Homilia para o «V Domingo do Evangelho de São Mateus»

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Amados irmãos e irmãs em Cristo,

O Evangelho de hoje nos leva a um lugar estranho. Jesus atravessa o lago e chega à terra dos gadarenos. Ali, dois homens saem dos sepulcros. Eles já não vivem na cidade, não convivem com suas famílias, não participam da vida comum. Vivem entre os mortos, e o Evangelho diz que eram tão violentos que ninguém podia passar por aquele caminho.

Mas Jesus passa.

Esta é a primeira boa notícia deste domingo. O caminho que estava fechado para todos não estava fechado para Cristo. O lugar que todos evitavam não foi evitado por Cristo. As pessoas das quais todos tinham medo não foram abandonadas por Cristo. O Senhor atravessa o lago para encontrar justamente aqueles que pareciam perdidos demais.

Também nós conhecemos sepulcros interiores: culpas antigas, ansiedade, ressentimentos, vícios, solidão, tristeza, confusão espiritual. Muitos chegam à Igreja depois de longos caminhos, trazendo perguntas e feridas, mas também sede de verdade. O Evangelho nos diz: Cristo não tem medo de entrar nesses lugares. Ele não vem apenas para a parte arrumada da nossa vida. Ele vem também ao território ferido.

Os demônios gritam: “Que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus?” Eles sabem quem é Jesus. Mas esse conhecimento não os salva. São Tiago diz que também os demônios creem, e tremem. Existe um modo de saber coisas certas sobre Deus e ainda permanecer longe dele.

Por isso, a fé cristã não é apenas concordar com ideias corretas. A Ortodoxia não é somente uma doutrina antiga, uma liturgia bela ou uma identidade religiosa sólida. Tudo isso é precioso, mas não substitui o encontro vivo com Cristo. A fé verdadeira começa quando deixamos de dizer “que tenho eu contigo?” e passamos a dizer: “Senhor, fica comigo; cura-me; muda aquilo que eu ainda não consigo mudar”.

Os demônios pedem para entrar na manada de porcos. Jesus permite, e a manada se precipita no mar. São João Crisóstomo ensina que aí vemos a intenção do mal: quando age, destrói. O mal promete liberdade, mas termina em morte; promete alívio, mas aprofunda a ferida; promete identidade, mas desfigura a pessoa.

Cristo, ao contrário, liberta. Ele devolve aqueles homens a si mesmos. O ser humano não foi criado para ser morada do caos, mas templo do Espírito Santo. A vida cristã é esta restauração: Cristo expulsa o que nos desumaniza e faz nascer em nós o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio.

Mas os moradores da cidade pedem que Jesus vá embora. Eles viram o milagre, mas a presença de Cristo lhes custou caro. A libertação de dois homens pareceu menos importante que o prejuízo da manada. E aqui precisamos ser honestos: muitas vezes também queremos Cristo, mas sem perder nossos “rebanhos”. Queremos consolo, mas não conversão; paz, mas não arrependimento; Igreja, mas sem cura profunda.

A Igreja, porém, é hospital espiritual. Aqui todos somos pacientes. Cristo é o Médico. A liturgia, a confissão, a Eucaristia, a oração, o jejum e a vida fraterna são terapias do Reino. Ninguém precisa fingir que já está curado para se aproximar de Cristo. Mas todos precisamos desejar a cura.

No fim, Jesus entra no barco e parte. Esta é uma das frases mais tristes do Evangelho. Cristo não obriga os gadarenos a recebê-lo. Por isso, hoje, nossa oração deve ser o contrário da deles. Eles disseram: “Vai-te de nossa terra”. Nós digamos: “Fica conosco, Senhor”.

Fica conosco quando consolas, e fica também quando corriges. Fica quando nos dás paz, e fica quando revelas nossos apegos. Fica conosco quando atravessamos tempestades, e fica quando precisamos sair dos sepulcros interiores.

Que Cristo, Senhor de toda criatura e Médico das almas e dos corpos, nos liberte de tudo o que nos desfigura e faça de nós morada do seu Santo Espírito. Amém.

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