«Quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim»
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Amados em Cristo,
Antecipamos hoje, em nossa comunidade, a celebração da Exaltação Universal da Preciosa e Vivificante Cruz, cuja festa a Igreja celebra amanhã, 14 de setembro. E, ao fazê-lo, a Igreja coloca diante de nossos olhos a Cruz do Senhor. Nós a contemplamos, inclinamo-nos diante dela, beijamo-la e cantamos:
«A tua Cruz adoramos, ó Soberano, e a tua santa Ressurreição glorificamos.»
Talvez este seja um dos maiores paradoxos de nossa fé: aquilo que foi instrumento de humilhação e morte tornou-se, para nós, sinal de vitória e fonte de vida.
A Igreja não ama o sofrimento. Não celebramos a dor pela dor, nem consideramos a morte um bem. Celebramos a Cruz porque nela está Cristo. E porque, naquele madeiro, o Filho de Deus revelou até onde chega o amor de Deus pelo homem. Quando tudo parecia terminado, quando os discípulos haviam fugido, quando o corpo de Jesus estava ferido e suas mãos pregadas ao madeiro, ali mesmo estava sendo revelada uma força que o mundo não conhecia: a força de um amor que permanece amor até o fim.
O próprio Senhor havia dito: «Quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim». Cristo é elevado sobre a Cruz e, daquele lugar de aparente derrota, começa a atrair para Si a humanidade. Não pela força que obriga, não pelo medo, não pelo poder que domina, mas pela entrega de Si mesmo.
É uma lógica muito diferente daquela segundo a qual tantas vezes organizamos nossa vida. Queremos vencer, ser reconhecidos, ter razão, defender nossa posição. Temos dificuldade de ceder, de pedir perdão, de servir sem reconhecimento. E então contemplamos Cristo: Ele não vence descendo da Cruz; vence permanecendo fiel ao amor.
São Paulo descreve esse caminho dizendo que Cristo «esvaziou-Se a Si mesmo», assumiu a condição de servo e «humilhou-Se, fazendo-Se obediente até à morte, e morte de Cruz». E imediatamente acrescenta: «Por isso Deus O exaltou soberanamente.»
Aqui está o mistério que celebramos. A verdadeira exaltação passa pela humildade. A verdadeira grandeza manifesta-se no serviço. A verdadeira vitória não consiste em esmagar o outro, mas em vencer dentro de nós aquilo que nos impede de amar.
Por isso a Cruz é também um espelho colocado diante de nossa vida.
São Lucas de Simferopol dizia que não basta trazer a Cruz sobre o peito: é preciso que ela esteja gravada no coração. Podemos fazer o sinal da Cruz muitas vezes ao dia; podemos ter a Cruz em nossas casas e venerá-la em nossas igrejas. Tudo isso é santo e necessário. Mas a pergunta é: a Cruz está mudando nossa maneira de viver?
Ela começa a ser gravada em nós quando conseguimos perdoar onde antes queríamos responder com ressentimento; quando nossa autoridade se transforma em serviço; quando renunciamos a uma palavra que feriria apenas para satisfazer nosso orgulho; quando fazemos silenciosamente o bem sem exigir reconhecimento; quando somos capazes de dar o primeiro passo numa reconciliação.
É então que começamos a compreender as palavras de Cristo: «Se alguém quiser vir após Mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-Me».
Tomar nossa cruz, porém, não significa procurar sofrimento. Também não significa acreditar que toda doença, injustiça ou sofrimento tenha sido diretamente enviado por Deus e deva simplesmente ser suportado. A cruz cristã é outra coisa: é permanecer fiel a Cristo nas circunstâncias concretas de nossa vida, mesmo quando essa fidelidade custa alguma coisa.
Às vezes a cruz será ter paciência. Outras vezes será dizer a verdade. Poderá ser cuidar de alguém quando estamos cansados, permanecer ao lado de quem sofre, reconhecer um erro, pedir perdão, renunciar ao orgulho ou continuar amando quando não recebemos em troca aquilo que esperávamos.
E é justamente aqui que a Cruz deixa de ser apenas um objeto que contemplamos e começa a tornar-se um modo de viver.
Há ainda uma imagem muito bela nas leituras desta festa. Cristo recorda aquilo que aconteceu no deserto: o povo de Israel, ferido pelas serpentes, era convidado a olhar para o sinal levantado por Moisés e recebia a cura. E Jesus diz: «Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo aquele que nele crer tenha a vida eterna».
Nós também chegamos diante da Cruz carregando nossas feridas.
Há feridas produzidas pelos outros e feridas que nós mesmos produzimos. Há pecados antigos, medos, ressentimentos, culpas, fracassos e relações quebradas. Algumas dessas coisas talvez ninguém conheça além de nós e de Deus.
A Igreja não nos manda esconder essas feridas. Convida-nos a olhar para Cristo.
E, olhando para Ele, descobrimos algo extraordinário: nossas feridas não encontram um Deus distante, indiferente à condição humana. Encontram o Deus que entrou em nosso sofrimento, que conheceu a rejeição, a injustiça, a solidão e a morte — e que atravessou tudo isso sem deixar de amar.
Por isso chamamos a Cruz de Vivificante.
Não porque a morte dê vida, mas porque Aquele que é a Vida entrou na morte e a venceu. Não porque o sofrimento seja santo em si mesmo, mas porque nenhum sofrimento consegue colocar-nos fora do alcance do amor de Cristo.
É por isso também que nunca veneramos a Cruz separadamente da Ressurreição. Quando nos inclinamos diante dela, cantamos imediatamente: «e a tua santa Ressurreição glorificamos.»
Amados em Cristo,
há um gesto desta festa que resume maravilhosamente tudo isso. A Igreja eleva a Cruz e nós nos inclinamos diante dela.
A Cruz sobe; nós descemos.
Talvez aí esteja uma pequena imagem de toda a vida espiritual. Enquanto nosso orgulho deseja subir, o Evangelho ensina-nos a descer. Descer da autossuficiência, da necessidade de ter sempre razão, do desejo de dominar, da ilusão de que podemos salvar-nos sozinhos.
E quando descemos assim, encontramos Cristo, porque Ele desceu antes de nós.
Desceu até nossa humanidade. Desceu até a condição de servo. Desceu até a Cruz. Desceu até a morte.
E justamente Aquele que desceu tão profundamente foi exaltado pelo Pai e nos levantou consigo.
Por isso, diante da Cruz, talvez devamos perguntar hoje não simplesmente qual é a cruz que estou carregando?, mas algo ainda mais importante: de que maneira estou carregando aquilo que a vida colocou diante de mim?
Com ressentimento ou com confiança? Fechado sobre mim mesmo ou aberto para Deus? Fazendo de minha dor motivo para ferir os outros, ou permitindo que Cristo transforme também minhas feridas em lugar de compaixão?
Não podemos escolher tudo o que acontecerá conosco. Mas podemos pedir a graça de escolher como atravessaremos aquilo que nos acontece.
Olhemos, então, para a Preciosa e Vivificante Cruz. Não como sinal de derrota, mas como revelação do amor que venceu a morte. E peçamos que a Cruz que hoje veneramos seja realmente gravada em nosso coração, para que nossa maneira de falar, perdoar, servir, sofrer e amar comece pouco a pouco a assumir a forma do próprio Cristo.
Porque este é o caminho que conduz da morte à vida, da humilhação à verdadeira exaltação, da Cruz à Ressurreição.
«A tua Cruz adoramos, ó Soberano, e a tua santa Ressurreição glorificamos.»
Amém.



