Homilia — Domingo do Santo Apóstolo e Evangelista Lucas

Leituras: Colossenses 4,5–11.14–18; Lucas 10,16–21

«Alegrai-vos, antes, porque os vossos nomes estão inscritos nos céus.» (Lc 10,20)

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Amados em Cristo,

Neste domingo, a Igreja celebra a memória do Santo Apóstolo e Evangelista Lucas, companheiro de São Paulo, autor do terceiro Evangelho e dos Atos dos Apóstolos. A tradição cristã recorda-o também como médico, homem de cultura e inteligência, que colocou seus conhecimentos e sua própria vida a serviço do anúncio de Jesus Cristo.

Na Epístola que acabamos de ouvir, São Paulo refere-se a ele com uma expressão breve e cheia de afeto: «Lucas, o médico amado». São apenas três palavras, mas elas nos permitem reconhecer algo precioso na vida da Igreja. Lucas não foi somente um escritor ou um colaborador na missão apostólica. Foi também um irmão querido, alguém cuja presença, amizade e fidelidade se tornaram importantes para aqueles que anunciavam o Evangelho.

Em outra passagem das Escrituras, encontramos uma referência ainda mais comovente. Escrevendo a Timóteo, em meio às dificuldades de seu ministério, Paulo declara: «Somente Lucas está comigo». Podemos imaginar quanto significava para o Apóstolo aquela presença fiel, sobretudo quando tantos outros estavam distantes. Lucas permaneceu ao seu lado. E essa fidelidade silenciosa nos ensina que o amor cristão se manifesta também na disposição de acompanhar, de permanecer próximo, de não abandonar aqueles que atravessam momentos difíceis.

Nem todos somos chamados a escrever um Evangelho, a realizar grandes viagens missionárias ou a desempenhar responsabilidades extraordinárias na Igreja. Mas todos podemos oferecer alguma coisa de nós mesmos: nosso tempo, nossa atenção, nossos conhecimentos, nossa amizade e nossa presença. Muitas vezes, um gesto discreto de cuidado pode tornar-se para alguém um sinal da misericórdia de Deus.

Há, entretanto, uma razão ainda mais profunda pela qual a memória de São Lucas nos toca particularmente. Seu Evangelho apresenta, com extraordinária sensibilidade, a misericórdia de Cristo diante das fragilidades humanas.

É Lucas quem nos transmite a parábola do Bom Samaritano, aquele homem que interrompe sua viagem para socorrer um desconhecido ferido à beira do caminho. É também ele quem conserva a parábola do filho pródigo, na qual contemplamos o pai que acolhe com ternura o filho que retorna. Em suas páginas encontramos Jesus aproximando-se dos pobres, dos enfermos, dos pecadores e daqueles que, por diferentes razões, haviam perdido a esperança de serem acolhidos.

O Evangelista, que conhecia a arte de cuidar dos corpos, tornou-se testemunha daquele que veio curar as feridas mais profundas da humanidade.

A tradição espiritual da Igreja reconhece em Cristo o Médico das almas e dos corpos. Ele se aproxima do ser humano ferido pelo pecado, pela solidão, pelo sofrimento e pela morte, oferecendo-lhe o caminho da restauração e da vida. Sua misericórdia não ignora nossas fraquezas nem despreza nossas quedas. Ao contrário, é precisamente em nossa fragilidade que o Senhor vem ao nosso encontro, convidando-nos a levantar e recomeçar.

Essa compreensão da misericórdia divina possui consequências muito concretas para nossa vida cristã. Quando encontramos alguém que sofre, somos chamados a aproximar-nos com a mesma disposição de cuidado que contemplamos no Evangelho. Quando alguém se afasta ou atravessa dificuldades espirituais, nossa primeira atitude não deve ser a condenação, mas a solicitude de quem deseja ajudar um irmão a reencontrar seu caminho.

A Igreja é chamada a ser lugar de acolhimento, de reconciliação e de cura espiritual. Nela, a Palavra de Deus ilumina nossa consciência, a oração fortalece nossa esperança, o arrependimento abre caminhos de renovação e os Santos Mistérios alimentam nossa comunhão com Cristo. Tudo isso se realiza pela graça divina, que respeita nossa liberdade e nos convida a cooperar com sua ação.

No Evangelho deste domingo, porém, encontramos também um ensinamento fundamental sobre a missão dos discípulos. Jesus lhes declara: «Quem vos ouve, a Mim ouve; quem vos rejeita, a Mim rejeita; e quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou».

Essas palavras recordam que o anúncio do Evangelho não nasce de uma iniciativa meramente humana. Os discípulos são enviados por Cristo para testemunhar sua presença e transmitir sua Palavra. A missão que receberam pertence ao Senhor, e sua autoridade encontra sentido na fidelidade àquele que os enviou.

Essa responsabilidade continua presente na vida da Igreja. Aqueles que anunciam a Palavra, ensinam a fé e exercem o ministério pastoral são chamados, antes de tudo, a permanecer discípulos de Cristo. Nenhum de nós é proprietário do Evangelho. Recebemos uma verdade que nos precede, uma fé conservada e transmitida pela Igreja ao longo dos séculos.

Por isso, anunciar Cristo exige não somente conhecimento, mas também humildade. A palavra que transmitimos deve ser acompanhada por uma vida que procure corresponder ao ensinamento recebido. A firmeza na fé precisa caminhar com a mansidão, e a fidelidade à verdade deve manifestar-se na caridade.

Na própria Epístola deste domingo, São Paulo recomenda aos cristãos que sua palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibam responder adequadamente a cada pessoa. É uma orientação preciosa. Nem sempre percebemos quanto nossas palavras podem ferir ou consolar, afastar ou aproximar, alimentar conflitos ou favorecer a reconciliação.

São Lucas oferece-nos um exemplo dessa delicadeza. Seu Evangelho anuncia com clareza a verdade de Cristo, mas conserva uma atenção especial àqueles que necessitam de misericórdia. A fidelidade ao ensinamento apostólico e a compaixão diante do sofrimento humano encontram nele uma bela unidade.

O Evangelho prossegue narrando o retorno dos discípulos enviados por Jesus. Eles regressam cheios de alegria, contando que até os demônios lhes obedeciam em nome do Senhor. Haviam experimentado a força da missão recebida e estavam entusiasmados com seus resultados.

Jesus acolhe essa alegria, mas dirige-lhes uma advertência que merece permanecer em nosso coração: «Não vos alegreis porque os espíritos vos estão sujeitos; alegrai-vos, antes, porque os vossos nomes estão inscritos nos céus».

O Senhor ensina que a alegria mais profunda da vida cristã não deve depender das realizações, do reconhecimento ou dos resultados que conseguimos alcançar. Tudo isso pode ter seu valor, mas permanece passageiro. A verdadeira alegria nasce da comunhão com Deus, da certeza de que somos conhecidos e amados por Ele e de que nossa existência está chamada a participar de seu Reino.

Também nós, muitas vezes, avaliamos nossa vida pelo que conseguimos realizar. Alegramo-nos quando nossos esforços produzem resultados, quando nossos projetos avançam e quando encontramos reconhecimento. Mas podemos sentir-nos desanimados quando as coisas não acontecem como esperávamos, quando nosso trabalho parece não produzir frutos ou quando enfrentamos dificuldades que não conseguimos superar.

Cristo nos convida a encontrar um fundamento mais profundo para nossa esperança. Nossa dignidade diante de Deus não depende do êxito de nossas atividades. Somos chamados à comunhão com Ele, e é essa pertença que sustenta nossa vida, inclusive nos momentos de provação.

São Lucas compreendeu essa verdade. Sua grandeza não está somente nos livros que escreveu ou nas viagens que realizou. Está também na fidelidade com que permaneceu ao lado dos irmãos, no serviço prestado à Igreja e na disposição de colocar seus dons a serviço de Cristo.

Amados em Cristo,

Ao celebrarmos a memória do Santo Evangelista Lucas, somos convidados a reconhecer que a missão cristã continua em nossa própria vida. Cada um de nós recebeu dons, capacidades e oportunidades de servir. Há pessoas que necessitam de nossa atenção, irmãos que esperam uma palavra de encorajamento, enfermos que precisam de companhia, famílias que atravessam dificuldades e corações feridos que procuram um pouco de compreensão.

Não precisamos realizar coisas extraordinárias para testemunhar o Evangelho. Podemos começar pela maneira como tratamos aqueles que convivem conosco, pela paciência diante das fraquezas alheias, pela disposição de perdoar e pela fidelidade aos compromissos que assumimos.

Daqui a pouco, ao nos aproximarmos da Santa Eucaristia, receberemos o próprio Cristo, aquele cuja misericórdia São Lucas anunciou com tanta beleza. O Senhor que se aproximou dos enfermos e dos pecadores continua a oferecer-nos sua vida, alimentando-nos com seu Corpo e Sangue e fortalecendo-nos para o caminho da salvação.

Que essa comunhão nos ensine a olhar nossos irmãos com maior compaixão, a anunciar a verdade com humildade e a permanecer fiéis mesmo quando o caminho se torna difícil.

E que, pela intercessão do Santo Apóstolo e Evangelista Lucas, aprendamos a colocar nossos dons a serviço da Igreja, a reconhecer Cristo naqueles que sofrem e a conservar em nosso coração a alegria que o Senhor prometeu aos seus discípulos: a alegria de saber que nossos nomes estão inscritos nos céus.

Amém.

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