«Nós veneramos a Tua Cruz, ó Sobrerano, e glorificamos a Tua Santa Ressurreição»
Queridos irmãos e irmãs em Cristo,
Chegamos ao meio da Quaresma. A Igreja, como uma mãe que vê seus filhos cansados na longa caminhada para a Páscoa, coloca diante de nós a Santa Cruz. Não como um peso a mais, mas como um farol de luz e esperança. Hoje somos convidados a venerar a Cruz vivificante e a compreender, mais profundamente, o mistério que ela encerra. A partir da Palavra de Deus e da tradição dos Santos Padres, meditemos em três pontos essenciais.
1. A Cruz: de instrumento de morte a árvore da vida
No tempo de Jesus, a cruz era o símbolo mais terrível de vergonha e sofrimento. Os romanos reservavam-na para os piores criminosos. Era sinônimo de maldição. No entanto, pela obediência de Cristo ao Pai, esse madeiro infame transformou-se em fonte de salvação.
São Paulo, na carta aos Gálatas, exclama:
“Longe de mim gloriar-me, a não ser na Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6,14).
O Apóstolo compreendeu que, na Cruz, se revela o amor infinito de Deus: um Deus que se entrega por amor. A Cruz deixou de ser escândalo para se tornar a cátedra donde nos é ensinada a medida do amor divino.
Irmãos, quantas vezes olhamos para a cruz apenas como um objeto de adorno ou um sinal rápido que fazemos ao entrar na igreja? Hoje a Igreja nos chama a contemplá-la com os olhos da fé. Na cruz está a nossa vitória. O diabo, que pensava vencer com a morte, foi derrotado precisamente pela morte de Cristo. A cruz é o trono donde o Rei da Glória reina e nos concede a vida eterna. Por isso cantamos:
«Vinde, fiéis, adoremos o madeiro que dá a vida!»
2. O olhar que salva: a serpente de bronze e o Crucificado
No Evangelho de hoje (Jo 3,13-17), o próprio Senhor nos dá a chave para entender a Cruz:
«Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todo aquele que nele crê tenha a vida eterna.»
Recordemos o episódio do Êxodo. O povo de Israel, picado por serpentes venenosas, morria. Deus ordenou a Moisés que erguesse uma serpente de bronze num madeiro; quem a contemplasse era curado. A serpente de bronze era imagem do pecado, mas sem veneno. Cristo, sem pecado, tomou sobre si a aparência do pecado e foi erguido na Cruz. Todo aquele que volta o olhar para Ele com fé é curado da morte eterna.
Mas o que significa «olhar para o Crucificado-? Não é apenas um olhar físico. É um olhar do coração. É reconhecer que ali, naquele madeiro, está o meu Salvador, que morreu por mim. É confiar que o seu amor é maior que os meus pecados. Muitas vezes, diante das dificuldades, desviamos o olhar de Cristo e ficamos a olhar apenas para os nossos problemas. A Quaresma é tempo de reorientar o olhar. Fixemos os olhos em Jesus crucificado e ressuscitado. Ele é a nossa cura.
São João Crisóstomo ensina:
«A Cruz é a causa da nossa salvação. Por ela, fomos reconciliados com Deus.»
Assim como os israelitas eram salvos ao olhar para a serpente, nós somos salvos ao contemplar a Cruz com fé e amor.
3. Tomar a cruz cada dia: o caminho do discípulo
Ouvimos também no Evangelho de Marcos (8,34-38):
«Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.»
Estas palavras são exigentes. Jesus não nos promete uma vida sem dificuldades. Pelo contrário, diz-nos que o discípulo deve carregar a sua cruz.
Qual é a nossa cruz? São as pequenas e grandes dificuldades de cada dia: uma doença, uma incompreensão familiar, uma tentação que teima em voltar, a paciência que nos falta, o perdão que custa dar. Mas atenção: a cruz só tem sentido se for carregada com Cristo e atrás d’Ele. Sem Ele, é apenas peso e desespero. Com Ele, torna-se meio de santificação.
Um padre grego, o arquimandrita Geórgios Kapsanis, dizia:
«De que pode gloriar-se o cristão senão da Cruz de Cristo? Um Deus é crucificado por amor ao homem. Que mistério de amor!»
E nós, como respondemos a esse amor? Carregando a nossa cruz com paciência, unindo o nosso sofrimento ao d’Ele, oferecendo as nossas dores pela salvação do mundo.
Há também aqueles que, por medo ou vergonha, escondem a sua fé. Jesus adverte:
«Quem se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória do Pai.»
Não nos envergonhemos! Façamos o sinal da Cruz com respeito, professemos a nossa fé, vivamos como cristãos autênticos. A Cruz é a nossa identidade.
Irmãos, a Igreja coloca a Cruz no meio da Quaresma para nos fortalecer. Para nos lembrar que não caminhamos sozinhos. Cristo vai à nossa frente, carregando a sua cruz, e convida-nos a segui-lo.
Ao venerarmos a Santa Cruz, peçamos a graça de compreender o seu mistério. Que ela seja o nosso escudo contra o maligno, a nossa luz nas trevas, a nossa esperança na dor. E, abraçados à Cruz, caminhemos confiantes para a alegria da Ressurreição.
Nós veneramos a Tua Cruz, ó Soberano, e glorificamos a Tua Santa Ressurreição.


