A liberdade restituída: «Volta para tua casa e conta tudo o que Deus fez por ti»
25 de outubro de 2026 · Lucas 8,26–39 · Gálatas 2,16–20
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Amados, em Cristo,
O Santo Evangelho deste domingo nos conduz à região dos gerasenos, na margem oposta do lago da Galileia. Ali, Jesus encontra um homem cuja existência havia sido profundamente marcada pelo sofrimento. São Lucas nos diz que, havia muito tempo, ele não usava roupas, não habitava uma casa e vivia entre os túmulos. Era temido pelos habitantes da região, e as tentativas de contê-lo com correntes não haviam conseguido devolver-lhe a paz.
É difícil imaginar uma solidão maior. Aquele homem estava afastado de sua família, privado da convivência com os demais e submetido a uma força que o impedia de viver livremente. Sua condição parecia ter-se tornado sua única identidade. Já não era reconhecido por seu nome, por sua história ou pelos vínculos que um dia possuíra, mas pelo sofrimento que o dominava.
É precisamente nesse lugar que Cristo vem ao seu encontro.
O Senhor acabara de atravessar o lago. Durante a travessia, havia acalmado a tempestade, despertando nos discípulos uma pergunta: quem é este, a quem até os ventos e as águas obedecem? Agora, diante de um homem atormentado pelos espíritos impuros, manifesta-se novamente a autoridade divina de Jesus. Sua presença revela que nenhuma força contrária à vida pode prevalecer diante do poder de Deus.
Quando Jesus pergunta o nome do homem, ouve a resposta: «Legião», porque muitos demônios haviam entrado nele. A palavra exprime a gravidade daquela condição. Sua liberdade fora violentada, sua vontade submetida, sua existência profundamente desfigurada.
Também nós conhecemos, em outra dimensão, experiências que dividem o coração humano. Quantas vezes desejamos o bem, mas permanecemos presos ao ressentimento; buscamos a paz, mas alimentamos pensamentos de hostilidade; queremos viver em comunhão, mas permitimos que o orgulho e a indiferença nos afastem dos irmãos.
Essas fragilidades não devem ser confundidas com a possessão descrita no Evangelho. Recordam-nos, porém, que a liberdade interior precisa ser cultivada pela oração, pelo arrependimento e pela abertura à graça de Deus.
O Metropolita Hierotheos de Nafpaktos, comentando esta passagem, recorda uma distinção fundamental da vida espiritual: enquanto o mal escraviza e desfigura, a graça divina cura e conduz o ser humano à liberdade. Deus não nos chama a perder nossa identidade, mas a reencontrar, em comunhão com Ele, a dignidade para a qual fomos criados.
É por isso que a imagem apresentada pelo Evangelista depois da libertação possui tanta beleza. Os habitantes encontram o homem sentado aos pés de Jesus, vestido e em perfeito juízo.
Aquele que vivia entre os túmulos agora está diante do Senhor da vida. Aquele que não possuía uma casa poderá regressar à sua família. Quem estava submetido à violência encontra-se em paz.
Cristo restituiu àquele homem a possibilidade de viver como pessoa, de conviver com os outros e de participar novamente da vida de sua comunidade.
Essa imagem deveria permanecer diante de nossos olhos sempre que encontramos alguém marcado pela dor, pela enfermidade, pelo abandono ou pelos próprios erros. Nenhum ser humano pode ser reduzido ao momento mais difícil de sua história. A dignidade que Deus concedeu a cada pessoa permanece, mesmo quando as circunstâncias parecem obscurecê-la.
O Evangelho nos ensina a olhar para o outro com misericórdia e esperança.
Há, porém, um aspecto desconcertante na narrativa. Diante do homem libertado, os habitantes da região são tomados de grande temor e pedem que Jesus se retire. Haviam testemunhado um acontecimento extraordinário, mas não conseguem acolher sua presença.
O medo impede que reconheçam plenamente o significado daquela libertação.
Também em nossa vida espiritual pode acontecer algo semelhante. Desejamos a proteção de Deus, mas hesitamos quando sua Palavra nos convida a mudar. Pedimos paz, mas resistimos à reconciliação. Suplicamos misericórdia, mas temos dificuldade em oferecê-la. Queremos que Cristo permaneça conosco, mas nem sempre estamos dispostos a acolher as consequências de sua presença.
O Evangelho nos convida a examinar com sinceridade essa resistência. A proximidade de Cristo transforma nossa maneira de pensar, de amar e de viver. Sua graça nos conduz a abandonar aquilo que nos impede de viver em comunhão com Deus e com os irmãos.
O homem curado reage de maneira diferente. Ele suplica a Jesus que lhe permita acompanhá-Lo. Depois de tanto sofrimento, deseja permanecer junto d’Aquele que lhe devolveu a vida. Seu pedido é compreensível e comovente.
Entretanto, Cristo lhe confia outra missão: «Volta para tua casa e conta tudo o que Deus fez por ti».
Essas palavras constituem o ponto culminante da passagem.
O Senhor envia aquele homem de volta ao lugar de onde fora afastado. Ele deverá reencontrar as pessoas que conheciam seu sofrimento, reconstruir seus vínculos e testemunhar, pela própria existência, a misericórdia que recebeu.
Sua missão começa em casa.
Essa orientação de Jesus fala diretamente à nossa vida. Muitas vezes imaginamos que servir a Deus exige acontecimentos extraordinários, grandes realizações ou uma mudança radical de circunstâncias. Mas o Evangelho nos recorda que o testemunho cristão começa nas relações que já fazem parte de nossa existência.
Na família, quando aprendemos a perdoar. No trabalho, quando agimos com honestidade. Na comunidade, quando acolhemos aqueles que se sentem afastados. Diante do sofrimento alheio, quando oferecemos nossa presença sem julgamentos precipitados.
É assim que a graça recebida se torna visível.
A Epístola deste domingo ilumina profundamente essa experiência. São Paulo escreve aos Gálatas: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim».
O Apóstolo não perdeu sua personalidade ao encontrar Cristo. Sua vida, porém, foi transformada pelo amor d’Aquele que se entregou por ele. Paulo descobriu uma liberdade nova: viver na fé, orientar sua vontade para o Senhor e oferecer sua existência ao serviço do Evangelho.
O homem de Gerasa experimentou essa transformação por meio de uma libertação extraordinária. Paulo a descreve como participação na vida de Cristo. Em ambos, reconhecemos a graça divina que restaura a pessoa e lhe confia uma missão.
Amados irmãos e irmãs,
Ao nos reunirmos hoje para a Divina Liturgia, também nós nos colocamos aos pés de Cristo. Trazemos nossas preocupações, nossas fragilidades, nossas esperanças e as pessoas que confiamos à sua misericórdia.
Na oração da Igreja, na escuta da Palavra e na participação nos Santos Mistérios, somos chamados a acolher a vida que Ele nos oferece. A comunhão com Cristo deve produzir frutos em nossa maneira de tratar os irmãos, em nossa disposição para perdoar e na responsabilidade com que vivemos nossa fé.
Que o Senhor nos conceda um coração livre do medo que afasta, do orgulho que divide e da indiferença que fere. Que saibamos reconhecer sua imagem em cada pessoa, sobretudo naquelas cuja dignidade o mundo frequentemente esquece.
E, ao regressarmos às nossas casas, levemos conosco a palavra confiada ao homem de Gerasa: contar, com a simplicidade de nossa vida, tudo o que Deus fez por nós.
Amém.



