Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.
Amados irmãos e irmãs,
No domingo passado celebramos Todos os Santos. Contemplamos homens, mulheres, crianças, mártires, ascetas, bispos, monges e simples fiéis que permitiram ao Espírito Santo transformar suas vidas. Vimos o resultado final da obra de Deus no coração humano.
Hoje, porém, a Igreja leva-nos ao começo dessa história.
O Evangelho apresenta quatro pescadores à beira do Mar da Galileia: Pedro e André, Tiago e João. Nenhum deles imaginava que seria lembrado por milhões de cristãos dois mil anos depois. Eram homens simples, trabalhadores, ocupados com suas tarefas diárias.
E justamente aí está uma das primeiras lições deste Evangelho.
Deus entra na vida comum.
Muitas vezes imaginamos que o encontro com Deus acontece apenas em momentos extraordinários. Pensamos em milagres, visões ou acontecimentos impressionantes. Mas o Evangelho mostra outra coisa. Cristo encontra os discípulos no meio do trabalho, no meio da rotina, no meio das preocupações de cada dia.
Isso significa que também nós podemos encontrar Cristo exatamente onde estamos. No trabalho, em casa, nos estudos, na família, nas alegrias e até nas dificuldades da vida. Deus não espera que primeiro nos tornemos perfeitos para então nos chamar. Ele nos chama como somos para transformar-nos pela sua graça.
Observemos ainda quem Jesus escolhe.
Não escolhe sacerdotes do Templo.
Não escolhe escribas.
Não escolhe governantes.Escolhe pescadores.
Santo Efrém, o Sírio, admirava-se diante desse fato. Deus escolheu homens simples para que ninguém pudesse atribuir o crescimento da Igreja à inteligência humana, à riqueza ou ao poder. A Igreja nasceu da ação da graça de Deus em pessoas comuns.
Isso deve encher-nos de esperança.
Porque muitas vezes pensamos: “Eu não sou suficientemente preparado. Não sou suficientemente santo. Não tenho os dons necessários.”
Mas Deus nunca chamou pessoas perfeitas.
Chamou Pedro, que O negaria.
Chamou Tiago e João, que disputariam os primeiros lugares.
Chamou homens cheios de limitações.E transformou-os em Apóstolos.
O Evangelho chama nossa atenção para uma palavra muito importante: imediatamente.
«Eles imediatamente deixaram as redes e O seguiram.»
Por que São Mateus faz questão de registrar esse detalhe?
Porque a vida espiritual depende muito da prontidão do coração.
Quantas vezes sabemos o que devemos fazer, mas adiamos?
Sabemos que devemos rezar mais.
Sabemos que devemos perdoar.
Sabemos que devemos reconciliar-nos com alguém.
Sabemos que devemos abandonar determinado pecado ou corrigir determinado hábito.Mas deixamos para amanhã.
Os Apóstolos ensinam-nos a responder sem demora quando reconhecemos a vontade de Deus.
Isso não significa agir impulsivamente em tudo. Significa ter um coração disponível, um coração que confia mais em Deus do que em seus próprios cálculos.
E o que eles deixam para trás?
As redes.
À primeira vista parece pouca coisa. Mas aquelas redes eram sua vida. Eram seu trabalho, seu sustento, sua segurança.
São Gregório Magno observa algo muito belo. Alguém poderia dizer que aqueles pescadores abandonaram pouco. Mas, para eles, aquilo era tudo.
O valor da renúncia não está na quantidade do que deixamos, mas no amor com que entregamos tudo a Deus.
Também nós possuímos nossas redes.
Talvez não sejam redes de pesca.
Talvez sejam medos.
Talvez sejam ressentimentos.
Talvez sejam preocupações excessivas.
Talvez sejam apegos que impedem nosso crescimento espiritual.Cristo continua dizendo a cada um de nós: deixa essas redes e segue-Me.
Mas o Evangelho não termina com uma renúncia.
Termina com uma missão.
«Eu vos farei pescadores de homens.»
Os discípulos não abandonam uma tarefa para viver na ociosidade. Recebem uma missão ainda maior.
A Igreja existe para continuar essa missão apostólica.
Cada cristão é chamado a tornar-se pescador de homens.
Os pais evangelizam os filhos.
Os avós evangelizam os netos.
Os amigos evangelizam os amigos.
Os sacerdotes evangelizam o povo de Deus.E muitas vezes o instrumento mais poderoso da evangelização não é um discurso, mas uma vida transformada pela presença de Cristo.
Quando alguém encontra um cristão verdadeiramente paciente, misericordioso, humilde e cheio de paz, percebe que existe algo diferente naquela pessoa. E esse testemunho torna-se uma rede lançada ao mar do mundo.
Meus irmãos,
Depois de contemplarmos os santos no domingo passado, a Igreja mostra-nos hoje como tudo começou.
A santidade começou quando algumas pessoas ouviram a voz de Cristo e decidiram segui-Lo.
Começou com um passo.
Começou com uma resposta.
Começou com um “sim”.
Que possamos também nós ouvir a voz do Senhor que continua a chamar-nos hoje.
E que, pela intercessão dos santos Apóstolos Pedro, André, Tiago e João, tenhamos a coragem de deixar nossas redes, confiar em Cristo e segui-Lo com alegria.
Amém.
2026-06-14


