«Eu sou o Bom Pastor» (Jo 10, 11)

Olhemos para o nosso pastor: Cristo. […] Ele alegra-Se com as Suas ovelhas que estão perto de Si e vai à procura das que se perderam. Não Lhe fazem medo as montanhas nem as florestas; percorre as ravinas para chegar até à ovelha perdida. Mesmo que a encontre em mau estado, não Se encoleriza, mas, tocado pela compaixão, põe-na aos ombros e, com a Sua própria fadiga, cura a ovelha fatigada (cf. Lc 15,4ss). […]

É com razão que Cristo proclama: Eu Sou o Bom Pastor, «procurarei aquela que se tinha perdido, reconduzirei a que se tinha tresmalhado; cuidarei da que está ferida e tratarei da que está doente (Ez 34,16). Eu vi o rebanho dos homens acabrunhado pela doença; vi os Meus cordeiros irem para onde moram os demônios; vi o Meu rebanho despedaçado pelos lobos. Vi tudo isto e não foi do alto. Foi por isso que tomei a mão dissecada pelo mal como se tivesse sido mordida por um lobo; libertei aqueles que a febre tinha aprisionado; ensinei a ver aquele que tinha os olhos fechados desde o seio da sua mãe; retirei Lázaro do túmulo onde jazia já há quatro dias (Mc 3,5; 1,31; Jo 9; 11). «Porque Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá a vida pelas Suas ovelhas». […]

Os profetas conheceram este pastor visto que, bem antes da Sua Paixão, já Ele anunciava o que estaria para vir: «Foi maltratado, mas humilhou-se e não abriu a boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro, ou como uma ovelha emudecida nas mãos do tosquiador» (Is 53,7). Como uma ovelha, o pastor expôs a Sua garganta pelas Suas ovelhas. […] Pela Sua morte, remediou a morte; pelo Seu túmulo, esvaziou os túmulos. […] Os túmulos estão tristes e a prisão está fechada enquanto o pastor, descido da cruz, não vem trazer às Suas ovelhas encarceradas a alegre notícia da libertação. Vemo-Lo nos infernos, onde dá a ordem de libertação (1Pe 3,19); vemo-Lo chamar de novo as Suas ovelhas, chamá-las como as chamou da morada dos mortos para a vida. «O bom pastor dá a vida pelas Suas ovelhas.» É assim que Ele Se propõe ganhar a afeição das Suas ovelhas e aquelas que sabem ouvir a Sua voz amam a Cristo.

(…)

Abel, o primeiro pastor, conquistou a admiração do Senhor, que acolheu o seu sacrifício e preferiu o doador ao dom (cf Gn 4,4). A Escritura também louva Jacob, pastor dos rebanhos de Labão, fazendo notar o que sofreu pelas suas ovelhas: «Fui devorado pelo calor durante o dia e pelo frio durante a noite» (Gn 31,40); e Deus recompensou este homem pelo seu labor. Moisés foi pastor nas montanhas de Madiã, preferindo ser maltratado com o povo de Deus a conhecer a felicidade [no palácio do faraó]; e Deus, apreciando esta escolha, deixou-Se ver por ele como recompensa (cf Ex 3,2). Após esta visão, Moisés não abandonou o seu ofício de pastor, antes dominou aos elementos com o seu báculo (cf Ex 14,16), conduzindo o povo de Israel para as pastagens. Também David foi pastor, mas o seu bastão foi trocado por um cetro real e recebeu a coroa. Não te espante que todos estes bons pastores estejam perto de Deus. O próprio Senhor não recusa ser chamado «pastor» (Sl 22,79): Deus conduz os homens às pastagens, depois de os ter criado.

Olhemos agora para o nosso pastor, Cristo, contemplemos o seu amor pelos homens, a suavidade com que os conduz às pastagens: alegra-Se com as ovelhas que O rodeiam e vai à procura das que se perderam. Nem montes nem florestas são para Ele obstáculo: corre pelo vale da sombra (cf Sl 22,4) para ir ter com a ovelha perdida […], vai aos infernos libertar os que ali se encontram; é assim que Ele procura o amor das suas ovelhas. Aquele que ama a Cristo sabe ouvir a sua voz.

Basílio de Selêucida (? -c. 468), bispo
Homilia 26 sobre o Bom Pastor; PG 85, 299-308 (Oratio 26).
Fonte: Evangelho Cotidiano

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