Epístola: Tt 3,8-15 | Evangelho: Mt 5,14-19
Confessar Cristo para tornar-se luz do mundo
A Igreja celebra neste domingo a memória dos 630 Santos Padres do IV Concílio Ecumênico, reunidos em Calcedônia no ano de 451. À primeira vista, poderíamos imaginar tratar-se apenas da recordação de um acontecimento histórico distante. Entretanto, a Igreja não celebra os Concílios por seu valor histórico, mas porque neles foi preservada a verdade do Evangelho.
Nos últimos domingos, a liturgia conduziu-nos, passo a passo, à contemplação das obras de Cristo. Vimos a fé do centurião, que reconheceu Sua autoridade soberana; contemplamos a libertação dos possessos da região dos gadarenos, manifestando Seu poder sobre as forças do mal; e, no domingo passado, assistimos à cura do paralítico, quando o Senhor revelou possuir autoridade não apenas para restaurar o corpo, mas também para perdoar os pecados.
Esses Evangelhos suscitam uma pergunta inevitável: quem é Aquele que realiza tais obras?
É precisamente a essa pergunta que os Santos Padres de Calcedônia respondem. Eles confessaram que Jesus Cristo é um só e o mesmo Filho, perfeito na divindade e perfeito na humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, conhecido em duas naturezas, “sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação”. Essa definição não acrescentou uma nova doutrina à Igreja; apenas preservou, com clareza e fidelidade, a fé recebida dos Apóstolos.
A importância dessa confissão é profundamente pastoral. Se Cristo fosse apenas homem, não poderia vencer a morte nem comunicar-nos a vida divina. Se fosse apenas Deus, não teria assumido verdadeiramente nossa condição humana. Como ensina São Gregório, o Teólogo: “O que não é assumido não é redimido.” Ao assumir plenamente nossa humanidade, o Filho de Deus restaurou aquilo que o pecado havia ferido e abriu novamente ao ser humano o caminho da comunhão com Deus.
O Evangelho deste domingo ilumina essa verdade com outra imagem de extraordinária beleza: “Vós sois a luz do mundo.” O Senhor não diz que os discípulos possuem uma luz própria, mas que participam da Sua luz. Somente Aquele que declarou: “Eu sou a Luz do mundo” pode fazer de Seus discípulos verdadeiros luzeiros.
É exatamente essa imagem que a própria liturgia utiliza ao cantar o Troparion dos Santos Padres:
“Tu és sobremaneira glorificado, ó Cristo nosso Deus, que estabeleceste nossos Padres como luzeiros sobre a terra e, por meio deles, conduziste todos nós à verdadeira fé. Ó Mui Compassivo, glória a Ti!”
Os Padres não foram grandes porque venceram controvérsias, mas porque permaneceram inteiramente fiéis a Cristo. A luz que irradiavam não lhes pertencia; era a luz do próprio Senhor refletida em suas vidas.
Também a Epístola dirigida a Tito nos recorda que a verdadeira fé jamais permanece apenas no plano das palavras. São Paulo exorta os fiéis a distinguirem-se pelas boas obras e a evitarem discussões estéreis e divisões inúteis. A ortodoxia da fé deve tornar-se ortopraxia da vida. Não basta confessar corretamente Cristo; é necessário deixar que essa fé transforme nossa maneira de viver, amar, servir e perdoar.
Os Padres do Deserto exprimiram essa vocação com admirável simplicidade. Quando Abba Lot perguntou a Abba José o que ainda lhe faltava para agradar a Deus, o ancião levantou as mãos ao céu, e seus dedos tornaram-se como chamas de fogo, dizendo: “Se quiseres, podes tornar-te todo chama.”
Esta continua sendo a vocação de cada cristão. A Igreja não nos chama apenas a conhecer corretamente os dogmas, mas a permitir que Cristo ilumine toda a nossa existência. A verdadeira confissão da fé manifesta-se na humildade, na misericórdia, na pureza do coração, na perseverança na oração, na caridade e na fidelidade cotidiana.
Ao celebrar os Santos Padres do IV Concílio Ecumênico, renovemos nossa gratidão a Deus por ter conservado intacto o tesouro da fé apostólica. E peçamos que a mesma luz que brilhou na vida daqueles santos resplandeça também em nós, para que, vendo nossas boas obras, os homens glorifiquem o Pai que está nos céus.



