«A aurora da salvação»
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Amados em Cristo,
A Igreja celebra hoje o nascimento de uma criança. Aos olhos do mundo, nada de extraordinário aconteceu. Nenhum rei deixou seu trono, nenhum império mudou suas fronteiras, nenhum acontecimento chamou a atenção dos poderosos. Numa família simples, Joaquim e Ana receberam nos braços uma menina e lhe deram o nome de Maria.
E, no entanto, a Igreja canta hoje que a alegria foi anunciada a todo o universo.
Por quê? Porque essa menina será a Theotokos, a Mãe de Deus. Dela o Filho eterno de Deus receberá nossa carne; por meio dela, Aquele que é verdadeiramente Deus Se fará também verdadeiramente homem. Por isso os Santos Padres gostam de contemplar Maria como a aurora que anuncia o Sol da Justiça, Cristo nosso Deus.
A aurora ainda não é o pleno dia. O sol ainda não apareceu no horizonte, mas sua luz já começa a vencer a escuridão. Assim é a festa de hoje. Ainda estamos longe de Belém, mas já começamos a caminhar para a gruta. Hoje nasce aquela de quem nascerá Cristo.
E há algo muito belo no fato de esta ser a primeira grande festa do novo ano litúrgico, iniciado há poucos dias. A Igreja começa novamente seu caminho colocando diante de nós um nascimento, um começo, uma esperança.
São Gregório Palamas, ao falar desta festa, nos oferece uma palavra muito importante: «O tempo é sempre oportuno para começar um modo de vida que conduza à salvação.»
Talvez essa seja uma primeira palavra que a Natividade da Theotokos nos dirige hoje: sempre podemos recomeçar.
Muitas vezes olhamos para nossa vida e percebemos coisas que gostaríamos que fossem diferentes. Vemos pecados que se repetem, fraquezas que não conseguimos vencer, uma vida de oração que talvez tenha esfriado, reconciliações que adiamos, decisões boas que fomos deixando para depois. E facilmente pensamos: amanhã começo; quando estiver mais tranquilo, começo; quando meus problemas diminuírem, então vou me dedicar mais seriamente a Deus.
A festa de hoje nos diz: o tempo é agora. Deus sabe começar grandes coisas a partir de começos muito pequenos.
Joaquim e Ana sabem muito bem o que significa esperar. A tradição da Igreja nos conta que eram justos, mas haviam envelhecido sem filhos. E naquela sociedade isso não significava apenas uma dor familiar. A esterilidade era motivo de humilhação e podia ser interpretada pelos outros como sinal da desaprovação de Deus.
Eles poderiam ter transformado sua dor em revolta. Poderiam ter abandonado a esperança. Mas fizeram outra coisa: rezaram.
Joaquim retira-se para rezar e jejuar. Ana derrama diante de Deus a dor de seu coração. Eles não fingem que não sofrem; simplesmente levam seu sofrimento para Deus.
E aqui a história deles começa a tocar diretamente a nossa.
Todos nós conhecemos alguma forma de esterilidade. Não necessariamente a esterilidade física. Existem momentos em que nossa alma parece estéril. Rezamos e parece que nada acontece. Lutamos contra uma fraqueza e parece que continuamos no mesmo lugar. Tentamos reconstruir alguma coisa e não vemos resultado. Há situações familiares, pessoais e espirituais diante das quais descobrimos simplesmente que não temos poder para produzir sozinhos a solução.
A festa de hoje não promete que Deus realizará tudo exatamente como desejamos. Mas proclama algo muito maior: nossa esterilidade não é o limite da graça de Deus.
Joaquim e Ana pediam uma criança. Deus lhes concedeu Maria. E aquela menina tornou-se parte de uma história infinitamente maior do que eles poderiam imaginar.
É assim que Deus frequentemente trabalha. Nós vemos apenas o pequeno pedaço da história que está diante de nossos olhos; Ele contempla o caminho inteiro. Nós queremos uma resposta imediata; Deus pode estar preparando uma fecundidade que ainda não conseguimos perceber.
Por isso, a esperança cristã não significa acreditar que tudo acontecerá segundo nossos planos. Significa confiar que Deus continua agindo mesmo quando não conseguimos enxergar o que Ele está fazendo.
E observemos como Ele age: no escondimento.
O mundo daquele tempo estava cheio de acontecimentos considerados importantes. Havia guerras, disputas políticas, poderosos, riquezas, grandes cidades. Mas o acontecimento que verdadeiramente começava a transformar a história estava acontecendo silenciosamente numa casa: uma menina acabava de nascer.
Isso nos ensina algo precioso sobre nossa própria vida espiritual. Às vezes procuramos Deus somente no extraordinário. Gostaríamos de grandes sinais, grandes experiências, respostas evidentes. Mas Deus costuma realizar sua obra através da fidelidade cotidiana: uma oração feita quando ninguém vê; um perdão concedido com dificuldade; um gesto de caridade que ninguém conhecerá; a paciência dentro de casa; o cumprimento fiel de uma responsabilidade; uma pequena renúncia; uma decisão silenciosa de começar novamente.
A vida da própria Theotokos será assim. Sua grandeza não estará em procurar ser grande. Estará em tornar-se inteiramente disponível a Deus, até poder dizer:
«Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.»
E aqui encontramos o sentido mais profundo da festa.
Nós não celebramos Maria separada de Cristo. Toda a grandeza da Theotokos está voltada para Ele. Ela é a aurora porque Cristo é o Sol. Celebramos seu nascimento porque dela o Filho de Deus receberá nossa humanidade.
Isso significa que Deus não quis salvar a humanidade permanecendo distante dela. O Verbo tornou-Se verdadeiramente um de nós. Recebeu de Maria nossa carne, nosso sangue, nossa natureza humana. E, assumindo nossa humanidade, abriu-nos o caminho para participarmos de sua vida divina.
Por isso, a Theotokos nos mostra também aquilo que o ser humano é chamado a ser: uma criatura inteiramente aberta à graça de Deus.
Maria não deixa de ser humana quando Deus a enche de graça. Ao contrário, nela vemos a beleza da humanidade quando esta se oferece livremente ao seu Criador.
Amados em Cristo, talvez seja essa a palavra que devemos levar conosco nesta festa: Deus sabe fazer nascer vida onde nós vemos apenas limites. Se existe alguma região estéril em nossa vida, levemo-la a Ele. Se nossa oração esfriou, recomecemos. Se caímos, levantemo-nos. Se alguma reconciliação foi adiada, demos o primeiro passo. Se pensamos que já passou o tempo de mudar alguma coisa, recordemos a palavra de São Gregório Palamas: o tempo é sempre oportuno para começar um caminho que conduza à salvação.
Hoje nasce Maria. É apenas a aurora. Mas, quando a aurora aparece, sabemos que a noite não terá a última palavra.
O Sol está chegando. Por isso a Igreja canta com tanta alegria:
«A tua Natividade, ó Theotokos, anunciou a alegria a todo o universo, pois de ti surgiu o Sol da Justiça, Cristo nosso Deus.»
Que a Santíssima Theotokos nos ensine a esperar como Joaquim e Ana, a confiar quando ainda não vemos, a reconhecer Deus nas pequenas coisas e, sobretudo, a responder à sua graça com a mesma disponibilidade com que ela respondeu:
«Faça-se em mim segundo a tua palavra.»
Amém.



