Catequese batismal n.º 2, 1-2
O mal deliberado é fruto da premeditação; ora, nós pecamos indubitavelmente com premeditação, como afirma claramente o profeta: «Eu te plantei como vinha escolhida, planta de boa qualidade; como degeneraste em sarmento bastardo, ó videira estranha?» (Jr 2,21). Boa planta, mau fruto: o mal vem da premeditação. O culpado não é aquele que planta, mas a videira será consumida pelo fogo, uma vez que, tendo sido plantada para dar bons frutos, deu voluntariamente frutos maus. «Deus criou os homens retos, eles, porém, procuraram maquinações sem fim», observa o Eclesiastes (7,29). «Na verdade, nós somos obra de Deus, criados em Jesus Cristo, em vista das boas obras», diz o apóstolo (Ef 2,10). Portanto, o Criador, que é bom, criou para boas obras, mas a criatura, seguindo uma escolha própria, voltou-se para o mal.
O pecado é, pois, um mal terrível, como dissemos; mas não é incurável: terrível para quem se apega a ele, é fácil de curar para quem, por meio da penitência, se separa dele. […] Mas então, o que é o pecado? É um animal? É um demónio? Qual é a sua origem? Não se trata, ó homem, de um inimigo que te ataca de fora, mas de uma produção má que cresce a partir de ti. Se olhares com olhos francos, não terás concupiscência; se guardares o que te pertence e não tomares o que é dos outros, a avareza cairá por terra; se pensares no juízo, nem a fornicação, nem o adultério, nem o homicídio, nem qualquer tipo de desobediência prevalecerão em ti. Quando, porém, te esqueces de Deus, começas a pensar no mal e a cometer a iniquidade.
O que é o pecado? Um olhar ortodoxo com São Cirilo de Jerusalém: Considerações a partir da reflexão de São Cirilo de Jerusalém
Quando vocês perguntam “o que é pecado?”, muitas vezes imaginam algo que nos ataca de fora, como se fosse um inimigo externo que nos obrigasse. São Cirilo de Jerusalém, na sua catequese aos que se preparavam para o Batismo, responde com muita clareza: o mal deliberado nasce no interior do coração humano. Não porque Deus tenha criado o homem mau — mas porque o homem, sendo criado para o bem, pode escolher afastar-se dele.
Deus não é autor do mal: fomos criados para o bem
São Cirilo recorda a imagem bíblica da videira: Deus planta uma vinha boa; se a videira dá frutos amargos, a culpa não é do agricultor, mas da própria videira que “degenerou”. É uma maneira forte de afirmar aquilo que a Igreja sempre guardou: Deus é bom e cria para o bem.
Por isso, quando caímos, não devemos culpar o Criador, nem dizer “sou assim mesmo”, como se fosse destino. Pecar é, antes, uma escolha real, feita com maior ou menor consciência, mas sempre ligada ao uso da liberdade.
Pecado não é “uma coisa” — é um desvio do coração
São Cirilo faz perguntas que parecem simples, mas são profundas: “O pecado é um animal? É um demônio?” E responde: não. O pecado não é um “ser” com vida própria; é uma produção má que cresce a partir de nós quando deixamos o coração desgovernado.
Isso não significa negar as tentações e os combates espirituais. Significa pôr o foco onde ele deve estar: na vigilância interior. A batalha principal não começa “lá fora”, mas no que permitimos que entre e permaneça em nós.
Como o pecado ganha força
O santo descreve um caminho bem concreto:
- olhar sem sinceridade → nasce a concupiscência
- tomar o que é do outro → cresce a avareza
- esquecer o Juízo e a presença de Deus → fortalecem-se as paixões e a desobediência
- esquecer Deus → começamos a imaginar o mal e, depois, a praticá-lo
Perceba: não é um “salto”. Quase sempre o pecado cresce em etapas: uma negligência, depois um pensamento, depois um hábito. Por isso a tradição ortodoxa insiste tanto na nêpsis (sobriedade, vigilância) e na guarda do coração.
Terrível, mas não incurável
Aqui está uma das frases mais pastorais de São Cirilo: o pecado é terrível, mas não é incurável. Ele é terrível para quem se agarra a ele e o justifica; mas torna-se “fácil de curar” para quem, pela penitência, se separa dele.
Na linguagem da Igreja, penitência não é só “sentir culpa”. É mudar a direção (metánoia): reconhecer, voltar atrás, pedir misericórdia, recomeçar. É por isso que a Confissão e a vida sacramental não são um “tribunal”, mas um hospital: Cristo cura, levanta e fortalece.
Um pequeno caminho prático para os jovens
São Cirilo dá pistas muito simples — e muito eficazes:
- olhos francos: escolher o que vale a pena ver; cortar o que alimenta fantasias e comparações
- justiça no que é do outro: honestidade concreta (coisas, palavras, reputações, intenções)
- memória de Deus: oração breve durante o dia (por exemplo: “Senhor Jesus Cristo, tem misericórdia de mim”)
- lembrança do Juízo: não como medo doentio, mas como lucidez: “para onde este caminho me leva?”
- penitência sem desespero: cair não é o fim; o fim é desistir de levantar
Portanto, para a Igreja Ortodoxa, pecado não é apenas “quebrar regras”. É errar o alvo do nosso verdadeiro destino: a comunhão com Deus. E, segundo São Cirilo, ele nasce quando o coração se afasta do bem para o qual foi criado.
Mas a boa notícia é esta: o pecado não é mais forte do que a graça. Quando nos lembramos de Deus, vigiamos o coração e praticamos a penitência, aquilo que parecia impossível começa a ser curado — passo a passo, com humildade, na vida da Igreja.


