A alma pobre em espírito reconhece as suas feridas, bem como as trevas das paixões que a rodeiam. Ela procura continuamente a redenção que lhe vem do Senhor. Carregando com as suas dores, não exulta com nenhum dos bens deste mundo, mas procura o único médico bom, não se confiando senão aos seus cuidados.
Como será então que esta alma ferida se tornará bela, graciosa e apta a viver com Cristo? Como, senão recuperando a sua antiga criação e reconhecendo claramente as suas feridas e a sua pobreza? Porque, se a alma não se comprazer nos seus ferimentos e nas marcas das suas paixões, se não ocultar as suas faltas, o Senhor não lhe imputará a causa do mal, mas virá cuidar dela, curá-la e restabelecer nela uma beleza impassível e incorruptível.
Mas a alma não pode ficar agarrada àquilo que fez, como se disse; não pode comprazer-se nas suas paixões, mas deve apelar ao Senhor com todas as suas forças, a fim de que Ele lhe dê o seu Espírito, liberto de todas as paixões. Esta alma será, pois, bem-aventurada.
Mas infeliz da alma que não sente as suas feridas e que, movida por um grande vício e um endurecimento sem medida, não acredita ter em si mal algum. Esta alma não será visitada nem curada pelo bom médico, porque não O procura nem se preocupa com os seus ferimentos, considerando que se comporta bem e que está sã. Com efeito, está dito: «Não são os sãos que precisam de médico, mas os doentes» (Mt 9,12).
Homilia atribuída a São Macário do Egito (?-390)
Homilias espirituais, Cap. 100
Fonte: Evangelho Cotidiano


