«Os ricos podem salvar-se?»

Homilia «Os ricos podem salvar-se?», 8-9; PG 9, 603

Ignorar a Deus é morrer; pois a vida reside apenas em conhecê-l’O, viver n’Ele, amá-l’O e procurar assemelhar-se a Ele. Se quereis a vida eterna, […] procurai antes de mais conhecê-l’O, ainda que «ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelá-l’O» (Mt 11,27).

Em Deus, conhecei a grandeza do Redentor e a sua graça inestimável; pois, diz o apóstolo João, «a lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo» (Jo 1,17). […] Se a Lei de Moisés pudesse dar-nos a vida eterna, porque teria o nosso Salvador vindo ao mundo e sofrido por nós, desde o nascimento até à morte, percorrendo toda uma vida humana? Porque se teria este jovem, que tão bem cumpria desde a juventude os mandamentos da Lei, lançado aos pés de Jesus para Lhe pedir a imortalidade?

Este jovem observava a Lei na sua totalidade, e a ela se ligara desde a juventude. […] Mas percebe bem que, se nada falta à sua virtude, lhe falta contudo a vida. É por isso que vem pedi-la Àquele que pode dar-lha; está seguro de estar em regra com a Lei, mas nem por isso deixa de implorar ao Filho de Deus, passando de uma fé a outra fé. As amarras da Lei não o defendem adequadamente das oscilações do navio, pelo que ele deseja abandonar esta navegação perigosa e lançar âncora no porto do Salvador.

Jesus não lhe censura a falta de cumprimento da Lei, mas olha-o com afeto, enternecido (cf Mc 10,21), emocionado com a sua aplicação de bom aluno. Contudo, declara-o ainda imperfeito […]: é bom trabalhador da Lei, mas preguiçoso em relação à vida eterna.

Já faz muito bem, sem dúvida, pois a Lei santa é como um pedagogo (cf Rom 7,12; Gal 3,24), que ensina pelo temor e encaminha aqueles que a cumprem para os mandamentos perfeitos e sublimes de Jesus e para a sua graça. Jesus é «o cumprimento da Lei, para justificar todo aquele que crê n’Ele» (Rom 10,4). Ele não é um escravo que produz escravos, mas confere a qualidade de filhos, de irmãos, de co-herdeiros a todos os que fazem a vontade do Pai (cf Rom 8,17; Mt 12,50).

Estas palavras, «se queres», mostram admiravelmente a liberdade do jovem. Ele terá de escolher, pois é dono das suas decisões. Mas é Deus que dá, pois Ele é o Senhor. Ele dá a todos os que desejam, se aplicam fervorosamente e rezam para que a salvação seja a sua escolha pessoal. Inimigo da violência, Deus não obriga ninguém, mas dá a graça aos que a procuram, abre aos que batem à porta (cf Mt 7,7).

São Clemente de Alexandria (150 – c. 215) Teólogo
Fonte: Evangelho Cotidiano

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