Esta antologia reúne dez poemas ou excertos das Odes de Salomão, coleção de hinos cristãos antigos transmitida sob esse título, sem identificação segura de um autor individual. O título da coleção não é aqui tomado como atribuição histórica ao rei bíblico Salomão.
A luz do Verbo, o amor do Senhor, a água viva, o louvor e a vitória sobre a morte orientam os quatro temas. Versões equivalentes foram reunidas; seleções que continham duas odes foram separadas por poema. A Ode 28, sem autoria no documento Sophia, foi identificada e integrada integralmente.
Sumário
- O Verbo e a luz que dão a conhecer o Senhor
- O amor e a fonte da vida
- O louvor de quem foi libertado
- A confiança e a vitória sobre a morte
- Fontes e critérios
O Verbo e a luz que dão a conhecer o Senhor
Ode 7 — Fez-Se semelhante a mim para que eu O recebesse
Odes de Salomão, Ode 7; versão portuguesa do acervo Sophia.
A minha alegria é o Senhor,
E o meu impulso é para Ele.
Belo é o meu caminho para o Senhor,
Porque Ele é o meu apoio.
Ele Se me deu a conhecer a Si próprio na Sua simplicidade,
Na Sua generosidade para comigo despiu-Se da Sua grandeza.
Fez-Se semelhante a mim para que eu O recebesse;
Fez-Se semelhante a mim para que eu me revestisse d’Ele.
Não tive medo ao vê-l’O,
Porque Ele é a minha misericórdia.
Ele tomou a minha natureza para que eu o compreenda,
E a minha aparência para que não me afaste d’Ele.
Aquele que dá o conhecimento é o Verbo, a Palavra de conhecimento.
Ele, que criou a sabedoria, é mais sábio que tudo o que criou.
Ele que me criou sabia, antes que eu fosse,
O que eu faria quando existisse.
Devido a isso, teve compaixão na Sua misericórdia
E concedeu-me que reze
E que beneficie do Seu sacrifício.
Sim, Deus é eterno,
É a plenitude dos mundos e é seu Pai.
Ele manifestou-Se aos Seus,
Para que eles reconhecessem quem os criou,
E não julgassem que tinham a sua origem em si mesmos.
Ele abriu caminho ao conhecimento,
Ampliou-o, prolongou-o e conduziu-o à perfeição.
Pôs nele as marcas da Sua luz,
E os Seus vestígios, do início até ao final,
Porque o conhecimento é obra Sua.
Ele depositou todo o Seu amor no Filho.
Devido à Sua salvação, exercerá a Sua omnipotência,
E o Altíssimo será conhecido pelos Seus santos,
Que anunciarão a vinda do Senhor aos que cantam,
Para que estes vão ao Seu encontro
E Lhe cantem na alegria.
Nota editorial: O poema foi identificado como Ode 7. Uma versão equivalente estava atribuída a Pedro Crisólogo; a identificação foi corrigida nesta antologia, sem alterar o post anterior.
Ode 12 — A Palavra flui como um rio
Odes de Salomão, Ode 12; versão portuguesa do acervo Sophia.
De palavras de verdade me cumulou o Senhor,
para que pudesse anunciá-la.
Da minha boca a verdade
flui como um rio.
Os meus lábios mostram os seus frutos:
o Senhor fez-me transbordar de conhecimento.
Porque a boca do Senhor
pronuncia o Verbo verdadeiro,
ela é a porta da sua luz.
O Altíssimo enviou ao mundo a sua Palavra
e os que cantam a sua beleza,
os arautos da sua majestade
e os mensageiros dos seus desígnios,
os evangelistas da sua mente
e os apóstolos das suas obras.
A subtileza do Verbo
impede qualquer descrição. […]
O seu curso não tem fim,
mantém-Se sempre de pé e nunca cai por terra;
ninguém Lhe conhece a descida nem o caminho. […]
Ele é a luz e a aurora do pensamento,
e n’Ele começa o mundo a exprimir-se.
Todos os que se calavam encontraram n’Ele a Palavra
porque d’Ele provêm o amor e a razão de ser.
Inspirados pelo Verbo,
todos os seres criados podem dizer quem são.
Todos reconheceram o Criador
e n’Ele encontraram a sua harmonia,
porque lhes falou a boca do Altíssimo.
Assim, o Verbo permanece no homem,
a sua verdade é o amor.
Feliz daquele a quem Ele permite
perscrutar todos os mistérios
e conhecer o Senhor na sua verdade.
Aleluia!
Ode 15 — A minha alegria é o Senhor, o meu sol
Odes de Salomão, Ode 15; versão portuguesa do acervo Sophia.
Tal como o sol é a alegria Dos que procuram a luz,
Assim a minha alegria é o Senhor,
Pois Ele é o meu sol.
Os seus raios reergueram-me,
A sua luz dissipou as trevas da minha fronte.
Graças a Ele, foram-me dados olhos,
E pude ver a sua luz santa;
Foram-me dados ouvidos
E pude ouvir a sua verdade;
Foi-me dado o pensamento da ciência
E por seu intermédio me alegrei.
Abandonei o caminho do erro,
Aproximei-me dele,
E dele generosamente recebi a salvação.
Ele muito me deu, por sua benevolência,
E a sua beleza modelou-me.
Em seu nome, cobri-me de incorruptibilidade,
Abandonei a corrupção por sua divina graça.
A mortalidade desapareceu do meu rosto,
A morada dos mortos foi aniquilada pelas minhas palavras,
Ergueu-se uma vida imortal na terra do Senhor.
Ela foi revelada aos crentes
E sem reservas concedida
A todos os que a Ele se entregam.
Aleluia!
O amor e a fonte da vida
Ode 3 — Abraço-me ao Amado
Odes de Salomão, Ode 3; versão portuguesa do acervo Sophia.
[Pelo batismo] revesti-me do amor do Senhor (Gal 3,27) […],
e Ele abraça-me.
Não saberia amar o Senhor,
se Ele não me tivesse amado primeiro.
Quem pode compreender o amor,
a não ser aquele que é amado?
Abraço-me ao Amado e minha alma ama-O.
Onde fica o seu repouso,
aí estou eu (cf Ct 1,7).
Não serei um estranho;
o Altíssimo é misericordioso.
Estou unido a Ele,
porque o Esposo encontrou aquele que ama.
Porque amo o Filho,
torno-me filho.
Sim, quem adere Àquele que não morre
torna-se imortal.
Aquele que se maravilha com a Vida
está também vivo.
Tal é o verdadeiro espírito do Senhor,
que ensina aos homens os seus caminhos.
Sede sábios, compreendei e estai vigilantes. Aleluia!
Nota editorial: As três versões equivalentes foram reunidas. Corrigiu-se a numeração recebida «2» para Ode 3 pelo cotejo da coleção; o início entre colchetes é um esclarecimento da tradução recebida.
Ode 30 — Bebei da água viva do Senhor
Odes de Salomão, Ode 30; versão portuguesa do acervo Sophia.
Bebei da água viva do Senhor,
pois ela brotou para vós (cf Is 12,3).
Vinde, vós todos que tendes sede (Is 55,1),
recebei a água que sacia.
Repousai junto da fonte do Senhor,
pois é bela e pura;
ela acalma a alma.
As suas águas são mais doces do que o mel,
o favo das abelhas não lhe é comparável,
pois ela brota dos lábios do Senhor,
do coração do Senhor tira o seu nome (cf Jo 7,38).
Corre eterna e invisível:
antes de aparecer, ninguém a vira.
Felizes daqueles que dela beberam e nela saciaram a sua sede.
Nota editorial: Corrigiu-se «sulco das abelhas» para «favo das abelhas», segundo o sentido da comparação e o cotejo da passagem.
O louvor de quem foi libertado
Ode 21 — Ergui os braços e vesti-me de luz
Odes de Salomão, Ode 21; traduções do acervo, incluindo Hamman, DDB, 1981, p. 43, indicada na versão conjunta.
Ergui os braços aos céus
para a graça do Senhor.
Ele libertou-me das correntes,
atirando-as para longe de mim;
o meu protetor elevou-me
pela sua graça e a sua salvação.
Despi-me das trevas
e vesti-me de luz.
Vi que o meu corpo não sentia
dificuldades, dor ou angústia.
O pensamento do Senhor socorreu-me muito,
assim como a sua comunhão incorruptível.
A sua luz exaltou-me,
caminhei na sua presença,
e aproximar-me-ei dele,
louvando-O e glorificando-O.
O meu coração transbordou,
invadiu-me a boca e jorrou-me nos lábios.
A exultação do Senhor e o seu louvor
alegram o meu rosto.
Aleluia!
Nota editorial: Os posts que reuniam as Odes 21 e 25 foram separados por poema. A Ode 21 é apresentada uma única vez.
Ode 25 — Escapei das minhas correntes e fugi para Ti
Odes de Salomão, Ode 25; versão do acervo a partir da tradução de Hamman, DDB, 1981, p. 48.
Escapei das minhas correntes e fugi para Ti, oh meu Deus!
Tu foste o meu caminho, a minha salvação e o meu auxílio.
Detiveste aqueles que se erguiam contra mim e eles desapareceram.
O Teu rosto estava comigo e a Tua graça salvou-me.
Fui desprezado e rejeitado aos olhos da multidão.
Mas Tu deste-me força e ajuda.
Colocaste a luz à minha direita e à minha esquerda.
Que tudo em mim seja apenas luz!
Vesti as vestes do Teu Espírito,
e Tu removeste de mim as vestes de pele (Gn 3, 21).
A Tua direita elevou-me e afastou a doença para longe de mim.
A Tua verdade tornou-me robusto e a Tua justiça santificou-me.
Fui justificado pelo Teu amor tão doce,
e repousarei em Ti pelos séculos dos séculos.
Aleluia!
Nota editorial: A segunda parte das seleções conjuntas corresponde à Ode 25.
A confiança e a vitória sobre a morte
Ode 5 — No Senhor coloco a minha esperança
Odes de Salomão, Ode 5; versão portuguesa do acervo Sophia.
Dou-Te graças, Senhor,
Porque Te amo.
Não me abandones, Altíssimo,
Porque em Ti espero.
De graça recebi a Tua Graça
E é ela que me dá vida.
Quando os meus perseguidores chegarem,
Nem sequer poderão descortinar-me,
Porque uma nuvem de obscuridade descerá ante os seus olhos
E embaçá-los-á um ar de trevas.
Não poderão distinguir-me sem luz,
Nem de me agarrar serão capazes. […]
Os planos que eles engendraram
Ficarão reduzidos a nada.
Conceberam projetos maldosos,
Mas é só vê-los defraudados.
No Senhor coloco a minha esperança
E não temo nem por um segundo.
No Senhor está a minha salvação,
Não temo nem um bocadinho.
Ele é uma coroa na minha cabeça,
Com Ele não vacilarei.
Mesmo que o Universo inteiro vacilasse
Manter-me-ia de pé.
Se morrer tudo o que a vista alcança,
Sei que não hei de morrer,
Porque o Senhor está comigo
E eu com Ele.
Aleluia!
Ode 28 — As asas do Espírito sobre o meu coração
Odes de Salomão, Ode 28; versão portuguesa do acervo Sophia.
Como asas de pombas que protegem as crias, […]
assim são as asas do Espírito sobre o meu coração.
O meu coração rejubila e estremece
qual criança no seio de sua mãe.
Acreditei e achei descanso,
pois Aquele em quem acreditei é fiel.
Ele abençoou-me
e a minha cabeça para Ele se voltou.
Gládio algum ou espada
dele me separará.
Preparei-me antes da hora da perda,
em seus braços incorruptíveis me acalentei.
A vida imortal a tal me levou, me constrangiu;
e dela vem o Espírito que me habita,
Espírito que não pode morrer, porque é a Vida.
[Fala Jesus Cristo:]
Os que Me viram em espanto ficaram
porque Eu fui perseguido.
Pensavam-Me aniquilado,
porque a seus olhos estava perdido,
mas a opressão tornou-se a minha salvação.
Tornei-Me objeto de desprezo,
em Mim nada havia que invejar;
a todos fiz o bem,
e fui odiado por isso.
Como cães enraivecidos Me cercaram (cf Sl 21,17),
insensatos que contra seus amos se revoltam;
têm corrompida a inteligência e pervertido o espírito.
Retive as águas do meu lado direito,
em mansidão lhes suportei o rancor;
não pereci, pois não era dessa casta,
o meu nascimento não foi como o deles.
Procuraram a minha morte e não o conseguiram;
Eu era mais antigo que a memória deles.
Sobre Mim em vão se arremessaram
os que Me perseguiam;
em vão procuraram extinguir
a memória daquele que era antes deles.
Nada pode ultrapassar o desígnio do Altíssimo,
o seu coração é superior a toda a sabedoria.
Aleluia!
Nota editorial: O texto estava sem indicação de autoria no documento. O cotejo identifica a Ode 28. Conservou-se integralmente a versão recebida e a indicação de voz entre colchetes; as linhas foram mantidas como versos, sem reconstrução métrica.
Ode 42 — A morte deixou-Me partir e a muitos comigo
Odes de Salomão, Ode 42; versão portuguesa do acervo Sophia.
[Fala Cristo:]
Os que não Me reconheceram não beneficiaram;
Eu estava oculto aos que não Me possuíam.
Estou perto dos que Me amam.
Todos os meus perseguidores morreram;
os que Me sabiam vivo procuraram-Me.
Ressuscitei, estou com eles,
Falo pela sua boca.
Eles repeliram os que os perseguem;
sobre eles lancei o jugo do meu amor.
Como o braço do noivo sobre a sua noiva (cf Cant 2,6),
assim é o meu jugo sobre os que Me conhecem.
Tal como a tenda dos esponsais se ergue em casa do noivo,
o meu amor protege os que creem em Mim.
Não fui amaldiçoado,
mesmo que assim tenha parecido.
Não pereci,
embora assim o tivessem imaginado.
A mansão dos mortos viu-Me
e foi vencida.
A morte deixou-Me partir
e a muitos comigo.
Fui para ela fel e vinagre,
desci com ela à sua mansão,
até ao mais fundo.
A morte deixou-Me,
não conseguiu suportar o meu rosto.
Tive entre os seus mortos
uma assembleia de vivos (cf 1Ped 3,19; 4,6).
Falei-lhes com lábios vivos,
de forma que a minha palavra nunca foi vã.
Os que estavam mortos correram para Mim;
e, gritando, disseram: «Tem piedade de nós,
Filho de Deus, age connosco segundo a tua graça.
Faz-nos sair das cadeias das trevas,
abre-nos a porta, para sairmos para Ti.
Vemos que a nossa morte
não se aproximou de Ti.
Sejamos nós também libertos contigo,
pois Tu és o nosso Salvador.»
Eu escutei a sua voz
e recolhi a sua fé no meu coração.
Nas suas frontes escrevi o meu nome (cf Ap 14,1);
eles são livres e pertencem-Me.
Nota editorial: A indicação «Fala Cristo» pertence à apresentação da tradução recebida. Conservaram-se a redação e as quebras de linha disponíveis na fonte.
Fontes e critérios
As traduções portuguesas procedem do acervo Sophia, com fonte declarada Evangelho Cotidiano, e do item 30 de Sophia.docx. As versões conjuntas das Odes 21 e 25 indicavam Hamman, DDB, 1981, pp. 43 e 48. Preservaram-se as quebras de verso disponíveis, as omissões assinaladas e as indicações de voz entre colchetes; não se trata de uma nova tradução.
A numeração da ode sobre o Amado foi ajustada de 2 para 3. O poema sobre a alegria e a condescendência do Senhor foi identificado como Ode 7, reunindo também a variante que o acervo atribuía a Pedro Crisólogo. O item sem autoria foi identificado como Ode 28. Não se repetiu a descrição bibliográfica «texto cristão hebraico do início do século II» como conclusão estabelecida sobre língua e data da coleção.
Cotejo das identificações e da numeração: Odes de Salomão, tradução histórica da coleção, em Early Christian Writings. O cotejo foi usado para identificação e referência; as traduções portuguesas foram mantidas.
O mapa de origem, as variantes e as decisões editoriais permanecem no registro interno. Preparação em 20 de outubro de 2026.


