«Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração»

Grandes Regras, Q. 2

Recebemos de Deus a tendência natural para cumprir Seus mandamentos, de modo que não podemos nos revoltar, como se Ele nos pedisse algo extraordinário, nem nos orgulhar, como se estivéssemos dando mais do que nos foi dado. […] Ao recebermos de Deus o mandamento do amor, já possuímos, desde a nossa origem, a capacidade natural de amar. Essa faculdade não nos foi imposta de fora para dentro; isso é evidente, pois buscamos naturalmente aquilo que é belo […]. Sem que nos ensinem, amamos aqueles que são nossos parentes, unidos por laços de sangue ou de aliança. E, de boa vontade, demonstramos benevolência para com nossos benfeitores.

Ora, haverá algo mais admirável do que a beleza de Deus? […] Haverá desejo mais ardente do que a sede que Deus provoca na alma purificada, que exclama com sinceridade: «Desfaleço de amor» (Cant 2, 5)? […] Essa bondade é invisível aos olhos do corpo, só podendo ser captada pela alma e pela inteligência. Sempre que iluminou os santos, deixou neles o aguilhão de um grande desejo, a ponto de exclamarem: «Ai de mim, que vivo no exílio» (Sl 119, 5), «Quando poderei eu chegar, para contemplar a face de Deus?» (Sl 41, 3), «Desejo partir para estar com Cristo» (Fil 1, 23) e «A minha alma tem sede do Senhor, do Deus vivo» (Sl 41, 3). […] É assim que os homens aspiram naturalmente ao belo. Mas aquilo que é bom é também supremamente amável; ora, Deus é bom. Portanto, se todas as coisas procuram o que é bom, todas as coisas procuram a Deus.

Se o afeto dos filhos pelos pais é um sentimento natural, manifestado até mesmo no instinto dos animais e na disposição das crianças para amarem suas mães desde tenra idade, não sejamos menos inteligentes do que as crianças, nem mais estúpidos do que os animais. Não nos apresentemos diante de Deus, que nos criou, como estrangeiros sem amor. Mesmo que não tivéssemos compreendido, por Sua bondade, Quem Ele é, deveríamos, apenas pelo fato de termos sido criados por Ele, amá-Lo acima de tudo e permanecer ligados à memória d’Ele, assim como as crianças permanecem ligadas à memória de suas mães.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *