A luz do Tabor e a vocação do homem
A Festa da Transfiguração ocupa um lugar singular entre as celebrações do ano litúrgico. Ela não apenas recorda um dos momentos mais extraordinários da vida pública de Cristo, mas oferece à Igreja uma das mais profundas revelações de toda a economia da salvação. Sobre o monte Tabor, o Senhor manifesta Sua glória antes de subir ao Calvário; revela Sua divindade antes de ser entregue aos sofrimentos da Paixão; deixa resplandecer, por alguns instantes, a luz de Sua natureza divina para fortalecer a fé daqueles que, em breve, seriam chamados a testemunhar o escândalo da Cruz.
Nada, na disposição desta festa, é casual. A Igreja celebra a Transfiguração quarenta dias antes da Exaltação da Santa Cruz porque deseja conduzir-nos ao mesmo itinerário espiritual percorrido pelos Apóstolos. Antes da escuridão do Gólgota, eles contemplam a luz do Tabor; antes da humilhação do Servo sofredor, contemplam o esplendor do Filho amado. A glória não elimina a Cruz, mas prepara o coração para compreendê-la. Aquele cuja face brilha como o sol será o mesmo que, poucos dias depois, terá o rosto coberto de escarros. Aquele cujas vestes resplandecem de brancura será despojado delas diante dos soldados. O Senhor da glória será também o Cordeiro que livremente Se oferece pela vida do mundo.
É precisamente esse o sentido do troparion da festa, quando proclama que Cristo mostrou aos discípulos Sua glória “conforme podiam suportá-la”. Deus nunca Se revela de maneira a ofuscar ou violentar o homem. Sua pedagogia é sempre paciente. A luz permanece infinita; é o coração humano que precisa ser lentamente purificado para acolhê-la. A vida espiritual consiste justamente nesse caminho de transformação interior pelo qual aprendemos, pouco a pouco, a reconhecer a presença de Deus onde antes víamos apenas os acontecimentos comuns da existência.
O Evangelho apresenta Pedro, Tiago e João acompanhando Jesus ao alto da montanha. Ali contemplam aquilo que jamais esqueceriam. Muitos anos mais tarde, já próximo do martírio, Pedro escreverá à Igreja recordando aquele dia: “Fomos testemunhas oculares de Sua majestade.” Não fala de uma ideia, nem de uma doutrina elaborada pela reflexão humana. Fala daquilo que viu, ouviu e experimentou. Toda a autoridade da pregação apostólica nasce dessa contemplação. A fé cristã não repousa sobre fábulas engenhosamente construídas, mas sobre o testemunho daqueles que viram a glória do Verbo feito carne.
Ao lado de Cristo aparecem Moisés e Elias, representantes da Lei e dos Profetas. Toda a antiga revelação converge para aquele momento. O Legislador encontra-se diante daquele que é a Palavra eterna do Pai; o maior dos Profetas reconhece o cumprimento de todas as promessas. Não há ruptura entre a Antiga e a Nova Aliança, mas continuidade e plenitude. Tudo o que Deus preparou ao longo da história encontra sua realização na pessoa de Jesus Cristo.
A tradição da Igreja, porém, sempre contemplou na Transfiguração um significado ainda mais profundo. O Tabor não revela apenas quem Cristo é; revela também quem o homem é chamado a tornar-se. São Gregório Palamás ensina que a luz contemplada pelos discípulos não era uma luz criada, produzida para aquele momento, mas a própria luz incriada das energias divinas. Cristo não recebeu uma glória nova; simplesmente manifestou aquilo que sempre possuíra desde toda a eternidade. Ao mesmo tempo, mostrou o destino da humanidade unida a Deus. Na pessoa do Verbo encarnado contemplamos aquilo que a graça deseja realizar em cada um de nós.
É esta a grande esperança da espiritualidade ortodoxa. Deus não nos chama apenas a uma vida moralmente correta nem simplesmente ao abandono do pecado. Chama-nos à comunhão com Sua própria vida. Os Padres da Igreja resumiram esse mistério numa expressão que atravessou os séculos: Deus Se fez homem para que o homem se tornasse participante da vida divina pela graça. Toda a vida da Igreja — a oração, o arrependimento, a ascese, os santos mistérios — possui esta única finalidade: conduzir o homem àquela transformação interior que a tradição chama de theosis, a divinização.
Entretanto, a contemplação jamais conduz ao isolamento. Diante da beleza daquele momento, Pedro deseja permanecer sobre o monte. “Senhor, é bom estarmos aqui.” Seu desejo é profundamente humano. Também nós gostaríamos de conservar para sempre os momentos de paz, de oração intensa e de consolação espiritual. Mas Cristo desce da montanha. A experiência da luz não termina em si mesma; prepara os discípulos para a missão. O caminho continua em direção a Jerusalém, onde a glória será revelada de modo paradoxal na entrega da Cruz.
Também nossa vida alterna momentos de luz e momentos de combate. Deus nos concede, por vezes, experimentar Sua proximidade de maneira muito intensa: numa Divina Liturgia, numa oração silenciosa, numa inesperada paz do coração, numa resposta recebida após longa espera. Essas experiências não são um fim em si mesmas. São dons que fortalecem nossa fé para os dias em que o caminho parecer mais difícil. A memória da luz sustenta a perseverança durante a noite.
A Festa da Transfiguração recorda-nos, enfim, que a luz do Tabor continua presente na vida da Igreja. O Cristo glorificado permanece entre nós. Aquele que Se manifestou aos Apóstolos na montanha oferece-Se continuamente aos fiéis na Divina Liturgia, sob as espécies humildes do pão e do vinho. A glória contemplada por Pedro, Tiago e João permanece velada, mas verdadeiramente presente, no mistério eucarístico. Cada comunhão torna-se, assim, um encontro com o mesmo Senhor glorioso, cuja humanidade resplandece da vida divina.
Ao celebrarmos esta grande festa, peçamos ao Senhor que também nossos olhos sejam progressivamente purificados para contemplar Sua presença. Que a luz do Tabor ilumine nossa inteligência, fortaleça nossa esperança, transforme nosso coração e nos ensine a descer da montanha levando ao mundo a paz, a misericórdia e a alegria que nascem da comunhão com Cristo. Assim, caminhando entre as luzes e as cruzes desta vida, seremos preparados para contemplar, um dia sem véus, a glória eterna do Reino, onde o Senhor será tudo em todos.



