Homilia para o 12º Domingo de São Mateus

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Amados em Cristo,

Entre todas as páginas do Evangelho, poucas revelam de maneira tão delicada e, ao mesmo tempo, tão exigente, o drama da liberdade humana quanto o encontro de Cristo com o jovem rico. A cena começa com uma pergunta que atravessa os séculos e permanece viva no coração de cada homem: «Mestre, que bem devo fazer para herdar a vida eterna?» Não é uma pergunta motivada pela curiosidade, nem fruto de um escrúpulo religioso. É a manifestação de uma inquietação que acompanha a humanidade desde que perdeu o Paraíso. O homem pode conquistar riquezas, adquirir conhecimento, alcançar prestígio, experimentar alegrias e superar dificuldades; mas, cedo ou tarde, descobre que nenhuma dessas realidades consegue responder plenamente ao desejo de infinito que Deus gravou em sua alma. O jovem do Evangelho representa, por isso, todos aqueles que, mesmo vivendo corretamente, percebem que ainda lhes falta alguma coisa.

São Clemente de Alexandria inicia sua célebre reflexão sobre esta passagem observando que o jovem se dirige Àquele que é a própria Vida para perguntar sobre a vida, ao Salvador para perguntar sobre a salvação, à Verdade para perguntar sobre a verdade. Não poderia haver interlocutor mais adequado. Aquele que criou o homem para a comunhão eterna é o único capaz de revelar-lhe o caminho que conduz à plenitude. Por isso, antes mesmo de responder, Cristo conduz o jovem ao reconhecimento de que todo bem procede do Pai, preparando-o para compreender que a vida eterna não é fruto de uma conquista humana, mas dom daquele que é infinitamente bom. Mateus12.txtTXT

A resposta do Senhor parece, num primeiro momento, conduzir novamente ao terreno conhecido: «Guarda os mandamentos.» O jovem responde com serenidade que assim tem procedido desde a juventude. Não há hipocrisia em suas palavras. O Evangelho deixa entrever uma alma sinceramente desejosa de agradar a Deus. Contudo, permanece inquieto. Intui que existe uma diferença entre observar a Lei e possuir a plenitude da vida. E é precisamente essa intuição que prepara o momento decisivo do encontro.

«Se queres ser perfeito…»

Com essas palavras, Cristo não despreza o caminho percorrido até então. A Lei permanece santa e boa; ela educa o coração, disciplina a vontade e orienta o homem para Deus. Mas a perfeição cristã não consiste apenas em cumprir preceitos. Consiste em entrar numa comunhão tão profunda com Cristo que toda a existência passa a gravitar em torno d’Ele. A novidade do Evangelho não está numa exigência moral mais elevada, mas na Pessoa daquele que chama. É por isso que o imperativo mais importante da passagem não é «vende», mas «segue-me». Antes de pedir qualquer renúncia, Cristo oferece uma relação. Antes de pedir que o jovem deixe alguma coisa, convida-o a encontrar Alguém.

Ao longo da história, esta passagem foi muitas vezes interpretada como uma condenação da riqueza material. Entretanto, a tradição da Igreja sempre percebeu que a questão é muito mais profunda. São Clemente de Alexandria dedica todo o tratado Qual rico será salvo? a demonstrar que o Senhor não condena os bens da criação, nem propõe a pobreza como um valor absoluto. O que Ele deseja arrancar do coração humano é a paixão desordenada que transforma os bens em senhores da existência. Não é a riqueza que impede o homem de seguir Cristo, mas a escravidão interior que faz da riqueza um falso absoluto. O problema não está naquilo que o homem possui, mas naquilo que o possui. Mateus12.txtTXT

É precisamente nesse ponto que a homilia de nosso Arcebispo Metropolitano Iosif oferece uma contribuição de notável profundidade. O verdadeiro drama do jovem não reside em sua condição econômica, mas na relação que estabeleceu com aquilo que possui. Sua identidade já não repousa sobre o Transcendente, mas sobre aquilo que é contingente e passageiro. Quando o relativo ocupa o lugar do Absoluto, nasce a idolatria; quando aquilo que deveria servir ao homem passa a governá-lo, a liberdade começa lentamente a desaparecer. Não é a riqueza que escraviza por si mesma, mas o apego que faz dela o fundamento da própria existência. MateusXII-Homilia.pdfPDF

Talvez seja por isso que o Evangelho afirme, com tanta sobriedade, que o jovem «retirou-se triste». Sua tristeza não nasce da exigência de Cristo, mas da descoberta de que seu coração estava dividido. Diante dele encontrava-se o Filho de Deus, a Vida eterna feita carne, e, ainda assim, havia algo que ele não conseguia abandonar. Não se trata de um julgamento severo daquele jovem, mas de um espelho colocado diante de todos nós. Cada discípulo é chamado a perguntar-se, com sinceridade, que realidade ocupa silenciosamente o centro de sua existência. Para alguns, poderá ser a riqueza; para outros, o desejo de reconhecimento, o apego ao poder, a segurança construída sobre os próprios projetos, ou mesmo a incapacidade de confiar plenamente na providência divina. Tudo aquilo que ocupa o lugar reservado exclusivamente a Deus torna-se, inevitavelmente, um obstáculo ao seguimento de Cristo.

A Epístola proclamada neste domingo oferece a chave para compreender o caminho que o Evangelho propõe. São Paulo não apresenta sua vida como fruto de méritos pessoais, mas como obra da graça: «Pela graça de Deus sou o que sou.» Enquanto o jovem ainda procura realizar algo para alcançar a vida eterna, o Apóstolo testemunha que toda a existência cristã nasce da iniciativa de Deus. A resposta humana permanece indispensável, mas ela sempre vem depois do dom. Primeiro Deus chama; depois o homem responde. Primeiro Cristo ama; depois convida ao seguimento. Primeiro a graça transforma; depois a liberdade aprende, pouco a pouco, a desprender-se de tudo aquilo que impede uma comunhão mais profunda.

É precisamente essa experiência que a Igreja celebra em cada Divina Liturgia. Desde a primeira aclamação — «Bendito seja o Reino do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo» — somos convidados a elevar o coração para além daquilo que passa. Toda a celebração eucarística restitui a verdadeira hierarquia dos valores, ensinando-nos que nenhum bem criado pode ocupar o lugar daquele Bem que é incriado. Aproximando-nos do Santo Cálice, não levamos a Cristo aquilo que possuímos; recebemos d’Ele a única riqueza que não envelhece nem perece. A vida eterna, buscada pelo jovem do Evangelho, deixa de ser apenas uma esperança futura para tornar-se já, sacramentalmente, participação na própria vida do Ressuscitado.

Talvez seja esta a grande lição que a Igreja nos convida a acolher neste domingo. O Senhor não empobrece a existência humana quando pede que O sigamos; ao contrário, restitui-lhe sua verdadeira medida. Nada do que é autenticamente bom precisa ser abandonado quando ocupa o lugar que lhe corresponde. Os bens permanecem dons da providência; o trabalho continua sendo participação na obra criadora de Deus; a família permanece espaço privilegiado do amor. Tudo, porém, reencontra sua harmonia quando Cristo volta a ser o verdadeiro tesouro do coração. Somente então o homem descobre que a vida eterna não é uma realidade distante, reservada ao fim dos tempos, mas uma comunhão que já começa aqui, na medida em que aprendemos a viver livres de tudo aquilo que passa, para pertencermos inteiramente Àquele que permanece para sempre.

Amém.

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