Sentado no seu posto de cobrança, este infeliz publicano estava numa situação pior que a do paralítico […] que jazia no catre (cf Mc 2,1s). Um fora atingido pela paralisia no corpo, o outro na alma. No caso do primeiro, todos os membros estavam disformes; no caso do segundo, era a capacidade de ajuizar que estava confundida. O primeiro jazia prisioneiro da carne; o outro estava sentado, cativo de alma e corpo. Era contra a sua vontade que o paralítico sucumbia aos sofrimentos; já o publicano era voluntariamente escravo do mal do pecado. Este último, inocente a seus próprios olhos, era acusado de cupidez pelos outros; o primeiro, no meio das suas feridas, sabia-se pecador. Um acumulava lucro sobre lucro, e todos eram pecados; o outro apagava os seus pecados gemendo com dores. Por isso, são justas estas palavras dirigidas ao paralítico: «Meu filho, os teus pecados estão perdoados», porque ele compensava as suas faltas com o seu sofrimento; mas o publicano ouviu dizer: «Segue-Me», isto é: farás reparação pelos teus pecados seguindo-Me, tu que te perdeste seguindo o dinheiro.
Podereis perguntar: porque foi que o publicano, que era aparentemente mais culpado, recebeu um dom maior: tornou-se imediatamente apóstolo […], recebeu o perdão e concedeu a outros a remissão dos seus pecados, e iluminou a Terra com a luz da pregação do Evangelho. Pelo contrário, o paralítico apenas foi julgado digno de receber o perdão. Queres saber porque foi que o publicano recebeu mais graças? Porque, segundo a palavra do apóstolo Paulo, «onde abundou o pecado, superabundou a graça» (Rom 5,20).
São Pedro Crisólogo (c. 406-450)
Sermão 30
Fonte: Evangelho Cotidiano


