Homilia — V Domingo de São Lucas

O rico e Lázaro: a porta que ainda podemos abrir

1º de novembro de 2026: Evangelho: Lucas 16,19–31 | Apóstolos: 1Coríntios 12,27–31; 13,1–8

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Amados irmãos e irmãs em Cristo,

O Evangelho que acabamos de ouvir apresenta-nos duas pessoas que viviam muito próximas uma da outra, mas entre as quais parecia existir uma distância imensa. De um lado, um homem rico, vestido com roupas luxuosas, que todos os dias se entregava a esplêndidos banquetes. Do outro, um pobre chamado Lázaro, coberto de feridas, que permanecia à porta de sua casa, desejando alimentar-se com as migalhas que caíam de sua mesa.

O que mais impressiona nessa parábola não é apenas a diferença entre a riqueza de um e a miséria do outro. É o fato de que ambos estavam tão próximos e, ainda assim, viviam como se pertencessem a mundos inteiramente separados. Lázaro não estava numa região distante. Não era alguém cuja existência o rico desconhecesse. Estava ali, diante de sua porta. Bastaria que aquele homem interrompesse por um instante seus banquetes, olhasse ao redor e reconhecesse a presença de quem sofria. Mas a porta permaneceu fechada.

E, precisamente nessa porta é que devemos concentrar nossa atenção neste domingo. Porque ela não representa apenas a entrada de uma casa. Representa também a liberdade que Deus nos concedeu: a possibilidade de nos abrirmos ao próximo ou de permanecermos fechados em nós mesmos.

Cristo não nos diz que o rico tivesse adquirido seus bens desonestamente, nem que tivesse maltratado Lázaro. O Evangelho não menciona qualquer violência praticada contra ele. O que encontramos é algo aparentemente mais simples, mas espiritualmente muito grave: a indiferença. Aquele homem tinha condições de ajudar, mas não ajudou. Tinha diante de si alguém que precisava de alimento, de cuidado e de atenção, mas continuou vivendo como se nada estivesse acontecendo.

São João Crisóstomo, ao comentar essa parábola, recorda-nos que a riqueza não é condenável por si mesma. Os bens que recebemos podem tornar-se instrumentos de misericórdia. O perigo começa quando nos apegamos tanto a eles que já não conseguimos perceber as necessidades dos outros. E isso não diz respeito apenas às pessoas que possuem grandes fortunas. Todos nós, em alguma medida, temos algo que podemos oferecer: um pouco de nosso tempo, uma palavra de consolo, uma visita, um gesto de generosidade, a disposição de escutar alguém que sofre.

Nem sempre o Lázaro que encontramos precisa de dinheiro. Às vezes, precisa simplesmente de alguém que não o deixe sozinho.

A parábola prossegue e nos apresenta a morte dos dois homens. Lázaro é conduzido pelos anjos ao seio de Abraão. O rico, por sua vez, encontra-se em tormentos e, olhando ao longe, vê aquele mesmo pobre que antes permanecia à sua porta. Agora, porém, existe entre eles um grande abismo.

É uma imagem muito forte. Durante a vida, havia uma porta que podia ser aberta. Depois da morte, a parábola nos fala de um abismo que já não pode ser atravessado.

O Senhor não pretende oferecer uma descrição pormenorizada da vida após a morte. Ele nos adverte, sobretudo, sobre a seriedade da existência que recebemos e sobre as consequências de nossas escolhas. A maneira como tratamos os outros não é indiferente diante de Deus. A indiferença que cultivamos hoje pode transformar-se numa distância cada vez maior entre nós e aqueles que somos chamados a amar. Por isso, o Evangelho não foi proclamado para que julguemos aquele homem rico. Foi proclamado para que examinemos nossa própria vida.

Quem é Lázaro diante de nossa porta?

Talvez seja alguém de nossa família com quem deixamos de conversar. Talvez seja uma pessoa idosa que espera uma visita, um enfermo que precisa de atenção, uma família que atravessa dificuldades ou alguém que, mesmo cercado de pessoas, experimenta a solidão. É possível participar regularmente dos ofícios da Igreja, conhecer as orações e os ensinamentos da fé e, ainda assim, deixar de perceber o sofrimento que está tão próximo de nós. Justamente aqui é que a leitura apostólica deste domingo nos ajuda a compreender o Evangelho. São Paulo nos recorda que somos o Corpo de Cristo e, cada um de nós, seus membros. Isso significa que nossa vida cristã não pode ser vivida isoladamente. Pertencemos uns aos outros, porque pertencemos a Cristo.

O Apóstolo prossegue apresentando-nos o caminho mais excelente: o amor. Ele nos ensina que, mesmo que possuíssemos grandes conhecimentos, dons extraordinários ou uma fé capaz de transportar montanhas, nada disso teria verdadeiro valor se nos faltasse o amor.

O rico da parábola possuía muitas coisas, mas faltava-lhe aquilo que poderia dar sentido a tudo o que tinha. Faltava-lhe a misericórdia. E a misericórdia não é apenas um sentimento de pena diante do sofrimento. É o amor que se torna presença, cuidado e serviço. É a disposição de deixar que a necessidade do outro encontre lugar em nossa vida.

Neste domingo, a Igreja celebra também a memória dos Santos Anárgiros Cosme e Damião, médicos que dedicaram seus conhecimentos ao cuidado dos enfermos, sem exigir pagamento. Eles compreenderam que os dons recebidos de Deus encontram sua verdadeira finalidade quando são colocados a serviço dos irmãos. O testemunho desses santos ilumina de maneira muito concreta o Evangelho de hoje. Enquanto o rico conservava seus bens para si mesmo, Cosme e Damião fizeram de seus conhecimentos e de seu trabalho instrumentos de misericórdia.

Também nós somos chamados a descobrir de que maneira os dons que recebemos podem servir à vida dos outros.

Na parte final da parábola, o rico pede que Lázaro seja enviado para advertir seus irmãos, a fim de que não tenham o mesmo destino. Abraão responde que eles já possuem Moisés e os Profetas e devem escutá-los. E acrescenta que, se não acolhem essa Palavra, tampouco se deixarão convencer, ainda que alguém ressuscite dos mortos.

Essas palavras adquirem um significado ainda mais profundo para nós, que cremos em Jesus Cristo ressuscitado. O Senhor venceu a morte e abriu-nos o caminho da vida. Sua Ressurreição é o fundamento de nossa esperança. Mas essa esperança exige uma resposta. Não basta professar com os lábios que Cristo ressuscitou, se não permitimos que sua vida transforme nosso coração.

A Palavra de Deus já nos foi anunciada. Conhecemos o mandamento do amor. Participamos da oração da Igreja e somos convidados a aproximar-nos da Santa Comunhão. E aqui encontramos uma última pergunta que o Evangelho nos apresenta. Como podemos aproximar-nos da Mesa do Senhor e permanecer indiferentes àqueles que necessitam de nossa ajuda?

Na Divina Liturgia, Cristo oferece a si mesmo como alimento de vida eterna. Não nos recebe segundo nossas riquezas, nossos méritos ou nossa posição social, mas chama-nos à comunhão com Ele e, por meio dele, com nossos irmãos. A Mesa eucarística deve ensinar-nos a abrir também a mesa de nossa vida: a partilhar, a acolher, a perdoar e a servir.

Amados irmãos, a parábola do Rico e Lázaro é uma advertência séria, mas também uma expressão da misericórdia de Deus. O Senhor nos revela o perigo da indiferença precisamente porque deseja nossa salvação. Ainda estamos no tempo em que a porta pode ser aberta. Ainda podemos reconciliar-nos com alguém, socorrer quem necessita, visitar quem está sozinho e transformar nossos bens e capacidades em instrumentos de amor.

Peçamos, nesta Divina Liturgia, que Cristo cure a insensibilidade de nosso coração e nos conceda olhos capazes de reconhecer a dignidade daqueles que encontramos em nosso caminho. E que, fortalecidos pela comunhão de seu Corpo e Sangue, aprendamos a viver desde agora aquilo que esperamos encontrar em plenitude no seu Reino: a alegria de uma vida fundada no amor, na misericórdia e na comunhão. Amém.

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