“Não temas; crê somente.” (Lc 8,50)
Amados em Cristo,
O Evangelho hoje nos conduz a duas casas interiores: a da dor e a da esperança. De um lado, a mulher que sangra há doze anos, invisível, cansada, sem forças. De outro, a casa de Jairo, onde a morte entrou e o choro ocupa todos os espaços. No meio, passa o Senhor — e onde Ele passa, a morte perde terreno e a esperança reaprende a falar.
Lucas narra assim: a mulher se aproxima “por detrás” e toca a orla do manto (cf. Lc 8,44). A fé dela é humilde, quase tímida, mas verdadeira: “Se eu tocar, basta”. O Senhor detém a marcha, olha para a multidão e pergunta: “Quem Me tocou?” (8,45). Não é que Ele não soubesse; é que Ele deseja manifestar o milagre e incluir a mulher na comunhão. A fé que tocou sem ruído recebe, em público, a confirmação: “Filha, a tua fé te salvou; vai em paz” (8,48). Como diz São Cirilo de Alexandria, a palavra de Cristo “não só manda, confere; não só ordena, comunica o que ordena”: quando chama de “filha”, devolve dignidade; quando diz “vai em paz”, derrama paz.
Enquanto isso, chega a notícia dura a Jairo: “Tua filha morreu; não incomodes mais o Mestre” (8,49). E o Senhor responde com a frase que precisa ficar gravada em nós: “Não temas; crê somente, e ela será salva.” (8,50) Entrando na casa, Jesus afasta o barulho do desespero — “Não choreis; ela não está morta, mas dorme” (8,52) — toma a mão da menina e diz: “Menina, levanta-te.” (8,54) E ela se levantou; e o Senhor pediu algo muito simples: “Dai-lhe de comer” (8,55). O milagre não termina no extraordinário; ele pede continuidade no cotidiano.
Irmãos, a Palavra hoje nos ensina três passos muito concretos.
Primeiro: aproximar-se.
A mulher não ficou na margem do caminho. Aproximou-se do Senhor mesmo cansada, mesmo ferida, mesmo impura aos olhos de muitos. Aproximar-se é o primeiro ato da fé: aproximar-se da Confissão, aproximar-se da Divina Liturgia, aproximar-se da Palavra cada dia. Na Igreja não nos salvamos por força de vontade, mas por contato: “tocamos” Cristo e Cristo nos comunica a Sua vida. Santo Ambrósio comenta que o Senhor toca o leito da menina para mostrar que a santidade não se contamina, mas purifica (Expos. in Luc.). Deixemos que Ele toque o que temos medo de expor.
Segundo: confiar.
A Jairo, Jesus diz: “Não temas; crê somente.” Confiar aqui não é fechar os olhos para a realidade; é abrir os olhos para uma realidade maior. Às vezes Deus cura como à mulher; às vezes espera e nos pede paciência, como pediu a Jairo no caminho. Em qualquer caso, a fé não é um botão para obter resultados; é uma adesão a Cristo, que decide os tempos e os modos. São João Crisóstomo recorda que as ressurreições feitas por Jesus são sinais raros agora, mas apontam para a Ressurreição de todos no último dia: o que hoje vemos numa casa, veremos um dia para toda a criação. Por isso o Senhor chama a morte de sono (8,52): não é poesia, é profecia.
Terceiro: prosseguir.
Depois do milagre, Jesus ordena: “Dai-lhe de comer.” Parece detalhe, mas é teologia: Deus nos levanta e, em seguida, nos confia o cuidado uns dos outros. Uma comunidade que crê é uma comunidade que alimenta: alimenta com pão e com presença, com palavra e com paciência; alimenta os que o Senhor “levanta” e ainda estão frágeis. O milagre pede disciplina de amor.
A Epístola que ouvimos hoje põe tudo isso dentro de um nome: a Cruz. Diz Paulo: “Longe de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6,14). Da Cruz nasce o que ele chama de nova criação (6,15). É este o segredo: a mulher toca a orla do manto; Jairo abre a casa; e Paulo nos mostra o ponto de onde toda graça brota — o Cristo crucificado e ressuscitado. A fé humilde que se aproxima e a confiança obediente que espera são frutos da Cruz. É por isso que, quando tudo parece tarde demais, o Senhor ainda pode dizer: “Não temas.” A última palavra não é da doença nem do luto; a última palavra é da Páscoa.
Hoje também celebramos São Nectários de Égina, mestre e pastor de mansidão. Injustiçado, caluniado, sem espaço entre os homens, ele escolheu gloriar-se apenas na Cruz (cf. Gl 6,14). Como a mulher, vivia de tocar Cristo na oração; como Jairo, abriu as portas da casa e do coração para que Jesus entrasse ali onde todos tinham dito “acabou”. Em Égina, plantou um mosteiro, acolheu órfãs, consolou enfermos; e, por intercessão dele, até hoje muitos experimentam consolações e curas. A vida do santo confirma o Evangelho: aproximar-se de Cristo, confiar em Cristo e prosseguir no amor nunca fica sem fruto — visível ou invisível, sempre salvífico.
Permitam-me, então, três aplicações muito objetivas para a semana.
- “Aproximar-se”: se há uma ferida antiga, uma culpa que sangra, procure a Confissão. Toque Cristo onde Ele decidiu ser tocado: nos Santos Mistérios. Leve para casa um versículo e repita-o ao longo do dia: “Não temas; crê somente.”
- “Confiar”: se há um luto, uma doença, um medo que parece vitória da morte, faça hoje um ato simples: convide Jesus a entrar nessa casa — uma oração breve, um Salmo rezado em voz alta, uma vela acesa diante do ícone, um telefonema pedido a alguém para rezar com você. A fé cresce em comunidade.
- “Prosseguir”: pense em alguém que Deus levantou recentemente — depois de uma crise, de uma recaída, de uma reconciliação — e dê-lhe de comer: uma visita, um prato, um conselho paterno, uma companhia à Liturgia. O milagre pede cuidado.
E que ninguém diga: “Padre, eu sou muito fraco.” Justamente aí o Senhor quer manifestar a Sua força. A mesma graça que curou a mulher e levantou a menina se aperfeiçoa na fraqueza (cf. 2Cor 12,9). A fraqueza entregue não é obstáculo, é lugar de habitação do poder de Cristo.
Concluo lembrando que na casa de Jairo, depois que a menina se levanta, o choro se cala. Não porque não haja dor — a dor existe —, mas porque a dor não manda mais. A fé não nos poupa do caminho, mas muda o resultado do caminho. Por isso, hoje, ao nos aproximarmos da Santa Comunhão, façamos como a mulher: “Senhor, deixa-me tocar-Te.” E como Jairo: “Entra, Senhor, na minha casa.” E como Paulo: “Glorio-me na Tua Cruz.”
Theotokos, Mãe da Vida, que permaneceste aos pés da Cruz e crês no impossível de Deus, ensina-nos a aproximar, confiar e prosseguir. São Nectários, pastor manso e firme, intercede por nós — pelos doentes, pelos enlutados, pelos caluniados, pelos que perderam a esperança. E a nós todos, o Senhor repita ao coração: “Não temas; crê somente.” Amém.


