Esta antologia reúne homilias, comentários bíblicos e reflexões espirituais de Orígenes conservados no acervo Sophia. A leitura das Escrituras, a luz de Cristo, a conversão do coração, a oração, a caridade e a esperança da ressurreição orientam o percurso.
Versões equivalentes foram cotejadas e reunidas; excertos complementares permanecem distintos quando desenvolvem aspectos próprios. O texto de Sophia.docx sobre a iluminação dos olhos do coração foi integrado integralmente. As indicações bibliográficas incompletas ou divergentes são assinaladas junto aos textos.
Sumário
- A Escritura e a luz de Cristo
- Os quatro Evangelhos recebidos pela Igreja
- João e as primícias do Evangelho
- O Verbo se deixa encontrar sob o véu da Escritura
- A novidade espiritual da Lei e do Evangelho
- Cristo ilumina os olhos do coração
- A Igreja recebe de Cristo a sua luz
- Subir com Cristo para receber mais luz
- Beber da fonte das Escrituras
- Rebeca junto ao poço: acolher a palavra inspirada
- O Pastor conduz à luz do meio-dia
- Avançar sempre no conhecimento de Deus
- O Verbo feito carne e seus servidores
- A grandeza divina nos limites da nossa humanidade
- Isaac, o carneiro e a oferta de Cristo
- O Espírito permanece sobre o Filho
- O Senhor se abaixa para lavar os pés
- Pés purificados para anunciar a Boa Nova
- João é a voz; Cristo é a Palavra
- A grandeza de João aos olhos de Deus
- O precursor recebe o Espírito desde o seio materno
- A visita da Mãe do Senhor e a alegria de Isabel
- Buscar e acolher o Salvador
- Procurar Jesus no templo e na Igreja
- Jesus continua a ensinar na assembleia
- Fixar em Jesus os olhos da alma
- Buscar o Verbo de coração sincero
- Escutar a voz do Esposo que vem
- Nas ondas da provação: Senhor, salva-me
- A fé da cananeia e a passagem do mal ao bem
- Tocar com fé a humanidade de Cristo
- Receber Jesus nos braços e partir em paz
- Simeão acolhe Aquele que liberta
- Conversão, liberdade e combate interior
- Preparar no coração um caminho para o Senhor
- Cristo endireita os caminhos da nossa alma
- Encontrar em nós a imagem do Rei celeste
- O combate espiritual acontece no coração
- Jesus vence os reinos do pecado
- Sair da servidão do faraó e revestir o homem novo
- A liberdade que só o Filho pode dar
- Ser filho de Abraão pelas obras da fé
- Oferecer a Deus a fé e o amor
- O caminho estreito da fé e das virtudes
- A provação revela o trigo e a palha
- Construir sobre a rocha antes da tempestade
- As lágrimas de Jesus sobre a nossa Jerusalém
- Oração e caridade
- Reconciliar-se antes de orar
- Erguer a alma a Deus com atenção e humildade
- Que o Reino de Deus cresça dentro de nós
- Venha o teu Reino: dar frutos do Espírito
- Jejuar do pecado e repartir com o pobre
- O amor de Cristo nos faz próximos de todos
- Cristo, o Samaritano que cuida do ferido
- O perfume de Cristo enche a casa
- A Igreja, a missão e a ressurreição
- Pedras vivas sobre o fundamento de Cristo
- A arca da Igreja acolhe os que são salvos
- O templo de pedras vivas e a paz perfeita
- O poder divino na palavra dos apóstolos
- Os anjos servem à obra da salvação
- Cristo rompe os laços do inimigo e da morte
- Participar nos sofrimentos e na consolação de Cristo
- A liberdade de João diante de Herodes
- O templo e a ressurreição do corpo inteiro de Cristo
- Caminhar na luz enquanto dura o dia
- A vinda do Senhor e a herança prometida
- Conhecer a meta para a qual fomos criados
- O verdadeiro sábado e o repouso futuro
- Fontes e critérios
A Escritura e a luz de Cristo
Os quatro Evangelhos recebidos pela Igreja
Orígenes — Homilias sobre São Lucas, n.º 1,1-2
«Visto que muitos empreenderam compor uma narração dos factos que entre nós se consumaram, […] resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expô-los a ti por escrito e pela sua ordem, caríssimo Teófilo, a fim de reconheceres a solidez da doutrina em que foste instruído» (Lc 1, 1-4).
Antigamente, entre os judeus, um grande número de pessoas presumia ter o dom da profecia, mas alguns eram falsos profetas. […] O mesmo se passou no tempo no Novo Testamento, em que muitos «empreenderam» escrever evangelhos, mas nem todos foram aceites. […] A palavra «empreenderam» contém uma acusação velada contra aqueles que, sem terem a graça do Espírito Santo, se lançaram na redação de evangelhos. Mateus, Marcos, João e Lucas não «empreenderam» escrever, mas, cheios do Espírito Santo, escreveram efetivamente os verdadeiros Evangelhos. […]
A Igreja tem, pois, quatro evangelhos; os hereges têm-nos em grande número. […] «Muitos empreenderam compor uma narração», mas apenas quatro evangelhos foram aprovados; e é desses que devemos retirar, para trazer à luz, aquilo em que é necessário crer sobre a pessoa do Nosso Senhor e Salvador. Sei que existe um evangelho a que chamam «segundo S. Tomé», outro «segundo Matias» e lemos ainda outros tantos para não fazermos figura de ignorantes diante daqueles que imaginam saber alguma coisa porque conhecem esses textos. Mas, em tudo isso, só aprovamos aquilo que a Igreja aprova: admitimos apenas quatro evangelhos. É isto que podemos dizer sobre o texto do prólogo de S. Lucas: «Muitos empreenderam compor uma narração dos factos que entre nós se consumaram».
João e as primícias do Evangelho
Orígenes — Comentário ao Evangelho de João, I, 21–25, segundo a numeração recebida.
Considero os quatro evangelhos os elementos essenciais da fé da Igreja […] e penso que as suas primícias estão […] no Evangelho de João, o qual, para falar daquele de quem outros fizeram a genealogia, se inicia precisamente por Aquele que não a tem. Com efeito, escrevendo para judeus que esperavam o descendente de Abraão e de David, Mateus diz: «Genealogia de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão» (Mt 1,1); e Marcos, sabendo muito bem o que escreve, traz: «Princípio do evangelho» (Mc 1,1). Já em João encontramos o fim do evangelho: é o Verbo que era no princípio, a Palavra de Deus (cf 1,1).
Também Lucas reservou ao discípulo que repousou sobre o peito de Jesus (cf Jo 13,25) os maiores e mais perfeitos discursos sobre Ele. E nenhum mostrou a sua divindade de modo tão absoluto como João, que O faz dizer: «Eu sou a luz do mundo» (8,12), «Eu sou o caminho, a verdade e a vida» (14,6), «Eu sou a ressurreição» (11,25), «Eu sou a porta» (10,9), «Eu sou o Bom Pastor» (10,11), e, no Apocalipse: «Eu sou o Alfa e o Ómega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim» (22,13).
Por isso me atrevo a dizer que os evangelhos são as primícias de toda a Escritura e que, dos evangelhos, as primícias são o de João, cujo sentido completo ninguém seria capaz de abarcar se não tivesse descansado sobre o peito de Jesus e recebido dele Maria por Mãe (cf Jo 19,26-27). […] Quando Jesus diz a sua Mãe: «Eis o teu filho» e não: «Eis o homem que também é teu filho», é como se lhe dissesse: «Eis o teu filho, gerado por ti», porquanto quem chega a viver em perfeição, não é ele quem vive, mas Cristo que vive nele (cf Gal 2,20). […] Será preciso ainda dizer de que inteligência temos necessidade para podermos interpretar dignamente a palavra depositada, como um tesouro (cf 2Cor 4,7), nos vasos de barro do uso comum da linguagem, numa caligrafia que todos podem ler, a palavra que todos podem ouvir se alguém lhe der voz e compreender se prestarem atenção? Assim, para interpretarmos devidamente o evangelho de João, em boa verdade basta-nos ser capazes de dizer: «Nós, porém, temos o pensamento de Cristo, para conhecermos os dons da graça de Deus» (1Cor 2,16.12).
Nota editorial: Versões equivalentes reunidas. A numeração de capítulos varia entre as edições; o trecho inicial corresponde ao livro I, § 6, na tradução histórica de Allan Menzies.
O Verbo se deixa encontrar sob o véu da Escritura
Orígenes — Homilia 1 sobre o Levítico; PG 12,405 (cf SC 286)
Quando, nos últimos dias, o Verbo de Deus nasceu de Maria revestido de carne e Se mostrou neste mundo, aquilo que se via d’Ele era outra coisa que não aquela que a inteligência podia discernir. Ver a Sua carne era evidente para todos, mas o conhecimento da Sua divindade era dado apenas a alguns. Do mesmo modo, quando o Verbo de Deus Se dirige aos homens através da lei antiga e dos profetas, apresenta-Se coberto com as vestes adequadas. Na Sua encarnação, vestiu-Se de carne; nas Sagradas Escrituras, está vestido com o véu das letras. O véu das letras é comparável à Sua humanidade, e o sentido espiritual da Lei à Sua divindade. No livro do Levítico encontramos os ritos do sacrifício, as diversas vítimas, o serviço litúrgico dos sacerdotes […]; bem-aventurados os olhos que vêem o Espírito divino oculto no interior do véu. […]
«Quando alguém se vira para o Senhor, diz o apóstolo Paulo, o véu é tirado, pois onde está o Espírito do Senhor há liberdade» (2Cor 3,17). É, portanto, ao próprio Senhor, ao próprio Espírito Santo, que devemos rezar para que Ele Se digne remover toda a obscuridade e que possamos contemplar em Jesus o admirável sentido da Lei, como aquele que disse: «Abri os meus olhos para que possa contemplar as maravilhas da Vossa Lei» (Sl 118,18).
A novidade espiritual da Lei e do Evangelho
Orígenes — Homilias sobre os Números, nº 9, 4 (trad. SC 415, p. 239 rev.)
Desejo recordar aos discípulos de Cristo a bondade de Deus; que nenhum de vós se deixe abalar pelos hereges que, em controvérsia, afirmam que o Deus da Lei não é bom, mas justo, e que a Lei de Moisés não ensina a bondade, mas a justiça. Eles que observem, esses detractores de Deus e da Lei, como o próprio Moisés e Aarão cumpriram antecipadamente aquilo que o Evangelho depois ensinou. Vede como Moisés ama os seus inimigos e ora por aqueles que o perseguem (Mt 5, 44) […]; vede como, «prostrando-se com o rosto em terra», oram ambos por aqueles que se tinham rebelado e pretendiam matá-los (Nm 17, 10ss.). Deste modo, encontramos o Evangelho em potência na Lei, e temos de compreender que os Evangelhos se apoiam no fundamento da Lei.
Por mim, não dou o nome de Antigo Testamento à Lei, quando a considero em termos espirituais; a Lei só é um «Testamento Antigo» para aqueles que não desejam compreender o seu espírito. Para esses, a Lei tornou-se obrigatoriamente «antiga», envelheceu, porque perdeu a sua força. Para nós, porém, que a compreendemos e a explicamos em espírito e em conformidade com o Evangelho, a Lei permanece nova; para nós, os dois Testamentos são um novo Testamento, não pela data, mas pela novidade do sentido.
E não é certo que o Apóstolo João é do mesmo parecer, quando afirma na sua epístola: Caríssimos, dou-vos um mandamento novo, que vos ameis uns aos outros (4, 7; Jo 13, 34)? Bem sabia ele que o preceito do amor se encontrava, desde há muito, na Lei (1Jo 2, 7ss.; Lev 19, 18). Mas, como «a caridade nunca acabará» (1Cor 13, 8), […] afirma a eterna novidade deste preceito que não envelhece. […] Para o pecador, e para aqueles que não observam o pacto da caridade, até os Evangelhos envelhecem; não pode haver um Novo Testamento para aquele que não se despoja do homem velho e não se reveste do homem novo, criado segundo Deus (Ef 4, 22-24).
Cristo ilumina os olhos do coração
Orígenes — Homilias sobre o Gênesis; numeração não indicada em Sophia.docx.
O Sol e a Lua iluminam o nosso corpo; Cristo e a Igreja iluminam o nosso espírito. Isto é, iluminam-nos se não formos espiritualmente cegos; porque, do mesmo modo que o Sol e a Lua não deixam de derramar a sua claridade sobre os cegos, que, contudo, não podem acolher a luz, também Cristo envia a sua luz aos nossos espíritos, mas esta iluminação só tem lugar se a nossa cegueira não lhe puser obstáculos. Por isso, os cegos devem começar por seguir a Cristo gritando: «Filho de David, tem misericórdia de nós!» (Mt 9,27); e quando, graças a Ele, tiverem recuperado a vista, poderão ser iluminados com o esplendor da luz.
Mas nem todos os que veem são iluminados de igual forma por Cristo; cada um o é na medida em que pode receber a luz (cf Lc 23,8 ss). […] Não é da mesma maneira que todos vamos a Ele, mas «conforme a capacidade de cada qual» (Mt 25,15).
Nota editorial: Sophia.docx 7 foi preservado integralmente e substitui a versão equivalente do acervo.
A Igreja recebe de Cristo a sua luz
Orígenes — Homilias sobre o Gênesis, I, 5–7, conforme a referência recebida.
Cristo é «a luz do mundo» (Jo 8,12), que ilumina a Igreja com a sua luz; e, tal como a lua recebe a sua luz do sol a fim de iluminar a noite, assim também a Igreja, recebendo a luz de Cristo, ilumina todos aqueles que se encontram na noite da ignorância. […] Cristo é «a luz verdadeira, que ilumina todo o homem que veio a este mundo» (Jo 1,9), e a Igreja, recebendo a sua luz, torna-se luz do mundo, «iluminando aqueles que caminham nas trevas» (Rom 2,19), de acordo com esta palavra de Cristo aos seus discípulos: «Vós sois a luz do mundo» (Mt 5,14). Daqui se conclui que Cristo é a luz dos apóstolos, e os apóstolos, por sua vez, são a luz do mundo.
Nota editorial: O post reunia esta passagem e outra sobre Rebeca. As duas foram separadas; a segunda foi cotejada com a Homilia X, 2.
Subir com Cristo para receber mais luz
Orígenes — Homilias sobre o Gênesis, 1, 7
Nem todos os que contemplam Cristo são igualmente iluminados por Ele; cada um o é na medida em que pode receber a luz. Os olhos do nosso corpo não são igualmente iluminados pelo Sol; quanto mais subimos a lugares elevados, quanto mais alto contemplamos o nascer do Sol, melhor recebemos a sua luz e o seu calor. Assim também o nosso espírito, quanto mais subir e se elevar para perto de Cristo, mais perto se lhe oferecerá a luz da sua claridade e será iluminado pela sua luz de forma mais brilhante e magnífica. Disse o Senhor de Si próprio através do profeta: «Aproximai-vos de Mim e Eu aproximar-Me-ei de vós» (Zc 1,3). […]
Portanto, não vamos todos a Ele do mesmo modo, mas cada qual «segundo as suas próprias capacidades» (Mt 25,15): ou é com as multidões que vamos a Ele e Ele alimenta-nos em parábolas, para que não enfraqueçamos de privação no caminho (cf Mc 8,3), ou permanecemos a seus pés sem cessar, preocupando-nos apenas em ouvir a sua palavra, sem nunca nos deixarmos perturbar por múltiplos cuidados das obrigações (cf Lc 10,38s) […]; os que se aproximam dele assim recebem muito mais a sua luz.
Mas se «permanecemos com Ele em todas as suas provações» (Lc 22,28) como os apóstolos, sem nunca nos afastarmos, Ele explica-nos em segredo o que disse às multidões, iluminando-nos ainda com mais claridade (cf Mt 13,11s). Enfim, se algum for capaz de subir com Ele à montanha, como Pedro, Tiago e João, esse não será iluminado somente pela luz de Cristo, mas pela voz do próprio Pai.
Beber da fonte das Escrituras
Orígenes — Homilias sobre o Gênesis, n°12, 5 (a partir da trad. SC 7, p. 307 rev.)
«Bebe a água das tuas fontes e dos teus poços, e que a tua fonte seja realmente tua» (Pr 5, 15.17). Tu que me escutas, tenta ter um poço teu e uma fonte tua; deste modo, quando pegares nas Escrituras, também tu conseguirás descobrir, por ti mesmo, alguma interpretação. Sim, de acordo com o que aprendeste na Igreja, tenta beber da fonte do teu espírito. No interior de ti próprio existe […] «a água viva» (Jo 4, 10); há canais inesgotáveis e rios engrossados com o sentido espiritual das Escrituras, desde que não estejam obstruídos com terra e entulho. Neste caso, o que é preciso fazer é cavar e limpar, ou seja, expulsar a preguiça do espírito e sacudir o torpor do coração. […]
Purifica, pois, o teu espírito, para que um dia bebas das tuas fontes e extraias a água viva dos teus poços. Porque se recebeste em ti a palavra de Deus, se recebeste de Jesus a água viva e se a recebeste com fé, ela tornar-se-á em ti «fonte de água que brota para a vida eterna» (Jo 4, 14).
Rebeca junto ao poço: acolher a palavra inspirada
Orígenes — Homilias sobre o Gênesis, n.º 10, 2
«Ela [Rebeca] desceu à fonte e encheu o cântaro», diz-nos a Escritura (Gn 24,16). Todos os dias Rebeca ia à fonte buscar água. E, como todos os dias passava algum tempo junto do poço, o servo de Abraão pôde encontrá-la e dá-la em casamento a Isaac. Poderíamos pensar que se trata de um conto ou de uma bela história posta na Escritura pelo Espírito Santo; mas não, trata-se de um verdadeiro ensinamento espiritual, de uma instrução dirigida à nossa alma, para a ensinar a ir todos os dias à fonte das Escrituras, às águas do Espírito Santo, tirar água sem se cansar, para levar o seu cântaro bem cheio. Era assim que Santa Rebeca fazia; de outro modo não se teria casado com o grande patriarca Isaac. […].
Ora, tudo o que a Escritura contém é simbólico. Cristo quer desposar-nos. É a nós que Ele Se dirige através das promessas dos profetas, quando diz: «Desposar-te-ei para sempre; desposar-te-ei conforme a justiça e o direito, com amor e misericórdia. Desposar-te-ei em fidelidade e tu conhecerás o Senhor» (Os 2,21s). Portanto, querendo ser teu noivo, Cristo envia-te um servo — a palavra inspirada. Não podes desposar Cristo sem a teres recebido. […] Só aqueles que sabem tirar água em abundância das profundezas do poço […], os que têm uma alma que tudo faz com paciência, que está inteiramente disponível, que se aplica a ir ao mais fundo para retirar a água do conhecimento, só esses podem conhecer o noivado com Cristo.
Nota editorial: A passagem final, também presente no post sobre a luz, aparece aqui uma única vez. Corrigido apenas o lapso «a nos» para «a nós».
O Pastor conduz à luz do meio-dia
Orígenes — Comentário sobre o Cântico dos cânticos, II, 4, 17s (a partir da trad. Brésard, 2000 ans B, p. 196 rev; cf SC 375, p. 341)
«Diz-me, ó amado do meu coração, diz a Esposa do Cântico dos Cânticos, onde apascentas o teu rebanho, onde o fazes repousar ao meio-dia» (1, 7). Penso que, no salmo vinte e dois, o profeta, colocado sob a guarda do mesmo pastor, fala igualmente do local de que falava a Esposa, quando diz: «O Senhor é meu pastor; nada me faltará» (v.1). Ele sabia que os outros pastores, sob o efeito da preguiça ou da inexperiência, apascentavam os seus rebanhos em locais mais áridos. É por isso que diz do Senhor, o pastor perfeito: «Em prados verdejantes Ele me faz repousar. Conduz-me às águas refrescantes» (v.2). Ele mostra assim que este pastor dá às Suas ovelhas águas, não apenas abundantes, mas também sãs e puras, que as dessedentam perfeitamente. […]
Esta primeira formação, dada pelo pastor, é a dos inícios; a continuação diz respeito aos progressos e à perfeição. Acabámos de falar de pastagens e de verdura. É melhor ver isto nos Evangelhos. Aí descobri este bom pastor a falar das pastagens das ovelhas; Ele diz que é o pastor mas também a porta: «Se alguém entrar por Mim, salvar-se-á; entrará e sairá e achará pastagens» (Jo 10, 9). É por conseguinte Ele que a Esposa questiona. […] Ela chama «meio-dia» aos lugares secretos do coração onde a alma obtém do Verbo de Deus uma luz mais brilhante de ciência. É, com efeito, a hora em que o sol atinge o ponto mais alto do seu percurso. Portanto, se Cristo, «Sol de justiça» (Mal 3,20), manifesta à Sua Igreja os sublimes segredos das Suas virtudes, mostra-lhe pastagens agradáveis e locais onde repousar ao meio-dia.
Porque quando ela ainda está no início da sua instrução e apenas recebe d’Ele os primeiros inícios do conhecimento, o profeta diz: «Deus socorrê-la-á de manhã, ao nascer do dia» (Sl 45, 6). Mas, porque procura agora bens mais perfeitos e deseja realidades superiores, ela pede a luz do conhecimento ao seu meio-dia.
Avançar sempre no conhecimento de Deus
Orígenes — Homilias sobre o Livro dos Números, n.º 17
Balaão tinha profetizado: «Como são formosas as tuas moradas, ó Jacob, e as tuas tendas, Israel» (Nm 24,5). Jacob é o símbolo dos homens perfeitos em ações e obras, e Israel, o daqueles que buscam a sabedoria e o conhecimento. […] Daquele que cumpriu o seu dever e atingiu a perfeição das obras, dir-se-á que essa perfeição é a sua morada, a sua casa. Pelo contrário, não há termo para os esforços dos que trabalham na sabedoria e no conhecimento — pois onde está o limite da sabedoria de Deus? Quanto mais nos aproximarmos dela, mais profundidade lhe descobriremos; quanto mais a escutarmos, melhor entenderemos o seu carácter inefável e incompreensível; pois a sabedoria de Deus é incompreensível e inestimável. Assim, pois, às pessoas que avançam no caminho da sabedoria de Deus, Balaão não lhes gaba as casas, pois não chegaram ao termo da viagem, mas admira as tendas com as quais se deslocam e progridem sempre. […]
Quem faz progressos no conhecimento das coisas de Deus e adquire alguma experiência nesse domínio sabe-o bem: chegada a uma conclusão, a uma compreensão dos mistérios espirituais, a alma descansa como sob uma tenda; e, quando avança e descobre outras regiões […], dobra a tenda de qualquer maneira, acampa mais acima e aí estabelece, por momentos, a morada do seu espírito. […] E assim, sempre «lançada para diante» (Fil 3,13), avança como os nómadas com as suas tendas. A alma incendiada pelo fogo do conhecimento de Deus nunca dá tempo a si própria para repousar; pelo contrário, vai avançando constantemente do bem para o melhor, e do melhor para o mais alto.
O Verbo feito carne e seus servidores
A grandeza divina nos limites da nossa humanidade
Orígenes — Sobre os princípios, II, 6, 2; PG 11, 210–211; tradução Orval indicada numa das versões.
De entre todas as grandes coisas e maravilhas que se pode dizer sobre Cristo, há uma que ultrapassa totalmente a admiração de que o espírito humano é capaz; a fragilidade da nossa inteligência mortal não consegue compreendê-la nem imaginá-la. É o facto de a omnipotência da majestade divina, o próprio Verbo do Pai (Jo 1,1), a própria Sabedoria de Deus (1Cor 1,24), na qual todas as coisas foram criadas — as visíveis e as invisíveis (Jo 1,3; Col 1,16) — Se ter deixado conter nos limites deste homem que Se manifestou na Judeia. É este o objecto da nossa fé. E há mais: acreditamos que a Sabedoria de Deus entrou no seio de uma mulher e nasceu por entre os vagidos e os choros comuns a todos os recém-nascidos. E aprendemos que, depois, Cristo conheceu a perturbação perante a morte a ponto de exclamar: «A minha alma está numa tristeza de morte» (Mt 26,38), e que foi arrastado para uma morte vergonhosa entre os homens, embora saibamos que ressuscitou ao terceiro dia. […]
Encontramos em Cristo características tão humanas, que não têm nada que as distinga da fraqueza que é comum a todos nós, os mortais, e ao mesmo tempo características tão divinas, que só podem pertencer à soberana natureza divina. Perante isto, a inteligência humana, que é demasiado restrita, sente uma admiração tão grande, que não sabe o que pensar nem que direção tomar: pressente Deus em Cristo, mas vê-O morrer; toma-O por homem, e eis que Ele ressuscita dos mortos com o seu espólio de vitória, após ter destruído o império da morte. Deste modo, a nossa contemplação deve ser exercida com muita reverência e temor, no sentido em que considera no mesmo Jesus a verdade das duas naturezas, evitando atribuir à inefável essência divina coisas que são indignas dela e não lhe pertencem, mas evitando também ver nos acontecimentos da história apenas aparências ilusórias.
Na verdade, fazer com que os ouvidos humanos ouçam estas coisas e tentar exprimi-las por palavras ultrapassa largamente as nossas forças, o nosso talento e a nossa linguagem. Penso mesmo que ultrapassa a medida dos apóstolos. Mais, a explicação deste mistério transcende provavelmente toda a ordem dos poderes angélicos.
Nota editorial: Dois excertos complementares do mesmo parágrafo foram reunidos; suas versões equivalentes e a conclusão repetida aparecem uma única vez. Corrigido o título «Tratado dos príncipes» para «Sobre os princípios».
Isaac, o carneiro e a oferta de Cristo
Orígenes — Homilias sobre o Gênesis, VIII, 6, 8, 9; PG 12, 206-209
«Abraão apanhou a lenha destinada ao holocausto, entregou-a ao seu filho Isaac e, levando na mão o fogo e o cutelo, seguiram os dois juntos. Isaac disse a Abraão, seu pai: […] “Levamos fogo e lenha, mas onde está a vítima para o holocausto?” Abraão respondeu: “Deus proverá quanto à vítima para o holocausto, meu filho”» (Gn 22,6-8). Esta resposta de Abraão, que é simultaneamente exata e prudente, impressiona-me. Não sei o que foi que ele viu em espírito, porque a verdade é que não é do presente que está a falar, mas do futuro, quando diz: «Deus proverá». O filho interroga-o sobre o presente, mas Abraão responde-lhe no futuro. É que o próprio Senhor havia de prover ao cordeiro, na pessoa de Cristo. […]
Abraão, «estendendo a mão, agarrou no cutelo, para degolar o filho». Comparemos estas palavras com as do apóstolo Paulo quando diz que Deus «nem sequer poupou o seu próprio Filho, mas O entregou por todos nós» (Rom 8,32). Vede com que magnífica generosidade Deus rivaliza com os homens: Abraão ofereceu um filho mortal, que não viria a morrer, enquanto Deus entregou à morte, pelos homens, um Filho imortal. […]
«Erguendo Abraão os olhos, viu então um carneiro preso pelos chifres a um silvado». Cristo é o Verbo de Deus, mas «o Verbo fez-Se carne» (Jo 1,14). […] Cristo sofre, mas sofre na sua carne; é levado à morte, mas é a carne que passa por essa morte, a carne da qual o carneiro é um símbolo. Como dizia São João: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo» (Jo 1,29). Pelo contrário, o Verbo permaneceu na incorruptibilidade; Ele é Cristo segundo o espírito, do qual Isaac é imagem. É por isso que é simultaneamente vítima e sumo-sacerdote; porque, segundo o espírito, oferece a vítima a seu Pai, e, segundo a carne, é Ele próprio oferecido no altar da cruz.
O Espírito permanece sobre o Filho
Orígenes — Homilias sobre Isaías, n.º 3, 1-2
Jesus é Aquele que saiu do tronco de Jessé segundo a carne, que nasceu da descendência de David segundo a carne e foi estabelecido no seu poder de Filho de Deus segundo o Espírito que santifica (cf Is 11,1; Rom 1,3-4). Sim, Ele é o ramo saído do tronco de Jessé», mas não é um ramo, pois é «o Primogénito de toda a criatura» (Col 1,15); Ele não é apenas um ramo, mas é Deus, é o Verbo que estava com Deus e o Verbo que era Deus (cf Jo 1,1); Aquele que nasceu segundo a carne é uma vara saída do tronco de Jessé, e um rebento que brotou das suas raízes. […]
«Sobre ele repousará o Espírito do Senhor: Espírito de sabedoria e de inteligência» (Is 11,2). O Espírito de sabedoria não repousou sobre Moisés, nem sobre Josué, nem sobre nenhum dos profetas, nem sobre Isaías, nem sobre Jeremias. […] Ele veio sobre Moisés, mas, depois desta visita do Espírito de sabedoria, Moisés perdeu a fé: «Escutai, rebeldes», disse. «Poderemos nós fazer brotar água deste rochedo?» (Nm 20,10). Veio sobre todos os justos e sobre Isaías, mas o que disse este último? «Sou um homem de lábios impuros; moro no meio de um povo de lábios impuros» (Is 6,5). […] O Espírito pode vir sobre os homens, mas não pode permanecer, porque todo o homem peca e não há neste mundo nenhum justo que faça o bem sem nunca cair: «Quem fará sair o puro do impuro? Ninguém, evidentemente!» (Jb 14,4). […] O Espírito veio sobre muitos, mas não repousou sobre nenhum deles: «Então, o Senhor disse: “O meu Espírito não permanecerá indefinidamente no homem”» (Gn 6,3). […]
João Batista viu um homem, um só, sobre o qual o Espírito pousou, e este era o sinal que Deus lhe havia dado: «Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e permanecer […] é o Filho de Deus».
O Senhor se abaixa para lavar os pés
Orígenes — Comentário do Evangelho de João 32, 4; PG 14, 741-752
No decurso de uma refeição, Jesus levantou-Se da mesa e despojou-Se das suas vestes, tomando a aparência de escravo, como demonstram estas palavras: «tomando uma toalha, atou-a à cintura», para não ficar completamente nu e para limpar os pés dos discípulos com as suas vestes. Vede a que ponto se baixa a grandeza e a glória do Verbo feito carne: para lavar os pés dos seus discípulos, «deitou água na bacia» (Jo 13,2-5).
«Abraão ergueu os olhos e viu três homens de pé na sua frente. Imediatamente correu da entrada da tenda ao seu encontro, prostrou-se por terra e disse: “Meu Senhor, se mereci o teu favor, peço-te que não passes adiante sem parar em casa do teu servo”» (Gn 18,2-3). Contudo, Abraão não deita pessoalmente a água nem se dispõe a lavar os pés dos estrangeiros que chegaram a sua casa, mas diz: «Permiti que se traga um pouco de água para vos lavar os pés; e descansai debaixo desta árvore». Nem José trouxe água para lavar os pés aos seus onze irmãos: foi o seu intendente que os mandou entrar em casa e seguidamente «deram-lhes água para lavarem os pés» (Gn 43,24).
Mas Aquele que declarou que «o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir» (Mt 20,28), e que disse de pleno direito: «aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração» (Mt 11,29), deitou pessoalmente água na bacia, pois sabia que só Ele podia lavar os pés aos discípulos de forma que essa purificação lhes permitisse tomar parte com Ele. A água era uma palavra capaz de lavar os pés aos discípulos, quando eles se aproximassem da bacia ali colocada para eles por Jesus.
Pés purificados para anunciar a Boa Nova
Orígenes — Comentário sobre São João, § 32, 25-35.77-83
«Jesus, sabendo que o Pai Lhe tinha dado toda a autoridade, sabendo que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-Se da mesa». O que não estivera outrora nas mãos de Jesus – todas as coisas – é agora colocado pelo Pai nas suas mãos. David tinha dito: «Palavra do Senhor ao meu Senhor: “Senta-te à minha direita enquanto ponho os teus inimigos por escabelo dos teus pés”» (Sl 109,1). Os inimigos de Jesus faziam parte deste tudo que Ele sabia que o Pai Lhe dava. […] Por causa daqueles que se tinham afastado de Deus, Ele afastou-Se de Deus, Ele que, por natureza, não quer sair do Pai. Mas saiu de Deus a fim de que todos quantos se afastaram de Deus regressem com Ele às suas mãos, regressem para junto de Deus, segundo o seu desígnio eterno. […]
O que fez Jesus, lavando os pés dos discípulos? Lavando-lhos e enxugando-lhos com a toalha que tinha posto à cintura, Jesus embelezou-lhes os pés para o momento em que eles teriam de anunciar a boa nova. Então se cumpriu aquela palavra profética: «Que formosos são os pés do mensageiro que traz a boa nova!» (Is 52,7; Rom 10,15). Mas se, ao lavar os pés aos discípulos, Jesus os embelezou, muito maior é a beleza daqueles que Ele mergulha por completo no fogo do Espírito Santo (cf Mt 3,11). Os pés dos apóstolos tornaram-se belos […] para que eles pudessem avançar pela via santa, caminhando naquele que disse «Eu sou o Caminho» (Jo 14,6). Pois só aqueles a quem Jesus lavou os pés seguem este caminho vivo que conduz ao Pai; caminho onde não há lugar para pés manchados. […] Para seguir este caminho vivo e espiritual (Heb 10,20) […], é preciso ter os pés lavados por Jesus, que Se despiu das suas vestes […] a fim de tomar no seu corpo a impureza dos pés dos apóstolos, com essa toalha que era a sua única veste, pois «ele tomou sobre si as nossas doenças» (Is 53,4).
João é a voz; Cristo é a Palavra
Orígenes — Comentário ao Evangelho de São João, 2, 193 ss. (trad. cf. SC 120, p. 339)
Em nós, a voz e a palavra não são a mesma coisa, porque a voz pode fazer-se ouvir sem conferir sentido, sem palavras, e a palavra pode ser transmitida ao espírito sem voz, como acontece quando pensamos. Da mesma maneira, sendo o Salvador a Palavra […], João difere dele por ser a voz, por analogia com Cristo, que é a Palavra. É isso que o próprio João responde àqueles que lhe perguntam quem é ele: «Eu sou a voz do que brada no deserto: “Aplanai o caminho do Senhor”» (Jo 1,23).
Talvez seja por isso, por ter duvidado do nascimento dessa voz que viria a revelar a Palavra de Deus, que Zacarias perdeu a voz, recuperando-a quando nasceu esta voz que é o precursor da Palavra (cf Lc 1,64). É que, para poder captar a palavra que a voz designa, o espírito tem de ouvir a voz. É também por isso que João é um pouco mais velho do que Cristo; com efeito, ouvimos a voz antes da palavra. João designa Cristo dessa maneira, porque foi por uma voz que a Palavra Se manifestou. E Cristo é batizado por João, que confessa precisar de ser batizado por Ele (Mt 3,14).[…] Em suma, quando João aponta para Cristo, é um homem que aponta para Deus, para o Salvador incorpóreo; é uma voz que aponta para a Palavra.
A grandeza de João aos olhos de Deus
Orígenes — Homilia IV sobre S. Lucas
Zacarias ficou perturbado ao ver o anjo. De facto, quando uma figura desconhecida se oferece aos olhares humanos, perturba a inteligência e deixa o coração atemorizado. Por isso, o anjo, sabendo o que é a natureza humana, traz-lhe remédio para tal perturbação, dizendo-lhe: «Não temas, Zacarias». Reconforta-lhe a alma assustada e enche-a de alegria com esta mensagem: «A tua súplica foi atendida. Isabel, tua esposa, dar-te-á um filho, ao qual porás o nome de João. Será para ti motivo de grande alegria». Quando um justo vem ao mundo, os que são responsáveis pelo seu nascimento regozijam-se. […] Ainda hoje o nascimento de João constitui para todo o mundo anúncio de uma alegre notícia. Quem […] consente em ter filhos e em assumir essa responsabilidade deve suplicar a Deus que o seu filho seja capaz de fazer uma entrada semelhante no mundo, e este nascimento também será para ele motivo de grande alegria.
Está escrito acerca de João que ele «será grande aos olhos do Senhor». Estas palavras revelam a grandeza de alma de João, a grandeza que aparece aos olhos de Deus. Mas há também uma certa pequenez na alma; pelo menos é assim que eu compreendo esta passagem do Evangelho: «Não desprezeis nenhum destes pequeninos» (Mt 18,10). Não me pedem para não desprezar aquele que é grande, porque aquele que é grande não pode ser desprezado; mas dizem-me: «Não desprezeis nenhum destes pequeninos». […] «Pequenino» e «pequeno» não são palavras usadas por acaso.
O precursor recebe o Espírito desde o seio materno
Orígenes — Homilias sobre S. Lucas, n.º 4
O nascimento de João é cheio de milagres. Um arcanjo anunciou a vinda do nosso Senhor e Salvador; também um arcanjo anuncia o nascimento de João. «Será cheio do Espírito Santo desde o seio materno». O povo não reconheceu nosso Senhor, que realizava milagres e prodígios e curava as suas doenças, mas João, ainda no seio materno, exulta de alegria à chegada da Mãe de Jesus, sem que seja possível reprimi-lo: «Desde o instante em que a tua saudação chegou aos meus ouvidos», diz Isabel, «o menino estremeceu de alegria no meu seio» (Lc 1,44). Ainda no seio de sua mãe, João tinha já recebido o Espírito Santo. […]
A Escritura diz depois que ele «reconduzirá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus». João trouxe de volta «muitos»; o Senhor não trouxe muitos, trouxe todos. Na verdade, a sua obra era conduzir o mundo inteiro para o Pai.
«Irá à frente do Senhor, com o espírito e o poder de Elias». […] Tal como nos outros profetas, Elias tinha poder e tinha o Espírito. […] O Espírito que tinha repousado sobre Elias veio sobre João e nele apareceu o poder que habitava Elias. Um foi transportado ao céu (2Rs 2,11), o outro foi o precursor do Senhor e morreu antes dele, para descer à mansão dos mortos a anunciar a sua vinda.
A visita da Mãe do Senhor e a alegria de Isabel
Orígenes — 7.ª homilia sobre São Lucas
«Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?» Estas palavras: «Donde me é dado?» não são sinal de ignorância, como se Isabel, toda cheia do Espírito Santo, não soubesse que a Mãe do Senhor tinha ido até ela de acordo com a vontade de Deus. Eis o sentido das suas palavras: «Que fiz eu de bom? Que importância têm as minhas obras, para que a Mãe do Senhor venha ver-me? Serei uma santa? Que perfeição, que fidelidade me mereceram esta graça, a visita da Mãe do Senhor?» Pois «logo que chegou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, o menino exultou de alegria no meu seio». Ele tinha sentido que o Senhor viera para santificar o seu servo ainda antes do seu nascimento.
Pode acontecer que os que não têm fé me chamem louco por eu acreditar nestes mistérios! […] Porque o que é considerado loucura por esses é para mim ocasião de salvação. Na verdade, se o nascimento do Salvador não tivesse sido celeste e bem-aventurado, se não tivesse sido divino e superior à natureza humana, nunca a sua doutrina teria chegado a toda a Terra. Se no seio de Maria houvesse apenas um homem e não o Filho de Deus, como teria sido possível que nesse tempo, e ainda hoje, fosse curada toda a espécie de doenças, não só do corpo mas também da alma? […] Se reunirmos tudo o que se diz acerca de Jesus, podemos constatar que tudo o que foi escrito a seu respeito é considerado divino e digno de admiração, porque o seu nascimento, a sua educação, o seu poder, a sua Paixão, a sua ressurreição não são apenas factos que ocorreram naquele tempo: eles agem em nós ainda hoje.
Buscar e acolher o Salvador
Procurar Jesus no templo e na Igreja
Orígenes — Homilias sobre o evangelho de São Lucas, n°18; SC 87
Com doze anos, Jesus ficou em Jerusalém. Não o sabendo, Seus pais começam a procurá-Lo, inquietos, e não O encontram. Procuram «entre os parentes», procuram «entre os seus companheiros de viagem», procuram «entre os seus conhecidos», mas não O encontram. […] O meu Jesus não quer ser encontrado no meio da multidão.
Ficai a saber onde O encontraram […] para que também vós O possais encontrar: «Depois de muito procurar, encontraram-n’O no templo». Não num sítio qualquer mas «no templo», e não apenas no templo mas «sentado entre os doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas». Procurai vós também Jesus no templo de Deus, procurai-O na Igreja, procurai-O junto dos mestres que estão nesse templo e que não saem dali. Se O procurardes desta maneira, encontrá-l’O-eis. […]
Eles encontram-n’O «sentado entre os doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas». Ainda hoje Jesus está aqui; interroga-nos e ouve-nos falar. «Estavam todos estupefactos», afirma Lucas. Estupefactos com quê? Não com as Suas perguntas, que, no entanto, eram admiráveis, mas com as Suas respostas. […] «Moisés falava, dizem as Escrituras, e Deus respondia-lhe através de uma voz» (Ex 19,19). Era assim que o Senhor ensinava a Moisés o que este ignorava. Jesus tanto pergunta como responde […] e, por mais admiráveis que sejam as Suas perguntas, as Suas respostas ainda o são mais.
Para que também nós O possamos ouvir e para que Ele nos possa fazer perguntas a que Ele próprio responderá, supliquemos-Lhe, façamos um esforço intenso e doloroso por procurá-Lo, e poderemos encontrar Aquele que procuramos. Não é em vão que está escrito nas Escrituras: «O Teu pai e eu andávamos aflitos à Tua procura». De facto, é preciso que aquele que procura Jesus não o faça com negligência e moleza, de uma maneira intermitente, como fazem alguns […] que por esse motivo não O encontram. Nós dizemos: «Procuramos-Te com esforço».
Jesus continua a ensinar na assembleia
Orígenes — Homilia 32 sobre São Lucas 4
Quando lerdes: «Ensinava nas sinagogas e era elogiado por todos», tende cuidado de não considerar felizes unicamente os ouvintes de Jesus, julgando-vos privados dos seus ensinamentos. Se a Escritura é a verdade, a palavra de Deus não foi comunicada só outrora, nas assembleias judaicas, é comunicada ainda hoje na nossa assembleia. E não é só aqui, na nossa, é em todas as outras e em todo o mundo: Jesus ensina e procura instrumentos que transmitam os seus ensinamentos. Orai para que também eu esteja disposto e apto a cantá-lo.
Assim como Deus Todo-Poderoso, ao procurar os profetas no tempo em que a profecia era necessária aos homens, encontrou, por exemplo, Isaías, Ezequiel e Daniel, assim também Jesus procura hoje instrumentos que transmitam a sua palavra, que ensinem nas sinagogas e sejam elogiado por todos. Hoje, Jesus é muito mais elogiado por todos do que no tempo em que era conhecido numa única província.
Fixar em Jesus os olhos da alma
Orígenes — Homilias sobre São Lucas, n°32 (trad. cf. SC 87, pp. 386-392)
Jesus «enrolou o livro, entregou-o ao responsável e sentou-Se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nEle». Também agora, se quereis, aqui, na nossa igreja, podeis fixar os olhos no Salvador. Quando diriges o olhar mais profundo do teu coração para a contemplação da Sabedoria e da Verdade, do Filho único de Deus, tens os olhos fixos em Jesus. Bem-aventurada é a assembleia de quem a Escritura diz: «Todos tinham os olhos fixos nele»! Como quereria que a nossa merecesse este mesmo testemunho e que os olhos de todos, catecúmenos e fiéis, mulheres, homens e crianças, vissem Jesus com os olhos da alma! Porque, mal O tenhais contemplado, a vossa face e o vosso olhar serão iluminados pela Sua luz e podereis dizer: «Levantai sobre nós, Senhor, a luz da Vossa face!» (Sl 4, 7).
Nota editorial: O início, comum à seleção anterior, não foi repetido. Conserva-se aqui o desenvolvimento sobre a contemplação de Jesus na assembleia.
Buscar o Verbo de coração sincero
Orígenes — Comentário a S. João 19,12; PG 14, 158
Procurar Jesus é muitas vezes um bem, porque é o mesmo que procurar o Verbo, a verdade e a sabedoria. Mas direis que as palavras «procurar Jesus» são frequentemente pronunciadas a propósito dos que Lhe querem mal, como por exemplo em: «Procuravam então prender Jesus, mas ninguém Lhe deitou a mão, porque ainda não chegara a sua hora»; em «Eu sei que sois a descendência de Abraão, mas procurais matar-Me porque a minha palavra não tem cabimento em vós» (Jo 8,37); e em «Mas vós procurais matar-Me, a Mim que vos disse a verdade que ouvi a Deus» (Jo 8,40).
Estas palavras […] não se opõem a esta outra: «Quem procura encontra» (Mt 7,8). Existem diferenças entre os que procuram Jesus, pois nem todos O procuram sinceramente, para a sua salvação e para obter a sua ajuda. Há pessoas que O procuram por razões que estão muito longe do bem. Por isso, só encontram a paz aqueles que O procuram de coração sincero, aqueles de quem se pode verdadeiramente dizer que procuram o Verbo que está com Deus (Jo 1,1), para que Ele os leve a seu Pai. […]
Ele ameaça ir-Se embora se não for acolhido: «Vou-me embora: vós haveis de Me procurar e não Me encontrareis» (Jo 8,21). […] Ele sabe de quem Se afasta e junto de quem permanece sem ser ainda encontrado, para que quem O procura O encontre no tempo favorável.
Escutar a voz do Esposo que vem
Orígenes — Comentário ao Cântico dos Cânticos, III, 11,10 s
Ei-lo que vem, saltando as montanhas!» (Cant 2,8). Antes de mais, Cristo dá-Se a conhecer à Igreja pela sua voz. Começou por lançar a sua voz por intermédio dos profetas: fazia-Se ouvir sem Se deixar ver. A sua voz erguia-se nas mensagens que dele davam notícia e, durante esse tempo, a Igreja-Esposa, reunida desde o princípio do mundo, apenas o ouvia. Mas um dia viu-o com os seus olhos e exclamou: «Ei-lo que vem, saltando as montanhas!» […] E cada alma que é impelida pelo amor ao Verbo de Deus […] fica feliz e consolada quando sente a presença do Esposo, ela que até então se encontrava diante das difíceis palavras da Lei e dos profetas. Quando Ele Se aproxima dos seus pensamentos para a esclarecer na sua fé, a alma vê-O saltar montanhas e colinas […], e bem pode dizer: «Ei-l’O que vem!» […] É certo que o Esposo prometeu à Esposa, quer dizer, aos seus discípulos: «Estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo» (Mt 28,20). Mas também disse que Se ia embora para tomar posse do Reino (Lc 19,12). Então, de novo em plena noite, ergue-se o grito: «Eis o Esposo que vem» (Mt 25,6).
Portanto, umas vezes o Esposo está presente e ensina; outras vezes, está ausente e é desejado […] Deste modo, quando a alma procura compreender e não consegue, para ela o Verbo de Deus está ausente. Mas quando encontra quem procura, Ele está presente e ilumina-a com a sua luz. […] Portanto, se quisermos ver o Verbo de Deus, o Esposo da alma, «saltando as montanhas», escutemos primeiro a sua voz e depois poderemos vê-l’O.
Nas ondas da provação: Senhor, salva-me
Orígenes — Comentário ao Evangelho de Mateus, XI, 6; PG 13, 919, conforme a versão equivalente.
Quando tivermos suportado as longas horas da noite escura que domina os momentos de prova, quando tivermos feito o melhor que sabemos, […] tenhamos a certeza de que, para o fim da noite, quando «a noite vai adiantada, e o dia está próximo» (Rom 13, 12), o Filho de Deus virá até junto de nós, caminhando sobre as ondas. Quando O virmos aparecer assim, ficaremos perturbados, até compreendermos claramente que é o Salvador que vem ao nosso encontro. Pensando ainda que vemos um fantasma, gritaremos de medo, mas Ele dir-nos-á imediatamente: «Tende confiança, sou Eu, não temais.»
Talvez essas palavras de conforto façam surgir em nós um Pedro a caminho da perfeição, que desça da barca, seguro de ter escapado à prova que o abalava. Inicialmente, o seu desejo de se aproximar de Jesus permitir-lhe-á andar sobre as águas. Mas, tendo ele uma fé ainda pouco segura, estando ainda cheio de dúvidas, aperceber-se-á da «força do vento», terá medo e começará a afundar-se. Escapará porém a tal infortúnio, apelando para Jesus com um forte brado: «Senhor, salva-me!» E, mal este Pedro acabe de dizer «Senhor, Salva-me!», já o Verbo terá estendido a mão para o socorrer, agarrando-o quando ele começava a afundar-se, censurando-lhe a falta de fé e as dúvidas. Notemos, porém, que Ele não diz: «Incrédulo!», mas antes: «Homem de pouca fé!», e acrescenta: «Porque duvidaste?», ou seja: «Tinhas alguma fé, mas deixaste-te levar na direção contrária.» E Jesus e Pedro voltarão a entrar para a barca, o vento acalmar-se-á e os outros discípulos, compreendendo os perigos a que escaparam, adorarão a Jesus dizendo: «Tu és verdadeiramente o Filho de Deus» – palavras que só os discípulos próximos de Jesus, os que se encontravam na barca, podiam proferir.
A fé da cananeia e a passagem do mal ao bem
Orígenes — Comentário ao Evangelho de Mateus, XI, 16–17; SC 16, conforme o acervo.
«Jesus retirou-Se para os lados de Tiro» […]; e fê-lo para que os habitantes desse território que acreditassem pudessem salvar-se saindo dele. Com efeito, «uma mulher cananeia, vinda daqueles arredores, começou a gritar: “Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim. Minha filha está cruelmente atormentada por um demônio». Se ela não tivesse saído daquele território, não poderia dirigir a Jesus estes brados «de grande fé», como o próprio Jesus testemunha. Saímos do território das nações pagãs «na proporção da nossa fé» (Rom 12,6). […] Pois todos nós, quando pecamos, nos encontramos no território de Tiro e de Sidônia, ou do faraó do Egito, ou noutro país estranho à herança de Deus. Mas, quando o pecador se afasta do mal, regressando ao bem, sai dessas regiões onde reina o pecado e corre para as que são de Deus […]
Os justos são introduzidos no Reino dos Céus e propostos para a elevação ao Reino de Deus, mas os pecadores são destinados à degradação da sua própria maldade. […] A cananeia, deixando esse território, deixa a tendência para a degradação, clamando: «Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim». […] Todas as curas que Jesus realizou, tal como as contam os evangelistas, aconteceram porque os que as desejaram tinham fé. Mas estes acontecimentos são símbolo do que é permanentemente realizado pelo poder de Jesus, pois não há época nenhuma em que o que está escrito não se realize, exatamente da mesma maneira.
Nota editorial: A indicação «9,16» foi corrigida para XI, 16–17 pelo cotejo do comentário. Omitiu-se, com sinal de supressão, a glosa portuguesa do nome Tiro, divergente da tradução histórica consultada; não foi introduzida nova tradução.
Tocar com fé a humanidade de Cristo
Orígenes — Homilias sobre o Levítico, n.º 4
A propósito do oferecimento dos primeiros frutos da terra, a Lei dizia: «Tudo o que nele tocar tornar-se-á santo» (Lv 6, 11). Cristo imolado é o sacrifício único e perfeito, simbolizado e prefigurado por todos os sacrifícios da Antiga Lei. Aquele que toca a carne deste sacrifício fica imediatamente santificado; se estiver impuro, fica purificado; se estiver ferido, o ferimento é curado. Foi o que compreendeu a mulher que sofria de um fluxo de sangue. […] Porque compreendeu que estava verdadeiramente em presença da carne do Santo dos Santos, aproximou-se. Não se atreveu a tocar na própria carne, porque ainda não tinha compreendido o que é a perfeição; mas tocou nas franjas das vestes que tocavam naquela carne santíssima. E, porque lhes tocou com fé, saiu uma força da humanidade de Cristo, que a purificou da sua impureza e a curou da sua maldade. […]
Parece-me, pois, que este texto da Lei deve ser entendido da seguinte maneira: se alguém tocar na carne de Jesus com as disposições que referimos, se, cheio de fé e de obediência, se aproximar de Jesus como do Verbo encarnado, esse toca a verdadeira carne do sacrifício e é santificado.
Receber Jesus nos braços e partir em paz
Orígenes — Homilia XV sobre Lucas; PG 13, 1838–1839; Orval / SC 87, conforme a versão equivalente.
Simeão sabia que Aquele que tinha nos braços é o único que pode libertar-nos da prisão do corpo, com a esperança na vida futura. Foi por isso que disse: «Agora, Senhor, segundo a vossa palavra, deixareis ir em paz o vosso servo, porque enquanto não tive Cristo nos braços era como que prisioneiro, incapaz de me libertar das minhas cadeias». E isto não se aplica somente a Simeão, mas a todos os homens: se alguém abandona este mundo para alcançar o Reino, tome Jesus nos braços, aperte-O ao peito, e poderá chegar com grande alegria aonde deseja ir. […]
«Todos aqueles que são movidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus» (Rm 8, 14). Foi o Espírito Santo que levou Simeão ao Templo. E tu, se desejas ter Jesus nos braços e tornar-te digno de sair da tua prisão, esforça-te por te deixares conduzir pelo Espírito, para chegares ao templo de Deus. E já te encontras no templo do Senhor Jesus, ou seja, na sua Igreja, que é um templo de pedras vivas (cf 1P 2,5). […]
Se vieres ao Templo conduzido pelo Espírito, encontrarás o Menino Jesus, tomá-lo-ás nos teus braços e dirás: «Agora, Senhor, segundo a vossa palavra, deixareis ir em paz o vosso servo». Esta libertação e esta partida têm lugar na paz. […] E quem morre em paz, senão aquele que tem a paz de Deus, que sobrepuja todo o entendimento e guarda os corações e os pensamentos em Cristo (cf Fl 4,7)? Quem se retira em paz deste mundo, senão aquele que compreende que Deus veio reconciliar o mundo em Cristo?
Simeão acolhe Aquele que liberta
Orígenes — Homilias sobre o Evangelho de São Lucas, n.º 15 (a partir da trad. SC 87, p. 233, rev.)
«Uma mulher tocou na orla do manto de Jesus e ficou curada» (Mt 9, 20). Se esta mulher, ao tocar a extremidade do Seu manto, daí retirou tantos benefícios, o que dizer de Simeão, que «O tomou nos braços» e, tomando-O, deu largas à sua alegria vendo que segurava a criança vinda ao mundo para libertar os cativos (Lc 4, 18) e que ele próprio se veria em breve liberto dos laços do corpo?
Nota editorial: Conservou-se a imagem inicial da mulher curada e de Simeão. A continuação, comum à seleção anterior, não foi repetida.
Conversão, liberdade e combate interior
Preparar no coração um caminho para o Senhor
Orígenes — Homilias sobre o Evangelho de Lucas, n° 21; PG 13, 1855; SC 87
Lemos estas palavras do profeta Isaías: «Uma voz grita: Preparai no deserto um caminho para o Senhor, aplanai na estepe uma estrada» (40,3). O Senhor quer encontrar em vós um caminho por onde possa entrar no vosso coração e aí caminhar. Preparai-Lhe esse caminho; aplanai essa estrada. […] Que caminho iremos nós preparar para o Senhor? Será um caminho material? Mas poderá a palavra de Deus tomar um caminho desses? Não será antes preciso preparar para o Senhor um caminho interior e traçar no nosso coração estradas retas e unidas? Sim, eis o caminho por onde a Palavra de Deus poderá entrar, para se instalar no coração humano capaz de a acolher.
Como é grande o coração do homem! Que largura e que capacidade, desde que seja puro! Queres conhecer a sua grandeza e a sua largura? Repara na extensão dos conhecimentos divinos que ele contém. O próprio coração o diz: «Foi Ele Quem me deu a verdadeira ciência de todas as coisas a fim de conhecer a constituição do universo e a força dos elementos, o princípio, o fim e o meio dos tempos, a sucessão dos solstícios e as mudanças das estações, os ciclos dos anos e a posição dos astros, a natureza dos animais mansos e os instintos dos animais ferozes, a força dos espíritos e os pensamentos dos homens, a variedade das plantas e as propriedades das raízes» (Sab 7,17-20). Como podes ver, não é pequeno o coração do homem que abarca tantas coisas. […]
Ora, se ele não é pequeno e se consegue captar tantas coisas, podemos preparar nele um caminho para o Senhor, e traçar uma estrada a direito, onde caminhará a Palavra e a Sabedoria de Deus (1Cor 1,24). Prepara um caminho para o Senhor através de uma boa consciência, aplana a estrada para que o Verbo de Deus caminhe em ti sem obstáculos e te dê o conhecimento dos seus mistérios e da sua vinda.
Cristo endireita os caminhos da nossa alma
Orígenes — Homilias sobre São Lucas 22, 4 (a partir da trad. SC 87, p. 303 rev.)
João batista dizia: «Toda a ravina será preenchida» (Lc 3,5), mas não foi ele quem preencheu todos os vales, foi o Senhor, nosso Salvador. […] «E os caminhos tortuosos ficarão direitos». Cada um de nós era tortuoso […] e foi a vinda de Cristo, realizada na nossa alma, que endireitou tudo o que o era. Nada havia de mais irremediável do que vós. Considerai os desejos desregrados de outrora, o vosso arrebatamento e todas as outras más inclinações, e vede se desapareceram de vez – compreendereis que nada havia de mais impraticável do que vós ou até, para usar uma expressão mais forte, de mais tosco. A vossa conduta era tosca, assim como as vossas palavras e obras.
Mas o Senhor, o meu Jesus, veio aplainar as vossas rugosidades e transformar todo esse caos numa estrada plana para fazer de vós um caminho sem sobressaltos, perfeitamente liso e todo cuidado, para que Deus Pai possa andar em vós e Cristo Senhor possa em vós morar e dizer: «O Meu Pai e Eu viremos a ele e nele faremos morada» (Jo 14, 23).
Encontrar em nós a imagem do Rei celeste
Orígenes — Homilias sobre o Génesis, n.º 13, 3-4 ; PG 12,233
Cristo ensinou-nos a não procurar a Deus num lugar determinado, fazendo-nos ver que «se oferecem sacrifícios ao seu nome em todos os pontos da Terra» (Mal 1,11). Com efeito, agora é o tempo em que os verdadeiros adoradores não adoram o Pai em Jerusalém, nem no monte Garizim, mas em espírito e verdade (cf Jo 4,21-24). Assim, pois, Deus não habita num local específico da Terra, mas no coração do homem. Quereis saber onde está Deus? Está num coração puro; é aí que Ele faz a sua morada, conforme disse por meio do profeta: «Habitarei e andarei no meio deles, eles serão o meu povo e Eu serei o seu Deus» (Lev 26,12).
Reparai bem que na nossa alma existe como que um poço de água viva; há nela um certo sentido celeste, uma imagem de Deus. […] Aí está Ele, o Verbo de Deus; a sua operação consiste em afastar a areia de cada alma para tornar essa fonte visível. E essa fonte não vem de fora, mas está em vós, porque «o Reino de Deus está dentro de vós» (Lc 17,21).
Não foi na rua, mas em sua casa, que a mulher encontrou a dracma que tinha perdido: acendeu a lamparina e varreu a casa (cf Lc 15,8) da sujidade e do lixo que se tinha acumulado por sua negligência, e foi então que encontrou a moeda. Da mesma maneira, se acenderdes a vossa lamparina, se vos deixardes iluminar pelo Espírito Santo, se virdes a luz na sua luz (cf Sl 36,10), encontrareis a moeda em vós. Pois é em vós que se encontra a imagem do Rei celeste.
O combate espiritual acontece no coração
Orígenes — Homilias sobre Josué, n°5, 2 (a partir da trad. SC 71, p. 167)
Josué atravessou o Jordão para atacar a cidade de Jericó. Mas São Paulo esclarece-nos: «Nós não temos de lutar contra a carne e o sangue, mas contra os principados, potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos malignos espalhados pelos ares» (Ef 6,12). As coisas que foram escritas são imagens e símbolos. Porque Paulo diz noutra passagem: «Todas estas coisas lhes sucederam para nosso exemplo e foram escritas para nos servirem de advertência, a nós que chegamos aos fins dos tempos» (1Cor 10,11). Pois bem, se estas coisas foram escritas para nossa instrução, porque te demoras? Tal como Josué, partamos para a guerra, tomemos de assalto a mais vasta cidade do mundo, que é a maldade, e destruamos as muralhas orgulhosas do pecado.
Olhas em teu redor, para veres que caminho tomar, que campo de batalha escolher? Vais certamente espantar-te com as minhas palavras, que no entanto são verdadeiras: limita a procura a ti mesmo. É em ti que se encontra o combate que deves travar, é no teu interior que está o edifício do mal e do pecado que é necessário destruir; o teu inimigo está no fundo do teu coração. Não sou eu que o digo, é Cristo; escuta-O: «Do coração procedem os maus pensamentos, os assassínios, os adultérios, as prostituições, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfêmias» (Mt 15,19). Tens noção do poder deste exército inimigo, que avança contra ti do fundo do teu coração? Pois esses são os teus verdadeiros inimigos.
Nota editorial: Reuniram-se as versões equivalentes do combate interior. Conservou-se o enquadramento de Ef 6,12, que explicita o sentido espiritual das imagens de guerra.
Jesus vence os reinos do pecado
Orígenes — Homilias sobre Josué, n.º 15
Na guerra contra os moabitas e os amonitas, Josué [que tem o mesmo nome que Jesus] «matou todos os seus reis ao fio da espada» (Js 11,12). Nós estávamos todos «sob o reino do pecado» (Rom 6,12); todos nós estávamos sujeitos ao reinado das más paixões. […] Em cada um de nós, no entanto, havia um rei particular que nele reinava e o dominava. Num era a avareza que ocupava o reino, noutro era o orgulho, noutro ainda, a mentira; um estava dominado pelos desejos carnais, outro vivia sob o reino da cólera. […] Havia, pois, em cada um de nós, um reino de pecado antes de termos fé.
Mas logo que Jesus veio, matou todos os reis que detinham em nós os reinos do pecado, ensinou-nos a matá-los todos e a não deixar escapar nenhum. Se mantivermos vivo um deles que seja, não poderemos pertencer ao exército de Jesus. […] É que o Senhor Jesus purificou-nos de toda a espécie de pecado; destruiu-os a todos. Com efeito, «todos nós éramos insensatos, rebeldes, extraviados, escravos de uma série de cobiças, vivendo na malícia e no desejo, execráveis, odiando-nos uns aos outros» (Tt 3,3), com todo o gênero de pecados que se encontram nos homens antes de crerem. Há razão para dizer que Jesus matou todos os que saíram para fazer a guerra; pois não existe pecado tão grande que Jesus não consiga dominá-lo, Ele que é o Verbo e a «sabedoria de Deus« (1Cor 1,24). Ele triunfa sobre tudo, é vencedor de tudo.
Não acreditamos que somos limpos de todos os pecados quando vimos ao batismo? É o que diz o apóstolo Paulo, que, depois de ter enumerado toda a espécie de pecados, acrescenta: «eis o que éreis, mas fostes lavados, fostes santificados, fostes justificados, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo» (1Cor 6,11).
Sair da servidão do faraó e revestir o homem novo
Orígenes — Homilias sobre o Êxodo, n.º 1, 5 (a partir da trad. da Irmã Isabelle de la Source, Lire la Bible, Médiaspaul 1990, t. 2, p. 14)
Reconhecei-o: «em ti se levantou um novo rei, um rei do Egito» (Ex 1, 8). É ele quem te requisita para o trabalho, quem te obriga a fazer para ele os tijolos e a argamassa. É ele quem te impõe capatazes e encarregados, quem te força com a vergasta e o chicote ao trabalho da terra e te obriga a construir cidades. É ele quem te incita a percorrer o mundo e a mover montanhas para satisfazeres os teus apetites. […]
Este rei do Egito sabia que uma guerra assim era inevitável, pois pressentiu a vinda d’ «Aquele que pode despojar Poderes e Autoridades e triunfar deles com audácia, cravando-os na cruz» (Cl 2, 14-15). […] Sente próxima a hora da destruição do seu povo e por isso declara: «O povo de Israel é mais poderoso do que nós!» (Ex 1, 9). Pudesse ele dizer o mesmo de nós e achar-nos mais fortes do que ele! Como? Se não acolhermos maus pensamentos e apetites perversos, que ele nos inspira, se repelirmos «as suas setas incendiadas com o escudo da fé» (Ef 6, 16), se, de cada vez que ele fizer qualquer insinuação à nossa alma, lhe dissermos, lembrando-nos de Cristo, Nosso Senhor: «Fora, Satanás! Está escrito: é ao Senhor, teu Deus, que adorarás e só a Ele servirás» (Dt 6, 13/Mt 4, 10).
Com efeito, o Senhor Jesus veio para submeter a Si a «Poderes, Autoridades e Dominações» (Cl 1, 16), para poupar os filhos de Israel à violência dos seus inimigos […], para nos ensinar de novo a ver o Espírito do Senhor [Is 61, 1-2/Lc 4, 18-22], a abandonar o trabalho do faraó, a sair da terra do Egito e renunciar aos seus bárbaros costumes, a «despojar-nos completamente do homem velho e das suas obras e a revestir-nos do homem novo criado em conformidade com Deus» (Ef 4, 22-24/Cl 3, 9-10), a «renovar-nos sem cessar, dia após dia» (2Cor 4, 16) à imagem d’ Aquele que nos criou, Cristo Jesus, Nosso Senhor, a quem seja dada a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém.
A liberdade que só o Filho pode dar
Orígenes — Homilias sobre o Êxodo, VIII e XII, 4, conforme as indicações recebidas; Isabelle de la Source, Lire la Bible, t. 2, p. 174; Fortier / En Calcat, SC 321, p. 369.
«Eu sou o Senhor teu Deus que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão» (Ex 20, 2). Estas palavras não se dirigem apenas aos que já saíram do Egito; dirigem-se sobretudo a ti que as ouves agora, se quiseres sair do Egito. […] Reflete, pois: as coisas deste mundo e as ações da carne não serão essa casa de servidão e, ao contrário, a fuga às coisas deste mundo e a vida segundo Deus não serão a casa da liberdade, conforme o que o Senhor diz no Evangelho: «Se permanecerdes na Minha palavra, conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres»?
Sim, o Egito é a casa de servidão; Jerusalém e a Judeia são a casa da liberdade. Escuta o que o Apóstolo Paulo declara a este respeito […]: «A Jerusalém que é do alto é livre; é a mãe de todos nós» (Gal 4, 26). E, da mesma forma que o Egito, esta província terrestre, é chamada «casa de servidão» para os filhos de Israel relativamente a Jerusalém e à Judeia, que são para eles a casa da liberdade, assim também, relativamente à Jerusalém celeste que é, pode-se dizer, a mãe da liberdade, o mundo inteiro, com tudo o que ele contém, é uma casa de servidão. Houve outrora, para castigo do pecado, uma passagem do paraíso da liberdade à servidão deste mundo […]; por isso a primeira palavra dos mandamentos de Deus diz respeito à liberdade: «Eu sou o Senhor teu Deus que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão».
«O Senhor é Espírito e onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade» (2Cor 3,17). […] Como poderemos encontrar esta liberdade, nós que somos escravos do mundo, escravos do dinheiro, escravos dos desejos da carne? É certo que faço um esforço por me corrigir, julgo-me a mim próprio, condeno as minhas faltas; os meus ouvintes examinem o que pensam do seu coração. Mas, digo-o de passagem, enquanto estiver preso a alguma destas coisas, não estou convertido ao Senhor, não atingi a verdadeira liberdade, porque ainda me deixo prender por estas preocupações. […]
Está escrito, sabemo-lo bem: «Somos escravos daquele por quem nos deixamos vencer» (2Ped 2,19). Ainda que não seja vencido pelo amor ao dinheiro, ainda que não esteja preso pela preocupação com os bens e as riquezas, estou, contudo, ávido de elogios e desejoso da glória humana quando me preocupo com o rosto que os homens me mostram e com o que dizem de mim, quando quero saber o que pensam de mim, como me consideram, quando temo desagradar a uns e desejo agradar a outros. Enquanto tiver estas preocupações, sou seu escravo. Ora, quero fazer um esforço para me libertar, para tentar livrar-me do jugo desta escravidão vergonhosa e alcançar a liberdade de que nos fala o apóstolo Paulo: «Foi para a liberdade que fostes chamados; não vos torneis escravos dos homens» (Gal 5,13; 1Cor 7,23). Mas quem me dará esta liberdade? Quem me libertará desta escravidão vergonhosa, senão Aquele que disse: «Se o Filho vos libertar, sereis realmente livres»? […] Sirvamos portanto fielmente, amando o Senhor, nosso Deus, com todo o nosso coração, com toda a nossa alma, com todo o nosso entendimento e com todas as nossas forças (cf Mc 12,30), para merecermos receber de Cristo Jesus nosso Senhor o dom da liberdade.
Nota editorial: A versão mais extensa reúne o êxodo da servidão e a liberdade interior; sua parte final, também publicada separadamente, não foi repetida. Conserva-se a dupla indicação de homilia recebida.
Ser filho de Abraão pelas obras da fé
Orígenes — «Tratado 20», conforme a referência incompleta do acervo; comentário às palavras de Jo 8,37–39.
«Bem sei que sois descendentes de Abraão». […] Aquele que é a semente de Abraão deve tornar-se seu filho, assumindo a sua semelhança. Mas pode acontecer que, por negligência ou inação, destrua essa preciosa semente dentro de si. Jesus sabia que eles eram da descendência de Abraão e que ainda não tinham perdido o poder de se tornar filhos de Abraão. Foi por isso que lhes disse: «Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão»: se eles quisessem deixar crescer esta preciosa semente em todo o seu potencial, compreenderiam as palavras de Jesus. […]
Há quem escolha apenas uma das obras de Abraão, aquela que o apóstolo menciona nestes termos: «Abraão acreditou na palavra de Deus e a sua fé foi-lhe imputada como justiça». Mas se […] a fé é a única obra necessária, porque foi que o Salvador não disse: «Faríeis a obra de Abraão», no singular, mas disse no plural: «Faríeis as obras de Abraão»? Estas palavras são equivalentes às seguintes: fazei todas as obras de Abraão, mas tomai a vida de Abraão num sentido alegórico e as suas ações num sentido espiritual. Porque aquele que quiser ser filho de Abraão não deve tomar as suas criadas por esposas como fez Abraão, nem, depois da morte de sua mulher, casar-se com outra na sua velhice.
Nota editorial: Não se completou a referência da obra sem cotejo direto.
Oferecer a Deus a fé e o amor
Orígenes — Homilias sobre o livro dos Números, n.°12, §3 (a partir da trad. Sr Isabelle de la Source, Lire la Bible, t. 2, p. 181 rev.)
Tem o homem alguma coisa para oferecer a Deus? Tem, sim: a sua fé e o seu amor. É isto o que Deus pede ao homem, e assim está escrito: «E agora, Israel, o que o Senhor, teu Deus, exige de ti é que temas o Senhor, teu Deus, para seguires todos os Seus caminhos, para O amares, para servires o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma». (Dt 10,12). Eis os presentes, os dons que devemos oferecer ao Senhor. E para Lhe oferecermos estes dons com o coração, temos primeiro de O conhecer; temos de ter bebido o conhecimento da Sua bondade nas águas profundas do seu poço. […]
Corarão, ao ouvirem estas palavras, os que negam que a salvação do homem está no poder da sua liberdade! Pediria Deus o que quer que fosse ao homem, se este não fosse capaz de responder ao pedido de Deus e de Lhe oferecer o que Lhe deve? Porque há o dom de Deus, mas há também a contribuição do homem. Por exemplo, está no poder do homem fazer que uma moeda de ouro renda outras dez ou só cinco; mas pertence a Deus que o homem possua essa moeda de ouro com que pôde produzir outras dez. Quando apresentou a Deus essas dez moedas de ouro ganhas por si, o homem recebeu um novo dom, já não em dinheiro, mas o poder e a realeza sobre dez cidades.
Da mesma maneira, pediu Deus a Abraão que Lhe oferecesse o seu filho Isaac, num dos montes que haveria de lhe indicar. E Abraão, sem hesitar, ofereceu o seu filho único: pô-lo sobre o altar e pegou no cutelo para o degolar; mas logo uma voz o reteve e foi-lhe dado um carneiro para imolar em substituição do seu filho (Gn 22). Vê bem: o que oferecemos a Deus mantém-se nosso; mas essa oferenda é-nos pedida para que, ao oferecê-la, testemunhemos o nosso amor a Deus e a fé que n’Ele temos.
O caminho estreito da fé e das virtudes
Orígenes — Homilias sobre o Êxodo, n.º 5, 3; SC 321
Vê o que Deus disse a Moisés, que ordem lhe deu sobre o caminho a escolher […]. Pensavas talvez que o caminho que Deus mostra é um caminho fácil, sem troços difíceis nem penosos; pelo contrário, trata-se de uma subida, e bem tortuosa. Com efeito, o caminho por onde chegamos às virtudes não é um caminho a descer, mas a subir, e a subida é íngreme e árdua. Escuta o que o Senhor diz no Evangelho: «Como é estreita a porta e apertado o caminho que conduz à vida». Como vês, o Evangelho está em harmonia com a Lei. […] Na verdade, até um cego percebe claramente que a Lei e o Evangelho foram escritos pelo mesmo Espírito.
O caminho que percorremos é, pois, uma subida tortuosa […]; a fé e os atos comportam muitas dificuldades, muitas tribulações. Primeiro, são imensas as tentações e os obstáculos que se opõem a quem quer agir segundo a vontade de Deus. Depois, já na fé, encontramos muitas coisas tortuosas, muitos pontos de discussão, muitas objeções heréticas. […] Ao ver o caminho que Moisés e os israelitas tinham tomado, o faraó observou: «Andam perdidos na terra» (Ex 14,3); para ele, quem segue a Deus perde-se, porque, como dissemos, o caminho da sabedoria é tortuoso, com muitas curvas e desvios. De fato, confessar que há um só Deus, e afirmar simultaneamente que o Pai, o Filho e o Santo Espírito são um só Deus há de parecer aos infiéis tortuoso, difícil e inextricável; e acrescentar que «o Senhor da glória» foi crucificado (1Cor 2,8), e que é o Filho do homem, «que desceu do Céu» (Jo 3,13), há de parecer ainda mais tortuoso e difícil. Quem, sem fé, isto ouve, dirá: «Andam perdidos na terra». Tu, porém, sê firme, não ponhas em dúvida essa fé, sabendo que é Deus que te mostra esse caminho.
A provação revela o trigo e a palha
Orígenes — Homilias sobre S. Lucas, 26, 3-5
O batismo pelo qual Jesus batiza é «no Espírito Santo e no fogo». Se fores santo, serás batizado no Espírito Santo; se fores pecador, serás mergulhado no fogo. O mesmo batismo tornar-se-á condenação e fogo para os pecadores indignos; mas os santos, aqueles que se convertem ao Senhor com fé verdadeira, receberão a graça do Espírito Santo e a salvação.
Portanto, aquele de quem se diz que batiza «no Espírito Santo e no fogo» «tem na mão a pá de joeirar e vai limpar a sua eira e malhar o trigo; guardará o grão no celeiro; quanto à palha, queimá-la-á no fogo que não se extingue». Gostaria de descobrir por que motivo nosso Senhor tem na mão a pá de joeirar e com que sopro vai a palha, que é leve, ser transportada para aqui e para ali, enquanto o trigo, que é mais pesado, se acumula num único lugar, uma vez que, se o vento não soprar, não se pode separar o trigo da palha.
Creio que pelo vento se devem entender as tentações que, na multidão dos crentes, revelam que uns são palha e outros são trigo. Porque, quando a vossa alma foi dominada por uma tentação, não foi a tentação que a transformou em palha, mas é porque éreis já palha, quer dizer, homens levianos e sem fé, que a tentação revelou a vossa verdadeira natureza. Em contrapartida, quando enfrentais corajosamente as tentações, não é a tentação que vos torna fiéis e constantes; ela revela apenas as virtudes de constância e de coragem que estavam em vós, mas de uma forma escondida. […] «Afligi-te e fiz-te sentir fome para manifestar o que tinhas no coração» (Dt 8,3-5).
Construir sobre a rocha antes da tempestade
Orígenes — Homilias sobre S. Lucas
Da mesma maneira, a tempestade não torna sólido o edifício construído sobre areia. Se queres construir, que seja sobre rocha. Então, quando a tempestade se levantar, não derrubará o que estiver fundado sobre rocha; mas ao que vacila na areia mostra imediatamente que as suas fundações não valem nada. Por isso, antes que se levante a tempestade, que se soltem as rajadas de vento, que transbordem as torrentes, enquanto tudo permanece ainda em silêncio, voltemos toda a nossa atenção para as fundações do edifício, construamos a nossa casa com as rochas variadas e sólidas dos mandamentos de Deus. E, quando se desencadear a perseguição e uma torrente cruel se elevar contra os cristãos, poderemos mostrar que o nosso edifício está fundado sobre a rocha, que é Jesus Cristo (1Cor 3,11).
Nota editorial: O início sobre a tentação, comum à seleção anterior, não foi repetido. Conserva-se o desenvolvimento próprio sobre as fundações da vida cristã.
As lágrimas de Jesus sobre a nossa Jerusalém
Orígenes — Homilia 38 sobre Lucas, Pg 13, 1896-1898
Quando o nosso Senhor e Salvador se aproximou de Jerusalém, ao vê-la, chorou sobre ela: «Se neste dia tivesses conhecido, tu também, O que te pode trazer a paz! Mas isso ficou oculto aos teus olhos. Virão dias para ti em que os teus inimigos te hão-de cercar de trincheiras»… Talvez alguém diga: «O sentido destas palavras é claro; de facto, elas realizaram-se em relação a Jerusalém; a armada romana sitiou-a e devastou-a até ao extermínio, e tempos virão em que não ficará pedra sobre pedra».
Não o nego, Jerusalém foi destruída por causa da sua cegueira, mas coloco a questão: não se referem essas lágrimas à Jerusalém em nós? Porque nós somos a Jerusalém sobre a qual Jesus chorou, nós que imaginamos ter um olhar tão penetrante. Se, uma vez instruídos nos mistérios da verdade, após ter recebido a palavra do Evangelho e os ensinamentos da Igreja…, um de nós peca, ele provocará lamentações e lágrimas, porque não se chora sobre nenhum pagão, mas sobre aquele que depois de ter feito parte de Jerusalém deixou de estar nela.
As lágrimas são vertidas sobre a nossa Jerusalém porque, devido aos nossos pecados, «os inimigos vão rodeá-la», quer dizer, as forças adversas, os espíritos do mal. Eles colocarão trincheiras ao seu redor; sitiá-la-ão, e «não deixarão pedra sobre pedra». É o que acontece assim que, depois de uma longa abstinência e muitos anos de castidade, um homem sucumbe, vencido pelas seduções da carne… Eis pois a Jerusalém sobre a qual as lágrimas são derramadas.
Oração e caridade
Reconciliar-se antes de orar
Orígenes — Pequeno Tratado sobre a Oração
Ninguém poderá o que quer que seja através da oração se não rezar com boas disposições e com uma fé reta. […] Não se trata de falar muito […]; trata-se de não ir rezar com uma alma perturbada por ressentimentos. Não se imagina que alguém vá à oração sem preparar o seu coração; também não se imagina que aquele que reza possa obter o perdão dos seus pecados se não tiver primeiro perdoado de todo o coração a um irmão que lhe pede perdão. […]
Portanto, em primeiro lugar, aquele que se dispõe a rezar terá grande vantagem em adotar uma atitude que o ajude a pôr-se em presença de Deus e a falar-Lhe como a alguém que o vê e lhe está presente. Certas imagens e recordações de acontecimentos passados ocupam o espírito que se deixa invadir por elas; por isso, é útil recordar que Deus está ali e conhece os movimentos mais secretos da nossa alma. Desse modo, ela dispõe-se a agradar Àquele que está presente, que a vê e antecipa todos os seus pensamentos, Àquele que perscruta os corações e sonda os rins (Sl 7,10). […]
Como dizem as Sagradas Escrituras, é preciso que quem reza eleve as mãos puras, perdoe a cada um dos que o ofenderam, rejeite tudo o que perturba a sua alma e não se irrite contra ninguém. […] E quem pode duvidar de que este estado de alma seja o mais favorável? Paulo ensina-o quando diz na sua primeira carta a Timóteo: «Quero que os homens rezem em todo o lugar, elevando as mãos puras, sem ressentimento nem contestação» (2,8).
Erguer a alma a Deus com atenção e humildade
Orígenes — A Oração, 31
Parece-me que quem se dispõe a orar deverá recolher-se e procurar preparar-se, para conseguir estar mais atento e concentrado durante a oração. Deve também afastar do seu pensamento a ansiedade e a perturbação, e esforçar-se por recordar a grandeza de Deus, de quem se aproxima, considerando que será ímpio apresentar-se na sua presença sem a necessária atenção, sem algum esforço, mas com uma espécie de ligeireza; deve, enfim, rejeitar pensamentos excêntricos.
Ao começar a oração, devemos, digamos assim, apresentar a alma antes das mãos, erguer a Deus o espírito antes dos olhos, libertar o espírito da terra antes de o elevarmos para o oferecer ao Senhor do universo, enfim, depor quaisquer ressentimentos por ofensas que creiamos ter sofrido, se de facto desejamos que Deus esqueça o mal que cometemos contra Ele, contra os nossos semelhantes, ou contra a boa razão.
Dado que podem ser muitas as atitudes do corpo, o gesto de erguer as mãos e os olhos aos céus deve claramente ser preferido a todos os outros, para assim exprimirmos no corpo a imagem das disposições da alma durante a oração […], mas as circunstâncias podem por vezes levar-nos a rezar sentados […] ou mesmo deitados […]. Por seu turno, a oração de joelhos torna-se necessária sempre que acusamos os nossos pecados diante de Deus, e Lhe suplicamos que deles nos cure e nos absolva. Essa atitude é o símbolo da humilhação e da submissão de que fala Paulo, quando escreve: «É por isso que eu dobro os joelhos diante do Pai, do qual recebe o nome toda a paternidade nos céus e na terra» (Ef 3,14-15). Trata-se da genuflexão espiritual, assim chamada porque todas as criaturas adoram a Deus no nome de Jesus a Ele se submetem humildemente. O apóstolo Paulo parece fazer uma alusão a isso quando diz: «Para que, ao nome de Jesus, se dobrem todos os joelhos, os dos seres que estão no céu, na terra e debaixo da terra» (Fil 2,10).
Que o Reino de Deus cresça dentro de nós
Orígenes — Tratado sobre a oração
Tal como disse o nosso Senhor e Salvador: «O reino de Deus não vem de maneira visível, nem se dirá: “Está aqui ou ali”; porque o reino de Deus está no meio de vós». Com efeito, «está bem perto de nós, essa Palavra, está na nossa boca e no nosso coração» (Dt 30,14). Sendo assim, é evidente que aquele que reza para que venha o reino de Deus tem razão em pedir que esse reino de Deus germine, dê fruto e se realize dentro de si próprio. Em todos os santos em quem Deus reina e que obedecem às suas leis espirituais, ele habita como numa cidade bem organizada. O Pai está presente nele e Cristo reina com o Pai nessa alma perfeita, tal como Ele próprio disse: «Viremos a ele e faremos nele a nossa morada» (Jo 14,23).
Uma vez que estamos sempre a progredir, o reino de Deus que está em nós atingirá a sua perfeição quando a palavra do apóstolo Paulo se cumprir: Cristo, «depois de ter submetido» todos os seus inimigos, «deporá o seu poder real nas mãos de Deus Pai, para que Deus seja tudo em todos» (1Cor 15,28). É por isso que, rezando sem desanimar, com disposições divinizadas pelo Verbo, nós dizemos: «Pai nosso que estais nos Céus, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino» (Mt 6,9–10).
Nota editorial: Corrigido o lapso «Vebo» para «Verbo». A referência ao início do Pai-nosso foi ampliada para Mt 6,9–10.
Venha o teu Reino: dar frutos do Espírito
Orígenes — A oração, 25; GCS 3, 356 (a partir da trad. do breviário)
O reino do pecado é inconciliável com o reino de Deus. Portanto se queremos que Deus reine sobre nós, «que o pecado não reine mais no vosso corpo mortal». Mas «crucifiquemos os nossos membros no que toca à prática de coisas da terra», demos frutos do Espírito. Assim, como num paraíso espiritual, o Senhor passeará em nós, reinando sozinho com o Seu Cristo. Este será entronado em nós «à direita do Todo-Poderoso» que desejamos receber até que todos os Seus inimigos presentes em nós «se tornem estrado para os Seus pés» e seja expulso para longe «todo o principado, toda a dominação e poder».
Tudo isto pode acontecer em cada um de nós até que seja destruído «o último inimigo […]: a morte» e Cristo diga em nós: «Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?» Por isso, desde agora, que tudo o que é «corruptível» em nós se torne santo e «se revista de incorruptibilidade» e o que é «mortal» […] se «revista da imortalidade» do Pai. Assim, Deus reinará sobre nós e estaremos desde já na alegria do novo nascimento e da ressurreição.
(Referências bíblicas: Rom 6, 12; Col 3, 5; Gn 3, 8; Mt 26, 64; Sl 110, 1; 1Cor 15, 24.26.55.53).
Jejuar do pecado e repartir com o pobre
Orígenes — Homilia sobre o Levítico
Queres que te mostre que jejum deves praticar? Jejua do pecado, não tomes qualquer alimento de maldade, não aceites refeições de volúpia, não te aqueças com o vinho da luxúria. Jejua das más ações, abstém-te de palavras invejosas, guarda-te de maus pensamentos. Não toques em pães roubados de uma doutrina perversa. Não desejes os alimentos enganadores da filosofia, que te afastam da verdade. É esse o jejum que agrada a Deus. […]
Ao dizer isto, não quero aconselhar-te a relaxares as rédeas da abstinência cristã, visto que temos os dias da quaresma que são consagrados aos jejuns, para além do quarto e do sexto dias da semana, em que jejuamos, de acordo com o costume estabelecido; e o cristão é livre de jejuar em qualquer momento, não por escrúpulo de observância, mas por virtude de continência.
Pois como havemos de guardar a castidade, se ela não estiver sustentada no rigoroso apoio da abstinência? Como havemos de nos entregar às Escrituras, como havemos de nos aplicar à ciência e à sabedoria? Não será pela continência do ventre e da garganta? […] Eis um bom motivo para os cristãos jejuarem. Mas há outro, também ele religioso, cujo elogio é feito nos escritos dos apóstolos. Com efeito, encontramos a seguinte afirmação numa carta: «Feliz o que jejua também para alimentar o pobre»: o seu jejum é muito agradável a Deus e, na verdade, é extremamente digno, pois imita Aquele que deu a vida pelos seus irmãos.
O amor de Cristo nos faz próximos de todos
Orígenes — Comentário sobre o Cântico dos cânticos, prólogo 2, 26-31 (a partir da trad. cf SC 375, pp. 111ss.)
Está escrito : «Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus» (1Jo 4,7); e mais adiante: «Deus é amor» (8). Deste modo se diz, por um lado, que o próprio Deus é amor, e por outro, que aquele que é de Deus é amor. Ora, quem é de Deus senão aquele que disse: «Saí de Deus e vim a este mundo»? (Jo 16,28). Se Deus Pai é amor, também o Filho é amor […]; o Pai e o Filho são um só e em nada diferem. Eis a razão por que Cristo é chamado, para além de Sabedoria, Poder, Justiça, Verbo e Verdade, também Amor. […]
E, porque Deus é amor e o Filho que é de Deus é amor, Ele exige que haja em nós algo semelhante a Ele, de tal maneira que, por este amor, por esta caridade que está em Cristo Jesus […], sejamos unidos a Ele por uma espécie de parentesco, graças a este nome. Como dizia S. Paulo, que estava unido a Ele: «Quem nos separará do amor de Deus, que está em Cristo Jesus Nosso Senhor?» (Rom 8,39).
Ora, este amor de caridade considera que todo o homem é o nosso próximo. Foi por essa razão que o Salvador repreendeu um homem que estava convencido de que a alma justa não estava obrigada a aplicar a todos a lei do amor ao próximo. […] E compôs a parábola do «homem [que] descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores». Depois censura o sacerdote e o levita, que, vendo-o meio morto, passaram adiante, mas presta homenagem ao samaritano, que teve misericórdia para com ele. E confirma que este último foi o próximo do homem ferido, dizendo àquele que Lhe tinha feito a pergunta: «Então vai e faz o mesmo». Com efeito, por natureza, nós somos todos o próximo uns dos outros; mas, pelas obras de caridade, aquele que pode fazer bem torna-se próximo daquele que não pode fazê-lo. Foi por isso que o nosso Salvador Se fez nosso próximo, e não passou adiante quando estávamos «meio mortos» em consequência dos ferimentos infligidos pelos «salteadores».
Cristo, o Samaritano que cuida do ferido
Orígenes — Homilias sobre o Evangelho de Lucas, 34, 3.7-9; GCS 9, 201-202.204-205 (a partir de trad. Delhougne, Les Péres commentent, pp. 419-420)
De acordo com um ancião que quis interpretar a parábola do Bom Samaritano, o homem que descia de Jerusalém em direcção a Jericó representa Adão, Jerusalém o paraíso, Jericó o mundo, os salteadores as forças malignas, o sacerdote a Lei, o levita os profetas, o samaritano Cristo. As feridas simbolizam a desobediência, a montada o Corpo do Senhor. […] E a promessa de voltar, feita pelo samaritano, prefigura, de acordo com este intérprete, o segundo advento do Senhor. […]
Este Samaritano carrega os nossos pecados (cf. Mt 8, 17) e sofre por nós. Pega no moribundo e conduz-lo à estalagem, ou seja, à Igreja. A Igreja está aberta a todos, não recusa o seu socorro a ninguém e todos são convidados por Jesus: «Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos que Eu hei-de aliviar-vos» (Mt 11, 28). Após ter conduzido o ferido, o Samaritano não parte de imediato, mas fica todo o dia na hospedaria junto do moribundo. Trata-lhe das feridas não apenas durante o dia, mas também de noite, abraçando-o com dedicada solicitude. Verdadeiramente este guardião de almas mostrou-se mais próximo dos homens que a Lei e os profetas «dando prova de bondade» para com aquele «que tinha caído nas mãos dos salteadores» e «mostrou ser o seu próximo» mais pelos actos do que pelas palavras
Segundo a palavra: «Sede meus imitadores como eu o sou de Cristo» (1Cor 11, 1), é possível imitar Cristo e ter piedade dos que «caem nas mãos dos salteadores», aproximando-nos deles, ligando-lhes as feridas, vertendo óleo e vinho sobre elas, carregando-os sobre a nossa própria montada e transportando-lhes os fardos. É por isso que, para nos estimular, o Filho de Deus diz, dirigindo-se a todos nós, mais ainda que ao doutor da lei: «Vai, e faz o mesmo».
O perfume de Cristo enche a casa
Orígenes — Comentário do Cântico dos Cânticos, II, 9
A esposa do Cântico dos Cânticos diz: «o meu nardo dá o seu perfume» (1,12) […]; mas podemos ler também «o Seu perfume». […] A esposa aproximou-se do Esposo, ungiu-O com os seus unguentos e, surpreendentemente, foi como se o nardo não tivesse dado perfume enquanto estava nas mãos da esposa, mas o desse ao entrar em contato com o corpo do Esposo — de sorte que, segundo parece, não foi tanto Ele que recebeu o perfume do nardo, mas foi antes o nardo que o recebeu, como se viesse d’Ele. […]
Apresentamos aqui a esposa Igreja, na pessoa de Maria: diz-se que ela trazia uma libra de nardo de alto preço e que ungiu os pés de Jesus, enxugando-os depois com os cabelos e que, de certo modo, também ela recebeu, através dos cabelos, um perfume impregnado da qualidade e do poder do corpo de Jesus. […] Ela impregnou a cabeça com um perfume requintado que vinha mais de Cristo que do nardo e disse [com a esposa]: «O meu nardo, derramado no corpo de Cristo, deu-me em troca o Seu aroma». […]
«A casa encheu-se com a fragrância do perfume.» Isso indica, seguramente, que a fragrância da doutrina que vem de Cristo e o agradável perfume do Espírito Santo encheram toda a casa deste mundo, ou a casa de toda a Igreja. Ou, pelo menos, encheram toda a casa através desta alma que recebeu a fragrância de Cristo, tendo-Lhe oferecido inicialmente o dom da sua fé como nardo puro, e recebendo, em retribuição, a graça do Espírito Santo e o agradável perfume da doutrina espiritual […], para que também ela pudesse dizer: «Somos para Deus o bom odor de Cristo» (2Co 2,15). Ora, porque esse nardo foi cheio de fé e dum amor de grande valor, Jesus presta-lhe esta homenagem: «Praticou em Mim uma boa ação!» (Mc 14,6).
A Igreja, a missão e a ressurreição
Pedras vivas sobre o fundamento de Cristo
Orígenes — Homilias sobre o livro de Josué, n.° 9, 1-2; PG 12, 871-872 (trad. Breviário)
Todos nós, que acreditamos em Jesus Cristo, somos chamados «pedras vivas», segundo as palavras da Escritura: «Vós, como pedras vivas, entrais na construção de um edifício espiritual, em função de um sacerdócio santo, cujo fim é oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus, por Jesus Cristo» (1Pd 2:5).
Ora, quando se trata de pedras terrenas, sabemos que se colocam nos alicerces as mais sólidas e fortes, para que se lhes possa confiar e sobrepor todo o peso do edifício; da mesma maneira se deve entender que também de entre as pedras vivas algumas estão colocadas nos alicerces deste edifício espiritual. Quais são essas pedras que estão colocadas nos alicerces? Os apóstolos e os profetas, como nos ensina Paulo, quando diz: «Edificados sobre o alicerce dos apóstolos e dos profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus» (Ef 2:20).
Para te adaptares mais eficazmente à construção deste edifício, para seres uma das pedras mais próximas do alicerce, repara que o próprio Cristo é o alicerce deste edifício que estamos a descrever. Assim se exprime o apóstolo Paulo: «Ninguém pode pôr um alicerce diferente do que já foi posto: Jesus Cristo» (1Cor 3:11). Felizes, portanto, aqueles que vão construindo edifícios religiosos e santos sobre tão nobre fundamento.
A arca da Igreja acolhe os que são salvos
Orígenes — Homilias sobre o Génesis, II, 3
Tanto quanto a pequenez da minha mente me permite supor, parece-me que o dilúvio, que quase pôs fim ao mundo, é um símbolo do fim do mundo, fim que vai realmente acontecer. O próprio Senhor o declarou quando disse: «Como sucedeu nos dias de Noé, assim será também nos dias do Filho do homem:
Comiam e bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca; então veio o dilúvio, que os fez perecer a todos». Neste texto, parece que o Senhor descreve de uma única e igual forma o dilúvio que já ocorreu e o fim do mundo que anuncia para o futuro.
Portanto, outrora foi dito a Noé para fazer uma arca e se meter nela, não apenas com os seus filhos e a sua família, mas com animais de todas as espécies. Da mesma forma, na consumação dos tempos, o Pai disse ao Senhor Jesus Cristo, o nosso novo Noé, o único justo e o único perfeito (Gn 6,9), para fazer uma arca de madeira com medidas cheias de mistérios divinos (cf Gn 6,15). Isto é afirmado num salmo que diz: «Pede, e Eu te darei as nações por herança e os confins da terra por domínio» (Sl 2,8). E Ele construiu uma arca com abrigos de todo o tipo, para receber os diversos animais. O profeta fala dessas habitações quando escreve: «Vai, povo meu, entra nos teus quartos, fecha atrás de ti as portas. Esconde-te por alguns instantes até que a cólera passe» (Is 26,20). Há de fato uma misteriosa correspondência entre este povo que é salvo na Igreja, e todos esses seres, homens e animais, que foram salvos do dilúvio na arca.
O templo de pedras vivas e a paz perfeita
Orígenes — Comentário ao Evangelho de João, 10,39; PG 14, 369s
«Jesus diz aos judeus: ‘Destruí este Templo, e em três dias eu o levantarei […]’ Ele falava do templo que é o seu corpo» (Jo 2,21) […] Alguns pensam que é impossível aplicar ao corpo de Cristo tudo o que é dito acerca do Templo; pensam que se chamou templo ao seu corpo porque, tal como o primeiro Templo tinha sido habitado pela glória de Deus, também o Primogénito de todas as criaturas é a imagem e a glória de Deus (Cl 1,15), e que é justo, portanto, que o seu Corpo, a Igreja, seja chamado templo de Deus, porque contém a imagem da divindade […].
Aprendemos com Pedro que a Igreja é o corpo e a casa de Deus, construída com pedras vivas, uma casa espiritual em função de um sacerdote santo (1 Pe 2,5). Possamos então considerar Salomão, o filho de David que construiu o Templo, como uma prefiguração de Cristo: foi depois da guerra, numa altura de grande paz, que Salomão construiu um Templo à glória de Deus na Jerusalém terrestre […]. De facto, quando todos os inimigos de Cristo estiverem «colocados debaixo dos seus pés», e de a morte, «o último inimigo», ter sido destruído (1 Cor 15,25-26), então a paz será perfeita, então Cristo será «Salomão», cujo nome significa «pacífico»; n’Ele se cumprirá esta profecia: «vivo […] entre aqueles que odeiam a paz, [mas] lhes falo de paz» (Sl 119,6-7). Então cada uma das pedras vivas, segundo o mérito da sua vida presente, será uma pedra do templo: um, apóstolo ou profeta, que ficará nas fundações, levará consigo as pedras que ficarão por cima; um outro, vindo a seguir àqueles que ficam nas fundações, ele próprio conduzido pelos profetas, levará por sua vez consigo outras pedras mais leves; um terceiro será uma pedra que ficará mesmo no interior, onde se situa a arca com os querubins e o propiciatório (1 R 6,19); um quarto será a pedra do vestíbulo (v.3), e um quinto, ainda, fora do vestíbulo dos padres e dos levitas, será a pedra do altar onde são feitas as oferendas das colheitas […] O desenvolvimento da construção, com a organização dos ministérios, será confiado aos anjos de Deus, essas forças santas prefiguradas nos mestres de obras de Salomão […] Tudo isto se cumprirá quando a paz for perfeita, quando reinar uma grande paz.
O poder divino na palavra dos apóstolos
Orígenes — Contra Celso, I, 62
Se Jesus tivesse escolhido para ministros dos seus ensinamentos homens sábios segundo a opinião pública, capazes de compreender e de exprimir ideias caras à multidão, poderiam tê-lo acusado de pregar segundo o método dos filósofos de escola, e o carácter divino da sua doutrina não se teria mostrado com toda a sua evidência. A sua doutrina e a sua pregação teriam consistido «em sabedoria de palavras» (1Cor 1,17) […]; e a nossa fé, semelhante àquela com que se adere às doutrinas dos filósofos deste mundo, assentaria na sabedoria dos homens e não no poder de Deus (cf 1Cor 2,5). Mas, quando vemos pescadores e publicanos sem instrução terem a ousadia de discutir com os judeus a fé em Jesus Cristo, de a pregar ao resto do mundo, e de conseguir lá chegar, não podemos deixar de procurar a origem deste poder de persuasão. Como não podemos deixar de confessar que Jesus cumpriu a sua palavra – «Vinde após Mim e Eu farei de vós pescadores de homens» (Mt 4,19) – nos seus apóstolos por meio de um poder divino.
Também Paulo manifesta este poder quando escreve: «A minha palavra e a minha pregação não consistiram em discursos persuasivos da sabedoria humana, mas na manifestação do Espírito e do poder divino» (1Cor 2,4) […]. O mesmo haviam já dito os profetas, quando anunciaram a pregação do Evangelho: «O Senhor dá a palavra e os anunciadores da Boa Nova são uma multidão», a fim de que «rápida corra a sua palavra» (Sl 67, 12; 147, 4). E, de facto, vemos que «a voz» dos apóstolos de Jesus ressoa «por toda a terra, até aos confins do universo a sua palavra» (Sl 18, 5; Rom 10, 18). É por este motivo que aqueles que escutam a palavra de Deus poderosamente enunciada se enchem de poder, manifestando-o pela sua conduta e pela sua luta em prol da verdade até à morte.
Os anjos servem à obra da salvação
Orígenes — Homilias sobre Ezequiel I, 7
Os anjos descem para aqueles que vão ser salvos. «Os anjos subiam e desciam por cima do Filho do homem» (Jo 1,51) e «aproximaram-se dele e O serviam» (Mt 4,11). Ora, os anjos descem porque Cristo desceu primeiro; receavam descer antes que o Senhor dos exércitos celestes e de todas as coisas (Col 1,16) lho tivesse ordenado. Mas, quando viram o Príncipe do exército celeste habitar na Terra, então, por esse caminho que tinha sido aberto, saíram atrás do seu Senhor, obedecendo à vontade daquele que os estabeleceu como guardiães dos que acreditam no seu nome.
Ontem, estavas sob a dependência do demónio; hoje, estás sob a dependência de um anjo. «Não desprezeis um só destes pequeninos», diz o Senhor, pois «Eu vos digo que os seus Anjos veem constantemente o rosto de meu Pai que está nos Céus.» Os anjos dedicam-se à tua salvação, declararam-se ao serviço do Filho de Deus e dizem entre si: «Se Ele desceu num corpo, se Se revestiu de carne mortal, se suportou a cruz, se morreu por todos os homens, como havemos nós de repousar, como havemos de nos poupar? Vamos, desçamos também do Céu!» Foi por isso que, quando Cristo nasceu, havia «uma multidão do exército celeste louvando e glorificando a Deus» (Lc 2,13).
Cristo rompe os laços do inimigo e da morte
Orígenes — Comentário sobre o Cântico dos Cânticos, III, 27-33
A nossa vida de seres mortais está cheia de armadilhas que nos fazem tropeçar, está cheia de redes de enganos […]. E, como o inimigo espalhou essas redes por todo o lado, e nelas apanhou quase todos os homens, era necessário que aparecesse Alguém mais forte para as dominar e as romper, e para trilhar o rumo àqueles que O seguissem. Foi por isso que, antes de Se unir à Igreja, sua esposa, também o Salvador foi tentado pelo diabo. […] Ensinou assim à Igreja que não seria através da ociosidade e do prazer, mas através de provações e tentações, que ela haveria de chegar a Cristo.
Mais ninguém poderia, de facto, triunfar daquelas teias. Porque «todos pecaram», como está escrito (Rom 3,23) […]; o nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo, foi o único que «não cometeu pecado» (1Ped 2,22). Mas o Pai «fê-lo pecado por nós» (2Cor 5,21). […] «De facto, Deus fez o que era impossível à Lei, por estar sujeita à fraqueza da carne: ao enviar o seu próprio Filho, em carne idêntica à do pecado e como sacrifício de expiação pelo pecado, condenou o pecado na carne» (Rom 8,3). Jesus entrou, pois, naquelas teias, mas não ficou enleado nelas. Mais ainda, tendo-as rompido e rasgado, deu confiança à Igreja, de tal forma que ela ousou, a partir de então, calcar aos pés as armadilhas, libertar-se das teias, e dizer cheia de alegria: «A nossa vida escapou como um pássaro do laço de caçadores; rompeu-se o laço e nós libertámo-nos» (Sl 123,7).
Também Ele sucumbiu à morte, mas voluntariamente e não, como nós, pela sujeição do pecado. Porque Ele foi o único a ser libertado de «entre os mortos» (Sl 87,6). E, porque estava livre entre os mortos, venceu «aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo» (Heb 2,14) e arrancou-lhe os «cativos em cativeiro» (Ef 4,8) que estavam prisioneiros da morte. Não só Ele próprio ressuscitou dos mortos, como, simultaneamente, «nos ressuscitou e nos sentou no alto do Céu, em Cristo» (Ef 2,6); «ao subir às alturas, sujeitou um grupo de cativos» (Ef 4,8).
Participar nos sofrimentos e na consolação de Cristo
Orígenes — Exortação ao martírio; excerto sem referência bibliográfica no post recebido.
Se, ao passarmos da descrença à fé, passámos «da morte à vida» (Jo 5,24), não nos espantemos se o mundo nos odiar. Porque os que não passaram da morte à vida, mas permanecem na morte, não podem amar os que passaram da morada tenebrosa da morte […] para os edifícios «de pedras vivas» (1Ped 2,5) onde reina a luz da vida. […]
Para nós, cristãos, chegou o tempo de nos gloriarmos, porque está dito: «Gloriamo-nos nas nossas tribulações, porque sabemos que a tribulação produz a constância, a constância, a virtude sólida, a virtude sólida, a esperança; ora, a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo» (Rom 5,3-5). […]
«Assim como abundam em nós os sofrimentos de Cristo, também por Cristo abunda a nossa consolação» (2Cor 1,5). Acolhamos, pois, com grande fervor os sofrimentos de Cristo; que eles nos sejam grandemente concedidos, se queremos ser grandemente consolados, uma vez que todos os que choram serão consolados (cf Mt 5,4). […] Os que participarem nos sofrimentos participarão também na consolação, em proporção com os sofrimentos, pelos quais participam em Cristo. Aprendei do Apóstolo, que dizia, cheio de confiança: «Sabemos que, participando nos sofrimentos, também participareis na consolação» (2Cor 1,7).
Nota editorial: A categoria de Orígenes e o cotejo textual permitem identificar a obra. A referência à bem-aventurança dos que choram foi ajustada para Mt 5,4.
A liberdade de João diante de Herodes
Orígenes — «Homilia 6», conforme a referência incompleta do acervo.
Admiremos João Batista por causa do seguinte testemunho: “Entre os filhos de mulher, ninguém ultrapassa João Batista” (Lc 7,28); ele mereceu ser elevado a uma tal reputação de virtude que muitas pessoas pensavam que ele era o Cristo (Lc 3,15). Mas há uma coisa ainda mais admirável: Herodes, o tetrarca, detinha poder real e podia fazê-lo morrer quando quisesse. Ora ele tinha cometido uma ação injusta e contrária à lei de Moisés ao tomar a mulher do seu irmão. João, sem ter medo dele nem fazer acepção de pessoas, sem dar importância ao poder real, sem recear a morte…, sem escamotear qualquer destes perigos, repreendeu Herodes com a liberdade dos profetas e condenou o seu casamento. Lançado na prisão por causa desta audácia, não se preocupou nem com a morte nem com um julgamento com sentença incerta mas, a partir do cárcere, os seus pensamentos iam para o Cristo que ele tinha anunciado.
Não podendo ir em pessoa ao seu encontro, envia os seus discípulos para lhe trazerem informações: “Tu és aquele que deve vir ou temos que esperar outro?” (Lc 7,19). Notem bem que, mesmo na prisão, João ensinava. Mesmo naquele lugar ele tinha discípulos; mesmo na prisão, João cumpria o seu dever de mestre e instruía os seus discípulos, conversando sobre Deus.
Nestas circunstâncias, levantou-se a questão de Jesus e João envia-lhe alguns discípulos… Os discípulos regressam e trazem ao mestre o que o Salvador lhes tinha encarregado de anunciar. Essa resposta foi para João uma arma para enfrentar o combate; morre com confiança e com grande coragem se deixa decapitar, seguro na palavra do próprio Senhor em como aquele em quem acreditava era verdadeiramente o Filho de Deus. Esta foi a liberdade de João Batista, aquela foi a loucura de Herodes que, aos seus numerosos crimes, acrescentou primeiro a prisão, depois o martírio de João Batista.
Nota editorial: Conserva-se a atribuição recebida a Orígenes, sem completar a identificação da homilia. A pergunta do Batista foi corrigida de Lc 7,15 para Lc 7,19.
O templo e a ressurreição do corpo inteiro de Cristo
Orígenes — Comentário ao Evangelho de João, X, 20, na tradução histórica consultada.
«Destruí este templo e em três dias Eu o levantarei!» […] Tanto um como outro, tanto o templo como o corpo de Jesus, são, a meu ver, símbolos da Igreja. […] O templo será restaurado e o corpo ressuscitará ao terceiro dia. […] Porque ao terceiro dia surgirá um novo céu e uma nova terra (2Ped 3,13), quando os ossos ressequidos, quer dizer, toda a casa de Israel (Ez 37,11), voltarem a ser revestidos no grande dia do Senhor, e a morte for vencida. […]
Da mesma maneira que o corpo de Jesus, sujeito à condição humana vulnerável, foi pregado na cruz e sepultado, e depois foi novamente erguido, assim também o corpo total dos fiéis foi «crucificado com Cristo» e agora «já não é ele que vive» (Gal 2,19). Com efeito, tal como Paulo, nenhum dos fiéis se gloria de nada senão da cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, que fez de cada um deles um crucificado para o mundo e do mundo um crucificado para ele (Gl 6,14). […] «Porque nós fomos sepultados com Cristo» diz Paulo; e acrescenta, como se tivesse recebido um penhor de ressurreição: «Ressuscitaremos com Ele» (Rm 6,4-9). Todos nós temos, pois, uma vida nova, mas que ainda não é a ressurreição bem-aventurada e perfeita. […] Quem é hoje sepultado, um dia ressuscitará.
Como é grande e difícil de entender o mistério da nossa própria ressurreição! Anunciado por muitos textos da Sagrada Escritura, aparece sobretudo em Ezequiel, […] que diz: «A mão do Senhor desceu sobre mim; então, conduziu-me em espírito e colocou-me no meio de um vale que estava cheio de ossos […] completamente ressequidos. O Senhor disse-me: «Filho de homem, estes ossos poderão voltar à vida?» Eu respondi: «Senhor Deus, só Tu o sabes.» Ele disse-me: «Profetiza sobre estes ossos e diz-lhes: Ossos ressequidos, ouvi a palavra do Senhor»» (Ez 37, 1-4). […]
Que ossos serão esses, aos quais se diz «ouvi a palavra do Senhor» […] senão o Corpo de Cristo, que o próprio Senhor refere, dizendo: «todos os Meus ossos se desconjuntaram» (Sl 22/21, 15)? […] Tal como teve lugar a Ressurreição do corpo perfeito e verdadeiro de Cristo, assim nós, os Seus membros […], seremos um dia reunidos osso a osso, articulação a articulação. Ninguém, privado desta junção, poderá chegar ao estado de «homem adulto, à medida completa da plenitude de Cristo» (Ef 4, 13). Assim, «todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, constituem um só corpo» (1Cor 12, 12).
Vem tudo isto a propósito do Templo, do qual o Senhor disse: «O zelo da Tua casa me devora» (Sl 69/68, 10); dos judeus que Lhe pediam um sinal; por último, da Sua própria resposta […]: «Destruí este Templo, e em três dias o levantarei». É necessário banir deste templo, que é o Corpo de Cristo, tudo aquilo que a razão recusa e é ocasião de negócio, para que, no futuro, ele não venha a tornar-se morada de mercadores. É necessário igualmente […] que, depois da sua destruição por aqueles que recusarem a Palavra de Deus, seja levantado ao terceiro dia […]. Assim, graças à purificação levada a cabo por Jesus, tendo abandonado tudo o que era contrário à razão e todo o tipo de comércio por causa do zelo do Verbo, Palavra de Deus, presente neles, os Seus discípulos são destruídos para serem levantados por Jesus em três dias […], uma vez que são precisos três dias inteiros para levar a cabo essa reconstrução. Por isso podemos afirmar, por um lado, que a Ressurreição teve lugar mas, por outro, que ainda está para vir. Em verdade, «se estamos integrados n’Ele por uma morte idêntica à Sua, também o estaremos pela Sua Ressurreição» (Rm 6, 5) […] e «assim, em Cristo, todos voltarão a receber a vida. Mas cada um na sua própria ordem: primeiro, Cristo; depois, aqueles que pertencem a Cristo, por ocasião da Sua vinda» (1Cor 15, 22-23).
Nota editorial: Reuniram-se os excertos complementares sobre o templo, a cruz e os ossos reunidos. A versão resumida publicada duas vezes sob «Romanos IV, 7; PG 14, 985» corresponde a este trecho do Comentário a João; a referência divergente ficou no registro interno.
Caminhar na luz enquanto dura o dia
Orígenes — Homilia sobre Josué 11,3-4
Quando o Senhor veio, era já o fim do mundo. Aliás, Ele mesmo o dizia, situando-Se no fim dos tempos: «Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está muito próximo» (Mt 4,17). Mas reteve e atrasou o dia da consumação; proibiu-o de aparecer. Porque Deus Pai, vendo que a salvação dos povos só pode vir por Jesus, disse-Lhe: «Pede-Me, e dar-Te-ei as nações como herança e o teu poder estender-se-á até aos confins da terra» (Sl 2,8). Portanto, até ao cumprimento desta promessa do Pai, até que as Igrejas se acrescentem com as diversas nações e que nelas entre toda «a plenitude dos pagãos» para que, por fim, «todo Israel seja salvo» (Rom 11,25), esse dia é dilatado, o fim do dia é diferido. O «Sol de justiça» (Mal 3,20) não se põe, mas continua a derramar a luz da verdade no coração dos que creem.
Mas quando a medida dos crentes estiver repleta e quando chegar a época degenerada e corrupta da última geração em que, «por causa da amplidão do mal, a caridade de muitos homens arrefecerá» (Mt 24,12) […], então «os dias serão abreviados» (Mt 24,22). Sim, o mesmo Senhor sabe prolongar a duração dos dias quando é o tempo da salvação e abreviar a duração do momento da tribulação e da perdição. […] Quanto a nós, enquanto o dia durar e para nós se prolongar o tempo da luz, «caminhemos honestamente em pleno dia» (Rom 13,13) e pratiquemos as obras da luz.
A vinda do Senhor e a herança prometida
Orígenes — Homilias sobre o Livro de Josué, 16, 3
«[O Senhor disse a Josué:] Há ainda muita terra por conquistar» (Js 13,1). […] Considerai a primeira vinda de Nosso Senhor, o Salvador, quando veio semear a Palavra a este mundo; pela simples força da Sua sementeira, apoderou-Se de toda a terra, pondo em fuga as potências adversas e os anjos rebeldes que dominavam o espírito das nações, ao mesmo tempo em que semeava a Sua Palavra e expandia a Sua Igreja. Assim foi a Sua primeira tomada de posse de toda a terra.
Segui-me agora […] pelas veredas subtis da Escritura e mostrar-vos-ei em que consiste a segunda conquista de uma terra da qual foi dito a Josué/Jesus que restava ainda grande parte. Escutai as palavras de Paulo: «É necessário que Ele reine até que tenha feito de todos os inimigos um estrado para os seus pés» (1Cor 15,25; Sl 109 [110], 1). Essa é a terra da qual restava grande parte até que todos fossem submetidos a Seus pés e desse modo Ele tomasse para Si todos os povos como herança. […] Naquilo que a nós agora diz respeito, vemos que muitas coisas que «restaram» não estão ainda submetidas aos pés de Jesus; ora, é preciso que Ele entre na posse de todas, uma vez que não poderá haver fim do mundo sem que tudo Lhe tenha sido submetido. Assim diz o Profeta: «Todas as nações Lhe serão submetidas, das extremidades dos rios até às extremidades da terra, e diante d’Ele se prostrarão os etíopes» (Sl 71 [72], 8-9, LXX) e «Do outro lado dos rios da Etiópia hão-de trazer-Lhe ofertas» (Sf 3,10).
Daqui resulta que, na Sua segunda vinda, Jesus dominará esta terra da qual muito resta por possuir. Mas bem-aventurados aqueles que tiverem sido Seus súbditos desde a primeira, pois serão verdadeiramente cumulados de favores, mal grado a resistência de tantos inimigos e os ataques de tantos adversários. Receberão […] a sua parte da Terra Prometida. Mas, assim que pela força for conseguida a submissão, no dia em que necessariamente for destruído o último inimigo que é a morte (1Cor 15,26), não haverá quaisquer favores para aqueles que recusarem se submeter-Lhe.
Conhecer a meta para a qual fomos criados
Orígenes — Primeira homilia sobre o salmo 38 (39) (a partir da trad. de SC 411, p. 355)
«Senhor, dá-me a conhecer o meu fim e o número dos meus dias, para que veja como sou efémero» [Sl 38 (39), 5]. Se me permitisses conhecer o meu fim, diz o salmista, e se me desses a conhecer o número dos meus dias, poderia só por isso perceber o que me falta. Ou talvez por estas palavras ele esteja ainda a indicar o seguinte: que todo o trabalho tem uma meta. Por exemplo, o objectivo de um empreendimento de construção é fazer uma casa; a finalidade de um estaleiro naval é construir um barco capaz de triunfar sobre as vagas do mar e suportar as investidas dos ventos; e o objectivo de cada trabalho é qualquer coisa de semelhante para o qual o próprio trabalho foi criado. Por isso, talvez haja também um certo objectivo na nossa vida e na existência do mundo inteiro para o qual se faz tudo o que se faz na nossa vida ou para o qual o próprio mundo foi criado ou subsiste. Também o Apóstolo Paulo se recorda desse objetivo quando diz: «Depois, será o fim: quando Ele entregar o reino a Deus Pai» (1Cor 15, 24) É certamente necessário que nos apressemos para essa meta, uma vez que o valor da obra é a razão pela qual fomos criados por Deus.
Assim como o nosso organismo corporal é pequeno e reduzido no momento em que nascemos e no entanto se desenvolve e tende para o limite do seu tamanho crescendo em idade; assim como também a nossa alma […] recebe primeiramente uma linguagem balbuciante, que seguidamente vai ficando mais clara, para chegar finalmente a uma forma de se exprimir perfeita e correcta; também da mesma forma toda a nossa vida começa no presente, decerto balbuciante entre os homens da terra mas se conclui e chega ao seu auge nos céus, perto de Deus.
Por este motivo o profeta deseja conhecer o fim para que foi criado, porque, olhando para o objectivo, examinando os seus dias e considerando a sua perfeição, vê o que lhe falta em relação a essa meta para a qual tende. […] É como se aqueles que saíram do Egipto tivessem dito: «Senhor, dá-me a conhecer o meu fim», que é uma terra boa e uma terra santa, «e o número dos meus dias» que percorro «para que veja como sou efémero», quanto ainda me falta caminhar para chegar à terra santa que me foi prometida.
O verdadeiro sábado e o repouso futuro
Orígenes — Homilias sobre o livro dos Números, nº 23 (a partir da trad. Sr Isabelle de la Source, Lire la Bible, t. 2, p. 87)
O sábado foi instituído como um dia sagrado; todos os santos e todos os justos deviam celebrar o sábado. […] Vejamos então em que consiste para o cristão a observância do sábado: no dia de sábado, não se deve realizar nenhuma obra deste mundo; é necessário abster-se de todas as obras terrenas, não fazer nada que se relacione com este mundo, dedicar-se às obras espirituais, ir à igreja, estar atento à leitura da Escritura e às explicações que dela são dadas, pensar em coisas do céu, ocupar-se da esperança na vida futura, ter presente o julgamento que há-de vir, meditar, não nas realidades visíveis e presentes, mas nas realidades futuras e invisíveis.
Os judeus também devem observar tudo isto. Em suas casas, os ferreiros, os pedreiros, todos os trabalhadores manuais ficam sem nada fazer no dia de sábado. Mas nesse dia, os leitores que proclamam a Sagrada Escritura, os doutores que explicam a Lei de Deus, não interrompem as suas funções, e no entanto não profanam o sábado. O meu Senhor o reconheceu: «Não lestes», disse-lhes Ele, «que ao sábado, no templo, os sacerdotes violam o sábado e ficam sem culpa?» Portanto, é aquele que se abstém das obras deste mundo e se torna livre para as actividades espirituais, é esse que oferece o sacrifício do sábado e santifica o sábado como um dia de festa. […]
Durante o sábado, cada qual permanece na sua casa e não sai dela. Qual é pois esta casa da alma espiritual? Esta casa é a justiça, a verdade, a sabedoria, a santidade; tudo isso é Cristo, a casa da alma. Desta casa, não é necessário sair, quando se quer guardar o verdadeiro sábado e celebrar por sacrifícios este dia de festa, segundo as palavras do Senhor: «Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós» (Jo 15, 4).
Não vemos que as palavras do Gênesis: «Deus repousou, no sétimo dia, do trabalho por Ele realizado» (Gn 2,2) se tenham realizado neste sétimo dia da Criação, nem que se realizem hoje. Vemos Deus sempre a trabalhar. Não há sábado em que Deus pare de trabalhar, não há dia em que Ele deixe de «fazer com que o sol se levante sobre os bons e os maus e fazer cair a chuva sobre os justos e os pecadores» (Mt 5,45), em que deixe de «fazer crescer as ervas nas montanhas e as plantas para o alimento dos homens» (Sl 146,8) […], em que deixe de «dar a morte e a vida» (1Sam 2,6).
Assim, o Senhor responde àqueles que O acusam de trabalhar e de curar ao sábado: «Meu Pai trabalha continuamente e Eu também trabalho» (Jo 5,17), querendo com isto dizer que, durante o tempo deste mundo, não há sábado em que Deus descanse de zelar pelo andamento do mundo e pelos destinos do género humano. […] Na sua sabedoria de Criador, Ele não cessa de exercer a sua providência e a sua benevolência sobre as suas criaturas, «até ao fim do mundo» (Mt 28,20). Portanto, o verdadeiro sábado em que Deus descansará de todos os seus trabalhos será o mundo futuro, quando «fugirão a tristeza e os gemidos» (Is 35,10 LXX), e Deus será «tudo em todos» (Col 3,11).
Fontes e critérios
As traduções portuguesas procedem do acervo Sophia, com fonte declarada Evangelho Cotidiano / Evangelizo, e do item 7 de Sophia.docx. Conservam-se as referências disponíveis à Patrologia Graeca (PG), a Sources chrétiennes (SC), a GCS, ao Breviário e às traduções e coletâneas de Orval, Fortier / En Calcat, Isabelle de la Source, Brésard e Delhougne. Não se trata de uma nova tradução nem de uma edição crítica das obras.
Uma homilia grega sobre a tempestade foi reservada porque a própria fonte a declara erradamente atribuída a Orígenes. Duas passagens publicadas juntas sob a referência à primeira homilia sobre o Gênesis foram separadas: a imagem da luz e o ensinamento de Rebeca junto ao poço. A atribuição e a referência incompleta da «Homilia 6» sobre João Batista permanecem expressamente recebidas.
Cotejos de localização e contexto: Comentário a João, livro I; Comentário a João, livro X; Comentário a Mateus, livro XI; Sobre os princípios, livro II, em traduções históricas. Estes cotejos não substituem as fontes das traduções portuguesas recebidas.
A linguagem de combate é conservada no sentido espiritual explicitado pelos textos: luta contra o pecado e as paixões. Os mapas de origem, variantes e decisões editoriais permanecem no registro interno. Preparação em 21 de outubro de 2026.



