«’Este é o Meu Filho muito amado’ […] E temos assim mais confirmada a palavra dos profetas» (2Pe 1,17-19)

Hoje é o abismo da luz inacessível. Hoje, no monte Tabor, a efusão infinita do relâmpago divino resplandece diante dos apóstolos. Hoje, Jesus Cristo manifesta-Se como Senhor da Antiga e da Nova Aliança […]. Hoje, no monte Tabor, Moisés, o legislador de Deus, o chefe da Antiga Aliança, assiste como um servo a seu mestre, Cristo, sendo ele o donatário da Lei. E reconhece o seu desígnio, a que outrora tinha sido iniciado por prefigurações; é o que significa, quanto a mim, ver Deus «por detrás» (Ex 33,23). Agora ele vê claramente a glória da divindade, abrigado «na cavidade do rochedo» (Ex 33,22), mas «esse rochedo era Cristo» (1Cor 10,4), como Paulo expressamente ensinou: o Deus encarnado, Verbo e Senhor […].

Hoje, o chefe da Nova Aliança, que tinha proclamado Cristo como Filho de Deus ao dizer «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo» (Mt 16,16), vê o chefe da Antiga Aliança, que está junto do donatário de uma e de outra, e que lhe diz: «Está aqui Aquele que é. Aqui está Aquele de quem eu disse que suscitaria um Profeta como eu (Ex 3,14; Dt 18,15; Act 3,22) – como eu enquanto homem e enquanto chefe do povo novo, mas superior a mim e a toda a criatura, Ele que nos dá, a mim e a ti, as duas Alianças, a Antiga e a Nova» […]

Vinde então, obedeçamos ao profeta David! Cantemos a nosso Rei, cantemos a nosso Rei, cantemos! «Ele é o Rei de toda a terra» (Sl 46,7-8). Cantemos com sabedoria: cantemos com alegria […]. Cantemos também ao Espírito «que tudo penetra, até às profundidades de Deus»  (1 Co 2,10), ao vermos, nesta luz do Pai que é o Espírito que tudo ilumina, a luz inacessível, o Filho de Deus. Manifesta-se hoje o que olhos de carne não podem ver: um corpo terrestre resplandecente de esplendor divino, um corpo mortal transbordante da glória da divindade. […] As coisas humanas tornam-se as de Deus, e as coisas divinas, as do homem..

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«Da nuvem fez-se ouvir uma voz: “Este é o meu Filho muito amado: escutai-O”». São estas as palavras do Pai saídas da nuvem do Espírito: Este é o meu Filho muito amado, que é homem e tem a aparência de homem. Ontem fez-Se homem, viveu humildemente entre vós; agora, o seu rosto resplandece. Este é o meu Filho muito amado, que existe desde antes dos séculos. Ele é o Filho único do Deus único. Fora do tempo, foi eternamente gerado de Mim, o Pai. Não acedeu à existência depois de Mim, mas desde toda a eternidade é de Mim, está em Mim e comigo. […]

Foi pela bondade do Pai que o seu Filho único, o seu Verbo, Se fez carne. Foi pela sua bondade que o Pai realizou, no seu Filho único, a salvação do mundo inteiro. Foi a bondade do Pai que fez a união de todas as coisas no seu Filho único. […] Verdadeiramente, foi do agrado do Senhor de todas as coisas, do Criador que governa o universo, unir no seu Filho único a divindade e a humanidade e, desse modo, toda a criatura, «para que Deus seja tudo em todos» (1Cor 15,28).

Este é o meu Filho muito amado, «resplendor da minha glória, imagem da minha substância», pelo qual também criei os anjos, pelo qual o céu foi firmado e a Terra estabelecida. Ele «sustém o Universo pela sua palavra poderosa» (Heb 1,3) e pelo sopro da sua boca, quer dizer, pelo Espírito que guia e dá a vida. Escutai-O, porque aquele que O recebe, recebe-Me a Mim (cf Mc 9,37), a Mim que O enviei, não pelo meu poder soberano, mas ao modo de um Pai. Como homem, com efeito, Ele foi enviado, mas como Deus permanece em Mim e Eu nele. […] Escutai-O, porque Ele tem «palavras de vida eterna» (Jo 6, 68).

São João Damasceno (c. 675-749), monge, teólogo,
Homilia sobre a Transfiguração; PG 96, 573 
Fonte: Evangelho Cotidiano

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