«ENCHEU-SE DE PIEDADE PARA COM ELES»

Não chames a Deus simplesmente justo. Porque não é em relação ao que tu fazes que Ele revela a Sua justiça. Se David Lhe chama justo e reto (cf. Sl 32,5), o Seu Filho revelou-nos que Ele é, sobretudo bom e manso: «é bom até para os ingratos e os maus.» (Lc 6,35). […] Onde está a justiça de Deus? Não será em que «quando ainda éramos pecadores é que Cristo morreu por nós»? (Rm 5,8) E, se Deus Se mostra compassivo aqui na terra, acreditemos que Ele o é desde toda a eternidade.

Se David apelida Deus de justo e reto, o Filho revelou-nos que Ele é bom e manso. […]

Longe de nós esse pensamento injusto de que Deus não Se compadece. O próprio ser de Deus não muda, como mudam os seres que morrem […]; nada falta nem nada se acrescenta ao que Ele tem, como acontece às criaturas. Mas esta compaixão que Deus tem desde o início tê-la-á sempre, para a eternidade. […] Como disse o bem-aventurado Cirilo, no seu comentário do Gênesis, venera a Deus por amor e não por causa desse duro nome de justiça que Lhe impuseram. Ama-O como Ele deve ser amado: não pela recompensa que Ele te dará, mas pelo que recebemos, por este mundo que Ele criou para nos oferecer. Quem poderá dar-Lhe, seja o que for, em retribuição pelo que Ele fez por nós? Entre as nossas obras, que Lhe poderíamos oferecer? No início, quem O persuadiu a criar-nos? E quem Lhe reza por nós, quando não O reconhecemos? […] Como é admirável a compaixão de Deus! Quão maravilhosa é a graça de Deus nosso Criador, tão poderosa que tudo sofre! Que bondade incomensurável, da qual Ele investe a nossa natureza de pecadores para a recrearmos. Que dizer da sua glória? Ele perdoa quem O ofendeu e quem blasfemou, Ele renova esta poeira sem alma […], e faz do nosso espírito disperso e dos nossos sentidos extraviados uma natureza dotada de razão e capaz de pensar. O pecador não está em condições de compreender a graça da sua ressurreição. […] O que é a geena face à ressurreição, quando Ele nos erguer da condenação, concedendo a este corpo perecível a graça de se revestir de incorruptibilidade (1Cor 15, 53)? […]

Vós que tendes discernimento, vinde e admirai. Dotados de inteligência sábia e maravilhosa, admirai a graça do nosso Criador como ela merece. Esta graça é a retribuição dos pecadores. Porque, em vez do que eles merecem com toda a justiça, dá-lhes a sua ressurreição, revestindo os corpos que profanaram a sua Lei da glória da incorruptibilidade. Esta graça – a ressurreição que nos é dada depois de termos pecado – é maior que a primeira, que Ele nos deu quando nos criou, enquanto não existíamos. Glória à tua graça incomensurável, Senhor! Apenas me posso calar perante as vagas da tua graça. Sou incapaz de Te dizer a gratidão que Te devo.


Santo Isaac, o Sírio (século VII), monge perto de Mossul,
Discursos ascéticos, 1ª série, nº 60
Fonte: Evangelho Cotidiano

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