«Prontos para ouvir e lentos para falar» (Tg 1, 19)

Sede em tudo «prontos para ouvir e lentos para falar »(Tg 1, 19), não aconteça que se vos aplique a observação de Salomão: «Viste um homem precipitado no falar? Há mais a esperar dum insensato do que dele» (Sab 29,20).

Não tenhais a pretensão de ensinar a outra pessoa seja o que for que vós não tenhais primeiro praticado. É essa a ordem que Nosso Senhor nos ensina a seguir com o seu exemplo: «Começou a fazer e a ensinar» (At 1,1). Tendo cautela, se vos precipitardes a ensinar sem terdes praticado, não aconteça que sejais contados no número daqueles sobre quem o Senhor declara aos seus discípulos no evangelho: «Atam fardos pesados e insuportáveis e colocam-nos aos ombros dos outros, mas eles não põem nem um dedo para os deslocar» (Mt 23,4); e «se alguém violar um destes preceitos mais pequenos, e ensinar assim aos homens, será o menor no Reino do Céu» (Mt 5,19) – quanto mais aquele que ousar ensinar preceitos numerosos e mais graves, que ele próprio não respeita! Esse não será o menor no Reino do Céu, mas conquistará o primeiro lugar no suplício da geena.

Guardai-vos de dar lições aos outros como fazem alguns, que têm capacidade de discorrer e uma palavra fácil que parece correr da fonte; e, porque sabem dissertar com elegância e abundância sobre qualquer assunto, passam por possuidores da ciência espiritual aos olhos daqueles que não aprenderam a discernir a verdadeira natureza dessa ciência. Ora, uma coisa é ter alguma facilidade de palavra e brilho no discurso, outra coisa é penetrar até ao coração e à medula nas palavras celestiais, contemplando com um olhar puríssimo do coração os mistérios profundos e ocultos. Isto é coisa que nem a ciência humana nem a cultura do século conseguirão alcançar, mas apenas a pureza da alma, pela iluminação do Espírito Santo.


São João Cassiano (c. 360-435)
«Sobre a ciência espiritual»
Fonte: Evangelho Cotidiano

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