São Cirilo de Alexandria — Antologia de comentários bíblicos e homilias

Esta antologia reúne comentários bíblicos e homilias do acervo de São Cirilo de Alexandria. O mistério do Filho, a ação do Espírito Santo, a formação dos discípulos, a comunhão da Igreja e a esperança da vida nova orientam a leitura.

Versões equivalentes foram cotejadas e apresentadas uma única vez; passagens complementares foram aproximadas. O texto sobre o discípulo bem formado, conservado em Sophia.docx, foi integrado integralmente. Um tema final distingue homilias cuja atribuição é conservada como recebida ou expressamente ressalvada.

Sumário

O Filho revela o Pai e o mistério da salvação

O Verbo assume livremente a condição de servo

São Cirilo de Alexandria — Sermão 15, 2–4, conforme a referência do acervo.

O mistério da nossa salvação é tão vasto, tão profundo, tão admirável, que os próprios anjos aspiram a compreendê-lo (1Pe 1,12). […] Pois, sendo Deus por natureza, o Verbo verdadeiro de Deus Pai (Jo 1,1), da mesma substância e com Ele co-eterno, brilhando no mais alto da sua glória «na condição e na igualdade com Deus», Cristo «não Se valeu dessa igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio, assumindo a condição de servo» e, nascendo de Santa Maria, «apareceu como homem e rebaixou-Se até à morte, e morte de cruz» (Fil 2,6-8).

Humilha-Se assim, para nossa humildade, Aquele que dá a todos os homens da sua própria plenitude. Rebaixa-Se por nós, não por constrangimento, mas de sua própria vontade. Por nós toma a condição de escravo Aquele que é a liberdade em pessoa. Torna-Se um como nós Aquele que está acima de toda a Criação. Submete-Se à morte Aquele que dá a vida ao mundo. […] Como nós torna-Se sujeito à Lei (Gal 4,4) Aquele que, sendo Deus, transcende toda a Lei. Pelo seu nascimento torna-Se um homem como os outros. Começa a existir Aquele que precede todos os séculos e todas as épocas, mais, Aquele que é o próprio Criador e origem do tempo […]. Aquele que foi gerado em Maria […] é da nossa natureza e da nossa substância e da mesma descendência de Abraão. Mas é também, no plano divino, da mesma natureza que Deus Pai.

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O Filho manifesta o nome do Pai

São Cirilo de Alexandria — Comentário ao Evangelho de João, XI, 7; PG 74, 497–499; tradução Delhougne, Les Pères commentent.

O Filho não manifestou o nome do Pai apenas revelando-o e dando-nos uma instrução exacta sobre a Sua divindade, uma vez que tudo isso tinha sido proclamado antes da vinda do Filho, pela Escritura inspirada. O Filho também nos ensinou, não só que Ele é verdadeiramente Deus, mas que é também verdadeiramente Pai, e que é assim verdadeiramente chamado, pois tem em Si mesmo e produz para fora de Si mesmo o Filho, que é co-eterno com a Sua natureza.

O nome de Pai é mais apropriado a Deus do que o nome de Deus: este é um nome de dignidade, aquele significa uma propriedade substancial. Porque quem diz Deus diz o Senhor do universo. Mas quem nomeia o Pai especifica a característica da pessoa: mostra que é Ele que gera. Que o nome de Pai é mais verdadeiro e mais apropriado que o de Deus mostra-no-lo o próprio Filho pelo modo como o usa. Pois Ele não dizia: «Eu e Deus», mas: «Eu e o Pai somos um» (Jo 10, 30). E dizia também: «Foi a Ele, ao Filho, que Deus marcou com o Seu selo» (Jo 6, 27).

Mas, quando mandou os seus discípulos baptizarem todos os povos, ordenou expressamente que o fizessem, não em nome de Deus, mas em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28, 19).

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O mistério revelado aos pequeninos

São Cirilo de Alexandria — Homilia 65 sobre Lucas.

Consideremos as palavras que Jesus dirige por nós ao Pai, falando-Lhe a nosso respeito: «Escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado.» De facto, Deus Pai revelou-nos o mistério escondido desde antes da criação do mundo no silêncio de Deus, o mistério do Filho Unigênito feito homem, o mistério conhecido desde antes da criação do mundo e revelado aos homens nos últimos tempos. São Paulo escreve: «A mim, o menor de todos os santos, foi dada a graça de anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo, e a todos iluminar sobre a realização do mistério escondido desde há séculos em Deus, Criador de todas as coisas» (Ef 3,8-9).

Este grande e adorável mistério do nosso Salvador estava, portanto, escondido no conhecimento do Pai, desde antes da criação do mundo. Também nós fomos previamente conhecidos e predestinados para sermos adotados como filhos. São Paulo no-lo ensina igualmente quando escreve: «Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto do céu nos abençoou com todas as bênçãos espirituais em Cristo. Ele nos escolheu antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença. Ele nos predestinou, de sua livre vontade, para sermos seus filhos adotivos, por Jesus Cristo» (Ef 1,3-5). O Pai revelou-nos, pois, a nós, os pequeninos, o mistério escondido desde todos os tempos. […] «A vós foi dado conhecer os mistérios do reino de Deus» (Lc 8,10), a vós, que acreditastes, que conhecestes a revelação de Cristo, que entendeis a Lei no seu sentido espiritual, que estais aptos a compreender as profecias, que confessais que Cristo é Deus e Filho de Deus, a vós a quem o Pai teve por bem revelar o seu Filho.

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Moisés prefigura Cristo, Mediador de Deus e dos homens

São Cirilo de Alexandria — Comentário ao Evangelho de João, III, 3.

Moisés disse: «O Senhor, teu Deus, suscitará em teu favor um profeta saído das tuas fileiras, um dos teus irmãos, como eu: é a ele que escutarás» (Dt 18,15). O próprio Moisés explica […] o que acabou de anunciar: «Foi o que pediste ao Senhor teu Deus no monte Horeb, no dia da assembleia, quando Lhe disseste: “Não quero mais ouvir a voz do Senhor, meu Deus, nem tornar a ver este fogo intenso, pois tenho medo de morrer”» (v. 16).

Moisés afirma veementemente que lhe foi então atribuído um papel de mediador, uma vez que a assembleia dos judeus ainda estava incapaz de contemplar as realidades que a excediam: uma visão de Deus extraordinária e aterradora para os olhos, sons de trombeta estranhos e intoleráveis para os ouvidos (cf Ex 19,16). O povo tinha, portanto, a prudência de renunciar ao que excedia as suas forças, e a mediação de Moisés auxiliava a fraqueza dos homens da sua geração: ele estava encarregado de transmitir os mandamentos divinos ao povo reunido.

Mas, se procurares descobrir sob este símbolo a realidade prefigurada, compreenderás que ela visa Cristo, «Mediador entre Deus e os homens» (1Tim 2,5): é Ele que, com a sua voz humana, a voz que recebeu quando nasceu para nós de uma mulher, transmite aos corações dóceis a vontade sublime de Deus Pai, que só Ele conhece, enquanto Filho de Deus e Sabedoria de Deus, «perscrutando tudo, mesmo as profundezas de Deus» (1Cor 2,10). Com os nossos olhos de carne, não podíamos atingir a glória inexprimível, pura e nua, daquele que está para lá de tudo – «”o homem não pode ver o meu rosto”, disse Deus, “e ficar vivo”» (Ex 33,20). Por isso, o Verbo, o Filho único de Deus, amoldou-Se à nossa fraqueza, revestindo um corpo humano […] segundo o desígnio redentor, para nos revelar a vontade de Deus Pai, como Ele próprio disse: «Tudo o que ouvi de meu Pai, vo-lo dei a conhecer» (Jo 15,15), e ainda: «Não falei por Mim mesmo; foi o Pai, que Me enviou, que determinou o que devo dizer e anunciar» (Jo 12,49).

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O Espírito Santo e a vida nova

Batizados no Deus feito homem

São Cirilo de Alexandria — Primeiro diálogo cristológico; excerto sem indicação de parágrafo no acervo.

«Aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu […]. Ele batizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo» (Mt 3,11) O poder de batizar no Espírito Santo e no fogo será obra duma humanidade semelhante à nossa? Como poderia ser isso? Falando de um homem que ainda não Se tinha apresentado, João declara que Ele batizará «no Espírito Santo e no fogo». Não como o faria um qualquer subalterno, insuflando nos batizados um Espírito que não é o seu, mas como alguém que é Deus por natureza, que dá com um poder soberano o que vem dele e Lhe pertence como propriedade. E é graças a isso que se imprime em nós o selo divino.

Efetivamente, em Cristo Jesus somos transformados à imagem divina; não porque o nosso corpo seja modelado de novo, mas porque, ao possuirmos o próprio Cristo, recebemos o Espírito Santo, a ponto de podermos, daí em diante, exultar de alegria: «Exulta o meu coração no Senhor, […] porque me alegro com a vossa salvação» (1Sm 2,1) Com efeito, o apóstolo Paulo diz: «Todos vós, que fostes batizados em Cristo, fostes revestidos de Cristo» (Gal 3,27).

Foi então num homem que fomos batizados? Silêncio. Tu, que não passas de ser um homem, queres deitar por terra a nossa esperança? Nós fomos batizados num Deus feito homem, que liberta das penas e das faltas todos os que nele acreditam: «Convertei-vos e peça cada um de vós o batismo em nome de Jesus Cristo […]. Recebereis então o dom do Espírito Santo» (At 2,38). Ele liberta os que a Ele se unem; Ele faz surgir em nós a sua própria natureza. O Espírito Santo pertence por natureza ao Filho, que Se tornou homem semelhante a nós, porque Ele mesmo é a vida de tudo o que existe.

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Cristo recebe o Espírito para nós

São Cirilo de Alexandria — Comentário ao Evangelho de João; passagem sobre o batismo de Cristo, sem subdivisão na fonte recebida.

Cristo recebeu o Espírito enquanto homem e enquanto convinha que o homem O recebesse. E, embora seja o Filho de Deus Pai, gerado da sua substância antes da encarnação, mais ainda, antes de todos os séculos, não Se dá por ofendido que Deus Pai Lhe diga, depois de Se fazer homem: «Tu és meu Filho; Eu hoje Te gerei».

O Pai declara ter gerado hoje Aquele que era Deus, dele mesmo gerado antes de todos os séculos, para significar que nos recebia em Cristo como filhos adoptivos. Efetivamente, em Cristo, enquanto homem, está compendiada toda a natureza humana. No mesmo sentido se diz que o Pai comunica ao Filho o seu próprio Espírito, a fim de que em Cristo alcancemos a participação do mesmo Espírito. Cristo não recebe o Espírito Santo para Si mesmo, mas para nós em Si, pois é por Ele que recebemos todos os bens.

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O Espírito transforma os discípulos

São Cirilo de Alexandria — Comentário ao Evangelho de João, livro X; tradução do Breviário.

A missão de Cristo na terra estava cumprida, mas era necessário que nos tornássemos «participantes da natureza divina» do Verbo (2Ped 1, 4), isto é, que a nossa vida anterior fosse abandonada para se transformar numa nova […]. De facto, enquanto viveu visivelmente entre os seus, Cristo surgia-lhes, segundo julgo, como o dispensador de todos os bens. Mas quando chegou o momento em que teve de subir ao Pai celeste, foi necessário que Ele continuasse presente entre os seus fiéis por meio do Espírito e que habitasse pela fé nos nossos corações (Ef 3, 17).

Aqueles em quem habita o Espírito são transformados e recebem d’Ele uma vida nova, como facilmente podemos demonstrar pelos exemplos tanto do Antigo como do Novo Testamento. Samuel, dirigindo-se a Saúl, diz: «O espírito do Senhor virá então sobre ti» (1Sam 10,6). E São Paulo afirma: «E nós todos que, com o rosto descoberto, reflectimos a glória do Senhor, somos transfigurados na Sua própria imagem, de glória em glória, pelo Senhor que é Espírito» (2 Cor 3, 18).

Vês como o Espírito transforma noutra imagem aqueles em quem habita? Facilmente os faz passar da consideração das coisas terrenas ao olhar voltado unicamente para as realidades celestes, e os conduz da tibieza à vida heróica. Foi o que sucedeu com os discípulos: fortalecidos pelo Espírito, não se deixaram intimidar pelos seus perseguidores, permanecendo unidos a Cristo pelo vínculo de um amor invencível. Facto indubitável. É pois verdade o que nos diz o Salvador: «É melhor para vós que Eu vá» (Jo 16, 7). Pois esse é o momento da descida do Espírito Santo.

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A videira, os ramos e a participação na vida divina

São Cirilo de Alexandria — Comentário ao Evangelho de João, X, 2.

O Senhor afirma […] que é a videira, para nos ensinar a unirmo-nos ao seu amor e nos mostrar a quantidade de graças que recebemos por estarmos unidos a Ele. E compara a ramos os que estão unidos a Ele, presos e fixos nele de alguma forma, afirmando que são já «participantes da natureza divina» (2 Pe 1,4), porque receberam o Espírito Santo. De facto, o que nos une a Cristo Salvador é o Espírito Santo. […]

Com efeito, recebemos o novo nascimento dele e nele, no Espírito, para dar frutos de vida; não da vida anterior e ultrapassada, mas da vida renovada pela fé e pelo amor a Ele. Permaneçamos neste estado, enxertados em certa medida em Cristo, unidos custe o que custar ao mandamento sagrado que nos foi dado. Esforcemo-nos por conservar os benefícios desta nobreza, ou seja, por não «ofender o Espírito Santo» (Ef 4,30), que fez de nós sua morada e através de quem sabemos que Deus permanece em nós. […]

Assim como a cepa da vinha fornece e distribui aos ramos a sua qualidade natural e própria, assim o Verbo, Filho Único de Deus Pai, introduz nos santos um […] parentesco com a sua natureza, dando-lhes o Espírito, sobretudo aos que estão unidos a Ele pela fé e pela santidade perfeita. Ele alimenta-os e faz crescer o seu fervor; e desenvolve neles a capacidade para as virtudes e para a bondade total.

Nota editorial: As versões equivalentes foram cotejadas. Adotou-se a redação que exorta a não ofender o Espírito, evitando a inversão acidental presente numa variante.

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Discípulos, mestres e testemunhas

O discípulo bem formado e a humildade de quem ensina

São Cirilo de Alexandria — Comentário ao Evangelho de Lucas, sobre Lc 6,39–42; PG 72, 601; fragmentos do Sermão 29 e Sermão 33 na tradução histórica de R. Payne Smith.

«O discípulo não é superior ao mestre, mas todo o discípulo perfeito deverá ser como o seu mestre». Os bem-aventurados discípulos estavam destinados a tornar-se guias e mestres espirituais em todo o mundo; por isso, tinham de dar provas, mais do que quaisquer outros, de um fervor visível, mas também de estar familiarizados com a maneira de viver segundo o Evangelho e dispostos a praticar as boas obras. Com efeito, eles teriam de transmitir àqueles que instruíssem a doutrina exata, salutar e estritamente conforme à verdade, depois de primeiramente a terem contemplado e de terem deixado a luz divina iluminar-lhes a inteligência; sem isso, seriam cegos a conduzir outros cegos, pois aqueles que estão mergulhados nas trevas da ignorância não podem conduzir ao conhecimento da verdade os homens que sofrem essa mesma ignorância: correriam o risco de cair todos juntos no abismo das suas más tendências.

Foi por isso que, querendo travar a inclinação para a vanglória presente em tantas pessoas e dissuadi-las de rivalizar com os seus mestres para ultrapassarem a reputação destes, o Senhor disse: «O discípulo não é superior ao mestre»; mesmo que alguém atinja um grau de virtude igual à dos seus predecessores, deverá imitar sobretudo a modéstia deles. Paulo dá-nos uma prova disso quando diz: «Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo» (1Cor 11,1).

Se assim é, porque julgas, se o Mestre ainda não julga? Com efeito, Ele não veio para julgar o mundo (cf Jo 12,47), mas para o encher de graça. […] Se Eu não julgo, diz-te Ele, não julgues também tu, que és meu discípulo; pode acontecer que sejas mais culpado do que aquele que estás a julgar. […] «Porque vês o argueiro que o teu irmão tem na vista?».

O Senhor ensina-nos o mesmo na parábola em que diz: «Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão?», aconselhando-nos com argumentos irrefutáveis a não julgarmos os outros, mas a perscrutarmos o nosso coração. Seguidamente incentiva-nos a libertarmo-nos dos desejos desregrados que nele estão instalados, pedindo a Deus essa graça. Efetivamente, é Ele que cura os que têm o coração abalado e nos liberta das nossas doenças espirituais. Porque, se os pecados que te esmagam são maiores e mais graves do que os dos demais, porque os censuras sem te preocupares com os teus?

Todos os que desejam viver devotamente, e sobretudo aqueles que estão encarregados de formar os outros, tirarão certamente proveito deste preceito. Se forem virtuosos e sóbrios, vivendo de acordo com o Evangelho, acolherão com brandura os que ainda não agem do mesmo modo.

Nota editorial: O texto de Sophia.docx11 foi preservado integralmente. Acrescentou-se a continuação sobre o argueiro e a formação dos outros. Uma referência ao Livro dos Números, estranha a este excerto e trazida por uma variante, foi retirada desta identificação.

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Enviados para chamar, curar e servir

São Cirilo de Alexandria — Comentário ao Evangelho de João, XII, 1; referência indicada na versão equivalente.

Nosso Senhor Jesus Cristo instituiu guias e mestres para o mundo inteiro, e «administradores dos mistérios de Deus» (1Cor 4,1). E ordenou-lhes que brilhassem e iluminassem como archotes, não só os judeus […], mas os homens que habitam em toda a superfície da terra. É, portanto, verdadeira esta palavra de São Paulo: «Ninguém atribui a si próprio uma tal honra; pelo contrário, é chamado por Deus» (Heb 5,4). […]

Para Cristo enviar os seus discípulos como o Pai O tinha enviado a Ele (cf Jo 20,21), era necessário que estes, chamados a serem seus seguidores, descobrissem para que tarefa tinha o Pai enviado o Filho; por isso, explicou-nos de diversas maneiras o carácter da sua própria missão, dizendo: «não vim chamar à conversão os justos, mas os pecadores» (Lc 5,32); e também: «desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que Me enviou» (Jo 6,38); e ainda: «Deus não enviou o Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por meio dele» (Jo 3,17).

Resumindo em poucas palavras a função dos apóstolos, dizia que os enviava como o Pai O tinha enviado a Ele; saberiam assim que lhes competia chamar os pecadores à conversão, cuidar dos doentes, corporal e espiritualmente, e, na sua função de administradores, não procurar de modo algum fazer a sua própria vontade, mas a vontade daquele que os tinha enviado, a fim de salvarem o mundo, na medida em que este aceitasse os ensinamentos do Senhor.

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A quem iremos? Permanecer junto do único Mestre

São Cirilo de Alexandria — Comentário ao Evangelho de João, IV, 4; PG 73, 613.

«A quem iremos nós, Senhor?» pergunta Pedro, querendo dizer: «Quem nos ensinará como Tu os mistérios divinos?», ou ainda: «Junto de quem encontraríamos melhor? Tu tens palavras de vida eterna!» Não são palavras intoleráveis, como dizem outros discípulos. Pelo contrário, são palavras que conduzem à realidade mais extraordinária de todas: a vida sem fim, a vida imperecível. Estas palavras mostram-nos realmente que devemos sentar-nos aos pés de Cristo, tomando-O como nosso único mestre, e mantendo-nos constantemente junto dele. […]

O Antigo Testamento também nos ensina que é preciso seguir a Cristo, sempre unidos a Ele. Com efeito, no tempo em que os israelitas, libertos da opressão dos egípcios, se dirigiam à Terra Prometida, Deus não permitiu que avançassem desordenadamente. Quem lhes deu a Lei não lhes permitiria andar sem destino, à sua vontade, pois sem um guia ter-se-iam dispersado por completo. […] Os israelitas encontraram a salvação permanecendo com o seu guia. Também nós fazemos hoje o nosso caminho recusando-nos a separar-nos de Cristo, pois foi Ele que Se manifestou aos antigos sob as aparências da tenda, da nuvem e do fogo (cf Ex 13,21; 26,1s) […]

«Se alguém Me serve, que Me siga, e onde Eu estiver, aí estará também o meu servo» (Jo 12,26). […] Ora o caminho em companhia e no seguimento de Cristo Salvador não se faz num sentido material, mas através de obras de virtude; nelas se empenharam firmemente e de todo o coração os discípulos mais sábios […], que com razão diziam: «A quem iremos ?» Por outras palavras: «Ficaremos sempre contigo, apegar-nos-emos aos teus mandamentos, acolhendo as tuas palavras, sem nunca recalcitrar. Não acharemos, como os ignorantes, que os teus ensinamentos são difíceis de entender. Pelo contrário, diremos: “Como são doces ao meu paladar as tuas palavras! Mais doces do que o mel para a minha boca” (Sl 119,103)».

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O médico verdadeiro e o perdão dos pecados

São Cirilo de Alexandria — Comentário ao Evangelho de Lucas, sobre o capítulo 5; PG 72, 565.

O paralítico incurável estava deitado no seu catre. Depois de ter esgotado a arte dos médicos, foi levado pelos seus ao único médico verdadeiro, o médico que vem do Céu. Mas, quando foi colocado em frente daquele que o podia curar, foi a sua fé que atraiu o olhar do Senhor. Para mostrar claramente que esta fé destruía o pecado, Jesus declarou imediatamente: «Os teus pecados estão perdoados». Dir-me-ão talvez: este homem queria a cura da sua doença; porque foi que Cristo lhe anunciou a remissão dos seus pecados? Foi para aprenderes que Deus vê o coração do homem no silêncio e sem ruído, que Ele contempla os caminhos de todos os viventes. A Escritura diz, com efeito: «O Senhor olha atentamente para os caminhos do homem e observa os seus passos» (Prov 5,21). […]

No entanto, quando Cristo disse: «Os teus pecados estão perdoados», deixou campo livre à incredulidade da assistência, pois o perdão dos pecados não se vê com os olhos da carne. Quando o paralítico se levanta e anda, manifesta com evidência que Cristo possui o poder de Deus. […]

Quem possui este poder? Só Ele ou também nós? Nós também, com Ele. Ele perdoa os pecados porque é o homem-Deus, o Senhor da Lei. E nós recebemos dele esta graça admirável e maravilhosa, porque Ele quis dar ao homem este poder. Com efeito, Ele disse aos seus apóstolos: «Em verdade vos digo: tudo o que desligardes na Terra será desligado no Céu» (Mt 18,18). E ainda: «Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados» (Jo 20,23).

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O corpo de Cristo e a comunhão da Igreja

Acolher-nos uns aos outros no único corpo

São Cirilo de Alexandria — Comentário à Carta aos Romanos, sobre Rm 15,7.

Está escrito: «Nós, que somos muitos, constituímos um só corpo em Cristo» (Rom 12,5), porque Cristo nos congrega na unidade, pelos laços do amor, «Ele que, de dois povos, fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava, anulando pela sua carne a Lei, os preceitos e as prescrições» (Ef 2,14-15). Temos, pois, de ter os mesmos sentimentos recíprocos: «Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro é honrado, todos os membros se alegram com ele» (1Cor 12,26). Por isso, prossegue São Paulo, «acolhei-vos uns aos outros, como Cristo também vos acolheu, para glória de Deus» (Rom 15,7). Acolhamo-nos uns aos outros, se queremos ter os mesmos sentimentos, «suportando-nos uns aos outros com caridade, solícitos em conservar a unidade de espírito, mediante o vínculo da paz» (Ef 4,2-3). Foi assim que Deus nos acolheu em Cristo, que disse: «Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o seu Filho único» (Jo 3,16).

Com efeito, o Filho foi dado em resgate pela vida de todos nós, e nós fomos libertados da morte, resgatados da morte e do pecado.

São Paulo esclarece as perspectivas deste plano de salvação quando afirma que «Cristo Se fez servidor dos circuncisos, a fim de mostrar a veracidade de Deus» (Rom 15,8). Porque Deus tinha prometido aos patriarcas, pais dos judeus, que abençoaria a sua descendência, que seria tão numerosa como as estrelas do céu. Foi por isso que o Verbo, que é Deus, Se manifestou na carne e Se fez homem. Ele mantém na existência toda a criação e assegura o bem de tudo quanto existe, pois é Deus. Mas veio a este mundo e encarnou, «não para ser servido, mas», como Ele próprio afirmou, «para servir e dar a vida em resgate pela multidão» (Mc 10,45).

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Um só corpo no corpo indivisível de Cristo

São Cirilo de Alexandria — Comentário ao Evangelho de João, sobre Jo 17,11; PG 74, 558; tradução Jean expliqué, DDB, 1985, p. 134, e variante.

Quando Jesus Se tornou semelhante a nós, quer dizer, Se fez homem, o Espírito ungiu-O e consagrou-O, embora Ele seja Deus por natureza. […] Ele mesmo santifica o seu próprio corpo, e tudo o que na criação é digno de ser santificado. O mistério que se passou em Cristo é o princípio e o itinerário da nossa participação no Espírito.

Para nos unir também a nós, para nos fundir na unidade com Deus e entre nós, ainda que permanecendo separados pela diferença das nossas individualidades, das nossas almas e dos nossos corpos, o Filho único inventou e preparou um meio de nos agregar, graças à sua sabedoria e seguindo o conselho de seu Pai. Por um só corpo, o seu próprio corpo, Ele abençoou os que creem n’Ele, numa comunhão mística fez um só corpo com Ele e entre eles.

Por conseguinte, quem poderá separar, quem poderá privar da sua união física os que, por esse corpo sagrado e só por ele, são unidos na unidade de Cristo? Se partilhamos do mesmo pão, formamos todos um só corpo (1Cor 10,17). Porque Cristo não pode ser repartido. É por isso que também a Igreja é chamada corpo de Cristo, e nós os seus membros, segundo a doutrina de São Paulo (Ef 5, 30). Todos unidos no único Cristo pelo seu santo corpo, recebemo-l’O, único e indivisível, no nosso próprio corpo. Por isso, devemos considerar que os nossos corpos já não nos pertencem.

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A carne e o sangue de Cristo comunicam a vida

São Cirilo de Alexandria — Comentário ao Evangelho de Lucas, sobre o capítulo 22.

Como podia o homem, inexoravelmente preso à terra e submetido à morte, ter de novo acesso à imortalidade? Era preciso que a sua carne se tornasse participante da força vivificadora que é Deus. Ora, a força vivificadora de Deus nosso Pai é a Sua Palavra, é o Filho Único; foi Ele que Deus nos enviou como Salvador e Redentor. […]

Se deitares um pedacinho de pão em azeite, água ou vinho, impregnar-se-á das propriedades destes. Se o ferro estiver em contacto com o fogo, será tomado pela energia deste e, ainda que de facto o ferro seja por natureza ferro somente, tornar-se-á semelhante ao fogo. Do mesmo modo, portanto, o Verbo vivificador de Deus, ao unir-Se à carne de que Se apropriou, tornou-a vivificadora.

Disse, com efeito: «Aquele que crê tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida». E ainda: «Eu sou o pão vivo, o que desceu do Céu; se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que Eu hei-de dar, é a Minha carne. Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes mesmo a carne do Filho do Homem e não beberdes o Seu sangue, não tereis a vida em vós». Do mesmo modo, portanto, ao comermos a carne de Cristo, Salvador de todos nós, e ao bebermos o Seu sangue, temos em nós a vida, tornamo-nos um com Ele, e Ele permanece em nós.

Ele tinha de vir até nós da maneira que convém a Deus, pelo Espírito Santo, e de integrar-Se de alguma forma nos nossos corpos, pela Sua santa carne e pelo Seu precioso sangue que, em benção vivificadora, recebemos no pão e no vinho. De facto […], Deus usou de condescendência para com a nossa fragilidade e pôs toda a força da Sua vida nos elementos do pão e do vinho, que estão, assim, dotados da energia da Sua própria vida. Não hesiteis pois em crer, pois o próprio Senhor claramente o disse: «Isto é o Meu corpo» e «Isto é o Meu sangue».

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O contato da carne de Cristo e a Eucaristia vivificante

São Cirilo de Alexandria — Comentário ao Evangelho de João, livro IV; excertos complementares do acervo. A coluna da PG foi transmitida incompleta.

Assim que Cristo entra em nós com a sua própria carne, nós revivemos inteiramente; é inconcebível ou, mais ainda, impossível, que a vida não faça viver aqueles nos quais se introduziu. Tal como se cobre um tição ardente com um monte de palha para manter intacto o germe do fogo, assim nosso Senhor Jesus Cristo esconde a vida em nós pela sua própria carne e coloca aí como que uma semente de imortalidade, que afasta toda a corrupção que trazemos em nós.

Mesmo para ressuscitar os mortos, o Salvador não Se contenta em agir pela Sua palavra, apesar de portadora das ordens divinas. Para esta magnífica obra, toma em cooperação, se assim se pode dizer, a Sua própria carne, para mostrar que esta tem o poder de dar a Vida, e para que se perceba que forma uma só coisa com Ele: que é realmente a Sua própria carne e não um corpo estranho a Ele.

Foi o que se passou quando Ele ressuscitou a filha do chefe da sinagoga, ao dizer-lhe: «Levanta-te, minha filha!» (Mc 5, 41) Tomou-lhe a mão, segundo o que está escrito. Devolveu-a à vida, como Deus que era, com uma ordem toda poderosa, e também lhe deu vida pelo contacto com a Sua santa carne – testemunhando assim que, tanto no Seu corpo, como na Sua palavra, se processava uma nova energia divina. E ainda, quando chegou a uma vila chamada Naim, onde o filho único de uma viúva ia a sepultar, Ele tocou no caixão e disse: «Jovem, Eu te ordeno: Levanta-te!» (Lc 7, 14)

Assim, não só confere à sua Palavra o poder de ressuscitar os mortos, mas também, para mostrar que o Seu corpo está vivo, toca nos mortos, e pela Sua carne faz passar a vida para os cadáveres. Se, apenas com o contacto da Sua carne sagrada, devolve a vida a um corpo em decomposição, qual não será o proveito que encontraremos na Sua eucaristia viva quando fizermos dEla o nosso alimento? Ela transformará totalmente no Seu bem próprio, que é a imortalidade, todos os que nEla participarem.

Não basta que apenas a nossa alma seja regenerada pelo Espírito para uma vida nova. O nosso corpo denso e terrestre também deve ser santificado, pela sua participação num corpo igualmente denso e com a mesma origem que o nosso, sendo desse modo chamado à incorruptibilidade.

Nota editorial: Reuniram-se as imagens da semente de imortalidade, o toque que ressuscita e a santificação do corpo. A passagem comum sobre o benefício da Eucaristia aparece uma única vez.

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A nova criação e a esperança da glória

O Cordeiro de Deus e a alegria de toda a criação

São Cirilo de Alexandria — Sobre Isaías, IV, 2; tradução Ir. Isabelle de la Source, Lire la Bible, t. 6, p. 116.

«Cantai, ó céus, a obra do Senhor! Exultai de alegria, ó profundezas da terra! Saltai de júbilo, vós, montanhas, e tu, bosque, com todas as tuas árvores, porque o Senhor resgatou Jacob, manifestou a Sua glória em Israel» (Is 44, 23). Pode-se facilmente concluir desta passagem de Isaías que a remissão dos pecados, a conversão e redenção dos homens, anunciada pelos profetas, se cumpre em Cristo nos últimos dias. Com efeito, quando Deus, o Senhor, nos apareceu, quando Se fez homem, vivendo com os habitantes da terra, Ele, o verdadeiro Cordeiro que tira o pecado do mundo, Ele, a vítima totalmente pura, que grande motivo de júbilo para as forças do alto e os espíritos celestiais, para todas as ordens dos santos anjos! Eles cantavam, eles cantavam o Seu nascimento segundo a carne: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do Seu agrado» (Lc 2, 14).

Se é verdade, conforme a palavra do Senhor – e é absolutamente verdade –, que «haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converte» (Lc 15, 7), como duvidar de que haja alegria e júbilo nos espíritos do alto, quando Cristo traz à terra inteira o conhecimento da verdade, chama à conversão, justifica pela fé, torna brilhante de luz pela santificação? «Os céus rejubilam porque Deus teve misericórdia», não apenas para com Israel segundo a carne, mas para com Israel compreendido segundo o espírito. «Os fundamentos da terra», ou seja, os ministros sagrados da pregação do Evangelho, «tocaram a trombeta». A sua voz retumbante chegou a toda a parte; como as trombetas sagradas, ela ressoou em todas as partes. Eles anunciaram a glória do Salvador por todos os lugares, chamaram ao conhecimento de Cristo tanto os judeus como os pagãos.

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A Boa Nova renova a face da terra

São Cirilo de Alexandria — Sobre o Profeta Isaías, V, 5; PG 70, 1352–1353; Delhougne, Les Pères commentent, p. 394, conforme a versão equivalente.

Cristo quis atrair o mundo a Si e reconduzir a Deus Pai todos os habitantes da Terra, para refazer todas as coisas e renovar a face da Terra. Sendo o Senhor do Universo, tomou «a condição de servo» (Fil 2,7) e anunciou a Boa Nova aos pobres, pois para isso fora enviado (cf Lc 4,18).

Os pobres, ou antes, aqueles que podemos considerar pobres são os que sofrem por estarem privados do bem, os que se veem sem esperança e sem Deus neste mundo (cf Ef 2,12), como diz a Escritura. São os que vieram do paganismo e, enriquecidos pela fé em Cristo, beneficiaram deste tesouro divino: a proclamação da Salvação, pela qual se tornaram participantes do Reino dos Céus e concidadãos dos santos, herdeiros das realidades que o homem não pode compreender nem exprimir – daquilo que, segundo o apóstolo Paulo, nem olho viu nem ouvido ouviu, nem o coração do homem é capaz de pressentir, que é o que Deus tem preparado para aqueles que O amam (cf 1Cor 2,9). […]

Os descendentes de Israel também tinham o coração ferido, eram pobres e estavam como que prisioneiros, mergulhados nas trevas. […] É precisamente a eles que Cristo anuncia em primeiro lugar os benefícios da sua vinda, proclamando o ano da graça do Senhor (cf Lc 4,19) e o dia da recompensa.

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O cântico novo e o êxodo espiritual

São Cirilo de Alexandria — Sobre Isaías, IV, 1.

«Cantai ao Senhor um cântico novo!» (Sl 95, 1). Novo é o cântico, para se ajustar a realidades novas; Paulo escreveu: «Se alguém está em Cristo é uma criatura nova; o mundo antigo passou, foi feito um mundo novo» (2Cor 5, 17). Os que eram israelitas pelo sangue foram libertados da tirania dos egípcios graças ao mediador desse tempo, o muito sábio Moisés; foram libertados do trabalho penoso dos tijolos, dos suores inúteis das tarefas terrenas […], da crueldade dos supervisores, da dureza inumana do faraó. Atravessaram o mar; no deserto comeram o maná; beberam água que jorrou do rochedo; passaram o Jordão a pé enxuto; foram introduzidos na Terra da promessa.

Ora, por nós, tudo isso foi renovado, e o mundo novo é incomparavelmente melhor que o antigo. Nós fomos libertados de uma escravatura, não terrena, mas espiritual; fomos libertados, não só das tarefas desta terra, mas da mancha dos prazeres carnais. Escapámos, não aos contramestres egípcios ou ao tirano ímpio e impiedoso, homem como nós, mas aos demónios malignos e impuros que incitam a pecar, e ao chefe da sua raça, Satanás.

Atravessámos as ondas da vida presente, como um mar, com o seu tumulto e as suas loucas agitações. Comemos o maná espiritual, o pão descido do céu, que dá a vida ao mundo. Bebemos a água que jorra da rocha, fazendo das águas vivas de Cristo as nossas delícias. Atravessámos o Jordão graças ao santo baptismo que fomos julgados dignos de receber. Entrámos na Terra prometida aos santos e preparada para eles, esta terra que o Senhor recorda ao dizer: «Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra» (Mt 5,5).

Nota editorial: A bem-aventurança dos mansos foi identificada segundo a numeração corrente de Mt 5,5; há tradições de numeração que a apresentam em Mt 5,4.

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O deserto floresce e torna-se caminho santo

São Cirilo de Alexandria — Sobre Isaías, III, 3; Ir. Isabelle de la Source, Lire la Bible, t. 6, p. 99.

«O deserto e a terra árida alegrar-se-ão, a terra desolada exultará e florescerá» (Is 35, 1). Aquela a quem a Escritura inspirada chama em geral desértica e estéril é a Igreja vinda dos pagãos. Ela já existia entre os povos, mas não tinha recebido do céu o seu Esposo místico, quer dizer, o Cristo. […] Mas Cristo veio a ela: foi cativado pela sua fé, enriqueceu-a com o rio divino que jorra Dele, e jorra porque Ele é «fonte de vida, torrente de delícias» (Sl 35, 10.9). […] Assim que Ele Se tornou presente, a Igreja deixou de ser estéril e deserta; ela encontrou o seu Esposo, trouxe ao mundo inumeráveis filhos, cobriu-se de flores místicas. […]

Isaías continua: «O deserto será atravessado por um caminho puro, que se chamará Caminho Sagrado» (Is 35, 8). O caminho puro é a força do Evangelho, penetrando a vida, ou, dizendo de outro modo, é a purificação do Espírito. Porque o Espírito retira a mancha imprimida na alma humana, liberta-a dos pecados e destrói qualquer nódoa. Este caminho é, pois, justamente chamado santo e puro; ele é inacessível a quem não está purificado. Com efeito, ninguém pode viver segundo o Evangelho se não foi primeiro purificado pelo santo baptismo; portanto, ninguém o pode sem a fé. […]

Só os que foram libertados da tirania do demónio poderão ter a vida gloriosa que o profeta ilustra com estas imagens: «Aí não haverá leões, nem animal feroz por aí passará» (Is 35, 9), por esse caminho puro. Anteriormente, com efeito, como um animal feroz, o diabo, esse inventor do pecado, atacava, com os espíritos maus, os habitantes da terra. Mas foi reduzido por Cristo ao puro nada, afastado para longe do rebanho dos crentes, despojado do domínio que exercia sobre eles. É por isso que, resgatados por Cristo e reunidos na fé, eles caminharão num só coração por este caminho puro (v. 9). Abandonando os seus antigos caminhos, «chegarão a Sião», quer dizer, à Igreja, «com uma alegria que não terá fim» (v. 10) nem na terra, nem nos céus, e darão glória a Deus, seu Salvador.

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A vitória de Cristo derruba as potências adversas

São Cirilo de Alexandria — Sobre Isaías, III, 1; Ir. Isabelle de la Source, Lire la Bible, t. 6, p. 76.

«Reduzistes a cidade a um montão de pedras; a cidadela dos orgulhosos está aniquilada, jamais será reedificada. Por isso um povo forte vos glorifica» (Is 25,2-3). Pertence ao desígnio constante de Deus omnipotente e aos Seus conselhos irrepreensíveis reduzir as «cidadelas» a «montões de pedra», abalá-las desde os fundamentos, sem esperança de voltarem a erguer-se. «Jamais será reedificada», diz o texto. Estas cidades destruídas não são, a nosso ver, aquelas que são perceptíveis pelos sentidos, nem são os homens que nelas vivem. Parece-nos que se trata antes das potências más e hostis, e sobretudo de Satanás, aqui chamado cidade e «cidadela». […]

Quando o Emanuel apareceu e brilhou neste mundo, a tropa ímpia das potências adversas foi derrubada, Satanás foi abalado nos seus fundamentos e caiu, enfraquecido para sempre, sem esperança de voltar a erguer-se, de levantar de novo a cabeça.

É por isso que o povo pobre e a cidade dos homens oprimidos bendirá o Senhor. Israel foi chamado ao conhecimento de Deus pela pedagogia da Lei, foi cumulado de todos os bens por Deus. Sim, Israel foi salvo e obteve em herança a terra da promessa. Mas a multidão das nações que estão sob o céu estava privada destes bens espirituais. […] Quando Cristo apareceu em pessoa e, destruindo a tirania do demónio, as conduziu a seu Deus e seu Pai, foram enriquecidas com a luz da verdade pela participação na glória divina, pela grandeza da vida do Evangelho. É por isso que cantam hinos de acções de graças a Deus Pai: «Vós realizastes os Vossos maravilhosos desígnios» (v. 1), tudo recapitulando em Cristo. Vós iluminastes aqueles que se encontravam nas trevas (cf. Lc 1, 79), derrubando as potências que dominam o mundo (cf. Ef 6, 12) como se derrubam cidadelas. «Por isso um povo forte vos glorifica».

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Cristo, primícias da humanidade reunida

São Cirilo de Alexandria — Comentário sobre o Livro dos Números, II; PG 69, 619; Delhougne, Les Pères commentent, p. 193, conforme o acervo.

Cristo, primícias da nova criação […], depois de ter vencido a morte, ressuscitou e sobe para o Pai como oferenda magnífica e esplendorosa, como as primícias do género humano, renovado e incorruptível. […] Podemos considerá-Lo o símbolo do feixe das primícias da colheita que o Senhor exigiu a Israel que oferecesse no Templo (Lev 23, 9). O que representa este sinal?

Podemos comparar o género humano às espigas de um campo, que nascem da terra, ficam à espera de crescer e, depois de amadurecerem, são apanhadas pela morte. Era por isso que Cristo dizia aos Seus discípulos: «Não dizeis vós que, dentro de quatro meses, chegará o tempo da ceifa? Pois bem, Eu digo-vos: erguei os olhos e vede. Os campos estão brancos para a ceifa. O ceifeiro já recebe o salário e recolhe o fruto para a vida eterna» (Jo 4, 35-36). Ora, Cristo nasceu entre nós, nasceu da Virgem Santa como as espigas brotam da terra. Aliás, não hesita em dizer de Si próprio que é o grão de trigo: «Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto.» Deste modo, ofereceu-Se por nós ao Pai, à maneira de um feixe e como primícias da terra.

Porque a espiga de trigo, como aliás nós próprios, não pode ser considerada isoladamente. Vemo-la num feixe, constituído por numerosas espigas de um mesmo braçado. Cristo Jesus é único, mas aparece-nos como um feixe, e constitui efectivamente uma espécie de braçado, no sentido em que contém em Si todos os crentes, em união espiritual, evidentemente. Se assim não fosse, como poderia São Paulo escrever: «Com Ele nos ressuscitou e nos fez sentar lá nos céus» (Ef 2, 6)? Com efeito, uma vez que Se fez um de nós, nós formamos com Ele um mesmo corpo (Ef 3, 6). […] Aliás, é Ele quem dirige estas palavras a Seu Pai: «Que todos sejam um como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em Ti» (Jo 17, 21). O Senhor constitui, pois, as primícias da humanidade, que está destinada a ser armazenada nos celeiros do céu.

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Cristo abre para nós o caminho do céu

São Cirilo de Alexandria — Comentário ao Evangelho de João, livro IX; PG 74, 182–183; Delhougne, Les Pères commentent, p. 373, conforme a versão equivalente.

«Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, como teria Eu dito que vos vou preparar um lugar?» (Jo 14,2) […] O Senhor sabia que muitas dessas moradas já estavam preparadas e esperavam a chegada dos amigos de Deus. Atribui, portanto, outro motivo à sua partida: preparar o caminho para a nossa ascensão a esses lugares no Céu, abrindo uma passagem, visto que, até então, ele nos era inacessível. Porque o Céu estava completamente fechado aos homens, e nunca um ser de carne tinha penetrado nesse santíssimo e puríssimo domínio dos anjos.

É Cristo quem nos inaugura esse caminho rumo às alturas. Ao oferecer-Se a si mesmo ao Pai como primícias dos que dormem nos túmulos da terra, permite à carne subir ao Céu, e Ele próprio é o primeiro homem a aparecer aos seus habitantes. Os anjos, que não conheciam o mistério grandioso de uma entronização celeste da carne, contemplaram com assombro e admiração essa ascensão de Cristo. Quase perturbados perante esse espectáculo inaudito, exclamaram: «Quem é Este que vem de Edom?» (Is 63,1), isto é, da terra. Mas o Espírito não lhes permite que permaneçam na ignorância, e […] ordena que se abram as portas diante do Rei e Senhor do universo: «Levantai, ó portas, os vossos umbrais, alteai-vos, pórticos antigos, e entrará o Rei da glória» (Sl 23,7).

Portanto, nosso Senhor Jesus Cristo inaugurou para nós «um caminho novo e vivo»; como diz São Paulo, «Ele não entrou num santuário feito por mão humana […], mas entrou no próprio Céu, para Se apresentar agora diante de Deus em nosso favor» (Heb 10,20; 9,24).

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O Ressuscitado comunica a paz

São Cirilo de Alexandria — Comentário ao Evangelho de João, livro XII; PG 74, 704.

Ao entrar no Cenáculo com as portas trancadas, Cristo mostrou, uma vez mais, que é Deus por natureza, embora não seja diferente daquele que anteriormente vivia com os seus discípulos. Ao descobrir-lhes o lado, mostrando-lhes as marcas dos cravos, mostrou-lhes claramente que tinha reconstruído o templo do seu corpo, que fora suspenso da cruz (cf Jo 2,19), destruindo a morte física, uma vez que Ele é, por natureza, a vida e é Deus. […]

Mesmo que Cristo tivesse querido tornar visível aos discípulos a glória do seu corpo antes de subir para o Pai, os nossos olhos não teriam tido capacidade de suportar tal visão. Percebemos que assim é recordando a transfiguração que teve lugar no alto da montanha (Mt 17,1s). […] Foi por isso que, observando com precisão os planos divinos, Nosso Senhor Jesus apareceu no Cenáculo ainda com a forma que tivera no passado, e não segundo a glória que é devida e que convém ao seu templo transfigurado. Ele não queria que a fé na ressurreição dissesse respeito a um aspeto e a um corpo diferentes daqueles que tinha recebido da Santíssima Virgem e nos quais morreu, depois de ter sido crucificado, segundo as Escrituras. […]

O Senhor saúda os seus discípulos dizendo-lhes: «A paz esteja convosco». Deste modo, declara que Ele próprio é a paz, porque quantos usufruem da sua presença usufruem também de um espírito perfeitamente pacificado. Era precisamente isso que S. Paulo desejava aos discípulos quando lhes dizia: «A paz de Deus, que ultrapassa toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus» (Fil 4,7). Para S. Paulo, a paz de Cristo, que ultrapassa tudo quanto pode ser concebido, não é senão o seu Espírito (cf Jo 20,21-22); aquele que participa no seu espírito será cumulado de todos os bens.

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Homilias transmitidas sob o nome de Cirilo

O Legislador cumpre a Lei por nós

Homilia transmitida sob o nome de São Cirilo de Alexandria — Homilia 12; PG 77, 1041 e seguintes; Delhougne, Les Pères commentent, p. 174, conforme a versão equivalente.

Vimos Cristo obedecer à Lei de Moisés, o que quer dizer que Deus, o legislador, Se submeteu, como um homem, às suas próprias leis, como nos ensina São Paulo […]: «Ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à Lei, para resgatar os que se encontravam sob o jugo da Lei» (Gal 4,4-5). Por conseguinte, Cristo resgatou da maldição da Lei os que a ela estavam sujeitos, mas não a observavam. De que modo os resgatou? Aperfeiçoando esta Lei; dito de outro modo, a fim de apagar a transgressão da qual Adão se tornara culpado, Ele foi obediente e dócil a Deus Pai em nosso lugar. Porque está escrito: «Assim como, pela desobediência de um só, muitos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos se tornaram justos» (Rom 5,19). Connosco, Ele curvou a cabeça perante a Lei, e fê-lo segundo o plano divino da encarnação. Com efeito, «convém que se cumpra toda a justiça» (Mt 3,15).

Depois de ter tomado completamente a condição de servo (cf Fil 2,7), precisamente porque a sua condição humana O agregava ao número dos que suportavam o jugo, pagou o montante do imposto aos cobradores como toda a gente, ainda que, por natureza e como Filho, estivesse dispensado disso. Por conseguinte, quando O vires observar a Lei, não fiques chocado, não ponhas no rol de servos Aquele que é livre, mas medita na profundidade de tal desígnio.

Nota editorial: Conservam-se a atribuição e a referência recebidas. A autenticidade desta homilia não foi revalidada nesta edição.

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A Transfiguração anuncia a Paixão e a glória

Homilia transmitida sob o nome de São Cirilo de Alexandria — Homilia 9, sobre a Transfiguração; PG 77, 1011; Delhougne, Les Pères commentent, p. 342.

Jesus subiu à montanha com os três discípulos que escolheu. Depois foi transfigurado por uma luz fulgurante e divina, a ponto de as Suas vestes parecerem brilhar como a luz. Seguidamente, Moisés e Elias envolveram Jesus, falaram entre eles da Sua partida, que devia acontecer em Jerusalém, quer dizer, do mistério da Sua incarnação e da Sua Paixão salvadora, que devia concretizar-se na cruz. Porque é verdade que a lei de Moisés e a pregação dos profetas tinham mostrado antecipadamente o mistério de Cristo. […] Esta presença de Moisés e de Elias e a conversa entre eles tinha como objectivo mostrar que a Lei e os profetas formavam como que o cortejo de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Senhor que tinham profetizado. […] Depois de terem aparecido não se calavam, falando da glória de que o Senhor ia ser cumulado em Jerusalém pela Sua Paixão e pela Sua cruz e, sobretudo, pela Sua ressurreição.

Talvez o bem-aventurado São Pedro, acreditando que tinha chegado o Reino de Deus, tenha desejado permanecer na montanha, porque disse que deviam fazer «três tendas». […] «Não sabia o que estava a dizer». Porque ainda não tinha chegado o momento do fim do mundo e não será no tempo presente que os santos usufruirão da esperança que lhes foi prometida. É que São Paulo afirma: «Ele transfigurará o nosso pobre corpo, conformando-o ao Seu corpo glorioso» (Fil 3, 21).

Uma vez que o projeto da Salvação ainda não estava completo, estando apenas no seu começo, não era possível que Cristo, que tinha vindo ao mundo por amor, renunciasse a querer sofrer por ele. Porque Ele manteve a natureza humana para sofrer a morte na Sua carne, e para a destruir pela Sua ressurreição de entre os mortos.

Nota editorial: A identificação segue o acervo; não constitui nova conclusão de autenticidade.

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Hossana: acolher o Rei na sua humildade

Homilia transmitida sob o nome de São Cirilo de Alexandria — Homilia 13; PG 77, 1049, conforme o acervo.

Irmãos, celebremos hoje a vinda do nosso Rei, vamos ao Seu encontro, porque Ele também é o nosso Deus. […] Elevemos o coração até Deus, não apaguemos o Espírito (1Ts 5,19), aprontemos alegremente as candeias (Mt 25,7), mudemos as vestes da alma. Quais vencedores, peguemos em palmas e, quais pessoas simples, aclamemo-Lo com o povo. Com as crianças, cantemos, com um coração infantil: «Hossana! Bendito seja O que vem em nome do Senhor!» (Mt 21,15) […] Hoje mesmo Ele entra em Jerusalém, de novo se prepara a cruz, o documento de acusação de Adão foi abolido (Col 2,14); de novo se abre o Paraíso, e o ladrão nele entra (Lc 23,43); de novo a Igreja está em festa. […]

Ele não vem acompanhado pelas forças invisíveis do céu e pelas legiões de anjos; não está sentado num trono alto e sublime, protegido pelas asas dos serafins, por um carro de fogo e por seres vivos de múltiplos olhos, que tudo fazem tremer com prodígios e com o som das trombetas (Ez 1,4ss). Ele vem escondido na natureza humana. É uma exaltação de bondade, não de justiça; de perdão, não de vingança. Ele não aparece na glória de Seu Pai (Ex 19,16ss), mas na humildade de Sua mãe. Já outrora o profeta Zacarias nos anunciara esta aparição; e convidava toda a criação ao júbilo […]: «Exulta de alegria, filha de Sião!» (Za 9,9) As mesmas palavras que o anjo Gabriel pronunciara à Virgem: «Salve, ó cheia de graça» (Lc 1,28), e a mesma mensagem que o Salvador anunciou às santas mulheres após a Sua ressurreição: «Salve!» (Mt 28,9) […]

«Exulta de alegria, filha de Jerusalém! Aí vem o teu Rei, ao teu encontro, manso e montado num jumentinho, filho de uma jumenta». […] Que significa isto? Ele não vem com pompa e esplendor, como é próprio dos reis. Vem na condição de servo (Fl 2,7), de esposo cheio de ternura, de Cordeiro dulcíssimo (Jo 1,29), fresco orvalho no Seu velo (Jz 6,36ss), ovelha que é levada ao matadouro (Jr 11,19), manso cordeiro arrastado para o sacrifício (Is 53,7). […] Hoje, os filhos dos hebreus correm à Sua frente, oferecendo ramos de oliveira Àquele que é misericordioso e, em júbilo, recebem com palmas o Vencedor da morte. «Hossana! Bendito seja O que vem em nome do Senhor!»

Nota editorial: Conservam-se a atribuição e os dados bibliográficos recebidos, sem afirmar que a numeração ou a autenticidade tenham sido revalidadas nesta edição.

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Saudação a Maria, Mãe de Deus

Homilia atribuída a São Cirilo de Alexandria — Homilia apresentada no acervo como proferida no Concílio de Éfeso, em 431; atribuição expressamente recebida.

Nós te saudamos Maria, Mãe de Deus, tesouro escondido de todo o universo, astro sem declínio, coroa da virgindade, ceptro da fé ortodoxa, templo indestrutível, morada do incomensurável, Mãe e Virgem, por quem é chamado «bendito», nos santos evangelhos, «Aquele que vem em nome do Senhor» (Mt 21,9; Sl 117,26).

Saudamos-te, a ti que levaste no teu seio virginal Aquele que os céus não podem conter. Graças a ti, a Trindade é glorificada e adorada em toda a terra; graças a ti, o céu exulta, os anjos e os arcanjos se alegram, os demónios são afugentados, o tentador caiu do céu, os homens decaídos são elevados ao céu. Graças a ti, o mundo inteiro, cativo da idolatria, chegou ao conhecimento da verdade, o santo Batismo é dado, com o «óleo da alegria» (Sl 45,8), àqueles que acreditam, foram fundadas igrejas em todo o mundo, as nações pagãs foram levadas à conversão.

E que mais poderei dizer? Foi graças a ti que a luz do Filho único de Deus brilhou para «aqueles que viviam nas trevas e nas sombras da morte» (Lc 1,79; Is 42,7). […] Quem poderá celebrar dignamente os louvores a Maria? Ela é ao mesmo tempo mãe e virgem. Que maravilha! Quem jamais ouviu dizer que o construtor pudesse ser impedido de morar no templo que ele mesmo construiu? Quem ousaria criticar Aquele que dá à Sua serva (cf. LC 1,48) o título de mãe? Eis que assim o mundo inteiro se alegra. […] Que nos seja permitido, isto é, à santa Igreja, venerar e honrar a Trindade indivisa cantando louvores a Maria sempre Virgem e ao seu Filho e seu Esposo imaculado.

Nota editorial: A fonte já ressalvava a autoria com «atribuída». Mantém-se essa ressalva. Corrigiu-se a referência incompleta «Mt,9» para Mt 21,9 e dois lapsos de composição.

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Fontes e critérios

As traduções portuguesas procedem do acervo Sophia, com fonte declarada Evangelho Cotidiano / Evangelizo, e do item 11 de Sophia.docx. Preservam-se os dados disponíveis de PG (Patrologia Graeca), do Breviário, de Delhougne, de Isabelle de la Source e das coletâneas citadas. As referências incompletas são identificadas; não se trata de uma nova tradução.

Foram reservadas duas homilias contemporâneas, o índice geral e uma passagem da Catequese 13 de Cirilo de Jerusalém. As homilias do último tema são apresentadas sob a atribuição recebida, com ressalvas; não se pretende estabelecer aqui um catálogo crítico de autenticidade.

Cotejo do texto sobre a formação dos discípulos: Comentário de Cirilo de Alexandria a Lucas, fragmentos do Sermão 29 e Sermão 33, tradução histórica de R. Payne Smith (1859).

Os mapas de origem, as variantes e as decisões de reserva permanecem no registro editorial interno. Preparação em 20 de outubro de 2026.

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