Esta antologia reúne três seleções de uma homilia grega sobre a Santa Páscoa, transmitida sem autoria individual segura e apresentada no acervo como obra do século IV. A Lei prepara o mistério; o Verbo assume a nossa humanidade; a Paixão e a Ressurreição inauguram a vida e a luz sem fim.
A obra é identificada na edição Sources chrétiennes 27 como homilia inspirada no tratado de Hipólito sobre a Páscoa. Essa relação não equivale a afirmar que Hipólito seja seu autor. Conserva-se aqui a designação de homilia grega, sem atribuição direta a Hipólito ou a João Crisóstomo.
Sumário
- A Lei prepara a verdade que vem em Cristo
- O Verbo assume o combate pela nossa salvação
- Cristo inaugura o dia de luz que não se extingue
- Fontes e critérios
A Lei prepara a verdade que vem em Cristo
Homilia grega de autoria não estabelecida — Sobre a Santa Páscoa; excerto sobre a Lei de Moisés, sem numeração de parágrafos na fonte recebida.
A Lei dada a Moisés é uma recolha de ensinamentos variados e imperativos, uma coleção útil a todos acerca do que é bom fazer nesta vida e um reflexo místico dos costumes da vida celeste: um archote e uma lamparina, um fogo e uma luz, réplicas dos luzeiros do alto. A Lei de Moisés era o itinerário da piedade, a regra dos bons costumes, o travão do primeiro pecado, o esboço da verdade futura (Col 2,17). […] A Lei de Moisés era um mestre para a piedade e um guia para a justiça, uma luz para os cegos e uma prova para os insensatos, um pedagogo para as crianças e uma amarra para os imprudentes, uma rédea para as cabeças duras e um jugo poderoso para os impacientes.
A Lei de Moisés era o mensageiro de Cristo, o precursor de Jesus, o arauto e o profeta do grande Rei, uma escola de sabedoria, uma preparação necessária e um ensinamento universal, uma doutrina oportuna e um mistério temporário. A Lei de Moisés era um resumo simbólico e enigmático da graça futura, anunciando em imagens a perfeição da verdade que havia de vir. Pelos sacrifícios, anunciava a Vítima; pelo sangue, o Sangue; pelo cordeiro, o Cordeiro; pela pomba, a Pomba; pelo altar, o Sumo Sacerdote; pelo Templo, a permanência da divindade; pelo fogo do altar, a plena «Luz do mundo» (Jo 8,12) que desce dos céus.
Nota editorial: O acervo apresenta esta homilia como inspirada no tratado de Hipólito sobre a Páscoa; essa é também a identificação da obra editada em Sources chrétiennes 27. Não se atribui o excerto diretamente a Hipólito.
O Verbo assume o combate pela nossa salvação
Homilia grega de autoria não estabelecida — Sobre a Santa Páscoa, §§ 44–48; PG 59, 743, conforme a referência parcial do acervo; SC 27.
O que será a vinda de Cristo? A libertação da escravatura e a rejeição das antigas cadeias, o começo da liberdade e a honra da adoção, a fonte da remissão dos pecados e a vida verdadeiramente imortal para todos. Sendo o Verbo, Palavra de Deus, viu-nos do alto tiranizados pela morte, enganados, atados pelos laços da decadência, levados por um caminho sem retorno, e veio tomar a natureza de Adão, o primeiro homem, segundo o desígnio do Pai. Ele não confiou aos anjos nem aos arcanjos a responsabilidade da nossa salvação, mas tomou a Seu cargo todo o combate por nós, obedecendo às ordens do Pai. […] Reunindo e condensando em Si toda a grandeza da Sua divindade veio com a medida que quis […]; pelo poder do Pai não perdeu o que tinha mas, tomando o que não tinha, veio com as devidas limitações. […]
Repara que Ele é o Senhor: «Disse o Senhor ao meu Senhor, senta-te à Minha direita» (Sl 109,1). […] Vê que Ele é Filho: «Ele Me invocará, dizendo: ‘Tu és Meu Pai’, […] e Eu farei d’Ele o Primogênito» (Sl 88,27-28). […] Observa também que Ele é Deus: «Os poderosos virão e prostrar-se-ão diante de Ti e Te suplicarão porque Deus está contigo» (cf Is 45,14). […] Observa que Ele é o Rei eterno: «Um cetro de justiça é o Teu cetro real. […] Deus, o Teu Deus, Te ungiu com o óleo da alegria» (Sl 44,7-8) […]. Vê que Ele é Senhor das dominações: «Quem é Ele, esse rei glorioso? É o Senhor do universo! É Ele o rei glorioso» (Sl 23,10) […] Repara também que Ele é sumo sacerdote eterno: «Tu és sacerdote para sempre» (Sl 109,4). Mas se Ele é Senhor e Deus, Filho e rei, Senhor e sumo sacerdote eterno, quando assim entendeu «tornou-Se homem também: quem poderá compreendê-lo?» (Jr 17,9 LXX) […].
Foi mesmo como homem e Deus que este grande Jesus veio morar entre nós. […] Revestiu-Se do nosso corpo miserável e morto; […] curou-nos das nossas enfermidades, sarou cada uma das nossas doenças com o Seu poder para que se cumprisse a palavra: «Eu sou o Senhor. […] Tomei-Te pela mão e fortaleci-Te. […] Senhor é o Meu nome. […] E o último inimigo a ser destruído será a morte. […] Onde está, ó morte, o teu aguilhão?» (cf Is 42,6; 1Co 15,26.55)
Nota editorial: Corrigiu-se a concordância «curou-os das suas enfermidades» para «curou-nos das nossas enfermidades», em continuidade com «o nosso corpo» e «cada uma das nossas doenças». A imagem das limitações assumidas foi mantida conforme a tradução recebida.
Cristo inaugura o dia de luz que não se extingue
Homilia grega de autoria não estabelecida — Sobre a Santa Páscoa, § 1 e §§ 58 e seguintes; PG 59, 743; SC 27, conforme os dados de Sophia.docx.
Eis a hora em que aparece a luz bendita de Cristo; os raios puros do Espírito elevam-se e o Céu abre os tesouros da glória divina. A noite vasta e obscura foi engolida, dissiparam-se as espessas trevas, a triste sombra da morte desvaneceu-se. A vida poisa sobre todas as coisas; tudo se enche de uma luz sem fim. Ergue-se sobre a Terra a aurora das auroras e, das entranhas da madrugada (cf Sl 110,3), antes dos astros, imortal e imenso, Cristo avança, mais brilhante que o Sol, sobre todos os seres.
Ele vem instaurar para nós, que cremos nele, um dia de luz vasta e eterna, que nada poderá extinguir: é a Páscoa mística, celebrada em prefiguração pela Lei, consumada em verdade por Cristo, Páscoa magnífica, maravilha da força de Deus, obra do seu poder, a verdadeira festa, o memorial eterno: a libertação de todo o sofrimento nasce da Paixão, a imortalidade nasce da morte, a vida nasce do sepulcro, a cura nasce da ferida, o levantamento nasce da queda, a ascensão nasce da descida aos infernos. […]
As mulheres foram as primeiras a vê-lo ressuscitado. Pois, assim como tinha sido uma mulher a introduzir o primeiro pecado no mundo, assim também foi ela a trazer em primeiro lugar a notícia da vida. Foi por isso que as mulheres ouviram esta palavra sagrada: «Alegrai-vos!» (cf Mt 28,9), para que a primitiva tristeza fosse tragada pela alegria da ressurreição. […]
À vista de mistério tão grande — um homem ascendendo a Deus —, as potências dos céus bradam de alegria aos exércitos dos anjos: «Ó portas, levantai os vossos umbrais! Alteai-vos, pórticos eternos, que vai entrar o rei glorioso». Vendo esta maravilha, a natureza humana unida à de Deus, elas clamaram: «Quem é esse Rei da glória?», e os anjos responderam: «O Senhor forte e poderoso, o Senhor poderoso nas batalhas» (Sl 24,7-8).
Nota editorial: O texto do documento foi preservado integralmente. Reúne a abertura luminosa e passagens finais da homilia, incluindo o anúncio às mulheres e a entrada do Rei da glória.
Fontes e critérios
As traduções portuguesas procedem do acervo Sophia, com fonte declarada Evangelho Cotidiano, e do item 39 de Sophia.docx, adotado integralmente. Preservam-se as referências recebidas à PG (Patrologia Graeca), a Sources chrétiennes e aos parágrafos da homilia; a indicação de coluna da PG é parcial e não foi expandida sem cotejo direto.
Referência bibliográfica: Homélies pascales, I — Une homélie inspirée du traité sur la Pâque d’Hippolyte, edição e tradução de Pierre Nautin, Sources chrétiennes 27. A edição apresenta o percurso das figuras da Lei à realidade da Encarnação, da Paixão e da Ressurreição. Esta seleção não é uma nova tradução nem o texto integral da homilia.
Conferência: Sources chrétiennes 27, Éditions du Cerf; registro da obra In sanctum pascha, JERIHNA / Sources chrétiennes.
Outras homilias gregas sobre a Visitação e a Oitava da Páscoa, bem como os textos sobre a Teofania transmitidos sob o nome de Hipólito, não foram misturados com esta obra. Os mapas de origem e as decisões editoriais permanecem no registro interno. Preparação em 21 de outubro de 2026.



