A humildade do coração

Morais sobre Job, livro XII, SC 212

Muitas vezes, o justo que é vencido pela adversidade – tal como aconteceu ao bem-aventurado Job, que, depois de uma vida justa, foi atingido por uma série de flagelos – é obrigado a relatar as suas boas ações. Mas, quando ouve a palavra do justo, o injusto vê nela orgulho em vez de sinceridade, pois julga as palavras do justo com o seu próprio coração e não acredita que as palavras do sábio possam ser proferidas com humildade. Com efeito, se é uma grave falta reivindicar o que não se é, muitas vezes não há falta em reconhecer humildemente a virtude que se possui. Assim, acontece frequentemente o justo e o injusto proferirem as mesmas palavras; mas os respetivos corações estão muito longe de se assemelharem e, consoante vêm do injusto ou do justo, as palavras ofendem ou agradam ao Senhor.

Assim, o fariseu que foi ao Templo dizia: «Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo quanto possuo»; mas o publicano saiu do Templo justificado, e ele não. Também o rei Ezequias, estando gravemente enfermo e próximo do fim da vida, dizia, compungido, na sua oração: «Lembrai-Vos, Senhor, como tenho procedido fielmente e de coração sincero na vossa presença» (Is 38,3); e o Senhor não responde a essa declaração de perfeição com desprezo ou a rejeição, mas atende imediatamente a sua oração. Temos, pois, o fariseu, que se declarou justo nas suas obras, e Ezequias, que afirmou ser justo até nos seus pensamentos: a mesma atitude e, contudo, um ofendeu o Senhor e o outro não. Porquê?

Porque Deus omnipotente pesa as palavras de cada um de nós segundo os nossos pensamentos, e o seu ouvido não escuta orgulho em palavras que vêm da humildade do coração. Por isso, ao descrever as suas boas obras, o bem-aventurado Job não se encheu de orgulho diante de Deus, pois descrevia humildemente o que tinha realmente feito.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *