arrancar ao seu destino homens que estavam para morrer (Gn 14,14). […] Na presença do estrangeiro que recebe (Gn 18,1s), Abraão não se senta, permanece de pé. Não é conviva do seu hóspede, faz-se seu servidor; esquece que em sua casa é ele o senhor, traz ele próprio os alimentos e, preocupado com uma preparação cuidada, pede ajuda à mulher. Quando é para si, deixa-se tratar pelos empregados, mas confia o estrangeiro que recebe à sabedoria da esposa.
Que direi ainda, meus irmãos? É uma delicadeza tão perfeita… que atraiu o próprio Deus para a casa de Abraão, que O forçou a ser seu hóspede. Assim veio a Abraão, repouso dos pobres, refúgio dos estrangeiros, Aquele que, mais tarde, haveria de dizer-Se acolhido na pessoa do pobre e do estrangeiro: «Tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; fui estrangeiro e recebestes-Me» (Mt 25,35).
E lemos ainda no Evangelho: «O pobre morreu e foi colocado pelos Anjos ao lado de Abraão». É natural, meus irmãos, que Abraão até no seu repouso acolha todos os santos, e até na sua beatitude se ocupe do seu serviço de hospitalidade. […] Pois não se sentiria plenamente feliz se, mesmo na glória, não continuasse a exercer o seu ministério de partilha.
Oferecer a própria vida como sacrifício
São Pedro Crisólogo — Sermão 108; PL 52, 499.
«Rogo-vos, pois, irmãos, pela misericórdia de Deus, que ofereçais o vosso corpo como hóstia viva, santa e agradável a Deus» (Rom 12,1). Com este pedido, o apóstolo Paulo ensina todos os homens a participarem no sacerdócio. […] Não é no exterior que o homem procura aquilo que vai oferecer a Deus; ele traz consigo e em si o que vai sacrificar a Deus, para seu próprio bem. […] «Rogo-vos pela misericórdia de Deus»: irmãos, este sacrifício é à imagem de Cristo, que imolou o seu corpo e ofereceu a sua vida pela vida do mundo. Na verdade, Ele fez do seu corpo um sacrifício vivo, Ele que vive, após ter sido morto. Nesse sacrifício tão grande, a morte é aniquilada, conquistada pelo sacrifício. […] É por isso que os mártires nascem no momento da sua morte, a sua vida começa quando termina: eles vivem quando são mortos e brilham no Céu quando na Terra se pensa que morreram. […]
«Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas abriste-me os ouvidos; não te agradaram holocaustos nem vítimas» (Sl 39,7). Sê simultaneamente o sacrifício oferecido e aquele que o oferece a Deus. Não percas aquilo que o poder de Deus te ofereceu. Veste o manto da santidade. Toma o cinto de castidade. Que Cristo seja o véu da tua cabeça; a cruz, a proteção da tua testa, que te faz perseverar. Conserva no teu coração o sacramento das Escrituras divinas. Que a tua oração arda sempre como incenso agradável a Deus. Toma «a espada do Espírito» (Ef 6,17); que o teu coração seja o altar onde poderás, sem temor, oferecer toda a tua pessoa e toda a tua vida. […]
Oferece a tua fé para punir a descrença; oferece o teu jejum para pôr fim à voracidade; oferece a tua castidade para que a sensualidade morra; sê fervoroso para que a maleficência acabe; faz obras de misericórdia para pôr fim à avareza; e, para suprimir a futilidade, oferece a tua santidade. Deste modo, a tua vida tornar-se-á uma oferenda, se não tiver sido ferida pelo pecado. O teu corpo vive sempre que, fazendo o mal morrer em ti, ofereces a Deus virtudes vivas.
Cristo, Senhor da vida
A fé dos outros e a cura do paralítico
São Pedro Crisólogo — Sermão 50; PL 52, 339; Matthieu commenté, DDB, 1985, p. 72.
Chegou à sua cidade e eis que Lhe apresentaram um paralítico deitado numa enxerga; Jesus, diz o evangelho, vendo a fé daquela gente, disse ao paralítico: «Filho, tem confiança, os teus pecados estão perdoados». O paralítico ouve-O e cala-se; não Lhe agradece. Preferia a cura do corpo à da alma; lamentava os males passageiros do seu corpo doente, mas os males da sua alma, que estava mais doente ainda que o corpo, esses não os chorava. Pois considerava a vida presente mais preciosa do que a vida futura.
Felizmente para ele, Cristo deu apreço à fé dos que Lhe apresentavam o doente e não prestou atenção à estultícia deste. Em resposta à fé dos outros, a alma do paralítico seria curada antes do seu corpo. «Ao ver a fé daquela gente», diz o evangelho. Notai, irmãos, que Deus não Se preocupa com o que querem os homens insensatos, não espera encontrar fé nos ignorantes, não analisa os desejos tolos de um enfermo. Pelo contrário, não Se recusa a ir em socorro da fé dos outros. Esta fé é um presente da graça e articula-se com a vontade de Deus.
Na Sua divina bondade, este médico que é Cristo tenta chamar à salvação aqueles que, contra a sua própria vontade, sofrem as doenças da alma, aqueles a quem o peso dos pecados e das faltas esmaga até ao delírio. Mas que não desejam ser salvos.
Ó meus irmãos, se quiséssemos, se todos quiséssemos ver até ao fundo a paralisia da nossa alma! Observaríamos que, privada das suas forças, ela jaz numa cama de pecados. A acção de Cristo em nós seria fonte de luz. Compreenderíamos que Ele observa em cada dia a nossa falta de fé tão prejudicial, nos arrasta para uma cura benigna e esmaga de imediato a nossa vontade rebelde. «Meu filho, diz Ele, os teus pecados estão perdoados.»
Nota editorial: As duas seleções sobrepostas foram reunidas, conservando a aplicação à paralisia da alma.
Quem perdoa os pecados revela a sua divindade
São Pedro Crisólogo — Sermão 50; PL 52, 339.
«Filho, os teus pecados estão perdoados.» Com estas palavras queria Cristo ser reconhecido como Deus, enquanto Se escondia ainda, porém, dos olhos humanos sob o aspecto de um homem. Por causa das manifestações do Seu poder e dos milagres que realizava, comparavam-n’O aos profetas; e, no entanto, era graças a Ele e ao Seu poder que também estes tinham realizado milagres. Não está no poder do homem perdoar os pecados; isto é a marca própria de Deus. Começava Jesus, assim, a revelar a Sua natureza divina ao coração dos homens – o que faz que os Fariseus fiquem loucos de raiva. Retorquem: «Blasfema! Quem pode perdoar pecados senão Deus?»
Tu, Fariseu, crês que sabes, mas não passas de um ignorante! Crês que veneras a Deus, mas não O reconheces! Crês que dás testemunho, mas desferes golpes! Se é Deus Quem perdoa os pecados, porque não admites a natureza divina de Cristo? Porque pôde conceder o perdão de um só pecado, é, pois, Ele Quem aniquila o pecado do mundo inteiro: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo» (Jo 1, 29). Para que possas compreender a Sua natureza divina, escuta-O – pois Ele penetrou no âmago do teu ser. Olha-O: Ele alcançou os teus mais profundos pensamentos. Compreende, então, Aquele que põe a nu as intenções secretas do teu coração.
Para Deus, a morte é um sono
São Pedro Crisólogo — Sermão 34; CCL 24, 193 e seguintes; Delhougne, Les Pères commentent, p. 261.
Toda a leitura do evangelho nos é muito proveitosa, quer para a vida presente como para a futura. Mas mais ainda o evangelho deste dia, pois contém a totalidade da nossa esperança e anula todos os motivos de desespero […]. Um certo chefe da sinagoga conduzia Cristo até junto da filha e dava ao mesmo tempo ocasião a uma hemorroísa de vir a encontrar Jesus […]. Cristo conhecia o futuro e não ignorava que tal mulher viria ao seu encontro. É ela quem fará o chefe dos judeus compreender que Deus não tem necessidade de Se deslocar, que não é necessário mostrar-Lhe o caminho nem solicitar a Sua presença física. Pelo contrário, é preciso acreditar que Deus está presente em todo o lado, que Ele está aqui com todo o Seu ser e para sempre. É preciso acreditar que Ele tudo pode, sem dificuldade, dando uma simples ordem, e que envia a Sua força sem a transportar ; que com uma palavra anula a morte, sem mexer um só dedo da mão; que dá a vida se assim o decidir, sem recorrer à medicina […].
Ao chegar à casa e ao ver as pessoas chorar a menina como se fora morta, Cristo quer trazer à fé aqueles corações incrédulos. Sabendo que pensavam ser muito mais fácil fazer sair uma pessoa do sono do que fazer ressuscitá-la de entre os mortos, Cristo declara que a menina estava adormecida e não morta.
Verdade é que, para Deus, a morte é um sono. Porque Deus faz um morto regressar à vida em menos tempo que o que levamos a acordar do sono alguém que dorme. […]. Escutai o que diz o apóstolo Paulo : «Num instante, num abrir e fechar de olhos, ao som da trombeta final – pois a trombeta soará – os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados» (1Co 15,52) […]. Aliás, como teria ele podido condensar em palavras a rapidez de um acontecimento em que a força divina excede a própria rapidez? Como poderia o tempo intervir no dom de uma realidade eterna, não submetida ao tempo?
Lázaro e a fé que também se ergue do túmulo
São Pedro Crisólogo — Sermão 63, sobre a ressurreição de Lázaro; PL 52, 375 e seguintes.
O Senhor tinha ressuscitado a filha de Jairo, mas, estando o cadáver ainda quente, a morte só tinha feito metade da sua obra (cf Mt 9,18s). […] Ressuscitou também o filho único duma mãe, mas detendo a padiola antes de esta chegar ao túmulo […], antes de esse morto entrar completamente na lei da morte (cf Lc 7,11s). O que se passa com Lázaro, porém, é único […]: com Lázaro, todo o poder da morte já se tinha concretizado e nele resplandeceu igualmente a imagem completa da ressurreição. […] Com efeito, Cristo ressuscitou ao terceiro dia porque era o Senhor; Lázaro, que era servo, foi chamado à vida ao quarto dia. […]
O Senhor dizia e repetia aos seus discípulos: «Vamos subir a Jerusalém e o Filho do Homem vai ser entregue aos sumos-sacerdotes e aos doutores da Lei, que O vão condenar à morte. Hão de entregá-Lo aos pagãos, que vão escarnecer dele, açoitá-l’O e crucificá-l’O» (Mt 20,18ss). E, ao dizer isto, via-os indecisos, tristes, inconsoláveis. Sabia que eles tinham de ser subjugados pelo peso da Paixão, até que nada subsistisse da sua vida, da sua fé, da sua luz pessoal; e que, pelo contrário, os seus corações ficariam obscurecidos pela noite quase total da falta de fé. Foi por isso que fez com que a morte de Lázaro se prolongasse por quatro dias. […] Daí que o Senhor tenha dito aos seus discípulos: «Lázaro morreu; e Eu, por amor de vós, estou contente por não ter estado lá, para assim poderdes crer» (Jo 11,14-15) […]. A morte de Lázaro foi, portanto, necessária, para que, com Lázaro, a fé dos seus discípulos também se elevasse do túmulo.
«Por não ter estado lá». E haveria algum lugar onde Cristo não estivesse? […] Cristo Deus estava lá, meus irmãos, mas Cristo homem não estava. Quando Lázaro morreu, Cristo Deus estava lá; agora, porém, Cristo vinha para junto do morto, uma vez que Cristo Senhor ia entrar na morte: «É na morte, no túmulo, nos infernos, é aí que todo o poder da morte tem de ser abatido, por Mim e pela minha morte».
Nota editorial: Corrigiu-se «Sermão 53» pelo cotejo do texto latino. A indicação «CCL 241» era um erro de composição e não foi reproduzida como referência segura.
As lágrimas de Cristo diante de Lázaro
São Pedro Crisólogo — Sermão 64; PL 52, 379; coleção Ichtus, vol. 12, p. 279.
«Ao ver Maria chorar, e os judeus que a acompanhavam a chorar também, Jesus suspirou profundamente e comoveu-Se». Maria chora, choram os judeus, o próprio Cristo chora. Crês tu que sentem todos a mesma tristeza? Maria, irmã do morto, chora porque não pôde conservar o seu irmão nem afastar a morte; por mais que estivesse convencida da ressurreição, a perda do seu único amparo e a ideia da sua cruel ausência, mais a tristeza da separação inevitável, fazem-na desfazer-se em lágrimas que ela não consegue suster. Por muito grande que seja a nossa fé, a implacável ideia da morte não pode deixar de tocar-nos e transtornar-nos; por isso, choravam também os judeus, porque se lembravam da sua condição mortal e desesperavam da eternidade. Nenhum mortal pode deixar de chorar perante a morte.
Mas qual destas tristezas foi a de Cristo? Nenhuma? Então porque chora Ele, que dissera: «Lázaro morreu, […] e Eu estou contente»? E eis que derrama lágrimas como os mortais Aquele que, ao mesmo tempo, derrama sobre eles uma vez mais o Espírito que dá a vida! Assim é o homem, irmãos, que tanto sob o efeito da alegria, como da tristeza, desata em lágrimas. Cristo não chorou por causa da desolação da morte, mas por causa da lembrança da alegria, Ele a cuja palavra, à Sua palavra, ressuscitarão os mortos para a vida eterna (cf. Jo 5,28–29). Como podia Cristo chorar por fraqueza humana, quando o Pai que está nos céus chora o filho pródigo, não quando ele sai de casa, mas quando regressa (Lc 15, 20)? É por isso que Ele permite que Lázaro morra, para que, ao ressuscitá-lo, se manifeste a Sua glória; permitiu que o Seu amigo descesse à mansão dos mortos para que Deus aparecesse e o resgatasse dos infernos.
Nota editorial: A referência à ressurreição pela voz de Cristo foi ajustada de Jo 12,48 para Jo 5,28–29.
A Paixão e a alegria da Ressurreição
As feridas de Cristo abrem o seu coração
São Pedro Crisólogo — Sermão 108; PL 52, 499; Brésard, 2000 ans A, p. 220.
«Rogo-vos, pois, irmãos, pela misericórdia de Deus» (Rom 12, 1): Paulo faz um pedido, ou antes, através de Paulo, Deus faz um pedido, Ele que mais do que ser temido quer ser amado. Deus faz um pedido porque quer ser menos Senhor que Pai. […] Ouve o Senhor pedir [através do Seu Filho]: «Dizia: Estendia constantemente as mãos» (Is 65,2). Não é estendendo as mãos que habitualmente se pede? «Estendia as mãos.» Para quem? «Para o povo.» Para que povo? Um povo não apenas indócil, mas «rebelde». «Estendia as mãos»: abre os Seus braços, dilata o Seu coração, apresenta o Seu peito, oferece o Seu seio, faz de todo o Seu corpo um refúgio para demonstrar por meio desta súplica a que ponto é Pai. Escuta Deus perguntar ainda: «Meu povo, que te fiz, ou em que te contristei?» (Mi 6,3) Não diz Ele: «Se a Minha divindade vos for desconhecida, não reconhecereis a Minha carne? Vede, vede em Mim o vosso corpo, os vossos membros, as vossas entranhas, os vossos ossos, o vosso sangue! E, se temeis o que é de Deus, porque não amais o que é vosso? Se fugis do Senhor, porque não correis para o Pai?»
Mas a grandeza da Paixão, de que sois a causa, talvez vos encha de confusão. Não temais! Esta cruz não é o Meu cadafalso, mas o da morte. Estes pregos não fixam a dor em Mim, mas cravam mais profundamente em Mim o amor que tenho por vós. Estas feridas não Me arrancam gritos, elas introduzem-vos ainda mais no Meu coração. O esquartejamento do meu corpo dá-vos um lugar ainda maior no Meu seio, não aumenta o Meu suplício. Não perco o Meu sangue, antes o verto para pagar o vosso.
Vinde então, tornai a vir, reconhecei em Mim um Pai que vedes pagar o mal com bem, a injustiça com o amor, grandes ferimentos com uma tão grande ternura.
Jonas, sinal da Paixão e da Ressurreição
São Pedro Crisólogo — Sermão 37, sobre o sinal de Jonas; PL 52, 303–306; CCL 24, 211–215; Thèmes et figures, DDB, 1984, p. 117.
Eis que a fuga do profeta Jonas para longe de Deus (Jn 1, 3) se transforma numa imagem profética, e o que é apresentado como um naufrágio funesto se torna o sinal da ressurreição do Senhor. O próprio texto da história de Jonas mostra-nos bem como este prefigura plenamente a imagem do Salvador. Está escrito que Jonas «fugiu da presença do Senhor». Não fugiu o próprio Senhor da condição e do aspecto da divindade, para tomar a condição e o rosto humanos? Assim o diz o Apóstolo Paulo: «Ele, que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-se a Si mesmo, tomando a condição de servo» (Fil 2, 6-7). O Senhor revestiu-Se da condição de servo. Para passar despercebido no mundo, para sair vitorioso sobre o demônio, fugiu de Si mesmo para junto dos homens. […] Deus está em todo o lado: é impossível fugir-Lhe. Para conseguir «fugir da presença do Senhor», não para um lugar determinado mas, de certa maneira, através da aparência, Cristo refugiou-Se na imagem da nossa servidão, totalmente assumida. A narrativa prossegue: «desceu a Jafa, onde encontrou um navio que partia para Társis». Eis agora Aquele que desceu: «Ninguém subiu ao Céu a não ser Aquele que desceu do Céu» (Jo 3, 13). O Senhor desceu do céu à terra, Deus desceu à altura do homem, a omnipotência desceu à nossa servidão. Mas Jonas, que desceu em direção ao navio, teve de subir para nele viajar. Da mesma forma, Cristo, descido ao mundo, subiu, pelas Suas virtudes e milagres, para o navio da Sua Igreja.
É o próprio Jonas que toma a iniciativa de se deitar ao mar: «Pegai em mim e lançai-me ao mar»; anuncia, assim, a paixão voluntária do Senhor. Quando a salvação de uma multidão depende da morte de um só, essa morte está nas mãos do homem que tem o poder de a atrasar, ou, pelo contrário, de a apressar, antecipando-se ao perigo. Todo o mistério do Senhor está aqui prefigurado. Para Ele, a morte não é uma necessidade; releva da Sua livre iniciativa. Escutai-O: «Ninguém Ma tira, mas sou Eu que a ofereço livremente. Tenho poder de a oferecer e poder de a retomar» (Jo 10,18) […]
Mas eis que surge um monstro das profundezas, eis que se aproxima um grande peixe que vai realizar e manifestar plenamente a ressurreição do Senhor, ou melhor, engendrar esse mistério. Eis o monstro, imagem terrível do inferno, que, quando abre a garganta faminta para o profeta, prova e assimila o poder do seu Criador e, ao devorá-lo, se compromete na verdade a nunca mais devorar ninguém. A temível morada das suas entranhas prepara a morada para o Visitante que virá do alto; de tal maneira que aquilo que fora causa de desgraça se torna a barca impensável para uma travessia necessária, retendo o passageiro e expulsando-o três dias depois na margem. Assim era dado aos pagãos o que tinha sido arrancado aos inimigos de Cristo. E aos que pediram um sinal, o Senhor achou por bem dar-lhes apenas esse símbolo, pelo qual compreenderiam que a glória que esperavam receber de Cristo devia ser também dada aos pagãos. […]
Pela malícia dos Seus inimigos, Cristo foi mergulhado nas profundezas do caos da morada dos mortos; durante três dias, percorreu todos os recantos desta morada (1Pe 3,19). E quando ressuscitou, ao mesmo tempo que destruiu a maldade dos Seus inimigos, fez brilhar a Sua própria grandeza e o Seu triunfo sobre a morte.
É portanto justo que os habitantes de Nínive se elevem no dia do juízo para condenar esta geração, pois eles converteram-se pela proclamação de um só profeta naufragado, estrangeiro, desconhecido; enquanto as pessoas desta geração, depois de tantas obras admiráveis e de tantos milagres, com todo o brilho da ressurreição, não se tornaram crentes nem se converteram.
Que felicidade para nós, meus irmãos! Nós veneramos, vemos e possuímos, face a face e em toda a Sua verdade, Aquele que tinha sido anunciado e prometido simbolicamente.
Nota editorial: A numeração «3» foi corrigida para 37 pelo cotejo latino. Os excertos foram ordenados segundo a narrativa. A perícope evangélica acrescentada ao post foi separada do comentário patrístico.
Os Inocentes e a vitória recebida de Cristo
São Pedro Crisólogo — Sermão 152; PL 52, 604.
Aonde leva a inveja? […] O crime hoje cometido no-lo mostra: o medo de que exista um rival para o seu reino enche de angústia a Herodes; maquina então suprimir o «Rei que acaba de nascer» (Mt 2,2), o Rei eterno; luta contra o seu Criador e decide matar inocentes […]. Que erros tinham aquelas crianças cometido? Nada haviam dito suas línguas mudas, nada seus olhos haviam visto, seus ouvidos escutado, suas mãos feito. Foi-lhes dada a morte, não tendo elas conhecido a vida. […] Cristo lê o futuro e conhece os segredos dos corações, julga os pensamentos e escrutina as intenções (Sl 138): porque as abandonou? […] Porque negligenciou o Rei do céu recém-nascido estes companheiros de inocência, porque esqueceu as sentinelas de serviço em redor do Seu berço, levando a que o inimigo, com a intenção de atingir o Rei, devastasse por completo o exército?
Irmãos, Cristo não abandonou os Seus soldados, antes os encheu de glória ao permitir-lhes triunfar antes de viver, e ganhar a vitória sem que tivessem de combater. […] Ele quis que possuíssem o céu, de preferência à terra […], enviou-os à Sua frente como arautos. Não os abandonou: salvou a Sua guarda avançada, não a esqueceu […].
Bem aventurados os que trocaram os trabalhos pelo repouso, as dores pelo alívio, o sofrimento pela alegria. Estão vivos, vivos, vivem realmente, os que sofreram a morte por Cristo. […] Felizes as lágrimas que as mães verteram por seus filhos: valeram-lhes a graça do batismo. […] Que Aquele que Se dignou repousar no nosso estábulo queira também conduzir-nos aos prados do céu.
As mulheres, mensageiras da Boa Nova
São Pedro Crisólogo — Sermão 76, 2–3; CCL 24A, 465–467.
O anjo tinha dito às mulheres: «Ele ressuscitou dos mortos e vai adiante de vós para a Galileia. Lá O vereis» (Mt 28,7). Ao dizer isto, não era a Maria Madalena e à outra Maria que o anjo se dirigia mas, nestas duas mulheres, era a Igreja que ele enviava em missão, era a Esposa que o anjo enviava ao encontro do Esposo.
Quando elas se afastam, o Senhor vem ao seu encontro e saúda-as, dizendo: «Salve!» […] Ele dissera aos discípulos: «Não vos demoreis a saudar alguém pelo caminho» (Lc 10,4); nesse caso, como pode ir ao encontro destas mulheres e cumprimentá-las tão jubilosamente? Ele não espera que O reconheçam, não procura ser identificado, não Se presta a que Lhe façam perguntas, mas apressa-Se, cheio de ímpeto, a ir ao encontro delas. […] É a força do amor, que é mais forte do que tudo, que passa por cima de tudo. Ao saudar a Igreja, é a Si mesmo que Cristo saúda, pois fê-la sua, ela tornou-se sua carne, ela tornou-se o seu corpo, como atesta o apóstolo Paulo: «Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu corpo» (Col 1,18). Sim, é de facto a Igreja, em toda a sua plenitude, que aquelas duas mulheres personificam. […]
Quando Ele encontra estas mulheres, elas estão já num estádio de maturidade da fé: dominaram as suas fragilidades, e concentram-se no mistério, procurando o Senhor com todo o fervor da sua fé. Por isso, merecem que o Senhor Se lhes ofereça, indo ao seu encontro e dizendo-lhes: «Salve!» O Senhor não só consente que O toquem, mas também que O agarrem, segundo a medida do amor que Lhe têm. […] Estas mulheres são, na Igreja, o modelo dos mensageiros da Boa Nova.
Não temais: o Ressuscitado chama-nos irmãos
São Pedro Crisólogo — Sermão 80; CCL 24A, 490 e seguintes.
«Sei que buscais Jesus, o crucificado; não está aqui.» Assim falou o anjo às mulheres, ele que tinha aberto o túmulo por essa razão: não para fazer sair Cristo, que já não estava lá, mas para lhes mostrar isso mesmo: «Ressuscitou, como tinha dito. Vinde, vede o lugar onde jazia» (Mt 28,5-6). Vinde, mulheres, vinde. Vede o lugar onde tínheis depositado Adão, onde o gênero humano tinha sido sepultado. Compreendei que o perdão do Senhor foi tão grande quão grande tinha sido a injustiça que Lhe foi feita. […] Quando as mulheres entram no sepulcro, tomam parte no ato de sepultar Jesus, tornam-se participantes da própria Paixão. Ao saírem do sepulcro, erguem-se na fé antes de ressuscitarem na carne: deixaram o túmulo, «cheias de temor e de grande alegria». […] A Escritura diz: «Servi o Senhor com temor e estremecei de júbilo por Ele» (Sl 2,11).
«Jesus saiu ao seu encontro e saudou-as.» Cristo vem ao encontro daquelas que correm com fé, para que reconheçam com os seus olhos Aquele em quem tinham acreditado pela fé. Quer confortar com a sua presença aquelas que tinham ficado a tremer pelo que lhes fora dito. […] Vem ao seu encontro como um mestre, saúda-as como um familiar, devolve-lhes a vida por amor, guarda-as pelo temor. Saúda-as para que O sirvam amorosamente, para que o receio não as faça fugir. «Elas aproximaram-se e abraçaram-Lhe os pés». […] A saudação quer dizer: toquem-Me. Quis ser agarrado, Ele que suportou que O amarrassem. […]
Diz-lhes: «Não temais», tal como o anjo lhes dissera. Este tinha-as confirmado, Cristo vai torná-las mais fortes ainda. «Não temais. Ide avisar os meus irmãos que devem ir para a Galileia. Lá Me verão.» Erguendo-Se de entre os mortos, Cristo tomou consigo o homem, não o abandonou. Chama-lhes, por isso, seus irmãos, àqueles que pelo corpo tinha tornado seus irmãos de sangue; chama-lhes irmãos, àqueles que adotou como filhos de seu Pai. Chama-lhes irmãos, àqueles que, como herdeiro pleno de bondade, quis tornar seus co-herdeiros.
Tocai-Me e vede: a realidade do corpo ressuscitado
São Pedro Crisólogo — Sermão 81, oitavo sobre a Ressurreição do Senhor.
Depois da ressurreição, como o Senhor entrou com todas as portas fechadas (cf. Jo 20,19), os discípulos não acreditavam que Ele tivesse reencontrado a realidade do Seu corpo: supunham que apenas a Sua alma tivesse vindo, sob uma aparência corporal, como as imagens que aparecem àqueles que sonham durante o sono. «Eles julgavam ver um espírito». […]
«Porque estais perturbados e porque surgem tais dúvidas nos vossos corações? Vede as Minhas mãos e os Meus pés». Vede, quer dizer: prestai atenção. Por quê? Porque não é um sonho que estais a ter. Vede as Minhas mãos e os Meus pés porque, com os vossos olhos acabrunhados, não podeis, ainda, contemplar o Meu rosto. Vede as feridas da Minha carne, uma vez que ainda não conseguis ver as obras de Deus. Contemplai as marcas feitas pelos Meus inimigos, uma vez que ainda não vedes as manifestações de Deus. Tocai-Me para que as vossas mãos vos deem a prova, visto os vossos olhos estarem cegos a esse ponto. […] Descobri os buracos nas Minhas mãos, analisai o Meu lado, reabri as Minhas feridas, pois não posso recusar aos Meus discípulos, tendo em vista a fé, o que não recusei aos Meus inimigos no suplício. Tocai, tocai […], buscai até aos ossos, para confirmar a realidade da carne e que estas feridas, ainda abertas, atestem que sou mesmo Eu […]
Porque não acreditais que ressuscitei, Eu que fiz reviver vários mortos à vossa vista? […] Quando estava suspenso na cruz, insultavam-Me dizendo: «Tu, que destruías o templo e o reedificavas em três dias, salva-Te a Ti mesmo! Se és Filho de Deus, desce da cruz e acreditaremos!» (cf. Mt 27,40). O que é mais difícil: descer da cruz, arrancando os pregos, ou subir dos infernos, calcando a morte sob os Meus pés? Eis que Me salvei a Mim mesmo e, destruindo as cadeias do inferno, subi para o mundo do alto.
Nota editorial: A indicação «31» foi corrigida para 81 pelo cotejo do sermão latino; conservou-se a designação de oitavo sermão sobre a Ressurreição.
Tomé e o testemunho das feridas
São Pedro Crisólogo — Sermão 84; PL 52, 438.
Porque procura Tomé provas da sua fé? […] O vosso amor, irmãos, teria gostado de que, após a ressurreição do Senhor, a falta de fé não deixasse ninguém na dúvida. Mas Tomé trazia no coração, não só a sua própria incerteza, mas a de todos os homens. Já que teria de pregar a ressurreição às nações, queria saber, como bom trabalhador, sobre que fundamentos poderia edificar um mistério que exige tanta fé. E o Senhor mostrou a todos os apóstolos aquilo que Tomé pedira: «veio Jesus e mostrou-lhes as mãos e o lado» (Jo 20,19-20). Com efeito, Aquele que entrou estando as portas fechadas poderia ser tomado pelos discípulos por um espírito se não pudesse mostrar-lhes que era realmente Ele; e as chagas eram o sinal da sua Paixão.
Depois se aproximou de Tomé e disse-lhe: «Mete a tua mão no meu lado e não sejas incrédulo, mas crente.» Que estas feridas que abres de novo façam correr a fé por todo o universo, elas que já tinham vertido a água do batismo e o sangue do resgate (Jo 19,34). Tomé respondeu: «Meu Senhor e meu Deus!» Venham os incrédulos e compreendam e, como diz o Senhor, não sejam mais incrédulos, mas crentes. Tomé manifesta e proclama que não está ali apenas um corpo humano, mas que, pela Paixão do seu corpo de carne, Cristo é Deus e Senhor. Aquele que sai vivo da morte e que ressuscita das suas chagas é verdadeiro Deus.
Na margem, o Senhor reconduz a Igreja à fé
São Pedro Crisólogo — Sermão 78; PL 52, 420.
Depois da Sua Paixão, cujo tumulto surpreendeu a terra, assustou o céu, assombrou os séculos e desolou os infernos, o Senhor veio até à beira-mar e reparou que os discípulos erravam nas águas em plena noite, sujeitos a uma obscura ondulação. O sol ainda vinha longe e nem a luz da lua, nem o céu estrelado conseguiam acalmar a angústia duma noite assim. Diz o Evangelho que «ao romper do dia, Jesus apresentou-Se na margem, mas os discípulos não sabiam que era Ele». A Criação inteira fugira ao ultraje infligido ao seu Criador, a terra assistira ao tremor das suas fundações e à sua falência, o sol desaparecera para não ter de olhar, o dia retirara-se para não ter de assistir e, apesar da sua dureza, as rochas fenderam-se. O inferno vê o seu próprio Juiz chegar às suas entranhas e, vencido, solta os seus cativos com um grito de dor (Mt 27,45-52).
O mundo inteiro fora lançado na confusão e nem sequer duvidara que, com a morte do Criador, fora mergulhado de novo nas trevas primordiais e no antigo caos (Gn 1,2). Mas de repente, na luz da Sua Ressurreição, o Senhor resgata o dia e devolve ao mundo o seu aspecto de sempre. Vem para fazer ressurgir com Ele, na Sua glória, todos os que andavam abatidos de tristeza: «Ao romper do dia, Jesus apresentou-Se na margem». Em primeiro lugar, vem reconduzir a Sua Igreja à segurança da fé, já que encontrou os Seus discípulos privados dela e despojados das suas forças. Estavam lá Pedro, que O negou, Tomé, que não acreditou, João, que fugiu, e por isso não lhes fala como a valentes soldados, mas como a crianças assustadas: «Rapazes, tendes alguma coisa para comer?». Deste modo os discípulos serão chamados à graça pela Sua humanidade, à confiança pelo pão, e à fé pelo sustento. Com efeito, só acreditariam na Ressurreição do Seu corpo se O vissem ceder às vicissitudes da existência e comer. Por isso pede comida Aquele que é a abundância de todos os bens, e come Ele próprio do pão porque tem fome não de alimento, mas do amor dos Seus: ««Rapazes, tendes alguma coisa para comer?» Eles responderam-Lhe: «Não»». E o que podiam eles ter, uma vez que já não tinham consigo a Cristo – embora Ele estivesse ali, no meio deles – e não viam o Senhor, se bem que O tivessem diante dos olhos? «Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar».
«O discípulo predileto de Jesus disse a Pedro: “É o Senhor”». Aquele que é amado é o primeiro a ver; o amor faz incidir um olhar mais atento sobre todas as coisas; aquele que ama sente sempre com mais vivacidade. […] Que dificuldade torna a mente de Pedro tão lenta e o impede de ser o primeiro a reconhecer Jesus, como tinha feito anteriormente? Onde está aquele testemunho singular que o fizera exclamar: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo»? (Mt 16,16) Onde está ele? Em casa de Caifás, o sumo-sacerdote, Pedro não tivera dificuldade em ouvir o murmúrio de uma serva; agora, porém, tarda em reconhecer o seu Senhor.
«Quando ouviu dizer que era o Senhor, vestiu a túnica, que tinha tirado». Que coisa estranha, meus irmãos! […] Pedro entra nu na barca e deita-se ao mar vestido! […] Em geral, os culpados tapam-se para se dissimularem. Tal como Adão, Pedro deseja esconder a sua nudez após o seu pecado; antes de pecarem, estavam ambos vestidos com uma nudez santa. «Vestiu a túnica, que tinha tirado, e lançou-se ao mar». Pedro esperava que o mar lavasse essa peça de roupa sórdida que era a traição; lançou-se ao mar para voltar a ser o primeiro, aquele a quem tinham sido confiadas grandes responsabilidades (cf Mt 16,18ss); vestiu a túnica, cingindo-se para o combate do martírio, segundo as palavras do Senhor: «E outro te cingirá e te levará para onde não queres» (Jo 21,18). […]
Os outros apóstolos vêm com o barco, puxando a rede cheia de peixes: com muito esforço, arrastam consigo a Igreja, lançada aos ventos do mundo. É ela que estes homens trazem na rede do Evangelho para a luz do Céu, que arrancam aos abismos para a conduzir até junto do Senhor.
Nota editorial: Os dois excertos sucessivos do mesmo sermão foram reunidos: a aurora e o alimento, o reconhecimento de Jesus e a rede da Igreja.
Fontes e critérios
As traduções portuguesas procedem do acervo Sophia, com fonte declarada Evangelho Cotidiano / Evangelho Quotidiano / Evangelizo, e do item 37 de Sophia.docx. Conservam-se os dados disponíveis de PL (Patrologia Latina), CCL (Corpus Christianorum, Series Latina), do Breviário e das coletâneas citadas. Não se trata de uma nova tradução.
O cotejo do texto latino permitiu corrigir as referências aos Sermões 31, 37, 63 e 81. Na passagem sobre a Encarnação, a variante equivalente confirmou o Sermão 148. Um poema das Odes de Salomão foi reservado, pois não pertence a esta coleção. O índice geral e a biografia também ficaram fora da antologia.
Cotejo: Sermões 30–39; Sermões 60–69; Sermões 80–87, texto latino em Wikisource, proveniente de Corpus Corporum.
Os mapas dos posts, as variantes e as decisões de reserva permanecem no registro editorial interno. Preparação em 19 de outubro de 2026.



