«Do Oriente e do Ocidente, muitos virão sentar-se à mesa do banquete com Abraão […] no Reino do Céu».

«Dias virão, oráculo do Senhor, em que firmarei nova aliança com as casas de Israel e de Judá. […] Imprimirei a Minha Lei, gravá-la-ei no seu coração» (Jer 31, 31ss.). Isaías anuncia que estas promessas devem ser uma herança de apelo aos pagãos; também para eles se abriu o livro da nova aliança:

«Oráculo do Senhor Deus de Israel. Naquele dia, o homem voltará os seus olhos para o Criador, seus olhos contemplarão o Santo de Israel, não olhará mais para os altares obras das suas mãos» (Is 17, 7-8).

É evidente que estas palavras são dirigidas àqueles que abandonam os ídolos e creem em Deus nosso Criador, graças ao Santo de Israel; ora, o Santo de Israel é Cristo. […]

No livro de Isaías, é o próprio Verbo que diz que tem de Se manifestar entre nós – com efeito, o Filho de Deus fez-Se homem – e de Se deixar encontrar por nós, que anteriormente O não conhecíamos:

«Eu estava à disposição dos que não Me consultavam, saía ao encontro dos que não Me buscavam. Dizia: «Eis-Me aqui, eis-Me aqui» a um povo que não invocava o Meu nome» (Is 65, 1).

E Oseias anunciou que este povo de que fala Isaías tem de ser um povo santo:

«Usarei de misericórdia para com o não amado e direi ao que não é o Meu povo: «Tu és o Meu povo» e ele Me responderá: «Tu és o meu Deus»» (Os 2, 25).

É também este o sentido das palavras de São João Batista:

«Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão» (Mt 3, 9).

Com efeito, depois de terem sido arrancados, pela fé, ao culto das pedras, os nossos corações vêem a Deus e tornamo-nos filhos de Abraão, que foi justificado pela fé.


«Virão muitos do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus.»

A promessa feita anteriormente por Deus a Abraão manteve-se estável. Deus tinha-lhe dito, com efeito:

«Ergue os teus olhos e, do sítio em que estás, contempla o Norte, o Sul, o Oriente e o Ocidente. Toda a terra que estás a ver, dar-ta-ei, a ti e aos teus descendentes, para sempre» (Gn 13,14-15). […]

No entanto, Abraão não recebeu herança alguma durante a sua vida terrena, «nem mesmo um palmo de terra»; foi sempre um «estrangeiro e hóspede» de passagem (At 7,5; Gn 23,4). […] Portanto, se Deus lhe prometeu a herança da terra, e ele não a recebeu durante a sua estadia terrena, terá de recebê-la com a sua posteridade, isto é, aqueles que temem a Deus e nele creem, aquando da ressurreição dos justos.

Ora, a sua posteridade é a Igreja, que, pelo Senhor, recebe a filiação adotiva em relação a Abraão, como diz João Batista:

«Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão» (Mt 3,9).

Também o apóstolo Paulo diz na sua Epístola aos Gálatas:

«E vós, irmãos, à semelhança de Isaac, sois filhos da promessa» (Gal, 4,28).

Diz claramente ainda, na mesma epístola, que os que acreditaram em Cristo recebem, de Cristo, a promessa feita a Abraão:

«Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não se diz: “e às descendências”, como se de muitas se tratasse; trata-se, sim, de uma só: “e à tua descendência”, que é Cristo» (Gal 3,16).

E, para confirmar tudo isto, diz ainda

«Assim foi com Abraão: teve fé em Deus e isso foi-lhe atribuído à conta de justiça. Ficai, por isso, a saber: os que dependem da fé é que são filhos de Abraão. E como a Escritura previu que é pela fé que Deus justifica os gentios, anunciou previamente como evangelho a Abraão: serão abençoados em ti todos os povos» (Gal 3,6-8). […]

Se portanto nem Abraão nem a sua descendência, isto é, todos os que são justificados na fé, recebem herança alguma nesta Terra, recebê-la-ão no momento da ressurreição dos justos, porque Deus é verídico e estável em todas as coisas. Era por este motivo que o Senhor dizia:

«Felizes os mansos, porque possuirão a terra» (Mt 5,5).

Santo Ireneu de Lião ( c. 130- c. 208), bispo, teólogo e mártir
Demonstração da pregação apostólica
(a partir da trad. Bouchet, Lectionnaire, p. 296 rev.; cf SC 62, p. 157)
Fonte: Evangelho Cotidiano


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