Homilia XVI, 3
Depois de dizer: «Não penseis que vim revogar a Lei ou os profetas», e de reforçar a sua afirmação acrescentando: «Não vim revogar, mas completar», não contente com isso, Jesus insiste ainda mais com estas palavras: «Em verdade vos digo: antes que passem o céu e a Terra, não passará da Lei a mais pequena letra ou o mais pequeno sinal, sem que tudo se cumpra».
É como se tivesse dito: é impossível que a lei não seja cumprida; pelo contrário, ela será necessariamente observada até à mais pequena letra. Foi isso que Jesus Cristo fez, cumprindo-a na perfeição. E não é sem razão que faz alusão à transformação do mundo; é para elevar o espírito dos seus ouvintes e fazê-los compreender que era com justiça que queria conduzi-los a um caminho mais perfeito, uma vez que toda a criação estava destinada a sofrer uma transformação, e o género humano chamado a outra pátria e a uma vida mais sublime. […]
Ouvi o resto: «Eu vos digo: se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus». […] Não era ter uma justiça abundante fazer o que os fariseus faziam. A abundância de justiça consistia em não ceder à cólera nem lançar olhares impuros a uma mulher. Mas por que razão chama Ele pequenos a esses preceitos tão grandes e elevados? Porque era o seu autor. E, como Se humilhava em tudo e nunca falava de Si mesmo senão com grande modéstia, tem a mesma atitude ao falar dos seus preceitos, para nos ensinar a ser humildes em todas as coisas. Além disso, como poderia ser suspeito de estabelecer novas leis, procura afastar essa suspeita com a humildade das suas palavras.


