Amados irmãos e irmãs no Senhor,
Estamos às portas da Grande Quaresma. Durante quatro domingos, a Santa Igreja nos preparou para este momento, como uma mãe que prepara seus filhos para uma jornada sagrada.
No Domingo do Publicano e Fariseu, fomos ensinados sobre a oração genuína. Aprendemos que não é o muito falar que agrada a Deus, mas o coração contrito que bate no peito e diz: “Ó Deus, tem piedade de mim, pecador”. Foi-nos mostrado que a metanoia — a mudança de mentalidade — começa com a humildade de reconhecer quem realmente somos diante de Deus.
No Domingo do Filho Pródigo, caminhamos com aquele jovem que “caiu em si” num país distante. Vimos o momento exato da conversão: quando ele lembrou da casa do Pai e decidiu: “Levantar-me-ei e irei ter com meu pai”. E fomos agraciados com a imagem mais bela do Evangelho: o Pai que corre ao encontro, que abraça, que beija, que restaura a dignidade perdida. Mas também nos deparamos com o irmão mais velho, que permaneceu fora da casa, preso à sua própria justiça e incapaz de perdoar.
No Domingo do Juízo Final, o véu se levantou e vimos o fim da história: o Filho do Homem em sua glória, separando as ovelhas dos cabritos. E o critério do juízo nos surpreendeu: não foram perguntadas as grandes teologias que aprendemos, nem as muitas orações que recitamos, mas sim: “Tive fome, e deste-me de comer? Tive sede, e deste-me de beber? Era estrangeiro, e acolheste-me?”. Aprendemos que o amor a Deus se prova no amor ao irmão, especialmente ao pequenino.
E agora, neste Domingo do Perdão, a Igreja nos coloca diante da porta estreita que dá acesso ao deserto quaresmal. E qual é a chave que abre esta porta? O perdão. Sem ele, não entramos. Com ele, o Paraíso se antecipa entre nós.
Meus irmãos, o perdão é a condição para uma Quaresma verdadeira. Sem ele, tudo o que faremos nos próximos quarenta dias — jejum, orações, metanias — corre o risco de tornar-se vazio.
Lembramo-nos do irmão mais velho do Evangelho? Ele jejuava? Provavelmente sim. Ele cumpria os preceitos? Certamente. Mas seu coração permaneceu fechado à misericórdia. Por isso, não pôde entrar na festa do Pai.
Ouçamos São Paulo:
“Despojemo-nos das obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz” (Rm 13,12).
As trevas têm nome concreto: rancor, mágoa, inimizade. Não podemos dizer que nos revestimos de Cristo se o coração permanece fechado ao irmão.
São João Crisóstomo adverte:
“Que proveito temos em abster-nos de aves e peixes, se mordemos e devoramos os nossos irmãos?”
Jejuar de alimentos enquanto nos alimentamos do rancor — isso não é jejum cristão, é hipocrisia.
O próprio Senhor nos ensina:
“Se perdoardes aos homens, vosso Pai vos perdoará; se não perdoardes, tampouco vos perdoará” (Mt 6,14-15).
Não há negociação. O perdão divino e o humano estão indissoluvelmente ligados.
O perdão cristão não é mero esquecimento, mas um ato criativo de amor que transforma a realidade.
O escritor Artur da Távola oferece uma expressão luminosa:
“Perdoar é ‘per’ + ‘doar’, ou seja, doar amor através do ofensor.”
É fazer do ofensor não um obstáculo ao amor, mas um canal através do qual o amor de Deus pode fluir.
Recordemos Cristo na cruz:
“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34).
Este é o perdão cristão em sua forma mais pura: não apenas absolver, mas interceder; não apenas desculpar, mas oferecer ao Pai a própria ofensa como matéria de misericórdia.
Vemos aqui o cumprimento perfeito daquele juízo que nos foi anunciado no domingo passado: “Tive fome e deste-me de comer”. Cristo, na cruz, tem fome e sede de amor — e responde com perdão. Ensina-nos que a maior esmola que podemos dar a quem nos fere é precisamente o perdão.
Não se trata de sentimento — sentimentos não se comandam. Trata-se de uma decisão, de um ato da vontade. E quando esta decisão nos parece acima das nossas forças, lembremo-nos de que não perdoamos com as nossas forças, mas com a graça de Deus.
O perdão nos reinsere na comunhão para a qual fomos criados.
Hoje a Igreja nos apresenta a memória da expulsão do Paraíso. O que Adão e Eva perderam foi precisamente a comunhão com Deus e entre si. Quando pecaram, esconderam-se. Quando interrogados, Adão acusou Eva. A unidade rompeu-se.
Mas eis que a Igreja nos diz: há um caminho de volta. Esse caminho chama-se perdão. O perdão é a ponte que liga o exílio à pátria. Quando perdoamos, algo do Paraíso se reabre entre nós.
Vede a sabedoria da Igreja: começamos esta preparação com o Publicano, que não ousava levantar os olhos ao céu — imagem do exílio. Passamos pelo Filho Pródigo, que decide retornar — imagem da metanoia. Contemplamos o Juízo Final, onde o amor ao irmão revela nossa verdadeira identidade — imagem do encontro com o Senhor. E agora, no Perdão, somos convidados a viver concretamente aquilo que aprendemos: a humildade do Publicano, o retorno do Pródigo, o amor que salva no Juízo.
O rito do perdão é profundamente significativo. Não pedimos perdão apenas àqueles que nos ofenderam, mas a todos. Por quê? Porque existem muitas maneiras sutis de ofender o amor: a indiferença, o egoísmo, o julgamento silencioso.
Quando nos prostramos e dizemos: “Perdoa-me, pecador”, e o outro responde: “Deus perdoa”, algo misterioso acontece. A parede desmorona. O gelo do coração derrete. Por um instante, vislumbramos o Paraíso.
Meus irmãos, a Quaresma é tempo de restauração. Restauração da nossa relação com Deus, com o próximo, da nossa identidade de filhos amados.
Durante quatro domingos, a Igreja nos mostrou o mapa do caminho: a humildade na oração, a coragem do retorno, a seriedade do juízo, e agora a porta de entrada — o perdão. Quem aprendeu a orar como o Publicano, quem decidiu retornar como o Pródigo, quem compreendeu que Cristo está presente no irmão, esse está pronto para perdoar.
O perdão é o princípio e o fim deste caminho. É o princípio, porque sem ele não podemos dar um passo. É o fim, porque a plenitude do perdão é o próprio Reino de Deus.
A Igreja nos convida a começar pelo fim: a pedir perdão, a perdoar, a restaurar a comunhão. O Reino de Deus começa aqui, quando dois irmãos se reconciliam. O Céu se antecipa na terra quando um coração aprende a perdoar.
Que tenhamos a coragem de nos aproximar uns dos outros, de pedir perdão de coração sincero, de conceder perdão sem reservas. Que possamos dizer: “Perdoai-nos”. E que possamos responder: “Deus perdoe!”
Assim, purificados, poderemos entrar no bom combate da Quaresma e chegar à alegria da santa Ressurreição.
Que Deus vos abençoe e vos dê a paz!


