A misericórdia que recebemos deve tornar-se a misericórdia que oferecemos
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Amados em Cristo,
Há experiências que todos os seres humanos compartilham. Uma delas é o desejo de sermos compreendidos quando erramos. Esperamos que nossas fraquezas sejam vistas com indulgência, que nossas quedas não nos definam para sempre e que, depois do arrependimento, possamos recomeçar. Sabemos, por experiência própria, quanto necessitamos de perdão.
Entretanto, com frequência, a mesma medida desaparece quando somos nós os ofendidos. Aquilo que desejamos receber de Deus e dos outros torna-se difícil de conceder ao próximo. É precisamente esse paradoxo que Cristo coloca diante de nós na parábola do servo impiedoso, proclamada neste décimo primeiro Domingo de São Mateus.
A pergunta que deu origem a essa parábola parecia perfeitamente razoável. Pedro desejava saber até onde deveria chegar o perdão: “Quantas vezes devo perdoar meu irmão?” Havia, por trás da pergunta, a tentativa de estabelecer um limite para a misericórdia. A resposta de Cristo, porém, rompe completamente essa lógica. O perdão cristão não pode ser contado nem medido, porque sua fonte não está na generosidade humana, mas na infinita misericórdia de Deus.
Para tornar isso evidente, Jesus apresenta uma cena impressionante. Um servo comparece diante do rei trazendo uma dívida absolutamente impagável. Os dez mil talentos mencionados pelo Evangelho representam uma quantia tão desproporcional que nenhum trabalhador conseguiria quitá-la durante toda a sua existência. A intenção de Cristo não é fazer um cálculo econômico. A dívida simboliza a condição espiritual da humanidade diante de Deus.
Vivemos porque Deus continuamente nos sustenta. Respiramos graças ao seu amor. Recebemos diariamente benefícios que jamais poderíamos retribuir. E, ao mesmo tempo, carregamos o peso de nossos pecados, de nossas infidelidades, de nossas omissões, de tudo aquilo que obscurece em nós a imagem divina. Diante dessa realidade, ninguém pode apresentar-se diante do Senhor reivindicando direitos ou méritos próprios.
É precisamente aí que resplandece o Evangelho.
O rei não concede apenas mais tempo ao servo. Não negocia um abatimento da dívida. Não propõe parcelas mais acessíveis. Simplesmente cancela tudo.
Assim Deus age conosco.
Toda a história da salvação é a história dessa misericórdia que antecede qualquer mérito humano. Antes mesmo que fôssemos capazes de levantar-nos, Deus veio ao nosso encontro. Antes que pudéssemos reparar nossa queda, Cristo assumiu sobre Si a nossa condição e, pela Cruz e pela Ressurreição, abriu novamente o caminho da comunhão com o Pai.
A misericórdia não é um complemento do amor de Deus. Ela é a forma concreta pela qual esse amor se manifesta ao homem ferido pelo pecado.
Entretanto, a parábola não termina nesse momento de extraordinária beleza.
O servo perdoado sai da presença do rei sem que seu coração tenha sido verdadeiramente transformado. Recebeu misericórdia, mas não aprendeu a ser misericordioso. Encontrando um companheiro que lhe devia uma quantia insignificante em comparação com a sua dívida anterior, lança-se imediatamente sobre ele, exige o pagamento e manda prendê-lo.
É aqui que se encontra o verdadeiro drama do Evangelho.
O problema não está apenas na falta de compaixão. Está na incoerência espiritual.
O homem experimentou a graça, mas permaneceu vivendo segundo a antiga lógica do cálculo, da cobrança e da retribuição. O perdão chegou até sua vida, mas não penetrou seu coração.
Talvez este seja um dos maiores riscos também para nós.
Participamos da Divina Liturgia, aproximamo-nos frequentemente da Confissão, recebemos a absolvição dos pecados, cantamos sobre a misericórdia infinita de Deus e proclamamos que Cristo venceu o pecado e a morte. Entretanto, basta uma palavra que nos fira, uma injustiça sofrida, uma antiga lembrança ou um conflito familiar para descobrirmos como ainda é difícil libertar-nos do ressentimento.
A parábola não pretende humilhar-nos. Ela deseja mostrar-nos que existe uma diferença entre receber exteriormente o perdão e permitir que ele transforme verdadeiramente toda a nossa existência.
Na tradição ortodoxa, a salvação nunca foi compreendida apenas como uma absolvição jurídica. Deus não apenas muda nossa situação diante d’Ele; deseja renovar o próprio homem. A graça não cobre simplesmente os pecados como um véu; ela restaura progressivamente a imagem divina presente em nós.
Por isso, o perdão torna-se um dos sinais mais claros dessa transformação interior.
Não porque seja fácil.
Mas justamente porque é impossível sem a ação do Espírito Santo.
Perdoar não significa negar o sofrimento recebido, fingir que o mal nunca aconteceu ou abandonar a busca da justiça quando ela é necessária. Perdoar significa recusar que o mal recebido continue produzindo novos males dentro de nós. Significa romper a cadeia da vingança, da memória rancorosa e da hostilidade, permitindo que a misericórdia de Deus cure lentamente aquilo que o pecado feriu.
Os Padres da Igreja insistem continuamente nesse aspecto. Santo Isaac, o Sírio, afirma que a compaixão constitui a própria veste de Deus. São Máximo, o Confessor, ensina que perdoamos não por medo do castigo, mas porque fomos alcançados pela misericórdia divina. São João Crisóstomo recorda que o verdadeiro discípulo de Cristo aprende a vencer o mal não reproduzindo-o, mas interrompendo seu ciclo.
Essa mesma lógica aparece de maneira surpreendente na Epístola deste domingo.
São Paulo poderia reivindicar legitimamente muitos direitos como Apóstolo. Tinha autoridade para receber sustento das comunidades que evangelizava. Contudo, renuncia voluntariamente a tudo isso para que nada se torne obstáculo ao anúncio do Evangelho.
Que contraste impressionante!
Enquanto o servo da parábola exige rigidamente aquilo que considera seu direito, Paulo renuncia até mesmo ao que verdadeiramente lhe pertence.
O primeiro permanece escravo de si mesmo.
O segundo tornou-se livre.
Aqui encontramos uma das características mais belas da maturidade espiritual. Quanto mais o homem é configurado a Cristo, menos sente necessidade de defender continuamente seus próprios interesses. Não porque tenha perdido sua dignidade, mas porque descobriu uma liberdade infinitamente maior: a liberdade de amar.
Cristo não veio ao mundo reivindicar Seus direitos divinos. Veio esvaziar-Se, assumir nossa condição e entregar-Se por nossa salvação. A vida apostólica nada mais é do que o prolongamento dessa mesma kenosis no interior da Igreja.
Essa reflexão conduz inevitavelmente ao coração da vida litúrgica.
Poucos instantes antes da Santa Comunhão, toda a assembleia eleva ao Pai a oração ensinada pelo próprio Senhor: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores.”
Não rezamos essas palavras por acaso.
A Igreja coloca essa súplica imediatamente antes da participação no Corpo e no Sangue de Cristo porque compreende que a Eucaristia é o sacramento da reconciliação.
Aproximar-se do Santo Cálice conservando deliberadamente o ódio, o desejo de vingança ou a recusa absoluta do perdão significa contradizer aquilo mesmo que se celebra.
A Comunhão não é apenas encontro individual com Cristo. Ela manifesta a unidade do Corpo inteiro da Igreja.
Por isso, toda Divina Liturgia nos educa lentamente para a misericórdia.
Somos chamados a reconhecer nossos pecados antes de enxergar os pecados alheios.
Somos convidados a pedir perdão antes de exigir reparações.
Aprendemos que ninguém permanece de pé diante de Deus pelos próprios méritos, mas exclusivamente por Sua infinita compaixão.
Talvez seja justamente aqui que esta parábola revele sua maior atualidade.
Vivemos numa sociedade marcada pela polarização, pela exposição permanente das faltas dos outros, pela facilidade em condenar e pela dificuldade em reconciliar. Muitas vezes, basta uma divergência para romper amizades antigas, dividir famílias ou transformar irmãos em adversários.
Cristo oferece um caminho completamente diferente.
Não o caminho da fraqueza.
Não o caminho da conivência com o mal.
Mas o caminho da misericórdia que nasce da Cruz.
Foi na Cruz que Deus respondeu ao pecado do mundo. Não multiplicando violência, mas oferecendo amor. Não devolvendo ofensa por ofensa, mas abrindo os braços para reconciliar consigo toda a humanidade.
É essa vida que recebemos em cada Divina Liturgia.
É essa vida que somos chamados a prolongar quando retornamos às nossas casas, ao trabalho, às nossas famílias e às relações cotidianas.
No final da parábola, o servo é aprisionado. Muitos leem essa imagem apenas como referência ao juízo futuro. Há certamente essa dimensão. Mas existe também outra realidade profundamente espiritual.
Quem não perdoa já começa a viver numa prisão.
A prisão da memória amarga.
A prisão da ira.
A prisão da necessidade constante de justificar-se.
A prisão do orgulho.
Ao contrário, cada ato sincero de misericórdia rompe um pouco dessas correntes invisíveis.
Cada perdão concedido torna o coração mais semelhante ao de Cristo.
Cada reconciliação faz resplandecer um pouco mais, no mundo, a luz do Reino de Deus.
A Igreja existe precisamente para isso.
Não para reunir homens perfeitos.
Mas para transformar pecadores perdoados em testemunhas vivas da misericórdia que receberam.
E quando isso acontece, a antiga admiração dos primeiros séculos continua a repetir-se diante do mundo:
“Vede como eles se amam.”
Amém.



